The Last Chance
11 Capítulo 10.
Notas iniciais
Aquela dor insuportável cortava-me a alma. Meus olhos mal conseguiam se acostumar com a luz intrusa que ultrapassou em filetes a grossa cortina e pairou em minha face. Virei para o lado oposto, tentando voltar ao subconsciente onde a minha cabeça não parecia que ia explodir. Abracei o travesseiro do outro lado e joguei-o contra o meu rosto, apertando-o para ver se a ressaca iria embora. Mas era em vão, até mesmo no encher dos pulmões ela parecia aumentar.
Sem muitas alternativas resolvi levantar, caminhei até o banheiro em passos lentos, sentindo o piso gelado contra os meus pés, indicando que a noite havia sido fria, como imaginei. Não parei para analisar a minha situação, deveria estar desastrosa, e já fui me despindo, entrando embaixo do chuveiro.
Arrepiei-me quando a água pouco aquecida tomou o meu dorso, mas logo a temperatura da mesma foi se regularizando, me fazendo relaxar aos poucos. Olhei para cima e deixei com que ela caísse em meu rosto numa tentativa falha de afastar as lembranças da noite passada, do que Kristin havia feito, das diversas doses, da dança... Até que outra coisa me veio à mente, coisa a qual não seria necessário e eu nem queria esquecer, Emma Swan também estava naquela boate e apesar de promessas... Intimidações, aqueles lábios se juntaram aos meus em meio àquela multidão. Sem mesmo perceber, abri um sorriso ao relembrar daqueles olhos preocupados enquanto ela se pôs ao meu lado para me trazer até em casa. Era estranho alguém fazer isso, ou melhor, é completamente estranho eu deixar com que isso aconteça.
Sempre fui de poucos amigos, os únicos que eu tinha, haviam casado e estavam criando suas famílias agora, e eu... Eu continuei sozinha, grande parte por opção e outra por não saber como viver com outro alguém após tantas perdas. Não que eu não me sinta feliz dessa maneira, eu até gosto de ser a única responsável pela minha vida, porém foi tão diferente ver alguém preocupada comigo da maneira que ela fez, deixou a sua diversão e veio atrás de mim.
Regina... Pare de sonhar acordada, ela só foi gentil, viu que você não estava bem e só ajudou. Não foi ela que a beijou, foi você... Mais uma vez... Vai se deixar levar por isso? Foram só alguns beijos e uma atração suja... Vai deixar outra mulher brincar com você? Da maneira como Kristin fez? Já não está magoada o suficiente? – gritou meu cérebro, me tirando daqueles pensamentos. “Ele” tinha razão, Emma Swan deveria ter sentido pena, por isso fez o que fez.
Respirei fundo e me livrei daqueles pensamentos, tentando terminar o banho mais aliviada do que quando entrei ali. Lavo o meu cabelo com paciência e depois sigo para o meu corpo, deixando as bolhas aromatizarem a pele úmida. Terminei quando vi as rugas começarem a aparecer em meus dedos e só assim, girei o registro e saí do lavabo, apanhando o roupão do gancho e uma toalha para secar meus cabelos.
Quando a brisa da manhã passou pelo meu corpo morno, senti um calafrio adornar a minha nuca, me encolhi um pouco e depois segui para o quarto, não sabendo se voltava para a cama ou não, já que era sábado e não teria que trabalhar. Resolvi então, ir até o closet e escolher uma roupa bem confortável, tramando uma caminhada até o Central Park, querendo relaxar com a caminhada.
Vesti-me com uma calça de moletom cinza e uma camiseta dos Yankees preta com listras brancas, bem maior do que o meu número, usava-a sempre para dormir e para finalizar, coloquei um par de all-star branco. Acredito que poucas vezes sai na rua vestida daquela maneira, zelava pela alto-sofisticação, mas hoje, não estava disposta a caprichar na escolha das roupas. Penteei meu cabelo e desci para o andar debaixo assim mesmo, com eles molhados e soltinhos, batendo na altura dos ombros.
Corri até a cozinha e fui à procura da caixinha de remédios e depois de revirá-la de “cabo a rabo”, encontrei as aspirinas. Tomei duas de uma vez só, queria que passasse logo, aquela dor estava me matando. Peguei o meu celular e os fones de ouvido, deixando a música entrar sutilmente em minha cabeça e saindo pela porta, sentindo o vento gelado contra o meu rosto.
Os passos foram lentos e pude notar que já seria a sexta faixa que se iniciava no celular, minha cabeça parecia um pouco melhor, o remédio já estava começando a fazer efeito. Avistei um banco bem distante de todos os outros, onde ficava rodeado de árvores e alguns pinheiros. Me encaminhei até lá e me sentei, juntando os pés no mesmo e abracei os meus joelhos. Coloquei a face contra o moletom, fechando os olhos e enchendo os meus pulmões de ar, soltando uma respiração forçada no meio deles. Minha mente estava lotada demais, precisava esvazia-la antes que aquilo me enlouquecesse.
O vento me fez arrepiar, parecia que a manhã de sábado estava disposta a ser fria, levantei a face para encarar o céu, notando nuvens carregadas e escuras por toda parte. Uma tempestade estava a caminho, sinal que eu deveria voltar para casa.
Quando estava prestes a levantar, a música parou e na tela pude ver a chamada recebida. Engoli seco antes de ignorar aquela ligação, o que eu menos queria era ouvir a voz de Kristin e suas desculpas esfarrapadas. Toda calma adquirida se foi quando mais uma vez, meu telefone vibrou. Resolvi desliga-lo, para evitar que eu o jogasse fora. Trataria de mudar o número assim que a segunda-feira chegasse, qualquer tipo de contato me causaria mal.
Minutos depois senti alguns pingos cair contra os meus braços, encarei o banco que também ganhou alguns e me lembrei, estava indo para casa antes de ser interrompida por Kristin. Tratei logo de levantar e apressar os passos, pois a medida dos segundos os pingos aumentavam.
O céu começou a despencar encima de Nova York e eu ao menos estava na metade do caminho. Coloquei o celular entre os seios e comecei a caminhar, iria correr, mas a essa altura... seria tarde demais. Sentia o meu cabelo encharcado e exceto onde os braços tapavam o busto, a camisa estava da mesma forma. Cerrei os dentes, encabulada com o mal tempo de repente.
O vento estava ganhando força e podia ver as árvores pequenas serem quase arrastadas por ele, meu corpo congelava e pressentia que os meus lábios estavam roxos. Me encolhi um pouco mais, tremendo com mais uma rajada que passou por mim.
— Regina.
Ouvi a voz vindo do outro lado da rua, demorei um pouco para olhar naquela direção e quando fiz, Emma Swan estava atravessando, vindo de encontro a mim.
Parei de andar e esperei com que ela se aproximasse. Ela segurava um guarda-chuva preto em uma das mãos, enquanto a outra carregava um porta-copo com dois cafés. Estava de calça escura e botas, vestia uma jaqueta vermelha e tinha os cabelos coberto por um gorro cinza, me fazendo invejá-la por alguns segundos.
— O que você está fazendo no meio desse temporal? – apressou-se e esticou o braço, colocando metade do guarda-chuva sob a minha cabeça.
— Miss Swan. – fiquei sem jeito, saindo da pequena proteção. – Estava apenas caminhando... Não percebi que o tempo ia se revoltar dessa maneira.
Apressei os passos e ela me acompanhou, colocando mais uma vez o objeto sobre a minha cabeça. Ignorei dessa vez, sentindo um pouco de alívio por não receber pingos diretamente em minha face.
— E você? O que faz aqui? – perguntei trêmula.
— Café... – sorriu e mostrou-me os copos. – Caraca, você deve estar morrendo de frio! Segura aqui! – antes que eu pudesse responder ela me entregou o guarda-chuva e o café em minhas mãos. Emma rapidamente se livrou do couro avermelhado que lhe cobria, colocando-o sobre os meus ombros sem ao menos perguntar se eu aceitaria. – Toma, isso vai te aquecer até chegarmos lá.
Senti as minhas bochechas ferverem, ela recolheu as coisas que estavam em minhas mãos e continuou a caminhada, apenas com uma regata branca.
— Srta. Swan, pegue sua jaqueta. – retirei-a e a estendi, devolvendo-a. – Você também deve estar com frio. Eu não preciso, estou toda molhada... A única coisa que poderia acontecer é que ela também fique encharcada...
— Coloque, Mills. – sorriu sem me encarar, se aproximando ainda mais para que o guarda-chuva nos acolhesse. – Eu não estou com frio. Não se preocupe, tô bem assim. – senti um fio de ironia no risinho que surgiu logo após.
Revirei os olhos, mas decidi me aquecer um pouco com a jaqueta da mulher, estava realmente frio e os meus dedos estavam como uma pedra de gelo. Com os passos cada vez mais sincronizados e os corpos mais juntos, senti o ombro de Swan raspar ao meu, como uma faísca de algo estranho a encarei brevemente, notando que suas bochechas estavam como dois pimentões. Ri internamente, mas resolvi me calar e prestar atenção na chuva que vinha contra nós.
Demoramos um pouco mais de cinco minutos para cruzarmos a faixada de casa, deixei Emma para trás e logo tratei de correr até o hall, pegando a chave debaixo do tapete e destrancando a porta, sentindo um forte alívio por estar protegidas por aquelas paredes. Notei que a garota não havia entrado, olhei além da porta, vendo-a ainda sobre o gramado, segurando seu guarda-chuva.
— Emma, entre e espere a chuva passar. – tive que gritar, pois o barulho da água molhando o chão estava alto demais.
— Obrigada, mas voltarei... Aposto que terei que comprar mais café. – disse com um sorriso duvidoso e foi se afastando.
— Miss Swan, entre. – indaguei autoritária, tão pouco me importando se estávamos fora da empresa, onde não podia dar ordem funcionários.
Emma me encarou surpresa e balançou os ombros, como havia pensado que faria. Suspirei e sabia que convencê-la não seria tão fácil, mas ela havia sido gentil em me trazer até em casa e se posso analisar bem, ainda estou com a jaqueta dela em meus braços. Segui apressadamente pela porta, sentindo o corpo novamente ser tomado pelas gotas fortes.
— Eu disse para você entrar. Não te deixarei sair com esse... essa tempestade. – agarrei o seu braço por trás, fazendo ela parar de caminhar. – Venha, Swan.
— Olha não quero ser chata, mas eu só fui comprar um café, tenho meu amiguinho aqui. – apontou para o guarda-chuva e logo colocou sobre nós duas. – São apenas algumas quadras daqui. Eu me viro, dona.
— Ao menos deixe passar um pouco, não quero ser o motivo para um raio cair em você... Imagina o trabalho que seria para encontrar outra assistente nessa época? – arregalei os olhos e corri para dentro, deixando-a para trás. – E tem outra coisa, ainda estou com isso aqui. – agarrei o couro da jaqueta quando cheguei à porta. – E só vou devolvê-la se entrar e aceitar uma xícara de chá?
— Você não pode me obrigar. – retrucou de volta, encarando a veste em meus dedos. – Me devolve...
— Terá que vir buscar Emma Swan.
— Ah sério? Quantos anos você tem? – marchou brava pelo gramado.
Gargalhei e entrei, esperando ela entrar também. Quando Emma enfim tinha os pés no tabelado de madeira, me encaminhei para perto dos degraus, pressentindo que a mulher estava analisando cada canto e móvel da casa.
Já se passaram alguns anos desde que não trazia ninguém para dentro por um motivo sutil, sempre que tinha companhia, nunca ficavam no andar de baixo e sim, no meu quarto.
— Vou pegar algumas toalhas... Fique à vontade para conhecer a casa. – fechei a porta e subi depressa, deixando a loira sozinha.
Retirei aquela jaqueta assim que entrei no quarto e inevitavelmente senti o cheiro amadeirado do seu perfume, engolindo seco por estar prestando atenção em uma coisa tão banal. Recobrei a consciência e fui até o banheiro, retirei toda aquela roupa, me vesti somente com um roupão e embromei o meu cabelo com uma toalha para secar meus cabelos. Ainda sentia os dedos dos meus pés congelados.
Desci pelas escadas calmamente, procurando Emma com os olhos e com a toalha em mãos, não demorei muito para encontra-la, era de se esperar, todas as visitas gostam de analisar porta-retratos.
— São os meus pais. – disse quando vi que ela segurava uma foto dos dois. Emma a devolveu no lugar, me olhando sem jeito. – Toma, aposto que acabou se molhando também.
Ela agradeceu com a cabeça e secou os braços rapidamente, não consegui deixar de olhar, ela tinha braços delineados e fortes, bem exótico para qualquer tipo de mulher, um exótico que aflorou a mente para imaginar qual seria a outra parte de seu corpo tão bem esculpido quanto o mesmo. Sorri com a minha imaginação fértil e voltei para o mundo real quando ela perguntou:
— Eles moram aqui? Estão em casa?
— Não Swan, meus pais faleceram já tem algum tempo. – respondi sem olhá-la, ainda sentia falta dos dois.
— Oh... Oh meu deus, me desculpe. Meus pêsames.
— Tudo bem, não sei como ainda não havia descoberto... Todos naquela empresa sabem mais da minha vida do que eu mesma, as vezes. – brinquei, gargalhando e me deslocando até a cozinha, sendo seguida por Emma.
— Isso não é verdade. – respondeu depois de alguns segundos. – Eles sabem o que você deixa, o que você não esconde...
Sabia exatamente a o que Emma estaria se referindo: mulheres. Mas aquilo não era conveniente para discutir com alguém que eu conhecia ha tão pouco tempo.
— Então... Como você chegou ontem? – afrouxei um pouco o nó do roupão para que eu pudesse me esticar e pegar as coisas no armário. – O que foi? – peguei seus olhos fixos nos meus movimentos.
— Na-nada. – balançou a cabeça e disfarçou, sentando em um banco, próximo ao balcão no centro da cozinha. – Cheguei normal... E você? Depois que eu te deixei aqui? Conseguiu se virar?
— E por que não conseguiria? – olhei-a por cima dos ombros, enchendo a chaleira e colocando-a no fogo. Caminhei até o armário, peguei duas xícaras grandes e coloquei um saquinho de chá em cada uma delas. Deixei-as de lado até que a água fervesse e me sentei na frente da mulher, esperando a sua resposta.
— Olha... Você parecia estar um pouco mal...
Engoli seco, será que estava tão evidente assim?
— Talvez eu estivesse... Talvez não.
— É... – abraçou suas próprias mãos. – Sra. Mills... quem era aquela que estava com você?
— Uau... Temos uma pessoa bem curiosa aqui. – Emma corou no mesmo instante. Em parte, o escárnio era um dos meus melhores refúgios, porém falar sobre Kristin jamais me deixaria confortável e claro, me machucaria. – Era só alguém... não muito importante.
— Hum. – murmurou.
— E você? Se divertiu bastante? – mudei de assunto.
— Bem... – sorriu e ruborizou. – Digamos que eu soube levar a noite muito bem.
— Isso inclui...
— Será que a chuva já parou? – se levantou, cortando o assunto.
Sorri com isso, sinal que eu a deixava nervosa.
— Dê uma olhada... Vou ver se a água já está boa...
Emma andou até a janela do outro lado da cozinha, enquanto eu me assustei com a chaleira apitando em minhas mãos, quase me queimando. Despejei o líquido nas xícaras e deixei com que o processo natural fizesse o resto.
— Cubos ou adoçante? – perguntei, colocando apenas um cubo de açúcar no meu.
— Cubos, por favor. – voltou a se sentar.
Entreguei a bebida já adoçada para ela e me encostei no apoio da cadeira, encarando-a enquanto levava a xícara até a boca cuidadosamente.
— Preciso me apressar... A chuva parece ter diminuído. – disse, virando a porcelana com tudo. – Aí droga! Está quente!
— Mas é claro... Eu acabei de fazer. – gargalhei com a falta de atenção. – Não se preocupe, termine o seu chá tranquila que depois eu levo você de carro.
Swan negou com a cabeça e tratou de tomar com um pouco mais de cautela o restante do líquido. Colocou a xícara sobre o balcão e se levantou, esperando impaciente que eu levantasse.
— Vou pegar a sua jaqueta e a chave do carro, já volto.
~~~♥ ~~
Mesmo ouvindo suas reclamações enquanto nos dirigíamos até a garagem, prometi que a deixaria em casa como forma de agradecimento pela ajuda de mais cedo. À contra gosto a loira entrou no meu carro, visando que eu só devolveria realmente a sua jaqueta quando o destino fosse alcançado pelo automóvel.
O caminho todo foi percorrido em silêncio, exceto pelas indicações onde deveria virar ou não, mas não era tão incomodo, apenas não havia o que conversar. Uma hora ou outra nossos olhares se encontravam e sempre quando ia trocar de marcha, minha mão instantaneamente raspava em sua coxa. Fiquei envergonhada, pois aquilo tornava a juntar os nossos olhares e causar alguns arrepios em meu corpo.
— Te vejo segunda? – disse, retirando a veste vermelha e revelando apenas um sutiã preto, bem simples.
Percebi que a garota ficou estática e em parte eu gostei da maneira que ela me encarou.
— Emma... – chamei-a novamente.
— Oh-oh sim, te vejo na segunda-feira chefe.
E mais uma vez o silêncio em conjunto com uma batalha de olhares, o que quer que aquilo signifique tinha um efeito muito bom sobre mim. Mordi os lábios, sentindo a “ sádica Regina” tomar a inocência quando novamente notei ela encarar os meus seios.
— Gosta do que vê, Miss Swan? – disse em um fio de voz, mexendo os ombros delicadamente.
A garota que parecia perdida em pensamentos, simplesmente deu um pulo quando terminei de falar. Ruborizou como se estivesse sido pega em flagrante, Emma se soltou do cinto de segurança, abriu a porta e sem se despedir, saiu do carro, andando em passos apressados até o apartamento logo à frente. Observei-a até que ela entrasse, recebendo apenas um sorriso envergonhado quando foi trancá-la novamente.
Sorri para ela de volta e assim, liguei o motor do carro, seguindo para a minha casa novamente...
... Então é aqui que você mora... Emma Swan...
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