The Lady In My Life
33 Meu final feliz com Emma Swan Mills.
Notas iniciais
[Maio de 2023 – Em Boston]
{Regina}
Ontem à noite, Emma e eu estávamos assistindo a um filme, e não preciso mais dizer o quanto gostamos de fazer isso juntas, não é? É uma das nossas “coisas de casal” preferida. Um desses hábitos simples e comuns que, mesmo com a chegada dos gêmeos, não deixamos de ter.
Mas, enfim, em um determinado momento, a protagonista do filme, Frances, dividia a cena com outros personagens e a câmera se focava exclusivamente nela. Então, a jovem começou um monólogo sobre o que considerava um momento perfeito em um relacionamento:
"É uma coisa quando você tá com alguém e você ama a pessoa e vocês sabem disso. Vocês estão juntos, mas é uma festa, sabe? Os dois estão conversando com pessoas diferentes. Você tá lá sorrindo e olha para o outro lado da sala e vocês trocam olhares. Mas não porque são possessivos ou porque seja algo sexual, mas apenas porque aquela é a pessoa da sua vida. E isso é engraçado e triste, mas só porque está vida vai terminar. E é esse mundo secreto que existe bem ali em público, mas imperceptível, que ninguém vai ficar sabendo*"
E eu sorri ao ouvir esse monólogo. Sorri porque me lembrou de uma coisa que eu escutei Zelena dizer certa vez, sobre Emma e eu:
— Às vezes, tenho inveja de vocês duas! — minha irmã revelou na época — Inveja dessa conexão cósmica que parece existir entre vocês, como se, mesmo em silêncio, conseguissem se comunicar através do olhar, por uma linguagem própria que só as duas são capazes de compreender. — Concluíra, e eu não tive como reprimir aquela expressão orgulhosa que certas vezes estampa nossa cara sem que a gente planeje fazer isso.
Zel, obviamente, não gostou da minha reação e me acusou de ser uma “apaixonada soberba”. Mas, como eu poderia reagir de uma forma diferente naquele momento, se também sinto que entre minha esposa e eu existe essa ligação imaterial? E é até raro que hoje eu pense assim, porque nunca fui de acreditar em “lances” espirituais.
Não acreditava em almas gêmeas. Não acreditava em astrologia, muito menos em sinastrias amorosas. Mas, depois de Emma, já me peguei até lendo a compatibilidade dos nossos signos. Porém, após descobrir que Gêmeos (eu) e Peixes (ela) “vibram em sintonias distintas, que somos instáveis e volúveis e, se houver atração entre ambos, pode ser apenas por alguns dias”, decidi que certas coisas realmente não fazem o menor sentido, ou então a nossa ligação tem uma explicação mais racional, já que como opostos astrológicos não nos atraímos, como pessoas dispostas nos completamos.
Ainda pensando nisso, entro em casa e logo vejo Emma sentada na mesa da sala com Rachel no seu colo e Noah na cadeira mais próxima. Desde cedo, quando saí para o trabalho, já os deixei assim, fazendo uma tarefa da escola dos gêmeos sobre nossa família.
Encosto-me no vão da porta e fico admirando esse momento familiar protagonizado pelas três pessoas que mais amo em todo o universo, sem anunciar que cheguei. E por estarem tão envolvidos no que fazem, eles não percebem minha presença ali.
— Mãe, por que ‘vó Cora nunca vem aqui nos visitar? – Noah questiona, sem tirar os olhos da folha colocada a sua frente e vejo-o usando um lápis de colorir para pintar algo nela.
— Porque ‘vó Cora e eu discutimos há alguns anos, antes de vocês nascerem – intrometo-me na conversa ao perceber que Emma ficou tensa com o questionamento do nosso menino e sem saber como respondê-lo.
Ela olha para mim, a princípio assustada e surpresa, provavelmente por eu já estar em casa e, logo em seguida, aliviada, pois eu voltei bem a tempo de livrá-la de uma saia-justa.
Aproximo-me dos três e os gêmeos me mostram, animados, o que já fizeram, demonstrando muita euforia por Emma estar ensinando-os a desenhar.
Beijo o topo da cabeça deles e a boca da minha mulher.
— Por que vocês discutiram? – Noah insiste no tema, ainda não satisfeito com a resposta que lhe dei. Como eu, ele pode ser extremamente curioso.
— Porque, às vezes, pessoas de uma mesma família podem ter opiniões diferentes sobre alguns assuntos. E a avó de vocês e eu, geralmente, não concordamos com quase nada – decido ser bem direta com eles, pois, apesar de ter pouco mais de sete anos, Noah e Rachel são muito sensitivos e, como a maioria das crianças, não gostam de ser tratados feito tolos — Mas não se preocupem, porque meu problema com Cora não tem nada a ver com vocês – acrescento, alisando o cabelo loiro dele — Apenas achamos melhor nos distanciarmos para não continuar nos magoando e, se um dia, ela quiser vir aqui, a trataremos muito bem, como tenho certeza que ela faz quando tia Zelena leva vocês para visitá-la, não é? – Inquiro, referindo-me as duas ocasiões que eles foram com a tia até Nova Iorque.
— É! – Rachel é quem responde, parecendo agora mais interessada na conversa do que o irmão que se distrai com o que desenha — Vovó uma vez disse a tia Zelena que eu sou muito bonita e que me pareço com “aquela mulher” – comenta, olhando de mim para Emma que prende os lábios, evitando sorrir com a forma como minha mãe ainda a menciona — Quem é “aquela mulher”, mamãe? – minha princesa me sonda, como se tivesse me testando para saber se tenho intenção de lhe esconder a verdade.
— “Aquela mulher”, sou eu, meu amor! – é a vez de Emma se antecipar a mim, começando a explicar — Lembra quando conversamos com vocês sobre o fato de algumas pessoas não entenderem que duas mulheres ou dois homens podem também se apaixonar e formar uma família? – Rachel assente com a cabeça, muito atenta ao que a mãe diz — Então... Infelizmente, a avó de vocês é uma dessas pessoas! Ela não ficou muito satisfeita quando sua mãe se apaixonou por mim – os olhos verdes de Rachel descem até o chão e fico com o coração apertado, pois sei que ela está triste em saber que a avó não gosta da sua mãe — Ei, mas você não se lembra também que falamos sobre não ficarmos tristes com essas coisas? –Emma toca o queixo da nossa pequena, fazendo-a erguer a cabeça e os olhinhos marejados — Sua avó, mesmo que pelos motivos errados, tem o direito de não gostar de mim. Mas eu sei que ela ama vocês – diz, olhando de Noah, que parou de desenhar, para Rachel — E vocês são uma parte minha, o que significa que lá “no fundo” – Emma continua, apontando para o coração de nossa menina — Ela deve gostar um pouquinho de mim! – e eles ficam felizes com o comentário dela. Até eu sou contagiada por sua atitude positiva e também deixo escapar um meio sorriso.
— Mãe, eu pensei que ‘vó não gostava de você porque você é transexual! – Noah revela e nossos olhares se voltam para ele, e não sei quem está mais assombrada: se sou eu ou se é ela. Pelo visto, nosso príncipe não estava tão alheio assim à conversa, como eu erradamente havia imaginado.
— Por que você achou isso, meu amor? – ela o questiona, antes de olhar para mim, aparentemente buscando uma explicação para o fato do nosso filho de 7 anos já estar a par de algo que ainda não tínhamos conversado com ele nem com Rachel.
Demonstro com o olhar que estou tão perdida quanto ela e, mais uma vez, a voz de Noah quebra o silêncio da casa: — Um dia, eu ‘tava passando pela biblioteca e escutei tia Zel dizer que já estava na hora de vovó deixar de besteira e entender que mãe era uma mulher transexual – esclarece — Mas eu não ‘tava ouvindo atrás da porta! – acrescenta, olhando receoso para nós duas, muito provavelmente assustado pela forma como reagimos ao seu comentário, imaginando que, pela nossa expressão, estamos zangadas com ele.
— Tudo bem, meu amor, não pensamos que você estivesse ouvindo atrás da porta – Emma diz, suavizando a expressão assustada e fazendo um carinho no rosto dele— Só ficamos surpresas com o seu comentário, pois nunca falamos sobre isso com vocês – continua e posso sentir a sua insegurança ao falar pela primeira vez com nossos filhos acerca desse detalhe tão íntimo de sua vida — Aliás, eu nem sei se vocês entendem o que é ser uma mulher transexual ... seus olhos verdes vagueiam entre os gêmeos e eu, e entendo que ela está buscando meu apoio para desenvolver o assunto, já que fomos pegas de surpresa.
— Eu sei sim! – exclama, bastante empolgado — Henry explicou para mim e para Rachel que uma pessoa transexual é alguém que nasce num corpo diferente e precisa mudar para ser feliz! – Noah diz e nos entreolhamos, visivelmente emocionadas.
— Mas, como a gente ainda não tinha entendido muito bem – Rachel se junta à conversa, falando num tom doce — Ele explicou que uma pessoa transexual é como uma lagarta presa num casulo: ela precisa quebrar a casca e mudar sua forma para conseguir ficar tão bonita e poder viver – e não poderíamos estar mais felizes por termos contratado Henry Duck Millstone para ser o babá dos nossos precoces bêbes.
— E a gente entendeu: porque você parece uma borboleta linda e feliz! – Noah conclui, olhando carinhosamente para a mãe.
Emma, que já não controla as lágrimas, se inclina e o traz para mais perto dela, beijando-os alternadamente no rosto e na cabeça e me junto aos três, envolvendo-os no círculo protetor dos meus braços, amando mais do que nunca a mulher e os filhos maravilhosos com os quais fui abençoada.
— Acho que já está na hora de vocês irem tomar banho! – menciono, infelizmente tendo que interromper esse momento mágico.
Os gêmeos resmungam que ainda precisam terminar o trabalho e digo-lhes que eles podem fazer isso depois do jantar. Meio a contragosto, os dois nos deixam a sós na sala e passo as mãos pelos cabelos sedosos e loiros dela.
— Não esperava por isso hoje... começa, fungando — Na realidade, eu imaginava que só falaríamos sobre minha transexualidade quando eles perguntassem como nasceram... acrescenta, com ar divertido.
Sento-me em seu colo e Emma me abraça, encarando-me profundamente com seus olhos verdes escuros: — Mas foi bom que isso acontecesse, porque talvez eles nunca tivessem a curiosidade de perguntar como nasceram – observo, sorrindo — As crianças de hoje não seguem mais o roteiro das de antes, há coisas que elas simplesmente intuem – pondero, pensando que mesmo a passos de formiga, a sociedade evolui e é bom viver numa época, onde, apesar de ainda existir certo melindre, já é permitido que crianças possam conviver com a diversidade do mundo.
— Você tem razão! – diz, encostando a testa na minha e me apertando ainda mais em seus braços — Não queria que, depois, eles imaginassem que eu tinha algo a esconder – confessa seu temor — E que bom que tudo aconteceu de uma maneira tão natural, não é, esposa “daquela mulher”? – adiciona, trazendo novamente à tona o assunto que gerou toda essa conversa reveladora com nossos filhos.
Sorrio.
— Você ainda se importa com as bobagens de Cora Mills? – pergunto, passando os braços em torno dos ombros dela, prestes a beijá-la.
— Óbvio que não! – responde, dando um casto beijo na ponta do meu nariz — Até porque é como já dizia Jorge Maravilha: ela não gosta de mim, mas a filha dela gosta! – exclama, num tom malicioso.
Não tenho muita certeza, mas acho que ela está parafraseando alguma música de Chico Buarque, porém, o mais importante é que não poderia ter escolhido uma referência melhor, porque a filha de Cora Mills não apenas gosta, como é completamente louca e apaixonada por essa bela borboleta que atende pelo nome de Emma.
***
Estamos no salão de eventos onde se realiza a cerimônia de entrega do prêmio “Profissional do Ano”, oferecido pela Prefeitura de Boston para as mulheres que se destacaram em suas áreas de atuação nos últimos doze meses. O fato de a cidade onde moramos reconhecer o talento das mulheres nos mais diversos setores, já seria um bom motivo para Emma e eu estarmos aqui. No entanto, há uma razão mais especial: ela foi indicada ao prêmio, pelo trabalho arquitetônico de revitalização de um parque que fica próximo à nossa casa. A obra foi considerada modelo por sua preocupação ambiental e pelo impacto positivo na comunidade, além de ter sido uma ação totalmente voluntária da parte dela.
Antes de a ganhadora ser anunciada, foram apresentadas palestras e discussões sobre a inserção da mulher no mercado de trabalho, assim como sobre o seu papel na atual sociedade, temas bastante pertinentes à motivação do evento.
Enquanto tudo isso acontece, fico pensando na grande repercussão que a indicação de Emma ao prêmio teve em nossas vidas, em um curto espaço de tempo.
Uma semana antes, minha esposa foi entrevistada, juntamente com a Dra. Emily Foston, da área de Direito, a bióloga Verônica Smith e a obstetra Caroline Morris, uma vez que por haver mais de vinte concorrentes no total, elas foram sabatinadas em grupos de quatro, por uma emissora local. Até aí tudo bem, nada que não pudesse ser tirado de letra por Emma.
O problema deu-se, quando após a entrevista ser exibida, algumas pessoas a reconheceram como uma ex-triatleta, que foi impedida de competir profissionalmente por ser transexual. Então começou a polêmica: alguns deles, com ânimos mais exaltados, passaram a fazer campanha contra a indicação de Emma ao prêmio nas mídias sociais, enviando mensagens raivosas aos organizadores do evento exigindo a sua desclassificação, por não considerá-la uma mulher.
Mesmo com toda essa enxurrada de críticas negativas, os responsáveis decidiram pela permanência da minha esposa na disputa e confesso que isso, por um momento, me preocupou bastante. Então, conversei com ela e expus o meu receio, até aconselhando-a a abrir mão ou não ir à cerimônia. Tinha medo que algo de ruim pudesse acontecer. Imaginava um protesto feroz na porta da casa de eventos, tentativa de agressão, nós e nossos filhos tendo que ser escoltados pela polícia e coisas assim e não queria ver os amores da minha vida expostos a essa violência gratuita.
Mas Emma quis vir, quis enfrentar tudo. Disse que não podia mais se esconder, ficar invisível, que precisava se mostrar, porque abrir mão seria dizer que todas aquelas pessoas estavam certas e que ela não merecia estar aqui. E, diante de um argumento tão profundo e sensato, só me restava apoiá-la em sua decisão.
Felizmente, o que eu temia não aconteceu. Os revoltosos da internet eram apenas aquelas pessoas que, hoje em dia, são muito comuns: um bando de gente que só sabe “vociferar” no meio virtual, valendo-se muitas vezes da falsa sensação de anonimato, para ofender e proferir seus discursos de ódio contra quem, muitas vezes, nem conhece.
Desde o momento em que chegamos aqui, nada de grave aconteceu e, agora, estamos reunidos, Emma, eu, os gêmeos, Margaret, Constance, James, Ruby, Jefferson, Tinker e Spencer numa grande mesa, bem próxima do palco onde acontecerá a premiação.
Quando a mestre de cerimônia sobe ao palco, já trazendo em mãos o envelope com o nome da vencedora, o silêncio paira no salão e a expectativa dentro de mim só aumenta. Seguro na mão da minha mulher, numa tentativa de lhe transmitir confiança e carinho. Noto que ela parece calma e, independente do resultado, deve estar feliz não apenas por ter sido lembrada para uma premiação tão importante, como também por não ter se deixado intimidar pelo ódio gratuito de algumas pessoas e hoje estar aqui, no lugar que merece ocupar tanto quanto qualquer uma das outras mulheres com quem está concorrendo.
No momento que o nome de Emma Swan Mills é anunciado como o da vencedora da noite, nos levantamos para aplaudi-la de pé e, antes de subir ao palco, ela inesperadamente me beija, deixando-me ainda mais entusiasmada com sua vitória.
Todavia, não deixo de notar que os aplausos das outras pessoas na plateia são mais contidos e imagino que, alguns deles, talvez façam coro com os raivosos da internet e não tenham gostado muito da escolha do júri.
A mestre de cerimônia entrega-lhe a comenda, em formato de um perfil feminino esculpido em prata, e se afasta, permitindo que ela se aproxime do microfone para discursar.
Emma olha para o prêmio em suas mãos e depois para toda sua família, que permanece de pé, emocionada, à espera de seu pronunciamento:
— Depois de tudo que eu li e ouvi sobre a minha indicação para esse prêmio, poderia não ter vindo aqui hoje — sua voz vacila um pouco — Foram coisas duras de assimilar, principalmente para alguém que se dedica tanto ao trabalho que faz – pausa— Diminuíram o valor do meu esforço, porque estavam focados em apenas um detalhe da minha vida pessoal, que nem deveria ser levado em consideração nesse contexto. Diante de tudo isso, devo dizer que só subi ao palco para receber este prêmio, porque apesar de qualquer coisa que possa ser dita em contrário, eu sei que tenho direito a ele, pois sou mulher e sou uma profissional competente e dedicada, portanto, atendo aos requisitos para disputá-lo e agradeço àqueles que tiveram a coragem de votar no meu trabalho, mesmo diante de tantas críticas – a vacilação inicial é substituída por uma crescente onda de confiança e acredito que não apenas eu, como todas as pessoas nesse salão estão com os olhos vidrados nela — Estou de fato muito agradecida, embora esta não tenha sido minha maior motivação para comparecer ao evento, mas sim a possibilidade de poder falar e a oportunidade de dar voz às mulheres transexuais deste país, sobretudo àquelas que, muito mais do que eu, sofrem com esse abuso todos os dias, não sendo vistas pelo que são, mas sim pelo que não querem ser – sinto um nó se formar em minha garganta e meus olhos já queimam, prenunciando o choro que não tardará a chegar — Como nasci rica, pude pagar por tudo aquilo que fizesse com que as pessoas vissem em mim o que eu queria. Se eu não me apresentar como uma mulher trans, ninguém percebe. Isso mostra o quanto todo esse preconceito é uma bobagem – eu vejo minha esposa se agigantar ainda mais diante de todos nós — Se ao ser entrevistada, algumas pessoas não tivessem me reconhecido como uma ex-triatleta impedida de competir por ser transgênero, Emma Swan Mills seria apenas mais uma mulher aqui esta noite. Talvez recebesse o prêmio, talvez não, mas com certeza voltaria feliz para casa com sua esposa e filhos, como pretende fazer logo mais – enquanto fala, seu olhar relanceia pelo salão, até se encontrar com o meu e, quando pronuncia a última frase, sinto o gosto salgado das lágrimas molhando meus lábios que se abrem num ato de felicidade, amor e admiração por essa linda mulher — No entanto, eu tinha que me mostrar e sair desse anonimato confortável. Porque se vim hoje aqui foi para dizer a todas as trans que possam me ouvir: nós somos mulheres sim, pois temos o direito e a coragem de ser, e ninguém pode nos tirar isso. Dedico esse prêmio a vocês. Muito obrigada!
Depois que ela termina de falar não apenas sua família, mas algumas outras pessoas que antes pareciam relutantes em aplaudi-la, erguem-se aos poucos de suas cadeiras para ovacioná-la de pé e só me dou conta disso quando Emma está mais uma vez ao meu lado, abraçando a mim e aos nossos filhos. E não demora muito para que seus pais, seu irmão, cunhada, madrastas e sobrinha se unam a nós, nesse imenso e caloroso abraço coletivo.
***
[Março de 2029 – Em Bonita Springs, Flórida]
{Regina}
Aos poucos, abro os olhos e vejo os pequenos raios de luz dourados bailando sobre a cama que divido com Emma há quase uma semana numa bonita e aconchegante casa à beira-mar que alugamos com a intenção de passarmos nossa segunda lua-de-mel.
Ontem, 1º de março, ela completou 50 anos, dos quais 15 foram compartilhados comigo.
Fico de lado e apoio a cabeça na mão para observá-la melhor e a vejo ressonar baixinho. Seus cabelos, outrora loiros, agora tem um tom platinado, que a deixa tão parecida com a mãe, que ficou responsável por cuidar dos netos, que agora tem 14 anos, mas, apesar de já serem adolescentes, adoram passar um tempo com suas duas avós, que por sua vez não cansam de mimá-los.
Volto minha atenção para Emma, notando as pequenas marcas de expressão em seu rosto que denunciam o amadurecimento, porém lhe emprestam um ar ainda mais etéreo, dando-me a impressão que nada, nem mesmo a velhice, será capaz de comprometer a beleza natural da minha mulher.
Como se pressentisse que eu vigio seu sono, ela se mexe na cama e, devagar, abre as espessas pestanas, soltando um vagaroso e bonito sorriso ao me encontrar já desperta.
— Bom dia, minha esposa! – murmura, a voz enrouquecida e letárgica, enquanto se estica, fazendo o lençol descer e revelando seu corpo ainda tão vigoroso.
— Bom dia, meu amor! – respondo, aproximando-me mais e me atando a ela.
Vê-la assim tão linda e relaxada me provoca o mesmo efeito de 15 anos atrás: sinto meu corpo crepitar de desejo e anseio pelo seu toque delicadamente selvagem; quero sentir seu corpo todo pegado ao meu, esfregando-se em mim, molhando-me de suor, preenchendo-me inteira... E, depois, quando eu já estiver morta, exausta de cansaço, quero que ela me acolha e me deixe repousar no abrigo de seus braços.
Sem dar oportunidade para que Emma saía da cama, subo em cima dela e busco o contato dos nossos lábios. Já tem algum tempo que não fazemos amor e, por mais que eu entenda que os anos tendem a esfriar o ímpeto de um casal apaixonado, não precisamos eludir completamente o sexo, simplesmente porque hoje somos duas mulheres de meia-idade.
— Hum... Que fogo é esse, meu amor? – pergunta-me, quando solto seus lábios e ataco-lhe o pescoço, esfregando-me nela.
— O fogo de sempre! – respondo, sentando-me sobre seu abdômen e pegando suas mãos, fazendo-a fechá-las sobre os meus seios — É errado uma mulher querer fazer amor com sua esposa? – atiço-a, sarcástica — Aliás, será que a esposa ainda lembra como se faz isso? – continuo, rebolando em cima do seu ventre.
Seus braços se fecham ao redor da minha cintura e ela se ergue, ficando cara a cara comigo: — Não só lembra, como da última vez que fizemos, recordo que você ficou uma semana dolorida, dizendo que não tinha mais idade para “certas” posições – rebate, retendo-me com uma das mãos, enquanto os dedos da outra se enrolam em meus fios, inclinando suavemente minha cabeça para trás.
— Mas isso foi há muito tempo, eu lembro que você tinha 49 anos na época – não consigo parar de provocá-la e ouço-a grunhir, antes de atacar meu pescoço, mordendo-o com força.
Grito e tento me soltar do braço que retém os meus atrás das costas, mas ela não parece interessada em me libertar, e a boca que antes maltratava meu pescoço, agora se fecha, molhada, em volta de um mamilo, chupando-o da base até o topo, deixando-o dolorosamente túrgido.
— Ahh... – solto um gemido rouco, quando ela traça círculos com a língua sobre o outro bico, antes de sugá-lo com precisão.
— Veja só quem já está ronronando feito uma gatinha manhosa! – incita-me, abandonando o que fazia e voltando a me encarar, ainda me segurando pelos cabelos.
— Você sabe que é a única capaz de me excitar assim... confesso, encostando minha testa na sua, deixando de lado as provocações— Talvez, por isso, já esteja tão convencida, que nem parece se importar mais comigo, nem demonstra mais sentir ciúmes de mim – não penso duas vezes antes de revelar algo que venho percebendo há algum tempo e que, mesmo que eu não queira, me magoa.
O sorriso vitorioso desaparece de seu rosto e ela me observa com olhos afetuosos e atentos: — Que bobagem é essa, meu amor? – pergunta, num tom preocupado.
— Ontem à noite, no restaurante, um dos garçons não parava de olhar para o meu decote e você nem pareceu ligar! – revelo, e sei que sou uma tola por estar me mostrando tão infantil, mas eu sinto falta dos rompantes possessivos da minha mulher.
Ela sorri.
— Eu não acredito, Regina, que depois de 15 anos de casamento, e agora que eu completei 50 anos, você ainda espera de mim atitudes de uma adolescente insegura! – diz, num tom brincalhão — Confesso que não percebi que o garçom era suficientemente audacioso para cobiçar a mulher mais linda do mundo, mesmo que na presença da esposa dela – continua no mesmo tom, e abaixo o olhar, tentando ocultar minha vergonha por ter trazido à tona esse assunto tão bobo — Por outro lado, muito me admira que a senhora tenha notado os olhares lascivos do garçom para o seu decote e não tenha feito nenhum comentário no momento que aconteceu – volta a falar, desta vez com entonação mais severa e com semblante sério — Devo imaginar que é por isso que acordou tão excitada? Gostou de ser objeto do desejo do garçom atrevido, foi? – prossegue, empurrando-me contra os lençóis de algodão com cheiro de lavanda.
Cruzo minhas pernas ao redor de suas coxas e passo os braços, que ela liberou, por suas costas, experimentando com os dedos os músculos tensos das omoplatas.
— E, se, talvez, eu tenha ficado um pouco lisonjeada em saber que ainda posso despertar o interesse de estranhos? – retomo o jogo de provocações, percebendo que suas narinas se dilatam, seus olhos se estreitam e Emma me mostra um sorriso malicioso.
— Então, eu vou ter que ser dura com você! – sublinha o substantivo e me segura pelas ancas, beijando-me com paixão e intensidade, esfregando o sexo rígido, ainda coberto pela sua peça íntima, contra o meu.
Quando me dou conta, já estou descendo pela excitação dela, apertando-a com as paredes da minha vagina, ouvindo-a gemer gostoso ao pé do meu ouvido cada vez que sua pélvis se move para cima, mergulhando dentro de mim sem trégua. Antes de me desfalecer de prazer, ela volta a ficar por cima e elevo os quadris para receber cada uma de suas investidas.
— Você é minha, Regina! – puxa meus fios, fazendo-me abrir os olhos para fitá-la.
— Sim! – consigo murmurar, ofegante, sentindo meus seios sendo esmagados pelos seus.
— Você é só minha! – Repete, a voz já embargada de prazer.
— Apenas sua, Emma! – concordo e cravo as unhas na sua pele, cerrando os olhos e inclinando a cabeça no travesseiro quando, finalmente, Emma Swan Mills se torna, uma vez mais, senhora de mim.
***
À tarde, depois que o café-da-manhã foi substituído por algo mais quente e o almoço acabou sendo mais do que postergado, descemos para o deck da piscina e ficamos contemplando o pôr-do-sol.
Estamos sentadas em uma espreguiçadeira branca, que contrasta com o piso de madeira da belíssima casa onde nos hospedamos. Encontro-me totalmente aninhada nos braços de Emma e o silêncio que se faz agora parece dizer que nenhuma das duas tem a coragem de interromper a magia do momento.
Quando o espetáculo do sol termina e a lua já começa a se mostrar, mansamente, saio desse longo estupor ao ouvir a voz dela, num tom extremamente suave, como alguém que teme atrapalhar uma exibição: — Será que esse é o nosso final feliz? — fala e, ato contínuo, viro-me para encará-la, sem entender seu comentário.
Ela sorri ao perceber a minha confusão e continua: — Será que esse é aquele momento em que nas histórias de amor o autor diz que todos foram felizes para sempre e nada mais precisa ser escrito para que os leitores entendam que tudo foi pleno e sem grandes conflitos a partir dali?
Suspiro e, depois de pensar alguns segundos, respondo, já sentada de frente para ela: — Eu espero que não! — e é a minha vez de sorrir com a expressão de espanto de Emma — Acho que a nossa história de amor é daquelas que merecem uma continuação. — vendo seu semblante se suavizar, prossigo: — Não necessariamente com os mesmos personagens. Mas, acho que o nosso amor é tão forte que pode inspirar outros casais, outros romances — faço uma pausa, interrompendo meu devaneio enlevado — Quero acreditar que esse amor não acabará com a nossa matéria, que ele viverá por muitos e muitos anos livre por aí, a procura de outras almas para se perpetuar, quando não estivermos mais aqui.
Quando termino, Emma me observa com um olhar ainda mais apaixonado e, num ímpeto, me beija. Nesse instante, sou tomada pela fé de que tudo isso não é apenas imaginação e que a essência do nosso amor viverá para sempre.
Looking out on the morning rain
Olhando a manhã chuvosa
I used to feel uninspired
Eu costumava perder a inspiração
And when I knew I had to face another day
E quando eu sabia que teria que encarar mais um dia
Lord, it made me feel so tired
Nossa, isso fazia com que eu me sentisse tão cansada
Before the day I met you, life was so unkind
Até o dia em que te encontrei, minha vida era tão injusta
But you were the key to my peace of mind
Mas você foi a chave para minha paz de espírito
Cause you make me feel
Porque você me faz sentir
You make me feel
Você me faz sentir
You make me feel like a natural woman
Você me faz sentir como uma mulher natural
When my soul was in the lost-and-found
Quando a minha alma estava nos "achados e perdidos"
You came along to claim it
Você veio me resgatar
I didn't know just what was wrong with me
Eu não sabia o que havia de errado comigo
Till your kiss helped me name it
Até o seu beijo me fazer perceber
Now I'm no longer doubtful of what I'm living for
Agora eu não tenho mais dúvidas do motivo pelo qual eu vivo
Cause if I make you happy I don't need no more
Porque se eu te faço feliz, não preciso de mais nada
...
Oh, baby, what you've done to me
Oh, baby, o que você fez comigo
You make me feel so good inside
Você me faz sentir tão bem por dentro
And I just want to be close to you
E eu só quero ficar bem pertinho de você
You make me fell so alive
Você me faz sentir tão viva
Cause you make me feel
Porque você me faz sentir
You make me feel
Você me faz sentir
You make me feel like a natural woman
Você me faz sentir como uma mulher natural
~ F I M ~
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