Não estava ciente

A consulta psicológica era apenas 2 vezes por semana. Tal fato me levava a um tédio absoluto nos outros dias, mesmo fazendo coisas produtivas como tocar violão, estudar, fazer pesquisas, assim como puro lazer como jogar, assistir vídeos na internet e redes sociais. Era basicamente isso, em qualquer dia sem compromissos. A noite era reservada para conversar com amigos e com Lisa, essa sempre presente durante quase todo o meu tempo.

Os dias se passavam e eu começava a me sentir curioso com a garota que deparei na saída da clínica. Mesmo que uma parte do meu cérebro dizia ser apenas mais uma paciente de Anna, outra parte dizia ser uma pessoa interessante, de pelo menos saber e conhecer sobre. Nessas horas, a ambição em tentar coisas novas acaba tomando lugar, principalmente quando sua vida não tem uma rotina nada especial.

Passaram-se 3 dias depois daquela consulta, sem nenhuma aparição daquele sonho. Naquele mesmo momento pensei ser algo passageiro, quase confirmando ter sido um raro sonho lúcido. Minha cabeça estava focada demais em uma sessão com a psicóloga, e isso acabou sendo ofuscado totalmente. Era também curioso eu estar numa empolgação daquele nível para ir, algo que nunca aconteceu em um lugar onde o objetivo era relembrar meus problemas.

No fim das contas, passei pelo mesmo caminho de sempre e cheguei a tempo também. Não demorou muito para eu mesmo tomar a atitude do questionamento:

— Aquela menina de cabelo esverdeado é sua paciente?

— A Yuko? Sim, ela começou praticamente junto com você. Aliás, ela também fez a mesma pergunta sobre você.

— Sobre mim? — Perguntei espantado.

— Claro. Ela disse que você parecia ser legal. Se você quiser podemos marcar pra vocês virem no mesmo horário e você vir conhece-la.

— Er... eu adoraria, acho — Exclamei, confuso e vermelho; dilatado.

Não sei como explicar bem o meu sentimento de surpresa naquela hora. Eu saí da sessão confuso, sem saber nada do que estaria por vir. Eu realmente me dispus a conhecer alguém a qual só vi a face, e isso de forma também correspondida. Por que diabos uma pessoa que só tinha me olhado e passado por mim de forma brusca julgou minha pessoa parecer alguém legal? Era isso que me perguntava em demasiado dali em diante.

Foram dias e mais dias sem dormir direito e ansioso para tal evento. Era algo totalmente fora do normal eu me sentir daquela forma estando prestes a conhecer alguém. Eu costumava não ligar quando encontros desse tipo aconteciam, mas talvez fosse porque nunca foram antes com uma garota, e sim com vendedores ou amigos de amigos em maioria. Nem sequer uma menina era apresentada para mim em festas de adolescente, no intuito de eu ficar com a mesma, e não era por eu ser tímido ou feio demais e sim por não ter a mínima vontade de um relacionamento temporário. Foi sorte minha ter conhecido Lisa anos depois, e estarmos juntos até hoje.

Porém, Lisa morava em outro estado. Era uma situação diferente da usual, onde só encontrei ela pela primeira vez quando já éramos bastante próximos, quando já namorávamos mesmo. Com Yuko ia ser diferente: uma menina neutra e de primeiro encontro pessoal, que por algum motivo misterioso parecia desejar me conhecer. É fácil se iludir com tantos pressentimentos e expectativas, ainda mais falando de mim, que não cansava de cometer o erro de colocar expectativas demais em qualquer pessoa.

Foi logo então que, em um momento aleatório, Anna me chamou pelo celular e disse já ter agendado o encontro com Yuko.

— Vai ser antes da sessão dela... às 11 da manhã.

— Você marcou sem ela saber? — Perguntei surpreso, pois era o que parecia

— É por aí. Você tem a flexibilidade de horário que ela não possui ainda, então acho que pode dar conta, certo?

— Claro...- Respondi suspirando.

Claramente dei uma leve desanimada por ter que acordar mais cedo e não demorou tanto para que eu pudesse pensar se aquilo valeria a pena ou não. A parte de acordar não era o maior problema, e sim, minha mania de colocar expectativa demais nesse tipo de coisa.

A sessão ia ser marcada na próxima semana, e até lá, o ar de curiosidade não parou mais de bater nas portas da alma, aquela parte que toma conta das decisões cruciais de curto prazo. Tudo aquilo parecia muito emergente e asfixioso. Ao contar sobre tudo pra Lisa, até a própria se sentiu de forma parecida, e tudo passou a um nível de espera que por pouco não chega ao angustiante.

O dia chegava, e o sonho lúcido não acontecia mais a quase 1 mês. Acordar cedo foi uma tarefa um tanto desanimadora no início, e logo me dei conta de que eu realmente estava colocando um esforço considerável por causa de uma garota.

Uma garota que disse me achar legal.

Sem dar muita importância, me apressei sem pensar tanto e entreguei tudo nas mãos do destino, na parte do valer ou não a pena.

E ao chegar, Anna me atendeu rapidamente a porta, quase batendo o recorde de 3 segundos que um dia já fui sortudo em conseguir.

— Ela está quase chegando... pode esperar na recepção, se quiser.

Minha angústia que já aguentava não aparecer por dias, já soltava suas asas ali mesmo. Pernas tremendo, corpo em calafrios, lábios aleijados e respiração acelerada. Eu realmente ia falar com uma menina, do zero, pessoalmente. No subir das escadas, cada barulho do degrau correspondia a uma forte batida no coração, até enfim ela chegar e eu me deparar com aquela mesma face, olhar e expressão. Sua vestimenta estava mais casual, com uma camisa branca, curta e abotoada. Uma roupa normal para o verão, mas não combinava com aquela expressão fria e perturbada.

Anna não pensou 2 vezes antes de abrir palavras:

— Chegou bem na hora, Yuko. Este é Seto e ele gostaria de falar um pouco com você.

— É..oi (não, eu não sugeri isso)

— Mas eu não sei falar com pessoas — Disse Yuko, num tom objetivo.

— Se você sabe falar comigo também saberá com ele. Deixarei vocês dois a sós por uns cinco minutos enquanto resolvo algumas coisas. Logo volto e inicio nossa sessão, Yuko.

— Tá bom... — Confirmou Yuko com um leve suspiro.

Logo após sua saída, tive mais uma mudança repentina de emoções naquele momento. O choque de uma reação tímida e incapaz deu lugar à sensação de confiança. Eu já estava com Yuko ali, na sala de consulta, me sentindo mais preparado do que antes de uma forma imediata até demais.

— Não se preocupe com o fato de não falar com pessoas — disse em tom calmo e confortante, após fechar a porta.

— Tudo bem...

Yuko tinha um olhar curioso, diferente das meninas usuais daquela cidade. Era um olhar estranho, que trazia alegria e preocupação ao mesmo tempo. A forma como aquilo me intrigou após sentar ao seu lado para conversar foi nítida. Eu não parava de olhar nos olhos dela, quase sem piscar.

— Você tem cara de gostar de animes...não sei

— Sim, eu gosto — Disse ela com um curto sorriso

— Gosta dos obrigatórios...como Death Note, por exemplo?

— Sim, claro..., mas minha mãe vive me criticando por ver essas coisas. Ela acha feio, sem propósito...coisa do diabo.

— Bom, faz parte... — De fato, eu queria que ela entendesse que aquilo era mais comum do que se imagina.

— Seus óculos são legais.

— Hmm...? ah, sério? — Disse em tom de espanto, mais uma vez

— É, são únicos...combina com você.

O fato dos meus óculos serem únicos era justamente por serem raros de achar. Lembro de ter passado em muitas lojas, em vários lugares diferentes. Tive muita sorte de acha-los num preço não tão alto e no estado que eu desejava.

— Fico feliz que gostou, Yuko... de verdade. Mas enfim se está aqui é porque passa por problemas, certo?

— Vários. — Disse ela pontualmente

— Seria muito evasivo eu querer saber de forma resumida?

— Talvez... mas envolve a família, principalmente. Acho que não é necessário saber mais.

— Nada sobre relacionamento amoroso...por exemplo? — Eu tinha a mania de levar a curiosidade ao céu da boca, mesmo quando a pessoa não se sentia confortável com isso.

— Ha ha...é o que eu mais tenho — A risada foi curta, com um tom irônico.

— Bom, isso também faz parte...

Eu estava conclusivo demais. Família e relacionamentos eram problemas em comum entre nós. Naquele momento a curiosidade estava a um nível inatingível. Eu já tentava controlar meus limites evasivos de forma violenta, pois não bastava apenas concordar com tudo sem saber mais e mais.

A conversa foi fluindo. Eu ia conhecendo mais sobre seus gostos, seu dia-a-dia, suas manias e costumes. Era uma garota longe do padrão daquela cidade. Tinha gostos nerds até demais, gostava de pintar o cabelo, andar numa aparência introvertida e ficar em casa dormindo ou consumindo entretenimento em geral. Saía muito pouco, pois seus pais não a davam total liberdade. Assim, passava boa parte do tempo presa em seu condomínio residencial, tendo esportes e afins como opção de lazer externo.

A conversa se deu tão rápido que cheguei a me chatear após Anna voltar. Era um ambiente bom de conversa e não só com uma psicóloga. Ao entrar na sala, Anna estava com uma expressão mais séria, longe do que havia me acostumado a ver.

— É o seguinte...vocês dois tem problemas muito sérios em relação à falta de autoestima e tendência suicida. É fato que uma amizade pode render bons frutos. Vocês podem sair, ver um filme, comer alguma coisa...dar um sabor mais doce a esse vínculo e tentar criar uma aproximação saudável sem incentivos ao pior.

— Ah claro...é isso que você espera. O mínimo que pode acontecer dependendo de mim é suicídio coletivo — Disse Yuko, me enchendo de espanto ao nó da garganta

— Ei ei! Se isso realmente chegar a tal ponto serei obrigada a convocar os pais de vocês dois!

— Ah, mas nem brincando! — Exclama Yuko, num tom ameaçador

— Gente...mas é tão difícil exigir algo amistoso entre vocês?

— Talvez... — Disse Yuko, abaixando o tom de voz a um ponto de desânimo

Eu não sabia o que dizer e muito menos a correta reação naquela hora. Talvez imaginasse que Yuko era uma pessoa suicida, mas já dava pra sentir que estava num nível além da minha própria tendência. Sim, eu queria muito ir embora deste mundo, onde os julgamentos e críticas são muito mais frequentes do que os incentivos e elogios, não importa o que eu fizesse para merecer. Eu tinha uma ansiedade de sucesso muito grande e queria ser reconhecido pelos meus trabalhos musicais, literários ou artísticos. Toda a pressão contrária ao que eu queria e muitas vezes de forma injusta não me trazia ânimo de viver. Ao invés disso, trazia dor na alma cotidiana.

Mas independente do que eu fosse ou como sentia, não era o momento certo pra ficar calado. Eu tinha que dizer alguma coisa:

— Prometo que não vou incentivar ela a esse ato e muito menos elevar sua tendência. Nunca fiz isso com ninguém e não pretendo nenhum dia fazer

Anna apoiou minhas palavras, mas Yuko permanecia em silêncio. A sessão de Yuko já ia começar, e eu decidi esperar ela do lado de fora para que possamos conversar mais na saída.

Enquanto esperava, pensava se realmente estava fazendo o certo em adquirir uma amizade como aquela. A parte do suicídio coletivo foi com palavras fatais, como uma enorme agulha nos perfurando ali mesmo, naquela hora. Eu não me importava em morrer sozinho, mas me preocupava demais em saber que alguém poderia morrer junto, ao meu alcance. Eu não podia permitir isso. Não queria que ninguém morresse na minha frente e estava determinado a fazer qualquer coisa para que Yuko não chegasse a esse desfecho.

Após cerca de 1 hora, Yuko saiu da sala, e notou que eu a esperava durante todo o tempo. Anna nos desejou sorte e, mais uma vez, uma amizade saudável. Caminhamos juntos até a porta de saída. Tínhamos o mesmo destino parcial; pegávamos o mesmo ônibus.

— Ela é sua primeira psicóloga? – Perguntou Yuko, depois do curto período de silêncio

— Não...eu tive um antes, por 4 anos. Ele começou a ficar idiota e me tratar de uma forma grosseira e autoritária.

— Pois é..eu gosto da Anna, de todos que já tive ela se supera com facilidade.

— De todos? você teve quantos? — Mais uma vez surpreso.

— Tive 5 psicólogos e 1 psiquiatra — Exclamou. O último achava que minha depressão era modinha...acho que nem preciso ter o que dizer.

— É, isso é horrível... demos sorte em encontrá-la.

— Talvez... — Disse abaixando o tom novamente.

Conforme íamos andando, seu ceticismo parecia certo quanto a tudo, menos quanto à vontade de morrer. A cada passo era uma alegria por ela ser uma pessoa legal e atenciosa, mas também uma tristeza por ser completamente pessimista e parecer ter perdido a esperança em tudo.

Pegamos o ônibus e conversamos mais sobre música e o dia-a-dia naquela cidade. Tanto pra mim quanto pra ela era tedioso e sem objetivo claro. A velha pergunta filosófica sobre o sentido da vida. Em certo tempo, dava pra notar que eu e ela poderíamos estar em estado de ampla sabedoria, justamente por termos jeito semelhante de conversar um com outro. Esse tipo de sensação era completamente estranho, mas podia responder a essa pergunta naquele momento. O sentido da vida era procurar um caminho para fugir do tédio, tanto eu quanto ela, e juntos.

A conversa se desenrolou demais a ponto de ônibus ter passado de seu condomínio. Por sorte, era bem do lado do terminal, dando a ela um ar de suspiro. Eu prometi a levar em casa dali mesmo, sem me importar com a preocupação da família porque acabaria chegando atrasado.

Subimos as escadas, andamos pelo piso plano do andar dos trens, e, ao atravessar a passarela de ligação para o condomínio, ela ia tirando um objeto do bolso. Era um tom marrom e claro, de formato cilíndrico e pequeno, embalado em um saco plástico curto. Claramente, uma rolha:

— Aí você me pergunta...quem diabos anda por aí com uma rolha no bolso? Aliás, você sabe como se mata alguém com uma rolha?

Espantado à nível de choque, disse que não. Ela ia me explicando o processo e eu ia achando loucura.

Loucura...loucura...

Mas tentava deixar por passar e quando percebi que ela começava a rir descontraidamente, meu coração brevemente relaxou. Ela disse ter levado tal rolha para uma amiga, num trabalho de escola. Logo após isso, chegamos na portaria do condomínio, e ela se despediu discretamente, apenas agradecendo pela companhia no caminho desconhecido e dando um leve soco nos meus punhos, como um bom e velho cumprimento de infância.

Ao ir embora dali, já voltava a me levar aos céus da mente e da imaginação tendo tal evento como base. Eu não estava ciente de que iria conhecer uma garota tão legal e atenciosa, mas ao mesmo tempo, com tendências suicidas e até mesmo psicóticas. Foi a partir daquele momento, que mesmo em estado perto da deficiência do bem-estar, me senti determinado em ajudar aquela pessoa, e ao menos colaborar no afastamento de toda a gravidade dos seus desejos e impulsões de morte.