The Last Rebel
32 Ready to fly
Notas iniciais
Tom abriu a porta de sua casa e Mary Ann entrou antes dele. Sentou-se no sofá e ficou a fitar o nada.
- Quer comer alguma coisa? – Tom perguntou à jovem.
Ela meneou a cabeça negativamente. Estava exausta.
- Quero dormir... – Ela falou.
- Mary Ann... Você tá se sentindo mal?
- Não, Tom... Eu só quero ficar sozinha... Quero deitar, dormir e esquecer que eu tô vivendo esse pesadelo!
Tom entendeu o lado da jovem. Mas tinha medo de que fosse o prenúncio de uma nova crise.
- Tudo bem... Vá se deitar... Só que vou ficar com você.
A jovem o fitou, aparentemente nervosa.
- Não, eu vou deitar no outro quarto...
- Como assim? – Tom elevou um pouco a voz, espantado com o que ouvira.
- Não quero que você me veja daquele jeito de novo. E assim que for possível, eu vou voltar a Birmingham. E nossa história acaba aqui.
Tom perdeu o chão. Não esperava que a jovem dissesse aquilo a ele. Fitou o nada e abriu um sorriso de inconformismo.
- Com assim “nossa história acaba aqui”? Mary Ann, como assim? Não, você não pode ir. Eu gosto muito de você!
- Tom... Não... Não quero ser um problema, ser um fardo para você! Se eu tiver esse negócio, eu prefiro morrer a que você me veja estrebuchando de novo!
- Mary Ann...
- Ah, Tom... Não quero... Desculpe...
- Deixa eu falar! – Ele a interrompeu.
A jovem esperou que ele se manifestasse.
- Garota... Eu fiz uma escolha. Eu escolhi ficar ao seu lado. E aconteça o que acontecer, eu quero estar com você. Sempre! Entendeu isso? – Ele falou, acariciando a bochecha de Mary Ann.
Uma lágrima brotou do olho da cantora, e escorreu lentamente pela sua bochecha, alcançando o polegar de Tom, que a enxugou com rapidez.
- Não chora. Você não é pior que outra pessoa porque está tendo convulsões.
- Mas... E se eu tiver uma convulsão no palco? E se todo aquele público me vir estrebuchando no chão? Não, eu não vou aguentar isso!
- Isso não vai acontecer! O neurologista vai dar um jeito nisso...
- Não, Tom... Pode acontecer! Eu não quero que isso aconteça! Eu vou voltar pra Birmingham e nunca mais vou sair de casa!
Tom se levantou, irritado.
- Não! Tudo bem se você quiser abandonar sua carreira, mas voltar a Birmingham e me deixar, não vai! Não quero isso!
- Tom...
O vocalista se ajoelhou à frente da jovem e pegou seu rosto com duas mãos:
- Por favor, Mary Ann! Isso não!
E a agarrou, beijando seus lábios. Mary Ann correspondeu no início, porém logo se desvencilhou de Tom.
- Não... Chega... Vou para meu quarto...
E levantou-se, correndo para o primeiro quarto que ocupara na casa.
Tom ficou parado, ajoelhado sobre o tapete. Bufou, fechando os olhos, e depois entortou sua boca, nervoso.
Mary Ann se fechou no quarto.
* * *
Alguns dias se passaram e Mary Ann mal saía do quarto. A turnê continuaria em menos de uma semana e meia, e nada havia sido resolvido.
Tom estava em seu escritório quando seu celular tocou. Era uma ligação de Birmingham.
- Alô?
- Tom, pelo amor de Deus! Aqui é Melissa!
A voz da gerente do Birmingham’s Groove era de uma pessoa agoniada.
- O que houve?
- Chester! Chester não está bem!
- Mas o que aconteceu?
- Ele... Ele... Ele teve um AVC!
Tom colocou uma de suas mãos em sua cabeça, como quem não sabe o que fazer.
- E como ele está?
- Na UTI! Em estado grave!
- Ah, não! Eu vou pegar Mary Ann e vamos para aí o mais rápido que pudermos!
E desligou o celular. O tempo todo eles evitaram contar a Chester a verdade sobre o problema de saúde de Mary Ann. Mas não poderia fazer o mesmo. Teria que contar à jovem o que havia acontecido com seu protetor. Ela precisava vê-lo, pois perante a aparente situação, ele poderia ter sua vida interrompida a qualquer momento.
Foi até o quarto da jovem e bateu à porta. Um pouco depois ela abriu.
- O que é? – Ela disse, bocejando.
- Mary Ann... Eu... Eu sinto muito...
- O que foi?
- Acabei de receber uma ligação...
Tom se interrompeu. Tinha receio da reação da jovem. Ela o fitou e notou a tristeza em seu olhar. Pensou um pouco. E depois, com a voz já embargada, exclamou:
- Aconteceu alguma coisa com Chester!
Tom desviou o olhar. Mary Ann o segurou pelos ombros:
- Tom, fala a verdade! O que aconteceu com Chester?
- Mary Ann... – Finalmente Tom falou – A Melissa me ligou... Ele teve um AVC. Tá na UTI!
- Oh, meu Deus! – A jovem cobriu a boca com a mão – Tenho que ir pra lá!
E correu em direção à porta.
- Não, Mary Ann! Espera!
Tom correu até a jovem e a segurou pelos ombros.
- Calma, menina! Eu vou com você. Pega sua bolsa, e a gente corre para o aeroporto! Pega o primeiro voo para lá... Mas você tem que fazer uma malinha, com troca de roupa...
Mary Ann caiu em um choro compulsivo e Tom a abraçou.
- Fica calma! Ele vai ficar bem!
E trataram de viajar o mais rápido possível.
* * *
Tom e Mary Ann aguardavam na sala de espera do hospital o horário para visita a Chester. A jovem foi chamada por uma enfermeira, que a guiou, enquanto Tom ficou sentando em uma das cadeiras. Alguns minutos depois, um médico se apresentou a Tom. Era Dr. Hawkins, neurologista responsável pelo hospital.
- Boa tarde, Sr Keifer. Eu gostaria de esclarecer algumas coisas sobre o Sr Mc Doll. Seria possível?
Tom se levantou e cumprimentou o médico, dizendo:
- Boa tarde... Sim... O que o senhor tem a dizer?
- O estado do Sr. Mc Doll é gravíssimo. Houve comprometimento sério de todo o encéfalo dele... Sabe se ele já teve algum problema antes?
- Não que eu saiba... E como foi?
- Bem, ele estava se preparando para ir trabalhar, quando passou mal. Por sorte a senhorita Melissa acabou por socorrê-lo e chamar os paramédicos. Se tivessem demorado um pouco mais, teria sido fatal.
- E quais são as chances dele, doutor?
- Pouquíssimas...
- Ele está consciente?
- Na verdade ele está sedado. Mas alterna alguns momentos de consciência com muitos de sono. A jovem terá que ser forte...
- É... Eu sei... Só isso, doutor?
- Sim...
- Obrigado...
E o médico se retirou. Tom permaneceu em pé, perplexo, já prevendo as reações de Mary Ann ao saber da realidade.
* * *
Mary Ann aproximou-se do leito de Chester. Segurou sua mão. Apitos de monitores, discretos, porém assustadores, informavam sobre o status do paciente.
- Chester... Sou eu, Mary Ann! Fala comigo! – Ela sussurrou.
O dono do Groove abriu seus olhos e fitou Mary Ann. Nada falou. Apenas derramou uma lágrima única. A jovem começou a chorar, em silêncio.
- Chester, você tem que sair dessa! Por favor! Vamos reagir!
Ele piscou os dois olhos, como quem consente, e nada falou, novamente.
- Nossa turnê reinicia em uma semana e meia... Eu quero que você esteja bem até lá...
- Eu... Não vou... – Chester balbuciou, voz embargada, fala arrastada, quase inaudível – Eu não vou... Aguentar...
- Não diga isso, Chester por favor...
- Não vou... A... Minha... Hora... Chegou... Eu... Só tava... Esperando... Pra te ver... E te dizer...
Mary Ann sussurrou um “não” inconformado enquanto derramava mais lágrimas, e Chester continuou:
- Que... Eu... Eu te amo... Muito... Minha filha...
E apertou com pouca força sua mão.
- Chester... Eu também te amo! Você foi melhor que um pai pra mim!
- Há... Há um... Testamento... Em seu nome...
- Não quero saber de testamento, Chester, quero você vivo! Nem que eu tenha que largar tudo e cuidar de você!
- Não... Não vou... Não vou escapar... Dessa, menina... Minha hora chegou...
A cortina do leito se abriu e uma enfermeira falou, olhando para a cantora:
- O tempo da visita se encerrou, senhora...
Mary Ann acenou com a cabeça e voltou-se para Chester:
- Amanhã venho te ver... Por favor, Chester... Melhora!
E deu um beijo na testa do homem.
- Adeus... Mary Ann... Minha filha...
A jovem tardou a sair. Sentia que poderia ser a última vez. Mas a enfermeira a chamou novamente, e ela teve que se retirar. No corredor, caminhou até a sala de espera, chorando.
Tom a viu se aproximar, aos prantos, e foi ao seu encontro:
- E aí? Como ele tá?
- Mal... Muito mal... Ele diz que vai morrer!
- Calma, Mary Ann! Não perca a esperança!
- Não vou perder... Mas... Tá difícil...
Tom pegou a mão da jovem e assim deixaram o hospital. Foram para a casa do proprietário do Groove e ficaram a aguardar o novo horário de visita. Foi quando, após algumas horas, o celular de Tom tocou. Era do hospital. Tom escutou o que diziam e, após um longo piscar de olhos, desligou.
- O que foi, Tom? – Mary Ann, que estava deitada sobre o sofá, sentou-se e o fitou, agoniada.
- Mary Ann... Você vai ter que ser muito forte... O Chester se foi...
A jovem cobriu o rosto com seus braços e chorou. Muito.
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