Oito horas da noite, 10 de janeiro, sábado.

Quando Felipe virou a esquina viu todos seus amigos vestidos de preto, parados na entrada do parque. Suas roupas seguiam o padrão do grupo. Na verdade, aquelas cores tornaram-se o uniforme noturno deles nas últimas semanas.

– Qual é a ideia Pedro? — perguntou Rafael impaciente.

– Na verdade nem precisávamos que todos estivessem aqui. – disse Pedro. – Iremos aproveitar a escuridão para entrar no arquivo do cemitério. Descobri que eles deixam a sala sozinha durante uma hora no período noturno. Sozinha, mas trancada.

– E o plano é ir chegar até essa sala passando pelo parque, depois pelo crematório, depois pelo cemitério e finalmente a sala? – perguntou Felipe.

– Correto. – respondeu Pedro. – Chegando lá, eu destranco a sala. O Rafa recolhe todas as informações que puder dos computadores e a Sophia tira foto dos arquivos referentes as pessoas escolhidas na reunião de hoje. Enquanto isso o Davi, a Alice e você ficam lá fora para garantir que ninguém entre.

– Não acho que precise de três pessoas lá fora. – comentou Felipe. – Que fiquem apenas a Alice e o Davi. Caso alguém apareça eles fingem que são namorados. Será mais aceitável. – completou rindo.

Alice não reagiu, apenas lançou um olhar nada amigável para Felipe.

– Então é isso. Nós quatro entraremos e vocês dois ficam de vigia. – ressaltou Pedro, apontando para Alice e Davi.

– Agora vamos nos separar. – sugeriu Sophia. – Seis pessoas com roupas pretas no parque é suspeito. Eu e o Rafael corremos para esquerda, seguindo a pista de corrida até o muro que divide o parque do crematório. Felipe e Pedro, corram para a direita, seguindo a pista e nos encontrem no mesmo local.

– E o casal segue reto, sem utilizar a pista, andem pela grama. – interrompeu Rafael, na tentativa de caçoar de Alice, que simplesmente o ignorou.

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– Estamos virando profissionais em pular muros. – disse Rafael enquanto subia na grade e passava para o outro lado onde ficava o crematório. Em poucos segundos os seis já estavam do outro lado da cerca.

– Não tem nenhum segurança nesse lado? – questionou Sophia.

– Não. – afirmou Pedro. – Eu pesquisei.

– Quando? – perguntou Alice com um ar de desconfiança.

– Ontem, oras. – respondeu Pedro calmamente. – Não estou todo o tempo com vocês. Faço diversas coisas no meu tempo livre e essa foi uma delas.

– Ok, garoto estressado. – brincou Alice.

A área do crematório até o cemitério era extensa, exigindo dos seis alguns minutos para a percorrerem. Após passaram pela cerca que separava o crematório do cemitério, caminharam pelas sombras circulando a área do velório, utilizando as sombras como camuflagem.

Os seis posicionaram-se entre as diversas árvores e observaram a sala. Lá estavam dois funcionários assistindo um jogo de futebol na televisão.

Vamos esperar. – sussurrou Pedro.

Eles esperaram.

Vinte minutos passaram. Os ponteiros do relógio se aproximavam das nove horas da noite.

– Que horas eles saem e deixam a sala sozinha? – questionou Felipe.

– Logo. – respondeu Pedro sem emoção na voz.

Após dez minutos os dois funcionários desligaram a televisão e saíram da sala. Porém antes um deles colocou a chave na fechadura da porta e deu duas voltas.

– Alice e Davi sigam os dois até o estacionamento e vejam se eles irão entrar no carro. Essa é a rotina deles, eles saem, pegam o carro e voltam depois de uma hora, provavelmente para jantar. – orientou Pedro.

Os dois começaram a andar realizando o mesmo caminho feito pelos funcionários. Davi passou um de seus braços pelo ombro de Alice.

“Será que ele vai tentar tirar proveito da situação? Sortudo!” pensou Felipe.

– Coloquem a touca e a máscara de ski. Tem duas câmeras – disse enquanto apontava para duas câmeras de vigilância posicionadas em cada extremidade daquela área, ambas voltadas para a sala. – talvez elas funcionem. Melhor não arriscar.

Todos cobriram os rostos, conforme orientado por Pedro.

– Eu irei primeiro para abrir a porta.

– Tudo bem, Pedro. – assentiu Rafael.

A sombra deslizou até a porta da sala, evitando desviar seu olhar para as câmeras. Pedro estava diferente. Felipe não entendia o que seu amigo estava fazendo parado de pé em frente a porta, ele não se movia. Então, de forma inesperada, a porta se abriu.

“Como ele fez isso?!”, pensou Felipe, sem acreditar no que se passava diante de seus olhos.

– Vamos. – disse Rafael, andando em direção à sala.

No final das contas, a ajuda de Felipe não foi necessária. O local era extremamente organizado, possibilitando assim que Sophia encontrasse o arquivo de cada uma das pessoas em poucos minutos.

A única dificuldade foi de que, por mais que o local fosse organizado, sua estrutura tecnológica era antiquada. Computador com processadores lentos e cheios de pastas totalmente desorganizadas.

– Porra! Tem pasta aqui de quando eu nem sabia mexer em um computador. – reclamou Rafael.

– Não precisa transferir todas as informações. Só pega o essencial. – sugeriu Pedro, enquanto caminhava impaciente pela sala.

– Parâmetros. – resmungou Rafael. – Localizei o diretório da rotina dos funcionários tanto do cemitério como terceirizados. Fiz o download das fichas de ponto e do dossiê de cada funcionário, talvez seja útil no futuro. – suas palavras saiam em uma velocidade surpreendente, mas em nenhum momento as direcionava a algum dos amigos, aquela era sua forma de organizar de forma lógica suas ações. – Verifiquei que existem pastas digitais das quatro pessoas escolhidas. Farei o download dessas pastas.

– É o suficiente. – disse Pedro, colocando a mão no ombro do amigo.

– Aproveitei e apaguei o registro das câmeras das últimas duas horas. – informou Rafael antes de retirar o HD externo do computador.

Eram apenas 9h37min quando Pedro trancou a porta.

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Manhã de 11 de Janeiro.

A corrida de hoje foi mais rápida, pois Felipe precisava encontrar seus amigos mais cedo para decidirem detalhes pendentes do plano.

Dessa vez a reunião não seria na casa de nenhum deles, mas sim em um local abandonado, encontrado pela Sophia certo dia. Não necessariamente encontrado, pois seu pai era dono do terreno.

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– Vocês trouxeram toda a informação recolhida ontem? – perguntou Pedro a Sophia e Rafael.

– Não só trouxe como aproveitei para analisar ontem a noite quando cheguei em casa. – pontuou Rafael. – E conclui que as pessoas escolhidas são as certas. Há diversas entradas dos funcionários do administrativo informando que tentaram contato com família, porém sem sucesso, e isso se repetindo nos últimos três anos. Ou seja, escolhemos os túmulos certos.

– Eu ia dizer exatamente a mesma coisa. – disse Sophia desanimada. – A única informação nova é de que nos arquivos físicos tem notas dos funcionários da limpeza dizendo que não recolhiam flores naqueles túmulos.

– Um assunto a menos pra discutir. – disse Pedro. – Agora a rota. Já ensaiamos isso durante as últimas semanas utilizando esse local como ponto de partida. Daqui até a o cemitério vila alpina perdemos de dez a quinze minutos e deste até o cemitério que fica no tatuapé mais quinze a vinte minutos. Pensando no pior dos cenários ficaremos trinta e cinco minutos dirigindo com corpos e restos mortais em um carro.

– Ou seja, ficaremos vulneráveis por trinta e cinco minutos. – conclui Davi com um semblante de preocupação. – Mas lembrem-se, não utilizaremos as rotas principais para evitar encontrar policiais.

– Acho que podemos ficar tranquilos em relação a isso, levando em consideração que em nenhuma das vezes que simulamos encontramos uma viatura policial. – lembrou Felipe.

– Talvez... – disse Sophia pensativa.

– E o corpo Davi? Precisamos que você pare com o mistério. – disse Pedro sério olhando incisivamente para o garçom. – Não é aceitável incerteza no nosso plano.

Davi retribui o olhar, mantendo o semblante calmo. Desviou seu olhar para Felipe, depois para Sophia, Alice e, finalmente, Rafael.

– Será um homem. – disse finalmente.

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Noite de 11 de Janeiro.

A reunião ocorrerá no mesmo local. Porém a noite a falta de iluminação tornava o edifício um lugar extremamente escuro e misterioso. A desculpa aplicada aos pais de cada um foi a de que iriam para uma festa. Os pais de Felipe não reclamaram, eles eram tolerantes com o filho. Quanto aos demais, como estavam lá, era de se imaginar que os pais não implicaram com a “festa”.

– Como evitaremos os seguranças? Lembra da última vez que fomos lá, encontramos três. Será que teremos tempo o suficiente para cavar, retirar o caixão para pegar os restos do defunto e colocar o corpo da nossa vítima, e, depois, deixar tudo como antes e não ser visto por nenhum deles? – questionou Felipe.

– Eu fiz minha pesquisa. – disse Rafael com um tom de entusiasmo na voz. – Aquele dia tinha três seguranças, pois era sábado e, na verdade, eram cinco. Nos dias de pouco fluxo a quantidade diminui para dois. Um fica na entrada do cemitério e outro faz rondas pelo cemitério. O maior problema é que eles trocam de função de hora em hora. Sendo assim, inabilitar um nos proporcionaria a janela de uma hora para fazer todo o procedimento.

– O que não é possível. – pontuou Pedro.

– Qual foi o recorde de vocês três realizando todo esse processo durante o treinamento? – disse Sophia se referindo a Felipe, Pedro, Alice e Davi.

– Nosso tempo recorde foi de duas horas. Sendo que os quatro participaram simultaneamente da tarefa. – disse Felipe.

– Então é preciso uma janela de duas a três horas, levando em consideração possíveis imprevistos. — comentou Rafael.

– Podemos derrubá-los. – disse Davi.

– Ou podemos força-los a sair do local. – comentou Rafael com seriedade.

– Como conseguiríamos manter duas pessoas fora do posto de trabalho por mais de duas horas? – questionou Sophia?

– O jeito é usar a sugestão do Davi. – disse Pedro desanimado.

– É muito simples essa solução e exige demasiado contato com os seguranças. – Felipe falava enquanto andava pelo local impaciente. – Não há criatividade nessa solução. Vocês tem certeza que não os seguranças percorrem a área inteira, sem esquecer de nenhum espaço? – questionou, incrédulo.

– A área é bem extensa e convenhamos que o serviço não deve ser realizado de forma meticulosa. – observou Alice.

– Então o que precisamos é descobrir qual parte do cemitério é negligenciada pelos seguranças. – disse Pedro. – Vamos ao cemitério. São apenas 20h20min.

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– Simples não? – perguntou Felipe. – Não é apenas uma área negligenciada, mas metade do cemitério.

– Realmente. – confirmou Alice. – Não sei como eles nos acharam daquela vez. Nós demos muito azar.

Todos riram.

Ao final, a visita do cemitério fora proveitosa. Foram exigidas algumas horas do grupo, mas serviu ao propósito de alinhar a questão dos seguranças. Eram 23h49min.

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13 de Janeiro, segunda-feira.

As imagens estavam confusas na mente de Felipe. Ele havia se preparado a vida inteira com imagens como aquela na televisão e na primeira oportunidade real ele não sabia como reagir. Não conseguia reagir.

Era tanto sangue.

E o sangue vinha em sua direção, como se estivesse sendo atraído por ele.

Ele tinha que se acalmar. Tinha que esquecer aquela sensação causada pela situação. Se ele não conseguisse fazer isso iria perder a cabeça e seus amigos não podiam presenciar tal evento.

Respirou fundo. Soltou o ar.

Respirou fundo novamente. Soltou o ar.

Felipe começava a retomar controle do seu corpo. Sua visão não estava mais embaçada e sua mente começava a associar as imagens com mais clareza.

Foi então que ele percebeu quem estava caído no chão em frente ao grupo de amigos.

Era Davi.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.