The Lady In My Life

3 Todos os caminhos que levam a Emma Swan.


Notas iniciais
-Ártemis, suas palavras nos emocionaram. Foi muito gratificante receber a sua recomendação com apenas 3 capítulos postados e esperamos que esta fic continue te encantando e surpreendendo até o final. -Agradecemos a quem deixou review, favoritou e está acompanhando. -Adriana, meu amor, parabéns pelo nosso dia! Você foi e sempre será o maior “achado” da minha vida! Sem você do meu lado, não teria como dar prosseguimento as minhas histórias e, como algumas leitoras já disseram: se antes só com Luna era bom, agora com Dri ficou melhor ainda, rs. (Luna A.) -Boa leitura!!!

{Regina}

Após terminarmos o desjejum, David e eu subimos para o quarto e vou levando comigo o disco que Emma me emprestou. Observo que ele notou o objeto na minha mão, mas não fala nada até chegarmos ao dormitório.

–Que disco é esse, meu amor?!- indaga, curioso.

É de uma artista brasileira, muito talentosa, que, por coincidência, chamava-se alguma coisa Regina!- ­digo, pois ainda tenho dúvida quanto a pronúncia do primeiro nome.- Sua irmã estava ouvindo na biblioteca mais cedo e fiquei encantada. Então pedi emprestado para conhecer melhor o trabalho dela.- explico, sorrindo, relembrando a conversa que tive com Emma há alguns instantes.

Muito conveniente Eric estar ouvindo justamente o disco de uma cantora que tem o mesmo nome que você! Parece uma artimanha para puxar conversa contigo!- diz, aborrecido.

Ela estava ouvindo o disco de outra cantora, também brasileira, e eu que me interessei por ouvir outras músicas de artistas desta nacionalidade, pois você sabe que tenho uma simpatia pela cultura daquele país.- falo, ocultando alguns detalhes para não dar argumentos para a mente desconfiada dele.

– Ah, “ele” ainda está com essa fixação pelo Brasil?! Pensei que já tinha superado o pé-na-bunda que levou da brasileira sensata que o rejeitou!- fala, sardônico.

Você não se cansa de ser cruel com a sua própria irmã?- questiono, exasperada.

Não estou sendo cruel, essa é apenas a realidade dos fatos! “Ele” foi para o Brasil cheio de esperanças, crente que tinha encontrado outra pervertida, como a tal de Belle, que aceitaria namorar um travesti.- sublinha, cinicamente, e isso é a gota d’água para mim.

– Já chega David!- digo, num tom de voz alterado.- Acho que já ouvi o que podia suportar de preconceitos e falta de respeito vindos de você em relação a Emma.- prossigo, irada.- Ou você começa a tratá-la com a consideração e a dignidade que ela merece, ou hoje mesmo voltarei para Nova York e nosso relacionamento termina aqui.- concluo, guardando o disco na minha mala e passando as mãos pelos cabelos nervosamente.

– Você vai terminar comigo por causa dela?!- indaga, usando, pela primeira vez, desde que chegamos, o pronome feminino para referir-se à irmã e noto insegurança e preocupação em sua voz.

Não, David! Se eu realmente vier a terminar contigo, será porque estou descobrindo o quão reacionário e até mesmo desumano você é!- afirmo, gesticulando com as mãos.- Porque o fato da sua irmã ser transexual, não lhe dá o direito, aliás, nem a você, nem a ninguém, de tratá-la desta forma vil e grosseira, para não dizer estúpida e ignorante. Você como irmão deveria entendê-la e apoiá-la, pois já há uma sociedade opressora e castradora para julgá-la. — concluo, encarando-o severamente.

Você não entende! Para mim é muito complicado assimilar que uma pessoa que veste roupas femininas, coloca seios, tem longos cabelos dourados, mas ao contrário do que se pode esperar, ainda preserva o pênis.- responde, num tom mais brando. — Se ela se vê como mulher, por que desistiu de fazer a mudança total de sexo? Isso, para mim, é o que caracteriza a perversão.- finaliza.

Quem não entende é você! Os motivos que levaram a sua irmã a ser como é, só dizem respeito a ela. Isso faz parte da intimidade indevassável* do ser humano e define a identidade de Emma.- sublinho de forma eloquente.

Ele fica me encarando em silêncio por algum tempo, como se estivesse refletindo sobre o que acabei de dizer:- Tudo bem, Regina! Sei que às vezes passo um pouco dos limites com ela, porém na maior parte das vezes não ajo assim. Só que tenho percebido que desde que chegamos aqui, Emma procura todos os motivos para se aproximar de você e isso me irrita.- fala, fazendo bico.

Sorrio, ironicamente, ao perceber que David está tentando virar o jogo ao seu favor. Invertendo o papel de irmão preconceituoso para namorado ciumento.

David, poupe-me de suas infantilidades!- digo, passando por ele, que fica olhando-me atônito, e saindo do quarto, uma vez que não estou a fim de sua companhia nos próximos minutos.

***

Depois que deixei meu namorado sozinho, fui para a área externa da mansão. Fiquei andando a esmo até me deparar com uma construção no meio do jardim que me chamou a atenção.

Por fora, parece um tipo de estúdio ou pode ser simplesmente um refúgio de algum dos moradores da casa principal.

Ao me aproximar, vejo, pela janela, Emma muito concentrada, aparentemente desenhando algo, inclinada sobre uma mesa, modelo arquiteto.

Ela está com o cabelo preso num coque alto e alguns fios caem pelo seu rosto. Usa um suéter branco, folgado e longo, e uma saia preta, um pouco acima dos joelhos.

Por um instante me pego admirando o belo perfil daquela mulher e noto que possui lindas pernas, além de um bumbum bem definido. Dou-me conta do rumo que meus pensamentos estão seguindo e sacudo a cabeça para afastá-los.

Abro a porta e ela não percebeu ainda a minha presença:- Parece que todos os caminhos me levam até você!- digo, sorrindo.

Emma se assusta e vira-se rapidamente, no entanto, após o susto momentâneo, dedica-me um lindo sorriso:- Talvez eu seja como a Roma antiga, com infinitas estradas ao meu redor!- fala, divertida, fazendo alusão ao velho ditado.

É impressionante como eu me sinto confortável perto dela e parece que nossa sintonia fica cada vez mais evidente:- Sei que você já deve estar me achando uma enxerida, todavia, como parece que vamos ser amigas, devo lhe alertar que sou bastante curiosa.- esclareço, chegando perto da mesa e olhando o croqui** que ela está fazendo.

Deixe-me adivinhar sua profissão: Arquiteta ou Engenheira!?- questiono, zombeteira, olhando dela para a mesa.

Na prática, nem uma coisa, nem outra!- diz, com seu tom misterioso.- Sou Arquiteta por formação, porém, dedico-me ao Design de interiores e ao Paisagismo desde que comecei a trabalhar na área.- explica.

Vamos marcar mais um ponto na nossa lista de afinidades: também pensei em ser arquiteta, antes de me decidir pela psicologia.- esclareço, brincalhona.

E por que o mundo perdeu uma possível brilhante arquiteta?- indaga e sorrio com seu jeito galanteador.

Não sei se a arquitetura perdeu uma brilhante profissional, ou a psicologia ganhou uma dedicada especialista.- falo, reflexiva.

Olhando para você, não diria que é tão modesta.- diz, zombeteira.

Como assim?- questiono, curiosa.

Sou uma pessoa muito observadora e desde o primeiro momento que te vi, imaginei alguns adjetivos para defini-la e modesta não estava entre eles.- explica, encarando-me com seu par de esmeraldas.

E posso saber quais adjetivos a senhorita imaginou para mim?!- continuo questionando e percebo que estamos flertando uma com a outra, mas não consigo resistir a essa atmosfera que nos envolve.

Altiva, elegante, inteligente, confiante, sensata, bonita e...- interrompe o rosário de elogios para refletir e, por fim, acrescenta- atraente!- noto que ao pronunciar essa última palavra, seu tom de voz sofreu uma pequena variação, todavia não consigo entender o que isso denota.

Ficamos nos encarando, em silêncio, por alguns segundos, até que “Snow”, a gatinha branca de Emma, pula sobre a mesa, derrubando as canetas que estavam em cima do móvel e nos tirando do transe em que permanecemos no que pareceu ser uma eternidade.

–Snow, sua gata levada, já disse para você não entrar aqui, quando eu estiver trabalhando. Porque sempre perco algum material depois das suas desastrosas visitas.- Emma diz, tirando-a de cima da mesa com cuidado e cheirando a felina com carinho.

Depois deste “incidente” ficamos conversando amenidades e, dali a pouco, somos interrompidas novamente, desta vez pela mãe dela.

Eric, meu amor, você já terminou o projeto de Gertrude Cohen? Pois ela não para de me ligar e já estou perdendo a paciência.- Margaret diz, com seu habitual jeito aristocrático, chamando Emma, de novo, por seu nome de batismo.

Terminei, mamãe! Mas ainda não tive tempo de levá-lo, porque a senhora sabe como ela é: adora sugerir alterações de última hora e preciso ir pessoalmente para tomar nota de suas exigências.- Emma explica, sem parecer ficar perturbada com o fato da mãe chamá-la de Eric.

(M)-Ok! Vou dizer a ela que você vai lá na semana que vem, para mostrar-lhe o projeto, pois só assim ela para de ligar três vezes ao dia para perguntar sobre isso. – ela anuncia e sai, deixando-nos a sós novamente e não consigo refrear o impulso de perguntar-lhe como consegue continuar morando com a mãe, mesmo Margaret tratando-a desta forma.

Desculpe-me, novamente pela indiscrição, porém, desde ontem à noite durante o jantar, fiquei com vontade de perguntar-lhe algo muito particular.- digo.

Olha-me de maneira compreensiva e afirma, sorridente:- Faço uma ideia do que seja!

Por que você continua morando com a sua mãe, uma vez que ela claramente não aceita ou não procura entender sua identidade de gênero?- indago, séria.

É uma situação muito incômoda e acho até que disfarço muito pouco meu desconforto e, por isso mesmo, há alguns anos, tentei ir embora. Cheguei a alugar um loft num bairro afastado daqui e avisei somente ao meu pai e a Jefferson, onde poderiam me encontrar. – faz uma pausa.- Só que quando descobriu que eu havia ido embora, ela conseguiu arrancar de Jeff o meu endereço e foi até lá. Fez uma cena digna de uma mãe superprotetora, armando um escarcéu no corredor, quando me recusei a recebê-la. Disse que não conhecia Emma, porém eu sempre seria seu amado e carinhoso filho Eric, e que se eu não voltasse para casa, ia acampar na porta do apartamento até eu sair.- esclarece e noto que está se divertindo, recordando esse momento de sua vida.

Então, preferi voltar para cá, porque apesar de tudo eu a amo e sei que não posso esperar que todas as pessoas ao meu redor entendam e aceitem quem eu sou. No final, tudo isso serviu para me fortalecer, já que como tenho que enfrentar o preconceito dentro do meu próprio lar, acabei criando mais coragem para encarar o mundo de frente.- explica e minha admiração por Emma só aumenta.

–Não consigo imaginar sua mãe protagonizando essa cena que acabou de relatar.- esclareço, sorrindo para ela.

De fato, na maior parte do tempo, ela é essa mulher refinada, aristocrática e até um pouco fria. No entanto, quando o assunto são seus filhos, minha mãe perde um pouco a compostura e assume o papel de genitora louca pelas crias.- fala, devolvendo o riso.

Após conversamos mais sobre a complexidade da relação entre mães e filhos, voltamos à mansão para almoçarmos na companhia dos outros ocupantes da residência.

Ao entramos juntas na sala, David nos encara com expressão contrariada, todavia, não diz mais nenhuma grosseria com relação à irmã, nem naquele momento, nem durante o resto de nossa visita.

***

Já faz quatro dias que voltamos para Nova York e para a rotina dos nossos trabalhos.

Neste período, não falei com Emma, apesar de termos trocado telefone, mas já me peguei, várias vezes, olhando para seu nome na minha agenda, pensando em algum motivo que pudesse justificar uma possível ligação.

Contudo, não encontrei nenhum que parecesse crível. Então, passei a esperar que Emma pensasse em algum e, assim, me ligasse.

Estou no consultório e enquanto atendo a quinta paciente do dia, meus pensamentos, vez ou outra, se dispersam e sorrio sozinha, recordando de algum trecho das nossas instrutivas conversas.

Retiro os óculos, colocando-os sobre as anotações, e fico feliz que a jovem que estou atendendo, esteja deitada no divã e não perceba as minhas distrações.

Depois que atendi o último paciente, um soldado que até recentemente esteve combatendo na Guerra do Iraque, saio da clínica e vou até o meu Mercedes, que está no estacionamento.

Dirigindo por Manhattan, passo pela rua conhecida como Little Brazil e paro em frente a uma loja de discos.

Decido entrar no local para ver alguns álbuns e, quem sabe, aumentar meu acervo de artistas brasileiros, pois já quase arranhei o vinil que Emma me emprestou de tanto que gostei dos arranjos das músicas e sei que se ela souber disso, provavelmente irá querer me matar, uma vez que me recomendou zelo e cuidado no manuseio da sua “relíquia”.

Entro na loja e meus ouvidos são seduzidos pela suave melodia*** de uma canção e mesmo não compreendendo o que está sendo cantado, tenho a impressão que tem uma letra belíssima. Imagino que as pessoas que não entendem inglês, devem sentir-se exatamente assim ao ouvir “Unforgettable” de Nat King Cole pela primeira vez.

Conversando com o vendedor, consigo descobrir qual o CD que contém a bela música que ouvi ao entrar na loja e resolvo comprá-lo, assim como outros que ele me indica.

Quando já estou em casa, preparando o meu jantar, escutando um dos álbuns que comprei, ouço o bip do meu celular e o pego. Um sorriso brota instantaneamente no meu rosto ao ver o nome de Emma aparecendo na tela.

“Olá! Está tudo bem com você?”

E. Swan

O texto é sucinto, mas não sei por que, ao visualizá-lo tenho uma sensação muito boa e digito a resposta sentindo-me radiante.

(Alguns minutos antes...)

{Emma}

Estou olhando o quadro de Portinari, lembrando-me de Regina. Desde que foi embora, não passei um dia sequer sem pensar nas conversas que tivemos, e se não fossem a minha insegurança e timidez, já teria ligado para ela.

Ravenna e Snow, para variar, estão perto de mim, quando enfim, decido mandar-lhe uma mensagem. Olho para as duas e questiono:- O que eu escrevo?

Elas me encaram com ar de indiferença e passam a lamber as patas de forma displicente:- Vocês não são de muita ajuda!- digo, sorrindo para minhas gatinhas.

Depois de apagar o texto inúmeras vezes, por não saber exatamente o que escrever, decido por enviar talvez a coisa mais idiota que pensei, porém, por ser mais impessoal, parece ser a adequada.

Após enviá-la, fico apreensiva esperando a resposta, que não demora muito a chegar.

“Estou bem! Ouvindo uma boa música brasileira, enquanto preparo uma deliciosa lasanha. E você, o que está fazendo?”

R.Mills

Fico feliz com a sua resposta e, ao mesmo tempo em que penso na próxima mensagem que irei escrever, reflito que conhecer Regina Mills está se tornando uma experiência fascinante e fico imaginando a cena que ela acabou de me descrever, supondo que deve ser muito encantador contemplá-la enquanto ela prepara o jantar.

Notas finais
* Indevassável: que não se consegue penetrar e/ou observar. Privado. ** Croqui: Esboço de uma representação paisagística. *** A música que Regina escuta quando entra na loja é essa: O Medo de Amar é o Medo de Ser Livre (Beto Guedes): http://www.youtube.com/watch?v=POgMvToR4-s - Unforgettable (Nat K. Cole): http://www.youtube.com/watch?v=vDN5rG3wLa4 - Até o próximo!