The Killers II- Interativa
14 Capítulo 11 - I'm Not a Good Person
Notas iniciais
Não sou uma Pessoa Boa
“Duas pessoas só podem guardar um segredo, se uma delas estiver morta”.
O garoto digitava rapidamente com os olhos vidrados na tela, janelas novas se abriam em seu laptop enquanto ele com maestria digitava senhas e dados com uma facilidade inumana, de vez em quando pegava uma das roscas de chocolate colocada num dos potes de vidro perto dele e colocava na boca de uma vez, enquanto voltava a sua árdua tarefa. Ele podia fazer qualquer coisa em qualquer lugar, desde que estivesse com aquele aparelho e que o lugar estivesse acessível à tecnologia. Ele era quase um “Mestre da Rede”. Ele sempre encontrava as brechas, por mais inacessíveis que fossem.
Com uns cliques do mouse ele estava dentro, sorriu timidamente enquanto apertava as teclas certas mais uma vez, pausou um pouco esticando os dedos, agora era só esperar que o seu programa fizesse o resto. Era fácil demais fazer aquilo, tão fácil que chegava a ser entediante. Desesperadamente entediante, e ele odiava ficar no tédio, procurava qualquer coisa para livrar-se daquele tédio abrasador.
A porta rangeu e ele olhou para a pessoa que entrava com um sorriso no rosto. Cabelos loiro morango, presos nos dois lados por duas presilhas uma em forma de laço e a outra que lembrava um coelho, a típica roupa rosa que utilizava, e o mesmo ar de poder que ela emanava sempre, ela sentou-se ao seu lado, repousando o braço em seu ombro enquanto olhava curiosa para a tela do laptop, ele adorava o cheiro dela, adorava a desesperante presença dela.
– E então, conseguiu entrar?- ela perguntou com sua típica voz doce, de quem quer algo.
– Sim, faltam apenas dez segundos agora- ele digitou mais algumas coisas no seu laptop e em poucos segundos, dezenas de arquivos surgiram- aqui está o que me pediu, tudo e mais um pouco sobre todos os estudantes da Academia Topo da Esperança, incluindo aqueles que ainda nem entraram na escola.
– Você bem merecia o título de Super Highschool Level Hacker sabia? Conseguir isso em apenas uma hora, com certeza você tem mais habilidades do que eu presumia.
– Obrigado Junko-san, mas o verdadeiro dono desse título teria conseguido isso em quinze minutos, acho que estou bem com o título que tenho- ele falou dando um sorriso sarcástico.
– De qualquer forma- ela ergueu para ele um pequeno pendrive cor de rosa, ele riu enquanto o encaixava no seu laptop e transferia para ela tudo o que tinha conseguido- deixei uma parte salva na “nuvem” se precisar, o exército...
– Por favor, já me basta a Mukuro falando nessas coisas, de qualquer forma, até mais- ela disse levantando-se e saindo com sua pose de sempre, ela era maravilhosa, perigosa, mas a criatura mais encantadora que ele conhecia.
– O que exatamente você vai fazer com isso?- ela parou, e virou-se para ele, olhando-a com aqueles olhos azuis admiráveis.
– Você vai ficar sabendo.
° ° °
Yuuka Misaki
– Bom dia bastardo- o televisor do quarto foi ligado, mostrando o urso que todos nós já estávamos cansados de ver- este é um dia realmente belo e cheio de desespero. Upupu, é tanto calor que chega a destruir os meus poros, mas vamos ao que interessa. Hoje um novo mundo se abre a vocês, sintam-se livres para investigar tudo. Até mais!
Fiquei encarando a tela desligada por alguns segundos, minha cabeça estava um turbilhão de pensamentos desde o último julgamento, já eram quatro mortos e nenhuma resposta, nada que nos levasse ao verdadeiro responsável sobre tudo aquilo. Troquei de roupa rapidamente, e ajeitei os cabelos na frente do espelho, não estava com muito ânimo para sair, tampouco para explorar esse novo bairro, tudo o que temos é mais oportunidades de um novo assassinato acontecer, e nada, além disso.
Saí do meu quarto trancando a porta atrás de mim, estava um dia consideravelmente nublado, as nuvens cinzentas se acumulavam no céu e um ar um pouco frio tocava minha pele. Abracei meu próprio corpo enquanto continuei a andar pela rua, olhando para os lados em busca de alguém. Como sempre, depois dos julgamentos as pessoas preferem ficar longe uma das outras, como se temessem que seus amigos lhe dessem uma facada nas costas. Puxei meu ID de estudante do bolso, até agora tínhamos o “Bairro da Convivência” e o “Bairro da Diversão” e pelo visto, aquele era o “Bairro dos Esportes”. Quanta originalidade.
Comecei a andar na direção do novo bairro, sei que o “manda-chuva” não nos deixou nenhuma pista sobre o que está acontecendo, mas é sempre bom explorar e ver novas possibilidades, ver algum jeito de sair daqui. Continuei andando, abraçando ao meu próprio corpo devido ao ar gélido. Deviam ser umas nove horas da manhã agora. Cheguei ao pesado portão de madeira, que agora estava aberto. Entrei pelo local e vi que estava em um local realmente tranquilo. Era bem parecido com os outros bairros, mas este possuía uma estátua do Monokuma segurando uma tocha olímpica.
As ruas eram mais largas e as construções mais amplas, dava para ver de longe que era um local destinado aos esportes da Academia. Olhei no meu ID, vendo qual seria o primeiro lugar que eu iria visitar, achei melhor começar pela chamada “Casa dos Troféus” que estava bem próxima da entrada. Era uma construção pequena, as paredes eram vermelhas com detalhes em dourado, havia a imagem de um troféu que decorava acima da porta, era um local bastante preservado, entrei lá, atravessando o portão de vidro espesso. Lá dentro era bem arrumado.
O piso era mesclado entre branco e preto, as paredes por dentro também eram vermelhas e em todos os cantos havia prateleiras de cristal, que estavam cheias de dezenas de troféus e medalhas, todos bem polidos e arrumados, como se tivessem acabado de chegar. Aproximei-me de uma das prateleiras, havia um pequeno botão que pressionado, fazia as “portas” da prateleiras deslizarem, para que assim se pudesse pegar os troféus. Para ser sincero, quase não teria enxergado o botão se não fosse por uma pequena saliência que este possuía. Apertei-o mais uma vez e as portas se fecharam.
– “Pois cada conquista tem que ser merecida”- virei-me assustada com uma voz feminina que veio da porta, era Annie estava parada encarando uma placa de cobre que ficava acima da entrada- essa escola está cheia de frases de efeito, que não servem para merda nenhuma.
– Há quanto tempo está aí?- perguntei meio desconcertada.
– Cheguei agora, vi você entrando e como não tinham mais ninguém por aí, pensei em te seguir- ela falou calmamente, nem parecia ser a mesma Annie de antes- são mesmo muitos troféus não é mesmo?
– Sim, são mesmo- falei me voltando para os prêmios.
Eram muitos deles, todos conquistados pelos estudantes da academia, e pareciam ser bem recentes, pelo menos pelo estado em que se encontravam. Comecei a então ler o que estava escrito nos troféus. Eram prêmios de campeonatos de futebol, tênis, corrida, natação, alguns nomes conhecidos para mim, outros nem tanto. Mas um nome em questão me chamou a atenção, pois eu não esperava que ele estivesse ali. Como campeã nacional de kendo, havia um troféu no nome de “Utsutsuki Watashima”. Arregalei os olhos, mas era a primeira vez que ela estivera na escola, então como aquele troféu estava ali? Eu precisava falar com ela.
– Campeã de Navegação?- Annie gritou surpresa, apontando para um dos troféus ali próximos, o mesmo continha seu nome- mas eu nunca estive aqui.
– Deve ter uma explicação para isso, tenho certeza, pode ser apenas uma armadilha do Monokuma!- comentei puxando meu ID e vendo quais eram os outros locais disponíveis- eu vou falar com a Watashima-san, até mais!
– Até.
Saí de dentro da Casa dos Troféus e dei uma olhada em volta, não havia mais nenhum estudante ali. Pensei então em ir ao prédio era ao lado, ficava bem próxima ao hall da fama da escola. Era um prédio de paredes lilases e convidativas, com arbustos verdes plantados ao redor, o desenho de um Monokuma usando toalha decorava a parte de cima da porta, junto com as inscrições “Spa”. Teria mesmo um local desses dentro de uma cidade escolar? O que eles estariam pretendendo? Atravessei as portas de vidro rosado e me deparei com um aroma fenomenal.
O local lembrava muito a um salão de beleza, havia um pequeno salão de recepções decorado com flores e frutas, prateleiras com cremes e perfumes de todos os tipos. Havia poltronas roxas dispostas em pequenos grupos de quatro e no centro de cada uma, um suporte com revistas de moda e livros de romances. A sala de recepção tinha dois corredores, um dizia “Sauna e Massagem” e o outro, “Área de Tratamento”. Fiquei olhando para os lados procurando por alguém, mas não vi e nem ouvi nada. Resolvi olhar primeiro a Área de Tratamento.
Era um corredor longo e fresco de paredes azuladas e piso de madeira, tinham apenas três portas no mesmo, abri uma delas que mostrou uma pequena sala de paredes brancas, era uma sala bem arejada como tudo ali. No centro da sala havia uma espécie de poltrona-cama preta, bastante confortável. Uma mesa com frutas e doces, um pequeno freezer com sucos, água e sorvetes, roupões e toalhas em uma prateleira de ferro. Além de um espelho com cremes e outros produtos para cabelo, pele, etc... Do outro lado, havia uma espécie de cômoda de madeira que ia de uma ponta a outra. Nessa cômoda havia ervas, pílulas, e umas máquinas que eu não entendia para que serviam, além de tesouras e outras coisas. É uma sala um tanto perigosa, pois tem muitas armas aqui. Olhei em todas as gavetas, mas não achei nada de interessante.
Olhei as duas outras salas, eram exatamente iguais. Quando voltei a recepção, vi que Watashima e Mayu estavam conversando sobre algumas coisas que viam nas revistas. Elas me viram e acenaram para mim com um sorriso no rosto, Sentei-me em uma das poltronas roxas junto a elas, pelo menos elas não estavam com o ar depressivo que ficou impregnado depois do julgamento:
– Acordou cedo também Misaki-san, eu estava sem um pingo de interesse de ver esse novo bairro- Watashima comentou com um pequeno sorriso desenhado no rosto- mas a Mayu passou no meu quarto e me convenceu a vir conhecer o lugar novo, e pelo visto não é tão ruim assim!
– Ela estava de pijama ainda- Mayu falou sorrindo, depois pôs a mão direita em volta da boca, olhando para mim como se sussurrasse- ela é muito preguiçosa.
– Eu estou ouvindo sabia- reclamou ela em meio as nossas risadas.
– Então, já que estamos só nós três aqui- falei me levantando- vamos dar uma olhada nas saunas e na massagem? Estou louca para ver como isso funciona.
– Na verdade, nós não somos as únicas aqui- ela falou num tom de desânimo enquanto encarava o chão, eu olhei para Mayu. Mas dessa não obtive resposta.
Foi quando alguém saiu do corredor a passos curtos e tímidos, cabelos brancos, estatura pequena e magra. Um olho vermelho escuro e o outro azul claro. Era Nathan, entendi na hora o porquê da desconfiança das meninas. No último julgamento ele revelou que ele que havia cortado o corpo de Miya, depois que ela já tinha sido morta. Era realmente desconfortável tê-lo ali, mas não acho que ele oferece perigo, não mais do que outros por aqui.
– As duas saunas são idênticas, uma para homens e outra para mulheres, pisos de madeira, incensos e uma máquina automática que esquenta a água e que pode regularizar a temperatura. Tem uma sala de massagem corporal normal, acupuntura e umas coisas que eu não conheço, e na outra sala é uma banheira de hidromassagem, só tem isso aqui- ele falou dando um pequeno sorriso- agora se me dão licença!
E ele saiu dali sustentando o pequeno sorriso, não sabia o que ele queria dizer com aquele sorriso. Seria uma afronta? Seria uma forma de dizer que ele era inocente? Afinal ele não devia ter mais do que quinze anos de idade, deve ter seus problemas, algum distúrbio talvez. Não sei ao certo.
– Ainda bem que ele já foi- comentou Watashima- esse psicopata tem que ficar longe da gente, ou ele pode matar qualquer um de nós! Se ele cortou a Miya enquanto estava morta imagina o que pode fazer com uma pessoa viva.
– Eu não o considero perigoso- nós duas olhamos para Mayu com ar de surpresa- que foi gente? Ele é só uma criança, deve ter sido maltratado na infância, ou tem algum distúrbio, ou só seja alucinado por causa de tantos jogos que ele já jogou em sua vida. Talvez aqueles cortes tenham sido causados por outra coisa e ele só disse isso para fazer a gente ter medo dele, assim ninguém vai querer tentar mata-lo.
– Está me dizendo que isso tudo é parte de um plano louco de um garoto para tentar se manter vivo?- pergunto- não faz sentido.
– Talvez não, mas ficaria surpresa com o que as pessoas são capazes de fazer- falou levantando-se- eu já vou!
E saiu apressada sem dizer mais nada, olhei para Watashima e esta apenas fez sinal de que não tinha entendido nada. Talvez fosse o clima pós-julgamento, todos ficavam meio estranhos em relação a isso. Fiz um sinal de despedida para Watashima, ainda tinha que conversar o negócio do troféu com ela, mas preferia que não fosse agora, preferia que todos ouvissem. Puxei meu ID vendo quais seriam os outros locais que eu ainda podia visitar. Pensei em ir a uma chamada Loja Esportiva que havia no local, parecia interessante. Era uma loja pequena, paredes verdes com desenhos esportivos- todos envolvendo Monokuma, claro- Ficava bem próximo a entrada, e era pequena o suficiente para que eu não tivesse a notado quando entrei.
A loja era pequena, tinha as paredes brancas e o piso esverdeado, coberto por grama sintética lembrando a um campo de futebol, era, no entanto bem arrumada, havia bonés e roupas esportivas, tacos de beisebol, uniformes para todo o tipo de esportes que se possa imaginar, e uns apetrechos bem legais- como aqueles dedos gigantes que se usam em estádios- e alguns deles eram de produção da “própria” academia, será que eles tinham uma fábrica? Não era possível. Havia ainda uma prateleira com produtos de limpeza, polidores de metal- para os tacos eu acho- flanelas, e outros itens e no pequeno balcão da entrada havia um identificador de ID assim como no mercado e nos outros locais onde podíamos pegar itens.
– Olá Misaki-san- uma voz masculina falou detrás das prateleiras- é uma lojinha bastante interessante não acha?- saindo detrás delas, vi que era Aru, e estava acompanhado de Kon.
– Oi, vocês quase me deram um susto daqueles, mas e então, acharam alguma coisa interessante por aqui? Além dessas coisas esportivas.
– Não, acho que não- Aru começou a falar apontando para os itens do local- o que temos aqui são na verdade umas boas armas, isso sim, é meio perigoso isso lugar, mas se tivermos cuidado não vai acontecer nada.
– Ele tem razão- disse Kon pegando um boné esportivo verde, o mesmo começou a flutuar em volta da mão do ilusionista, e depois foi dançando no ar até repousar na cabeça de Aru- verde fica bem em você.
– O-obrigado- falou envergonhado, enquanto o ajeitava em sua cabeça.
– E você Yuuka? Encontrou alguma coisa?- perguntou Kon.
– Bom, se querem saber tem um spa aqui com hidromassagem e tudo, fiquem a vontade para aproveitar quando quiserem- falei em meio a risadas- e eu ainda não vi outros lugares, mas estou indo ver agora.
– Pode ir, vamos dar uma checada por aqui- falou Aru voltando-se para as prateleiras.
Despedi-me deles e saí da loja, vi que havia um lugar que eu ainda não tinha visitado, bem ao lado da loja. Não havia nome, nem letreiro, era apenas um centro de treinamento com as paredes negras, e uma decoração não muito convidativa. Talvez fosse interessante ver o que tinha ali. Passei pelas portas grossas de vidro, e me dei de cara num lugar bem estranho, parecia um centro policial, igual aqueles que eles treinavam a mira. Havia óculos de proteção e tapa-ouvidos em uma prateleira na entrada, e estava dividido em pequenas câmeras, no fim de cada uma havia alvos de diferentes tipos. Mas o mais assustador era que na parede direita, presos a uma grade de ferro, havia arco e flecha, dardos, e armas de todos os tipos e tamanhos. Senti um arrepio na espinha, como aquilo podia estar ali. O barulho de um tiro, me assustou ao ponto de gritar, virei-me rapidamente e vi Onihiru, que acabara de atirar em um dos alvos, ele olhou para mim com um sorriso, como se pedisse desculpas:
– Por que diabos você está com isso?- perguntei assustada.
– Se acalme Misaki-san, são balas de borracha, não são de verdade- ele falou- percebi pelo padrão no alvo, balas de verdade não são assim.
– Você tem certeza?- perguntei- essas armas não são perigosas?
– Claro que não, se olhar bem vai ver que as flechas e dardos nem tem ponta- ele disse rindo da minha expressão- mas eu também fiquei com medo quando vi isso, está cheio de materiais perigosos aqui e poderiam causar um estrago e tanto.
– Mas para que ter armas, se são balas de borracha?- perguntei levando o indicador aos lábios.
– Upupu... Essas armas já estavam aqui antes- o urso surgiu do nada, assustando nós dois- Eu adoraria ter munição de verdade aqui, mas como não tinha, eu é que não ia sair por aí achando munição para tantas armas, se contentem com o que tem.
– Como assim, estavam aqui antes?- perguntou Onihiru.
– Upupu... Você vai descobrir um dia Onihiru-kun- e sumiu do mesmo modo que apareceu, como ele sempre fazia.
– Esse cara está querendo fazer outro jogo- ele disse irritado- mais ainda vamos descobrir quem é o manda-chuva, tenha certeza disso.
– Sim, vamos descobrir- falei em tom animado, eu realmente tinha esperanças disso- vou dar uma olhada nos outros lugares. Até mais!
– Até.
Saí da Sala de Tiro, com meu ID em mãos, não havia agora muitos locais para visitar, havia uns poucos, todos do outro lado da rua. Eram grandes na verdade, acho que serviam para a prática de esportes ou algo do gênero. Resolvi começar pela primeira quadra. Era um ginásio enorme, com uma entrada bem larga, quando entrei, me deparei com um local maior ainda. Era uma quadra comum, e havia arquibancadas acolchoadas que iriam servir para a plateia.
Não havia nada na quadra que indicasse para qual esporte ela servia. Entrei e dei uma olhada no lugar, não havia nada de interessante ali. No canto direito, havia um pequeno corredor que levava para os vestiários, e uma porta de metal pesada. E naquele mesmo corredor, havia um painel com um monte de botões e coisas do gênero. Botões com inscrições que diziam “Vôlei”, “Basquete”, “Futebol”. Apertei o que dizia vôlei e escutei o barulho mecânico.
Voltei até a quadra e percebi que uma rede de vôlei se erguia no meio desta, fazendo parecer que aquilo sempre foi uma quadra de vôlei. Então era assim que selecionavam o esporte que iam praticar? Parecia ser uma engenharia muito interessante. Muito mesmo, num depósito próximo a um dos vestiários, havia raquetes de tênis e bolas de todos os tipos, para todos os esportes- ou quase todos eles, exceto golfe e beisebol- haviam realmente pensado em tudo.
Fechei a porta do depósito calmamente e comecei a andar de volta a quadra, talvez houvesse ainda uma surpresa naquele lugar que eu não tinha achado. Mas quando voltei, notei uma pessoa sentada nas arquibancadas. Cabelos loiros desarrumados, e um olhar longínquo, perdido no nada. Era Cody, o reconheci pelas roupas coloridas. Andei até ele lentamente, o garoto percebeu a minha presença e apenas simulou um pequeno sorriso, antes de levantar-se:
– Oi Cody, não tinha te visto ainda- falei do modo mais macio possível- está aqui há muito tempo?
– Não, cheguei ainda agora, vi essa construção enorme e pensei em ver o que era. Então eu vi essa rede surgindo do nada, e pensei que já que aqui tem tantos esportes, será que tem uma pista de skate?- ele falou timidamente, ele nunca era assim, não estava tão enérgico quanto antes- viu alguma pista de skate?
– Ainda não, mas se eu não me engane tem uma no parque de diversões não?- falei tentando me lembrar onde eu havia visto uma pista de skate ali- perto do carrossel eu acho.
– É mesmo- ele disse surpreso- tinha esquecido completamente. Sabe as coisas tem andado muito confusas para mim, desde... Você sabe.
– Olha Cody, não precisa falar sobre isso...
– Preciso sim, preciso falar sobre isso. Não quero que culpem o Percy por ter feito aquilo com a Miya, sei que foi errado, mas ele fazia aquilo para me proteger. Eu me sinto culpado por isso, me sinto culpado pela morte dos dois- ele falava com lágrimas nos olhos, tentando engolir o choro- eu não queria que nada disso acontecesse, eu só queria vir para essa merda de escola e ter um bom futuro, que droga.
– A culpa não é sua Cody- falei num tom firme, colocando a mão em seu ombro- a culpa não é sua, não do Percy, não é de nenhum de nós. A culpa disso tudo é de quem nos prendeu aqui e nos forçou a matar uns aos outros, ninguém está fazendo isso por que quer. Está me ouvindo? Você não tem nada a ver com isso.
Ele arregalou os olhos por alguns segundos, segurando o seu skate com força, encarando o chão como se estivesse pensando no que eu acabara de dizer. Depois ele apenas sorriu, sorriu de verdade, como eu nunca o vira sorrir antes. Ele enxugou as lágrimas dos olhos e ergueu a cabeça, olhando para mim com uma determinação fora do comum, talvez sua esperança tivesse se reacendido mais uma vez:
– Obrigado Yuuka-san, eu quase esqueci de como era, como era ter esperança novamente- ele disse acariciando meu rosto- eu nunca vou esquecer o que você disse! Nunca!
E saiu correndo pela arquibancada, sem nem se despedir. Eu dei uma pequena risada, era bom saber que ele tinha voltado a ser o velho Cody, ou ao menos estava mais esperançoso do que antes. Eu gostava disso, gostava de saber que os meus colegas estavam com esperança de saírem daqui com vida, de não se renderem as armadilhas do Monokuma. Depois de pensar por alguns minutos. Lembrei que ainda não tinha visto o que tinha por detrás da porta de metal no fim do corredor. Fui até lá.
Quando passei pela porta, me dei conta de que estava agora no que parecia ser uma academia, no entanto em um canto havia alguns tatames espalhados, no outro uma espécie de ringue de boxe e nos cantos mais extremos, um espaço com piso de madeira como um dojô. Aquele local era uma espécie de mistura de lutas. No outro lado da sala, havia vestiários com diversos uniformes e equipamentos para lutas diversas, e outra porta de metal.
A porta de verdade do local, abriu-se e por ela entrou Mikazuki, com seu jeito polido e educado, ela olhou para mim de forma séria. Enquanto andava a passos duros na minha direção. Ela parecia não conhecer nada do local, aposto que em sua vida de empregada, ela não tinha visto nada sobre esportes, seja na televisão ou qualquer outra mídia. Pergunto-me de que família ela veio- geralmente famílias não permitem que seus filhos trabalhem como empregados desse modo.
– Andei por esse lugar todo e não achei nada de interessante- ela comentou olhando para o ringue de boxe- se não tiver nada para fazer vou acabar limpando esse lugar todo.
– Não vai ser necessário Mikazuki-san- falei com um sorriso bobo- viu mais alguém por aí? Outros estudantes, por exemplo?
– Só vi aquele garotinho, o gue... gam... Enfim, o garoto que gosta de ficar naqueles joguinhos- ela falou repentinamente, acho que ela queria dizer “gamer”- e parecia mais alegre do que o costume.
– E você não se sente constrangida com a presença do Nathan?- perguntei por curiosidade, todos se sentiam inquietos perto dele agora, exceto a Mayu.
– Ele é estranho sim, mas já conheci pessoas mais estranhas que ele, isso não é nada- eu olhei com dúvida para ela, a garota apenas virou a face- não tem nada de interessante aqui não é mesmo?
– Não, acho que só para quem gosta de lutas mesmo. Eu sou uma péssima lutadora- digo em meio a risadas.
– Uhm- ela sibilou enquanto andava pelo local, passando os dedos nos tatames- estão limpos, que droga, não tenho nada para fazer.
– Eu vou olhar as próximas áreas, se quiser vir...
– Não, vou voltar para o restaurante e comer alguma coisa, antes que eu morra de tédio- e dizendo isso ela saiu por onde tinha entrado.
Eu passei pela porta de ferro, e como eu esperava ela deu em outra área esportiva. Desta vez O que eu via era uma piscina olímpica com muitos metros de comprimento, com divisórias que flutuavam, como nas competições profissionais. Havia também trampolins de diferentes alturas para competições de salto. Em um dos lados havia uma arquibancada enorme, e no outro, a porta de entrada e de cada lado desta um vestiário. Era um local bastante fresco, e posso dizer que até me deu vontade de nadar um pouco.
Dei uma olhada nos vestiários, havia roupas de banho normais, roupas de nado profissionais, boias e muitos outros equipamentos para todos os esportes que incluam natação ou piscinas. A escola devia estar preparada para receber os melhores atletas e treiná-los para que eles fossem melhores ainda, com certeza para ganhar mais prestígio e é claro garantir a promessa que fazia aos alunos: Sucesso no futuro.
– Gostaria de nadar, mas está começando a esfriar lá fora- uma voz doce e meiga, me pegou de surpresa, virei-me dando de cara com Aya, esta usava o seu já conhecido quimono- e colocar esse quimono de novo não é nada fácil!
– Se não gosta de usar o kimono, porque então não fica com aquele vestido que usa de vez em quando- comentei, ela piscou algumas vezes parecendo não entender o que eu estava dizendo- ah, desculpe, só foi uma sugestão.
– Não, é que me deram poucos vestidos- falou em meio a um sorriso- e mais quimonos, dessa forma eu não posso sujar muito os vestidos.
– Entendi, desculpe se fui grosseira.
– Não Yuuka-san, você não foi- ela disse enquanto tocava o indicador na minha bochecha, ela estava mais fofa do que o costume- eu dei uma olhada por aí, e parece que esse lugar foi feito para atletas e coisas do tipo né? Eu nunca fui boa nos esportes.
– Nem eu- falei rindo- sou um fracasso total.
Aya era uma incógnita, ás vezes estava calada, olhando para o nada, não querendo se comunicar com ninguém além dela mesma. E outras vezes era fofa, comunicativa e que adorava conversar com os outros, me pergunto se ela sofre de algum distúrbio ou coisa parecida. Mas ela é uma pessoa legal, foi uma das primeiras que eu conheci aqui e espero poder contar com ela sempre.
– Você sente falta do templo? Digo, do qual você era responsável?- perguntei- você parecia gostar do que fazia.
– Sim, eu gostava muito. Eu ajudava as pessoas a enfrentarem seus problemas de frente, a se aproximarem mais de Deus. E elas realmente pareciam satisfeitas com isso, sabe o mundo está tão cheio de coisas ruins, que é bom ter algo em que acreditar- falou em tom determinado- eu e minha irmã cuidávamos de lá sozinhas.
– Você tem irmã?- perguntei, ela me olhou com um sorriso e acenou positivamente, eu nunca havia ouvido falar que ela tivesse outro parente.
– Oi pessoal- antes que eu perguntasse algo sobre a irmã dela, Kocho apareceu, com as mesmas expressões intrigantes de sempre, mas parecia mais tranquilo dessa vez- querem ver uma coisa comigo? É gigantesco.
– Claro- respondemos eu e Aya num uníssono.
– Sinto que vão se impressionar- ele nos guiou pelo local, até uma porta de metal parecida com a dos outros lugares, ao abri-la percebemos que estávamos num enorme estádio a céu aberto.
Era um local gigantesco, que podia abrigar muitas pessoas, o que havia ali era uma espécie de pista de corrida, que formava diversos ângulos, pela cor da pista e pelos números marcados no chão. Eu supus que fosse uma pista feita tanta para o atletismo como para outros tipos de corridas- ciclismo, corrida de carros, corrida de cavalos, coisas do gênero- havia um telão gigantesco que mostrava a imagem de um Monokuma vestido de atleta. Era algo realmente fenomenal, que nunca tinha visto antes.
– Então todas os estádios são conectados por essas portas- falei- deve ser para facilitar transportes, ou algo do tipo.
– Isso é incrível- exclamou Aya- seja lá quem tenha feito isso, deve ter rios e mais rios de dinheiro, imagina quanto custou para fazer tudo isso, e ainda mais para manter tudo isso.
– Sinto que estamos lidando com o pessoal da Academia em si- Kocho falou com um brilho em seus olhos multicoloridos, falava com uma certeza absurda.
– O que está querendo dizer?- perguntei.
– Eu não entendo muito, mas acho que para fazer isso precisa de autorizações especiais, e quem além da Academia conseguiria autorização para fazer uma cidade inteira como essa. Além dos símbolos espalhados por aí, não acho que sejam de mentira.
– Você é esperto- comentou Aya tocando a bochecha do garoto- tão esperto quanto a minha irmã, vocês dois tem mesmo muita coisa em comum.
– Bom saber disso, eu acho- ele falou gaguejando, enquanto a garota apenas ria de sua expressão- você é sacerdotisa né? Entende de espíritos e coisas assim, talvez... Possamos conversar depois.
– Mas é claro, vai ser divertido conversar com você- ela então tomou uma expressão séria- você tem certeza que é médium? Sabe, é difícil lidar com essas coisas.
– Tenho sim, certeza plena. Desde que minha irmã começou a falar comigo.
– Bom, então vamos logo, temos muito que conversar- ela pegou pela mão do garoto e o arrastou, além da porta de metal, ambos acenavam para mim- até mais!
– Até... Essas crianças!- pelo menos eles estavam felizes, era o que eu pensava.
Os dias passavam, vasculhamos todo o novo bairro, inclusive nos utilizamos deles para correr, ou nadar um pouco. Eram dias divertidos, saímos daquele clima pesado que ficara após o segundo julgamento e comecei a realmente acreditar que tudo voltaria a ser como antes, que seríamos colegas unidos mais uma vez. Unidos para derrotar o desespero.
Estávamos reunidos no restaurante, comendo uns doces que Aya havia preparado. Conversávamos animados sobre diversos assuntos, sobre nossas vidas antigas e aventuras pessoais. Coisas que não conversaríamos com estranhos, agora éramos mais do que colegas. Éramos bons amigos, jogando conversa fora enquanto tentávamos resolver um problema comum a todos: sair daquela escola.
– Parece que vai chover- comentou Aru olhando pela janela- faz uns dias que está nublado, e ainda não choveu desde que chegamos aqui.
– Você tem razão- Kon disse a ele, enquanto fazia surgir pequenas faíscas douradas estalando os dedos- seria bom ter um dia de chuva, tem estado muito quente ultimamente.
– Você gosta de frio Kon?- o garoto perguntou, olhando intrigado- combina muito isso com você- o outro apenas deu um sorriso leve- eu prefiro dias quentes, são os dias em que se pode nadar, correr, e é claro, os dias em que minhas maquiagens ganham mais inspiração.
– E você precisa de inspiração para maquiar?- perguntei.
– Claro que sim, como acha que meus monstros e meus heróis ficam tão reais nos filmes? Se quiser Yuuka, eu posso até dar um retoque em você depois. Te deixar mais hot. Não me leve a mal, mas você é muita apagadinha- ele disse numa expressão que fez todos rirem, inclusive eu- e você também Annie, acho que nunca viu maquiagem na vida.
A ruiva o fuzilou com o olhar, depois apenas jogou os cabelos ruivos para o lado, e cruzou os braços sem dar atenção ao maquiador que apenas ria. Todos os outros voltaram a comer o doce de Aya. E eu via Kocho comentar o quanto era gosto, e a garota apenas sorria corando dos pés a cabeça. Percebo que estão todos mais conectados agora, soltos uns com os outros. Isso é um bom sinal.
– Upupu... Adoçando suas existências amarguradas é meus queridos?- todos nós encaramos o urso, vê-lo ali não significava boa coisa- vão ficar em silêncio é? Tudo bem seus mal educados, vocês são um tédio mesmo. Os piores jogadores do mundo!
– Jogadores?- falou Cody- não estamos em nenhum jogo, seu urso imbecil.
– Estão sim queridos, no MEU joguinho sádico. E já sabem o que acontece com quem não cumpre as regras. Agora, vamos ao nosso terceiro motivo para assassinato- ele entregou a cada um uma pasta com o símbolo da Hope’s Peak, e com o nosso nome escrito- esse motivo se chama “Segredos Secretos que esconderam secretamente de você”, ou seja, coisas que nunca contaram a vocês e que com certeza deveriam saber.
– Que tipo de segredos?- perguntou Annie encarando o urso.
– Abra e descubra ruivinha.
Eu gelei no mesmo instante, não queria abrir aquilo, mas eu precisava ver o que tinha ali. Abri a pasta com certo receio, assim como todos fizeram. Havia ali a inscrição Super Highschool Level Journalist Yuuka Misaki- “O pai, que ela tanto ama, tanto protege, é a causa da morte da mãe, este teve um caso com uma das repórteres com quem ele trabalhava enquanto a esposa estava doente, e essa ao saber do caso, recusou todos os tratamentos se deixando definhar até a morte”. Minha vontade era de gritar, dentro da pasta havia fotos do meu pai com uma mulher que trabalhava também no jornal, fotos bastante íntimas. E junto a essas fotografias, havia ainda um relatório médico da minha mãe, dizendo que por motivos desconhecidos a paciente estava recusando o tratamento, e havia até mesmo um pedido desta por eutanásia que foi recusado.
Eu senti as lágrimas subirem aos olhos, o meu pai que eu havia protegido todo esse tempo. Havia feito uma coisa desse gênero? Havia traído a confiança da minha mãe, a minha confiança. Eu não podia acreditar, eu não queria acreditar. Apenas saí dali correndo, sem olhar para trás. Sem ligar para mais ninguém, queria me trancar no meu quarto e ficar lá o resto do dia. Sem ver ninguém.
° ° °
O garoto chorava muito, aquelas palavras lhe doíam mais do que uma faca. A garota de cabelos brancos o abraço, deixando que ele chorasse o quanto queria. Não saber ler talvez tivesse sido a causa do seu sofrimento, mas as vozes eram tão reais, como ele podia saber que era um delírio? Como saber que sua irmã nunca falara com ele? Como saber que ele nunca fora o Super Highschool Level Medium e na verdade era o Super Highschool Level Viral. Alguém que se tornou famoso por vídeos na internet.
– Eu sou uma farsa, nunca fui um médium de verdade- ele gritava, agarrado a Aya que apenas mantinha-se em silêncio- eu devia saber, eu devia saber disso...
– Eu sempre soube que não era você- ele olhou para ela, surpreso, sem saber o que fazer- mas eu desconfiei, porque realmente tem uma energia vindo de você Kazuo-kun, uma energia muito forte.
– E de que adianta essa... Energia?
– Você pode se tornar um médium, talvez, se juntar toda essa energia. Você tem que ter esperanças Kazuo, eu posso ajudar você com isso.
Ela era uma sacerdotisa, entendia do mundo espiritual como ninguém. E sabia como ajudar o garoto a conquistar os seus objetivos, ela sempre ajudava as pessoas, sempre estava presente quando elas mais precisavam e os ajudava a chegar até Deus ou até o mundo que muitos não conheciam, que muitos tinham medo. E para ela Kocho era uma pessoa especial, que apenas não estava enxergando o seu potencial.
– Aya-san... Obrigado- ele disse com um sorriso no rosto- sinto que você é uma pessoa maravilhosa- a menina sorriu corando dos pés a cabeça.
– Eu escutei esse choro de longe- a ruiva apareceu do nada, olhando com ar de riso para os dois- escutei tudo. Não acredito que estava chorando por isso.
– Não precisa ser rude Annie- protestou Aya- ele só estava triste, pessoas ficam assim as vezes.
– Sabe, eu descobri que toda minha tripulação me traiu, que estavam planejando me entregar as autoridades em breve- ela falou triste- eu não sou uma boa pessoa, nunca fui. Mas já passei por muitas tempestades, sei como é ter o navio naufragando- todos ficaram em silêncio, Kocho ainda estava abraçado a Aya e encarava Annie enxugando as lágrimas- vão ficar aí agarradinhos? Ou vão vir tomar um café comigo, tenho muitas histórias de pirata para contar.
Os dois então se soltaram envergonhados, em meio as risadas da pirata. Annie nunca fora tão divertida assim, geralmente era arrogante e fechada. Não gostava de ninguém e deixava tudo isso bem claro. Mas algo havia mudado nela, estava mais legal, mais atenciosa e muito mais calma, talvez ela fosse no fim uma boa pessoa.
– Então, vocês vêm ou não?- perguntou num tom autoritário.
– Claro- ambos responderam num uníssono.
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