The Last Hand
5 Capítulo 5
Sua última mão
O sonho daquela noite foi muito diferente dos demais. O clima calmo em um céu claro e rosa dava lugar a um clima escuro e sombrio, com a sensação comum de calafrios em meio a pilares mais curtos e ameaçadores, pois cada um tinha galhos e coisas estranhas que se assemelhavam a uma planta carnívora. Além disso, tudo estava mais espaçoso e os abismos começavam a me deixar com medo, pois pareciam muito mais com uma chamada clara para a morte. Eu não sabia o porquê de tudo estar daquele jeito, e tão de repente em meio a sonhos melhores e mais relaxantes. Eu comecei a sentir o medo que no começo já não sabia por que estava sentido, e tudo aquilo estava cada vez mais terrível e hostil, a cada segundo passado.
Eu demorei pra me mexer. Havia apenas um caminho como sempre, mas não estava com a coragem suficiente de encarar tudo de uma só vez. Eu avancei muito aos poucos a primeira plataforma plana (e a mais longa de todas que estavam ali), e cheguei ao seu final, tendo como única opção saltar todos aqueles pilares dali em diante. Foi difícil tomar o impulso para o salto suficiente, mas com eficiência (e sorte), consegui chegar ao primeiro pilar.
Dali em diante, eram pilares e mais pilares, todos requerindo saltos longos e precisos, e alguns tendo até cipó para balançar. A coisa que estava no chão não apresentava ameaça, mas fazia um barulho estranho, me fazendo preferir ainda mais o clima dos sonhos anteriores. Depois de todos aqueles pilares atravessados, cheguei numa área plana, onde havia uma fumaça negra impedindo qualquer visão e ainda irritava meus olhos. Fui andando de pouco a pouco, quase tapando meus olhos e tossindo bastante. Ainda que o medo não aparentava ser grande caso alguém me visse, era maior do que qualquer um pudesse imaginar. Como no caso, não queria que aquilo fosse tóxico, ou talvez não fizesse diferença por estar num sonho. A verdade era que eu nunca fui de demonstrar muito as emoções, e ainda por cima, sabia que todos teriam medo semelhante naquela hora.
Com o tempo a fumaça foi sumindo, até desaparecer por completo. Naquele momento eu parei, pois comecei a sentir uma presença chegando. Meu coração já não sabia mais pra que lado bater, e eu começava a me paralisar aos poucos. Não demorou muito para que aparecesse algo, e naquela hora, foi uma espécie de sombra em formato de corpo humano. A cada passo que aquilo dava, sua forma ficava mais polido, e aos poucos fui percebendo sua face, e a surpresa se escancarou num primeiro piscar.
Era Yuko.
O olhar não era nada contente. A postura era tão cabisbaixa quanto a dos primeiros dias que a conheci, e as lágrimas pareciam sair de forma cotidiana. Yuko (ou melhor: aquela Yuko) começou a estender sua mão, olhando direto aos meus olhos. Quando fiz o mesmo, a sombra acabou se desformando totalmente, e em questão de segundos, já estava de volta ao meu quarto.
Há de se crer ou até mesmo achar óbvio, que eu passei semanas pensando naquele sonho. Tinha medo de dormir a cada noite, mas o sono sempre me pegava desprevenido e acabava que eu nunca mais tive aqueles sonhos novamente. Era uma sensação complicada de descrever, e tinha certeza que nem Anna, nem Lisa e muito menos Ryura entenderiam. Era o tipo que coisa que cada um guardava para si, onde se sentia que apenas quem passou pelo ocorrido pode descobrir o caminho pra entende-lo.
Os dias se passavam cada vez mais e sem me fazer ter noção de quanto tempo se passou depois de tudo aquilo. Eu começava a me preocupar com Yuko, que ja faltara 3 sessões seguidas, e Anna também desconhecia o motivo. Eu me propus a ajudar Yuko desde que a conheci, logo aquela situação foi se alarmando completamente, a ponto de largar minhas tarefas e hobbys diários para sair à sua procura.
Quando cheguei no condomínio, um evento incomum tomou minha visão. Cerca de 20 pessoas estavam reunidas, em meio a um casal que parecia derramado em tristeza. Ryura estava ali também:
— Aconteceu o que to pensando? — Perguntei, com as mãos já tremendo
— Não sei. Eu acabei de chegar, mas tudo o que sei é que o casal ali parece ter perdido a filha
— Droga... — suspirei, frustrado e preocupado
— Calma, tá me dizendo que...
— Sim, isso. — A situação já estava óbvia demais, e Ryura continuava confuso.
— Caramba... — Suspirou, coçando a cabeça
— Me ajuda a procurar ela, Ryura...
— O que? Como? Essa cidade é muito grande, por onde você planeja começar.
— Talvez eu tenha ideia. — Conclui. — mas seria bom ter sua ajuda nisso
— Tá né...vou pegar minha bicicleta. — Respondeu Ryura após sair correndo para a garagem.
Me surpreendeu tal atitude. Ryura nunca foi de ter muita empatia mesmo em casos graves assim. Ele realmente se propôs a me ajudar apesar de todas as suas ocupações.
Assim, fomos de bicicleta cidade à fora em busca de Yuko. No caminho, fui explicando para Ryura tudo o que acontecia com Yuko e como era sua vida, além de orientar os possíveis locais onde ela poderia estar. Ele não dava muita atenção. Focava apenas em manter a velocidade alta e desviar de qualquer obstáculo que vinha pela frente. Nós procuramos em passarelas, viadutos, pontes, além de olhar por todos os topos de edifício. Nenhum sinal de Yuko, e eu já me abeirava ao desespero.
Foi durante um afastamento parcial da cidade, quase chegando numa zona interior, que avistei alguém parado e em pé na beira de um precipício. Pelo brilho do cabelo à beira do sol em céu limpo, e a clareza da aparência tomando forma enquanto se aproximava, já não restava dúvida:
Era Yuko
Um flashback imenso daquele sonho tomou conta da minha mente depois daquilo. Mas não demorou muito para Ryura levantar da bicicleta e me acordar pro mundo real. Fomos em direção à entrada daquelas rochas num pequeno caminho de terra que parecia levar ao topo, bem onde Yuko estava. Quando me aproximei na frente, Ryura parou:
— É melhor você ir...e logo. — Disse ele. — Não to preparado pro pior
— O que? E vai me deixar aqui? — Perguntei.
— Bilhete ou bicicleta?
— Ah...bilhete. Não sei nem andar nisso
— Ok. — Concluiu Ryura. — Não precisa me pagar depois.
— Certo...obrigado por tudo, Ryura.
Com isso, Ryura partiu com a bicicleta, enquanto eu não pensei 2 vezes em subir logo. Subi correndo em uma passagem de terra curva e inclinada. Não demorou muito para chegar na parte plana e mais alta, onde avistava sua imagem de costas.
— Como chegou até aqui...- disse Yuko, com um suspiro.
— Isso não importa agora! — Disse em alto tom. — Vamos pra casa Yuko, por favor...
— Pra quê? Ser acusada pela minha mãe e abusada pelo meu pai diariamente? Eu não sei o que fiz e muito menos quando fiz algo pra merecer isso.
Pela primeira vez nessa história, eu consigo descrever exatamente o que sentia no momento. Angústia, desespero, ansiedade, e principalmente, incapacidade. Eu não podia deixar Yuko morrer, mas também não havia ideia de como salva-la.
— Eu não sei o que fazer...
— Não há o que fazer...
Ela continuava ali, olhando para baixo e se inclinando levemente para se atirar. Eu me sentia frustrado. Ver tudo aquilo se passando, entender todo aquele sentimento em desistir de tudo (como eu muitas vezes senti na vida) e não poder fazer nada era a pior dor que minha alma poderia sentir desde um longo tempo.
Foi questão de pouco tempo para meus olhos se depararem com ela de joelhos, parecendo desistir de pular. Ela se levou ao chão e começou a chorar, em frente ao sol quase se pondo naquela tarde. Era um dia muito bonito para algo trágico, e eu decidi aproveitar aquele momento. Me aproximei de Yuko também de joelhos, e comecei a acalma-la.
— Eu não consigo...por que eu não consigo por que sou tão inútil ate pra isso...
— Vamos ver o pôr do sol, Yuko. A vista está linda.
Eu ajudei Yuko a se levantar, enquanto o sol já estava se movimentando em céu alaranjado. A cena era lenta até demais, como se tudo estivesse esperando por nossa auditoria. Com isso, nos colocamos de pé em frente aos céus, e Yuko começou a falar:
— Eu pensei em te pedir para irmos juntos..., mas você não merece isso
— E nem você — conclui. — É difícil acreditar nessa coisa de alguém ser especial...mas é algo que, pelo menos pra mim, se avalia de pessoa pra pessoa, de acordo com os sentimentos da própria pessoa.
— Como assim? — Perguntou ela.
— Você é especial, Yuko. Foi a primeira pessoa a me aceitar nessa cidade antipática. Eu tive um passado complicado, e só comecei a esquecer dele depois que Lisa entrou na minha vida. Mas se bem entende...não posso depender de Lisa para me manter em mente saudável, e ela sabe disso. Essa cidade não me faz bem...as pessoas daqui não me encantam...
— Eu não sei por que eu seria uma boa pessoa para você. -Disse Yuko. — Tudo o que fiz foi ser gentil. Não tenho motivo de ser antipática com alguém que se propôs a me ouvir...me chamou pra sair e me distanciar dos meus pais...simplesmente não tenho.
— Comece a pensar por aí, Yuko...e eu sei que encontrará o melhor caminho pra vida. Pode ter certeza.
O sol já estava em seu auge para se pôr. A tarde chegava no seu melhor clima, com um ar forte indo embora permitindo a chegada de um ar fresco e limpo de respirar, como costumava ser nas noites daquele período.
Conforme o sol ia sempre lentamente, eu senti minha mão encostando na de Yuko, e não foi totalmente involuntário. Chegava a hora de dar àquela pessoa uma maior esperança de vida possível.
— Eu prometo nunca te esquecer, Yuko. Prometo sempre estar disposto a sair com você quando for o caso. A trocar ideias, a se divertir nos esportes, a auxiliar em tarefas cotidianas, e tudo o que me for possível para te fazer sentir melhor.
— ....
Seto....
O silêncio corroborou com a chegada da noite. Um abraço sincero ocorreu entre mim e Yuko após aquilo. Voltamos para casa com a bicicleta de Ryura. Eu a levei até a porta outra vez.
É sempre difícil explicar como funciona lidar com pessoas e o quão longe você pode ir por elas. Eu sabia desde o começo que Yuko estava ao meu alcance, e sua personalidade não era compatível com todo o sofrimento que passava. Era sim uma garota alegre, gentil, animada nas horas certas e sorria mais do que o esperado.
Pois agora...talvez esteja se perguntando o porquê de eu citar Yuko assim como boa parte da história envolvida em pretérito?
Enfim...
Era 7 da manhã do dia seguinte. Horário que eu não costumava acordar em tempos de férias. Haviam 5 mensagens no celular, todos de uma pessoa só
— Seto
Yuko está no hospital
Eu não sei o que aconteceu
Mas preciso que você vá até lá urgentemente
Por favor
Tudo que eu posso dizer sobre aquele momento, é sobre uma ultrapassagem de sentimentos que me dominou no exato instante. De início fiquei confuso sobre o porquê Anna sendo minha psicóloga me mandaria aquilo, mas em questão de milésimos o desespero tomou conta, pois se tratava de Yuko, e tinha certeza que era grave.
Depois de Anna me dar o endereço, sem muito questionamento fui correndo até o hospital, que era bem perto do condomínio. Minha entrada foi desesperada para olhares de muitas pessoas, mas sem dar muita importância, peguei a informação da sala com urgência e parti para o andar correspondente.
Logo na esquina do corredor do andar, avistei a janela do quarto de Yuko. Ela parecia acordada. Entrei pela porta sem pensar duas vezes.
— Yuko...o que acontec-
Acabei pausando a fala ao ver os pais dela. Ambos com uma cara pior que a de enterro, e era óbvio o motivo.
— Se conheceu Yuko...pode falar com ela. — Disse seu pai, olhando para meus olhos.
Eu me aproximei da cama, logo ao lado de Yuko, que parecia misturar alegria e tristeza naquele momento.
— Eu consegui, Seto...me perdoa.
— Porquê...só me diga...
A tela de batimento começava a apitar. Ali estava a verdadeira entrada para o inferno.
— Obrigada por tudo....
Seto...
Um longo sinal eletrônico deu conta, o que todos odeiam ouvir. Seus pais choraram profundamente, e eu me senti paralisado.
Totalmente paralisado.
Depois de algumas horas, fiquei um tempo naquele quarto. O médico havia me dito que Yuko estava com uma faca no peito. Ela disse que enfiou a si mesma um tempo depois que voltou a consciência, ja dentro do hospital.
Poupar meu sentimento naquela hora estava impossível. Meses dali em diante, estava em profundo desapego com a vida. Mesmo que eu ainda não estivesse próximo o suficiente dela, era um motivo de lamentação ainda mais do que justificativa para eu parar de sentir tudo aquilo.
Em cerca de um mês, comecei minha faculdade. Em 5 meses, Lisa veio me visitar, e me dar todo o apoio de que precisava naquele momento. Ryura também ajudou. Nas vezes em que visitei sua casa ele procurava me manter distraído de todo aquele pensamento, com seus games novos e novidades engraçadas dos antigos colegas.
E foi numa noite estrelada, onde o brilho das próprias estrelas se destacava tanto quanto a lua, em que acabei me lembrando de sua face, e de toda a promessa que eu não havia esquecido. Desde então, Yuko sempre esteve guardada em meu coração: para mim, como a primeira amiga de verdade que fiz durante anos nesse local, e para ela:
Como sua última mão.
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