Em saber que eu seria

Era começo de ano, e tal como é comum, a maioria das pessoas estava em preparo para o retorno da rotina usual: trabalho, estudo e descanso. Tudo isso era fácil de se notar ao observar cada passo apressado na rua, que se encaixavam perfeitamente no perfil de pessoas ocupadas, e muitas vezes, proativas. Chegava um momento onde eu mesmo queria entrar nesse mundo. Arranjar um emprego, entrar numa faculdade e até mesmo conseguir um curso extra seja de idiomas ou alguma especialização técnica. Eu gostava desse rumo responsável de vida, de me sentir útil pra sociedade assim como todo o universo empregado.

Na minha vida, esse tipo de pensamento era constantemente rebatido. Não só meus pais achavam que eu estava sendo iludido e ficando longe da realidade cruel que o mundo costumava ser, assim como amigos achavam loucura eu dar tanto valor a esse tipo de coisa, esquecendo do lazer e comodidade que a vida também proporciona. Por razões óbvias isso não era verdade. O ser humano está longe de ser 100% capacitado a atividades produtivas a todo o momento. Ele precisa do lazer até mesmo para manter sua saúde física e mental em bom estado. Talvez tudo isso fosse um enorme equívoco por parte de toda a crítica defensora do argumento.

Mas por sorte, Lisa pensava diferente. Admirava o fato de eu ser uma pessoa bastante proativa, desde que eu desse atenção reservada a ela diariamente. Por ser um namoro a distância era algo perfeitamente compreensível, mas em geral havia muitos casais que chegavam a se ver pouco semanalmente graças aos embaques de rotina. Embora houvesse muita chance de essa ser nossa realidade, havia força tanto de mim quanto dela para resistir a isso tudo, o que eu considerava esplêndido por si só e me fazia agradecer frequentemente pela menina que escolhi para viver junto.

Já Yuko não tinha muitos planos desse porte. Ela tinha apenas 15 anos e estava indo para o ensino médio. Mas tudo que era de usual nas preocupações de um adolescente comum nessa época não se encontrava em alguém como Yuko. O clima familiar conturbado e a falta de apoio pessoal costumava ser muito mais presente do que uma indecisão entre materiais de escola ou medo de novas disciplinas. Não era uma garota num estado comum de se ver em sua idade e ambiente, e a cada dia me determinava a tirar a luz de toda aquela sombra.

Num dos dias aleatórios de sessão e encontros com a Yuko, eu estava com uma ideia em mente, porém, com um medo assombroso de executa-la. Não era o tipo de coisa recomendável de se fazer logo se cara, principalmente numa realidade padronizada por questões de ética amorosa e flertiva. Toda essa baboseira estava longe de qualquer intenção real em minha mente, que só queria se aproximar e expandir os horizontes daquela amizade.

— Ei, Yuko... — Chamei envergonhado.

— Diga. — Respondeu pontualmente, como costumava ser

— Eu estava pensando...em irmos pro cinema.

— Ah... — Suspirou, num ar de preocupação e vergonha em equilíbrio.

Era nítido que nessa hora foi uma questão de tudo ou nada. Eu nunca cheguei a pensar muito antes de decidir algo, muitas vezes por ter medo de pensar demais e não chegar a lugar nenhum. A coisa estava feita, e não havia nada a se fazer a não ser prosseguir com a ideia e torcer pelas respostas certas.

— Posso ver com calma...e depois te falo.

— Me promete? — Perguntei com imprudência

— Não sei...me dê um tempo.

Logo após isso o ponto do condomínio se aproximava, e nossa despedida foi mais discreta. Um clima estranho passou pela cabeça ao coração a partir dali, como se tivesse duas entidades em mente: uma dizendo pra eu esperar ansioso pela confirmação e outra dizendo pra eu não me iludir ou criar expectativa. Ficou claro que se aquele pedido fosse negado, a amizade acabaria em um tombo de altas proporções, mesmo alguns achando exagero pensar de tal forma.

Ao chegar em casa, precisava contar do evento pra Lisa. Nunca deixei nada passar por ela, muito menos algo dessa magnitude.

—- Eu chamei Yuko pra ir no cinema...acho que isso vai melhorar tanto o estado dela quanto nossa amizade um pouco

—- Tá bom...- Digitou Lisa, com uma expressão de descontentamento.

—- Não é nada demais, Lis... eu juro que vai dar tudo certo e-

—- A questão não é essa — Cortou-me. — Não só afeta meu ciúme como também pode te decepcionar

— Eu sei desse risco...- Suspirei.

— Então não só tenha juízo como também não crie expectativas demais. Não quero te ver chateado por causa de mais ninguém.

— Você me conhece... — Suspirei novamente. — Sabe que odeio tudo envolvendo esse tipo de coisa. Mas quanto à segunda parte acho mais complicado.

— Que seja. — Pontuou Lisa. — Você sabe o que faz e acho que não preciso dizer muito sobre.

— Confie em mim...sabe que te amo e nada de ruim vai acontecer aqui.

— Tudo bem. — disse Lisa, com uma expressão mais alegre.

O ciúme de Lisa costumava ser pior no início da relação, de forma muito mais controladora e sufocante. Apesar disso, ela se dispôs a controlar mais e estava melhorando bastante, tendo mais noção do quanto significava amizades na minha vida assim como sua devida importância.

Passaram dias e mais dias antes da próxima sessão, ainda sem nenhuma resposta de Yuko. Quando enfim chegou o dia, eu recebi uma chamada repentina de Anna, enquanto me preparava para ir à clínica:

—- Seto, Yuko mudou o horário da sessão. Achei importante avisar você. Hoje ela vai as 15:30.

— Ah, sério? — Respondi surpreendido, quando na verdade não estava tanto.

— Sim. Portanto, pode vir mais tarde se quiser. Até logo!

Era normal pacientes de Anna mudarem de horário com certa frequência. Diferente do meu último psicólogo, ela tinha um horário bastante flexível, com muitas outras atividades atrapalhando sua rotina de atendimento. Esperei mais um tempo antes de sair, sem pensar muito no aviso dado.

Quando enfim sai de casa e cheguei na clínica, lá estava Yuko, pela primeira vez chegando mais cedo do que eu. Como havia chegado no horário exato da sessão, já havia sido chamado para entrar na sala, mas antes de ir, Yuko sussurrara em meu ouvido:

— Vamos às 18. Te espero aqui

Não havia tempo naquele momento para expressar a tamanha alegria que senti. Mas ao mesmo tempo, tentava controla-la. Nada sobre aquele ocorrido foi discutido na sessão. Após uma hora, fui embora com Yuko, sem muitos detalhes sobre a decisão ou a hora marcada. Ao aproximar da entrada do condomínio, ela me pediu para descer junto, e esperar ela se arrumar para sair. Eu não me sentia confortável em entrar na casa dela, por questões de timidez e falta de intimidade suficiente. Além do mais, ela também não havia me convidado para entrar.

Com isso, decidi visitar Ryura, que como sempre estava em seu quarto com seus jogos competitivos. Era de se surpreender a euforia e seriedade que aquele garoto levava em um tipo de entretenimento que, a princípio, tem o objetivo de divertir.

— Eu já to nisso faz 5 partidas...o time não me ajuda. Aliás, o que tá rolando?

— To esperando uma garota. — Conclui. — Irei no cinema com ela.

— Ah, não sabia que tu era desses. -Brincou.

— Não é nada do que pensa...você me conhece

— Na verdade não conheço, porém confio. — Disse Ryura, mudando de uma expressão sorridente pra uma mais séria. — Tu era o mais correto da nossa turma na escola e tal

— É, acho que sim. — Conclui novamente.

De fato eu era o mais correto. Talvez por desviar de qualquer assunto que envolvia mulheres e lances amorosos. Eu preferia focar em coisas mais úteis pra mim na época, como o próprio desenvolvimento de jogos ou minhas notas em estado urgente.

Foram cerca de 3 horas que passei na casa de Ryura. Eu já havia dinheiro e roupa suficiente para ir ao cinema mesmo não tendo certeza de uma resposta naquele dia. Tudo que fiz foi avisar minha mãe que ia sair com o próprio Ryura, pois nada me garantia que ela ia aceitar eu sair com uma pessoa que mal ouvira falar. Eu não era de contar muito dos ocorridos para minha mãe, e sim pra Lisa.

Na chegada do horário, me despedi de Ryura e fui em direção à portaria. Yuko já estava lá e sabendo que eu estaria lá em algum momento. Não estava tão arrumada assim. Apenas havia a pele mais clareada e uma maquiagem bem escassa, com uma roupa não muito diferente das que usava para ir à clínica, apenas com a diferença de uma calça ao invés de um short escuro.

Eu me levei como guia total naquele momento. Sabia o melhor shopping, pro melhor filme e horário. Era uma sessão as 19:30, pra um filme de drama chamado "Chamada para a luz". Me perguntava um bom tempo durante o caminho se um filme desse gênero era a melhor escolha, considerando tudo que ela passava. Mas deixei-me levar pelo lado onde poderíamos nos identificar com alguma coisa durante a trama, que por sinal não parecia ser trágica.

Não foi surpresa chegar no local e dar de cara a uma fila consideravelmente vazia. Não havia filmes tão atraentes para o público além de ser uma terça-feira usual e rotineira para muitas pessoas. Yuko parecia gostar daquele clima mais silencioso, sem a conturbação que as multidões em fila podem causar. Pegamos nosso ingresso e pipoca e nos dirigimos diretamente à sala, que parecia tão vazia quanto a entrada.

No decorrer do filme eu não só me comovia com o enredo elaborado, como também me atentava à atenção que Yuko dava a cada cena. Seus olhos eram mais arregalados e atentos, chegando a parecer assustador e psicótico.

— To achando sensacional...me identificando também. — Disse ela, de repente.

— Ah, jura? — perguntei. -Não estou achando tão fascinante assim, mas é bom que pense o contrário.

— Precisa refinar seus gostos viu. — Brincou ela, com sua face irônica.

E o tempo foi passando. O filme chegava a seu final e enquanto o público aplaudia a trama, Yuko parecia fazer isso mentalmente, pelo sorriso em seu rosto.

— Olha...preciso dizer algo, além de te agradecer por isso. — Disse ela, enquanto se levantava.

— Ah...pode dizer. — Confirmei ansioso, mesmo sem fazer ideia do que ela ia dizer.

— Eu gostei muito de hoje...e se não fosse você acho que esse dia seria o mais monótono do mês. Chegou num ponto em que você se tornou importante pra mim, Seto.

— Bom saber...somos amigos, acho que precisamos ser isso um pro outro.

— Sim...agradeço por tudo, de verdade — Disse ela, alargando o sorriso

— Não se esqueça...eu to sempre aqui pro que precisar, ok?

— Claro...

Yuko me abraçou após isso. Um abraço sincero e profundo, de alguém que parecia estar numa sombra profunda e enxergou, mesmo que pequena, uma luz alcançável. Uma esperança curta, mas que estava ali, completamente ao seu redor. Eu não estava ciente e nem preparado durante todos aqueles dias, nem em todo aquele momento, em saber que eu seria importante pra alguém daquela forma, onde eu parecia realmente estar ajudando a salvar uma vida.

E após voltar ao condomínio, quase perto da meia-noite, levei Yuko à porta de seu apartamento. Nos despedimos em aceno, e ela entrou em casa. Enquanto descia a escadaria da entrada, comecei a ouvir gritos altos, que quase se destacavam em meio ao barulho dos carros na avenida à frente. Pensei que não poderia ser o que eu estava imaginando, por motivos de distância. Com isso fui embora do local, tentando ignorar o ocorrido.