The Lamplighter Chronicles
2 1. A Federação
Notas iniciais
Podem dizer o que quiserem sobre os políticos daquela época; nada vai mudar o que penso do prefeito da minha cidade natal.
Ele cedeu o espaço de seu casarão para todos os que perderam suas casas dormirem. Aqueles que ainda estavam inseguros puderam dormir no abrigo. Pelo que disseram, o senhor Chester passou a noite inteira acordado com sua equipe pesquisando quem tinha morrido após o ataque.
O resultado foi anunciado no dia seguinte. Nos reunimos em frente à casa dele. O prefeito Chester era baixinho, então nos pediu para formarmos uma roda onde ele ficaria no meio, de forma que pudéssemos vê-lo melhor. A cidade já era pequena. Não tinha tanta gente assim.
Podem falar o que quiserem sobre os políticos daquela época nada vai mudar minha opinião sobre o meu prefeito. Porque eu posso garantir que cada lágrima que ele derramou enquanto lia os nomes dos mortos naquela manhã eram verdadeiras. Eram sofridas. Eram desesperadas.
Não tenho certeza de quantos mortos foram – mais de cem, talvez. Dara saberia. Eu só prestei atenção em dois nomes: Juan e Anna Fidellis. Para o eu de dez anos, só meus pais importavam no meio de uma multidão.
Em certo momento, Dara me chamou a atenção e indicou um amigo nosso no outro lado da roda. Saímos de nosso lugar, demos a volta e chegamos ao seu lado.
Samuel estava acompanhado do pai e ambos estavam muitos abatidos. Eu pensava que meu amigo estivesse morto; sua casa foi a que a vi explodindo. Ele tem a minha idade e nós brincávamos juntos desde bebês.
Dara lhe perguntou:
– Cadê sua mãe e seus irmãos?
Samuel tinha três irmãs, um mais velho e dois mais novos. Sua mãe era uma velha amiga de meu pai.
– Eu estava no abrigo com meu pai, checando os suplementos – Samuel disse sem tirar os olhos do chão. – Eles estavam em casa...
E começou a chorar. Eu teria o acompanhado se não tivesse decidido ser forte. Dara também, descobri, tinha decidido isso na noite passada – mas devia estar se esforçando tanto quanto eu.
O pai de Samuel permaneceu calado. Fiquei preocupado com como ele iria criar o filho que lhe sobrou depois daquele choque.
Costumávamos chamar Samuel de “Garoto de Quatro Folhas” porque ele tinha uma sorte incrível. Quando nós aprontávamos alguma, ele era o único a não ser pego, em geral por ter ido ao banheiro ou ter se escondido inconscientemente. E nós também nunca o deduramos. O Universo parecia conspirar ao seu favor.
Só que depois daquele dia, várias vezes o peguei resmungando durante a noite que preferiria ser o cara mais azarado do mundo se isso lhe devolvesse sua família. Parte disso era por saudade; a outra é porque, mais tarde, seu pai deixou de agir como pai. Mas isso já é outra história.
– As chances de outro ataque chegar aqui são altas – o prefeito continuou após se recuperar da tristeza de ler uma lista tão grande de pessoas mortas. – Por isso, está chegando um navio que nos levará para um país vizinho, fora do alcance da guerra. Lá teremos um lugar para nos reestabelecermos. Por favor, peguem suas coisas e dirijam-se ao porto; eles já devem estar chegando.
A maioria ficou aliviada e agradecida por essa oportunidade. Porém alguns murmuravam que o prefeito parecia estar fugindo da situação, e que não era certo abandonar nossa cidade. De início eu também me senti triste por ter que sair de lá. Mas não demorou muito para que eu ficasse grato pela oportunidade.
Eu e Dara – assim como a maioria da população restante – havíamos perdido tudo na explosão de nossa casa, então fomos direto para o porto. A única coisa de valor que eu carregava era o colar de minha mãe guardado em meu bolso.
Foi doloroso passar novamente pelo local onde nossos pais morreram, e depois pelos restos de nossa casa. Dara pegou em minha mão e a apertou com força. Eu retribuí. Queríamos ficar fortes para superarmos aquilo juntos.
Já quase chegando ao porto, alguém tocou em meu ombro. Era Bennet, o meu vizinho. Ele tinha quinze anos e era o garoto mais legal que eu conhecia: gentil, honesto, e ainda com uma boa aparência. Bennet era o tipo de pessoa que sorria em qualquer circunstância. Eu o admirava. Queria ser como ele.
Já ia cumprimentá-lo quando notei que ele estava sem o braço esquerdo. O som do meu “Oi” se extinguiu no ar, minha boa continuou aberta, e meus olhos travaram no vazio da manga esquerda de seu casaco. Bennet percebeu e riu de minha expressão.
– Parte da minha casa foi destruída. Um pedaço da parede caiu bem em cima do meu braço – explicou. – Papai disse que eu tinha duas opções: ou cortava o braço e sobrevivia, ou ficava ali para morrer. É claro que escolhi a primeira opção! Então ele pegou o machado e... Bem, doeu. Mas pelo menos estamos vivos.
De fato, seus pais estavam ao seu lado. Acho que é por isso que Bennet continuava sorrindo mesmo depois daquele caos. Afinal, ele tinha sido um dos únicos a conseguir sobreviver junto do pai e da mãe.
– Ouvi o pessoal da prefeitura comentando que as pessoas que estão trazendo esse navio fazem parte de uma tal de “Federação” – Bennet comentou. – Já ouviram falar?
– Não. Vai ver que só atuam no país deles – Dara opinou. – Só espero que eles nos ajudem de verdade.
– Eu acredito que eles vão nos ajudar.
Essas palavras saíram de minha boca sem que eu nem pensasse nelas; quando dei por mim, já tinha dito. Os outros dois olharam curiosos para mim. Minha irmã questionou:
– Como assim, acredita? Você nem conhece eles.
– Eu não sei. É só que... O nome me parece familiar.
Verdade: quando Bennet falou a palavra “Federação”, senti como se isso fosse algo muito próximo de mim, ainda sabendo que nunca a tinha ouvido. Até hoje acho esse efeito estranho.
Pouco depois, o porto já estava diante de nós. Aportado lá estava um navio de grande porte, mais do que o suficiente para a população inteira. Todos subimos a rampa e nos apressamos para entrar nele. Odeio dizer, mas me senti mais seguro estando a bordo do que no lugar onde cresci.
Vi algumas pessoas de branco lá. Em suas roupas estava gravado um símbolo que não conseguia ver direito. Elas estavam orientando as pessoas a subirem no navio e irem para dentro, por questões de segurança. Ninguém desobedeceu. Saímos do território de Alastron minutos depois.
Assim começou nossa viagem até Strot.
. . .
Dormi durante a viagem. Por isso não tenho uma noção exata de quanto tempo durou, mas o céu já estava escurecendo quando chegamos ao nosso objetivo.
Os condutores do navio nos guiaram até caminhonetes já reservadas e eles mesmos as assumiram. Na lateral de ambas também havia um símbolo estampado. Presumi que fosse o brasão da tal Federação.
Fomos divididos em algumas carruagens. Saímos todos juntos e chegamos em pouco tempo na sede. Lá, os mesmos condutores nos mostraram o caminho até um espaçoso auditório.
Tomamos nossos lugares sem que precisassem nos dizer nada. Segui Samuel e seu pai até a terceira fila e fiquei entre meu amigo e Dara. Todos acabamos ficando concentrados naquele meio, mesmo tendo espaço para nos espalharmos. Foi o momento em que mais senti o laço do pessoal de minha cidade.
Logo subiu ao palco mais um homem de branco. Era alto e tinha ar de autoridade. Estava sorrindo como se esperasse ansiosamente por aquela ocasião. Sua simples chegada foi o suficiente para calar todos os murmúrios.
Não precisou de microfone. Sua voz era alta o bastante para que o auditório inteiro ouvir:
– Amigos de Alastron, sejam bem vindos à Federação! Caso não saibam, esta organização surgiu no intuito de ajudar a humanidade e diminuir seus sofrimentos. Atuamos desde o ano passado quando os rumores de que uma nova guerra se iniciaria espalharam. Trabalhamos com tudo o que temos para alcançar nosso objetivo-mor: acabar com esta guerra e impedir qualquer outra, transmitindo a paz! – O homem calou-se por alguns segundos. – Perdão. Fico tão empolgado para falar de nossa organização que acabo me esquecendo de apresentar-me. Meu nome é Michel, e sou o coordenador central. Tenho uma equipe inteira ao meu lado e vocês podem perguntar o que quiserem para eles mais tarde. Mas agora, preciso dizer algo muito sério.
Seu sorriso se foi. Essa mudança brusca me deixou um pouco assustado.
– Lamentamos muito pelas perdas de todos. A Federação os ajuda oferecendo moradia, abastecimento e oportunidade de vocês ganharem seu próprio dinheiro. Porém, se desejarem permanecer aqui em nossa sede, é extremamente necessário que respondam a uma pergunta com toda a sinceridade: vocês estão dispostos a trabalhar em prol da humanidade inteira?
Os murmúrios voltaram. Fiquei confuso. Era um pergunta muito repentina.
– Sejam honestos! Não digam “sim” apenas pela moradia e comida. Isso todos receberão, nós garantimos. O que eu quero saber é se vocês desejam ficar aqui conosco e nos auxiliar nessa missão de trazer a luz de volta ao mundo!
É engraçado me lembrar desse dia porque ainda não sei o que aconteceu comigo. Tudo estava acontecendo muito rápido e tinha muita gente falando ao mesmo tempo; a pergunta de Michel atordoou a todos. Entretanto eu me levantei e disse:
– Eu! Eu quero proteger muitas vidas!
Quando dei por mim, todos olhavam em minha direção. Comecei a gaguejar de vergonha. Mas então Dara também se levantou e falou:
– Também aceito a missão!
Depois veio Samuel:
– Eu também!
Seguido por Bennet:
– Contem comigo!
E seguiu-se assim uma série de pessoas se levantando e jurando ajudar a organização. Todos se levantaram. Todos quiseram continuar juntos.
Foi a primeira vez que consegui sorrir de verdade depois da tragédia do dia anterior.
– Me enche de alegria poder presenciar este desejo ardente que cresce tão cedo em cada um de vocês! – Michel abriu um sorriso ainda maior. – Convido todos a se juntarem a nós no jantar. Sigam os moços e as moças de branco no fundo do auditório. Após a refeição, voltaremos aqui para conversarmos melhor. Até daqui a pouco!
As pessoas de branco ergueram os braços e indicaram o caminho até o refeitório. Nós nos levantamos e passamos a segui-los.
– Fiquei orgulhosa de você – Dara sussurrou ao meu ouvido. – Foi uma grande atitude.
– Não sei direito o que fiz...
– O que importa é que fez.
Ela piscou para mim e continuou andando. O dia que tinha começado péssimo estava melhorando aos poucos. E não só para mim; percebi que os outros também pareciam muito mais leves. Fiquei contente porque era como se minha iniciativa tivesse ajudado todo mundo.
Eu já estava no corredor quando senti uma mão pesada em meu ombro. Me virei: era Michel.
– Qual é o seu nome, garoto?
Levei alguns segundos para me recompor do susto.
– É Ariel. Ariel Fidellis.
– Ariel! – O sorriso dele era grande, alegre, caloroso e energizante. Eu gostava daquele sorriso. – Você demonstrou uma grande coragem ao dizer aquilo. Meus parabéns.
– Obrigado...
– Sinto muito pelo que aconteceu em sua cidade. Imagino o sofrimento de todos.
Achei difícil que ele soubesse o que se sente quando vê ossos no meio da rua e descobre que são de seus pais. Mas não disse nada. Só continuei olhando para Michel.
– A pior consequência que a guerra trás não é a destruição de um local, e sim o que ela destrói dentro de nós – prosseguiu. – Mas deixe-me dizer uma coisa...
Todos os outros já tinham saído para o refeitório. Dara apareceu correndo pelo corredor. Começou a me chamar, só que parou quando viu que Michel falava comigo. Ela ficou parada a alguns metros de distância de mim. Acho que a mudança de expressão de Michel – de um sorriso enorme para uma feição séria – também atraiu sua curiosidade pelo que ele iria dizer.
– A Federação não é um grupo que pretende espalhar esperança para o mundo. Nosso objetivo é, e sempre foi, despertar em cada um a certeza de que a esperança não está lá fora, não está em uma organização, não está em um tratado do governo! – Ele apontou seu dedo grosso para o meu peito. Seu sorriso voltou. – Queremos despertar a certeza de que a esperança está dentro de cada um de nós! Está dentro de você! E só você pode e deve fazê-la se manifestar!
Não sei o efeito que aquelas palavras fizeram em Dara. Sei que, para o eu de dez anos, era apenas uma bobeira que pacificadores diziam. Claro que a esperança estava dentro de nós. Esperança é um sentimento. Ainda assim, foram aquelas palavras que me convenceram de que estava fazendo o certo ao entrar para a Federação.
Demorou algum tempo para que eu entendesse o real significado do que Michel disse. Mas mesmo sem compreender, naquele momento soube que uma vida nova acabava de começar para nós.
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