The Last Hand
1 Capítulo 1
Naquele dia
Estava no período da tarde, num dos ônibus conturbados da minha cidade, onde mesmo sendo uma parte mais distante de seu centro, ainda costumava ser movimentada todos os dias.
Eu, Seto Kushido, não tenho muita sorte e muito menos vontade de empenho vivendo por aqui. Quando a rotina não é monótona sendo produtivo, ela acaba sendo monótona sem minhas responsabilidades pessoais. Mesmo naquele ônibus em um compromisso demasiado simples, o tédio e a depressão constante que me assola passa dia e noite não me deixa ter um mínimo sabor à vida.
Mas por que tudo estava assim? por que a minha vida tinha chegado a tal ponto?
A resposta está tanto no passado quanto no presente, e talvez afete o futuro também, sem muitas esperanças (ainda mais depois dos eventos narrados aqui).
Como todo longo compromisso, ele tinha um ponto de chegada. Uma avenida movimentada e comercial, com gente andando para todos os lados em rumos inimagináveis, e apenas alguns metros de distância me separando do destino real. Era uma caminhada silenciosa. A rua para o destino era apenas uma ligação para um cruzamento simples, numa parte do bairro mais afastada dos comércios usuais. Era comum eu me sentir andando sozinho por ali, e os poucos que avistava estavam em sua rotina caseira ou de trabalho.
No devido tempo, até mesmo antes do combinado, cheguei a meu local. Uma campainha eletrônica ao lado da discreta porta vermelha, num simples empresarial. A demora de aproximadamente 7 segundos para abrir a porta chegava a dar calafrios quando era uma consulta noturna. Após a porta abrir, o local passa de um vento natural e desagradável para um profundo eco das paredes. A música que ouvia não alcançava ouvidos alheios no ambiente externo, mas ali suspeitava que alcançasse o local inteiro. Era um silêncio calmo, e ao mesmo tempo, distante do estado de privação.
Ao fim das escadas, quase nunca precisava esperar para ser atendido. Já logo fui chamado para uma das salas, quase sempre sem planejar o que ia falar. Era uma clínica psicológica, e Anna era quem me atendia.
Não tenho muito o que falar sobre Anna. Psicólogos pouco dizem sobre sua vida pessoal, ao menos que você queira saber. Mas Anna era de longe mais simpática que meu psicólogo anterior, dominado pela arrogância e pessimismo incomum da profissão. Seu jeito calmo de falar e sua compreensão a praticamente qualquer problema exposto faz dela muito mais competente e agradável para mim, que não sou de revelar coisas pessoais para qualquer um.
Era mais um dia de sessão comum, com exposições sobre o dia a dia que em sua maior parte envolvia problemas com relacionamento familiar e amoroso. Minha namorada, Lisa, não é uma pessoa controlada, e tinha ciúme e possessividade a níveis perto do extremo. Levou um tempo para eu confiar nela como já confiava, mas eu também tive motivos para causar essa desconfiança. Fugir do ciúme é muito pior do que assumir e demonstrar que você, indiretamente, está o causando.
Os problemas familiares também me perturbavam frequentemente. Não era possível me sentir bem em uma família de geração anterior, onde problemas modernos como depressão e tendências suicidas (em escala considerável) me assombram a todo tempo. Eu vivia isolado em casa por esse motivo. As oportunidades de sair eram tão poucas quanto os amigos que eu tinha, e a maioria dos amigos eram virtuais (incluindo Lisa). Obviamente a pressão pela produtividade e utilidade no mundo eram comuns, e eu mesmo sentia essa vontade de começar a ser. Mas a vontade não é nada sem antes um incentivo para a mesma, o real opositor da pressão.
Não é meu foco ou objetivo relatar aqui sobre apenas as minhas experiências pessoais em geral, e sim sobre um evento específico. Algo que dali em diante iria alterar drasticamente o meu estado emocional, e ele começou ali mesmo, naquele dia.
Ao sair da sessão e descer as escadas, ouvi novamente o barulho da campainha, dessa vez atendida mais rápido do que quando entrei. O abrir da porta me apresentou uma aparência jovem, que demorou questão de milissegundos para identificar que era feminina. Usava uma blusa longa e preta. O capuz não estava na cabeça devido ao clima quente, mas favorecia à apresentação de um cabelo diferente, esverdeado e vivo. Porém, não estava tão vivo quanto a sua face, que estava sem um pingo de ânimo e satisfação. Provavelmente normal pelo lugar em questão, mas ainda assim, me preocupou. Adentrou o lugar com delicadeza mínima para minha licença.
Fui embora do local lembrando desse momento, mesmo que para muitos pareça aleatório, sem nada de especial. É de costume eu me preocupar em demasiado com as pessoas ao meu redor, até mais do que comigo mesmo. Minha convivência com uma comunidade perdida e pessimista, afetada pelos preconceitos, violência e crises diárias. A vida insiste em jogar pedras no caminho de pessoas normais, mas nessas ela passa a jogar em cima mesmo, esmagando sempre mais.
Meu dia-a-dia normal segue de forma tão básica quanto uma receita de bolo. Acordar, estudar e falar com Lisa pelo resto do dia era um breve resumo da minha vida, e até hoje não segue muito diferente disso, na verdade. Mas a partir daquele dia, algo aconteceu comigo antes das minhas noites de sono.
Era tão estranho e diferente que acaba sendo difícil deduzir sendo uma visão ou um sonho. Era muito fora da realidade para um, assim como demasiado cedo e rápido para outro. Eu nunca tive sonhos lúcidos, mas talvez aquela experiência fosse semelhante. Eu realmente vivia onde eu estava, sentindo todo meu corpo, mente e alma.
Era um lugar de céu avermelhado, um vermelho vivo e brilhante que chegava muito perto de um tom rosa. Havia plataformas muito extensas e com certa distância uma das outras, em posições diferenciadas e aleatórias. Se eu como desenvolvedor de jogos comparasse aquele momento com um, Monument Valley seria a melhor escolha. Era estranho, incomumente assustador, porém de chocar os olhos de tão extravagante e artístico, como se a natureza real daquele mundo me gritasse versos poéticos e calmos, num labial doce e confortante.
Eu não havia escolha a não ser passar por aquelas plataformas por meio de saltos curtos. Apreciar a estranha beleza do lugar era bom, mas não parecia ter fim nem propósito. Enquanto eu ia pulando os pilares, um pilar na minha frente, mais brilhante que os outros, emergia de forma lenta e gradual, como se acompanhasse meu progresso. Eu ia me aproximando dele, de plataforma a plataforma, sem muito medo de cair nem do que aconteceria caso caísse. Após chegar em cima da plataforma brilhante, não senti nada além de ouvir uma alta voz, feminina e semelhante a uma divindade.
—Naquele dia...
Após ouvir isso, acabei apagando. Um silêncio e escuridão mortal tomaram conta de mim. Mas em questão de segundos, já estava olhando para o céu do quarto, e um tempo depois, surpreendido por ter conseguido dormir normalmente, mesmo após aquela experiência.
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