The Inter - Worlds (Parte 1): As Aventuras - Ano 2
56 Capítulo 47 - Reflexão e Decisão
Notas iniciais
Depois de fazermos aquela promessa fui descansar um pouco, no meu quarto. Isso, é claro, depois de Legolas me dar as direções desse (e mesmo assim demorou um bom tempo para eu convencê-lo que conseguiria chegar lá sozinha –e foi uma batalha para fazer isso, mas deixa quieto, eu consegui-).
Assim que atravessei o arco de entrada, tranquei a porta e deixei o meu corpo descer até o chão. Encostada na porta de madeira percebi como estava cansada. Era verdade, eu ainda tinha que descansar mais.
Porém ainda estava bem perturbada. Claro, como não ficaria? Depois de tudo aquilo que vi, não sabia como reagir. Será que minha família estava bem? Será que meus amigos estavam bem? Quem estava vivo e quem estava morto? Era como se eu não soubesse de nada. E isso me dava uma sensação terrível.
No final, era como se eu nunca pudesse fazer nada. Era como se eles fossem distantes. Fatos e coisas que eu simplesmente não podia mudar, não importasse o que acontecesse. Não importa quanto eu lutasse, se eles morreriam ou não, não era algo em que eu pudesse interferir.
E aquele incêndio...eu já tinha apagado ele da minha mente fazia tempo. Lembro bem do dia, mas tinha tentado esquecer, tinha sido um momento em tanto. Lembro bem como ele tinha acontecido. Mas não queria que lembrasse dele bem assim.
É como dizem, as boas memórias ficam guardadas na mente, mas as ruins ficam gravadas no coração. Não importa o quanto você fuja daquela memória, mais cedo ou mais tarde ela vai voltar e você não poderá fazer nada...
Como naquele dia.
Eu tinha que descobrir a verdade. Era tudo ou nada.
Estávamos conversando quando eu dei a desculpa de que iria no banheiro.
—Só não vá bater a cabeça de novo! – Jonathan brincou.
—Pode ter certeza que não! – respondi.
A última coisa que percebi antes de me virar foi um olhar preocupado do professor. Era como se ele soubesse o que eu estava indo fazer.
Mas foi aquela decisão que salvou a minha vida.
Assim que subi as escadas (era um apartamento de dois andares) e cheguei no corredor, as pessoas da sala não podiam mais me ver, então fui direto checar o que havia em cada cômodo (eu era bem xereta mesmo). Além do banheiro, também tinha um escritório e um cômodo trancado.
Devia ser o quarto dele. Se estava trancado, lá deviam ter coisas reveladores.
Tinha que pensar rápido: entrar ou não?
Peguei meu grampo de cabelo sem pensar duas vezes e depois de travar uma batalha com aquela fechadura, consegui abrir a porta.
Entrei silenciosamente. Comecei a rapidamente explorar o local. Tudo parecia muito normal. Então porque ele trancaria a porta? Não, tinha que ter algo ali. Algo estava errado.
Foi então que encontrei um baú. Ele parecia trancado, mas abriu-se assim que eu toquei no cadeado.
Muito estranho aquilo. E dentro tinha um livro grande.
—Magia?
Mr. Therchman era um homem estranho, mas realmente não achava que ele era até o ponto de acreditar em magia. Sabia que ele gostava do tipo de história com essas coisas, mas não achava que realmente estudava esse tipo de coisa.
Sinistro, simples assim.
Talvez ele não quisesse que nós soubéssemos e passássemos a achar ele louco, e a menosprezar ele. Ainda mais gente como eu, que segue a religião católica, que não é a favor desse tipo de coisa (nota da Ana atual: parece que o jogo virou, não é?).
Estava pronta para ver mais do livro e explorar mais do quarto quando ouvi um barulho. Será que o professor tinha descoberto a minha investida? Droga. Estava ferrada.
Portanto, rapidamente guardei o livro e fechei o baú, empurrando-o de volta para baixo da cama.
Fui vagarosamente na direção da porta, ouvindo vozes. Mas não eram as vozes de ninguém que estava lá antes. Eram vozes desconhecidas.
Abri um pouco a porta, tentando não produzir nenhum ruído. Porém ouvi gritos. Alguém estava sendo atacado e alguém estava lutando. Não podia sair, tinha que me esconder. O que diabos estava acontecendo? Não podia deixar a minha curiosidade falar mais alto.
Entretanto, eu tinha que saber. Porém não podia, aquilo poderia custar a minha vida. Mas, se não soubesse, como poderia reagir? Tinha que saber o que estava acontecendo. Para saber se podia chamar ajuda, se teria que me esconder ou agir.
Assim, decidi dar outra espiada pela porta. Contudo, antes que pudesse ver qualquer coisa, tudo aconteceu muito rápido.
Eu só vi uma luz se aproximando. Meu corpo voou para trás e logo depois tudo estava em chamas.
Minha cabeça bateu com força na parede, mas ainda estava consciente. O que tinha acontecido?
Minha visão estava um pouco turva. Mas tinha que ser forte, não podia ficar ali parada!
Eu tinha que ligar para alguém! Comunicar a minha situação!
Bem, eu faria aquilo, se o meu celular não tivesse sumido quando eu voei longe. Ironia, não?
Então, fui na direção da porta, evitando o fogo. Tinha que sair dali naquele exato momento.
Entretanto, na saída do quarto encontrei um obstáculo: um buraco no chão. Se eu caísse daquilo provavelmente não sairia viva. Sorte que ele era pequeno. Então, com medo, o atravessei vagarosamente.
Segui em frente, descendo o jogo de escadas. A sala estava destruída. Foi então que me dei com uma cena chocante. Estava em um misto de querer vomitar e gritar. Mas não fiz nenhum dos dois. Tapei minha boca e em desespero caí no chão de joelhos.
Lilian, que já estava com barriga aparente de seu filho, tinha os olhos abertos, desesperados e cheios de lágrimas. As mãos segurando a barriga. O resto do corpo todo cortado e soltando sangue.
Logo ao lado, Emily com um grande buraco sangrento na barriga. O rosto sem expressão e olhos escurecidos de uma pessoa que não tem mais a luz da vida.
Edson logo mais à frente. Metade de seu corpo tinha sido queimado pela explosão e outra metade era quase irreconhecível em seu atual estado, mas pude notar os cabelos grisalhos.
Então, pude ver os...restos de Ellen, espalhados mais para o lado. Uma parte dela claramente tinha sido levada longe pela explosão.
—Ei! Ana! – um pouco de esperança preencheu meu coração.
—Jonathan!
Conseguia ver seu corpo na distância. Ele estava meio queimado, um pedaço da cabeça não tinha mais cabelo, mas ainda estava vivo. Em seus braços, ele segurava Robson, seu irmão, já morto. Ele tinha lágrimas nos olhos mas deu um leve sorriso ao ver que outra pessoa ainda estava viva.
Bem, eu não era a única viva...
Até aquele momento. Pois um pedaço do teto esmagou o homem que estava na minha frente junto do corpo do irmão.
—JONATHAN! – eu gritei.
Comecei a chorar, descontroladamente. Não sabia o que fazer, era tudo tão horrível. Foi então que percebi que ainda não tinha visto o professor. Onde ele estava? Será que tinha sobrevivido?
Segui o rastro do sangue, dando em um círculo de fogo. O fogo estava alto, então era difícil de ver o que estava adiante. Mas eu podia ver aquele rosto, aqueles olhos pálidos vindos do meio da sala. Olhos de um homem oculto pelo fogo. Olhos de uma pessoa coberta por sangue. A única pessoa viva naquela sala, além de mim. Foi a única coisa que realmente pude notar, pois minha mente pareceu esquecer de tudo naquele momento.
Eu conhecia aqueles olhos, mas negava isso. Não era possível, ele não poderia ter matado os outros. Ele era uma pessoa boa.
Aqueles olhos me olhavam, a expressão de seu rosto era vazia. Era o professor? Não, não podia ser.
Ele estava coberto de sangue, do queixo para baixo. Seus cabelos longos estavam totalmente soltos. Mas ele não usava a toca preta que sempre estava na cabeça do professor.
Ele ainda estava vivo, diferente do resto das pessoas. Mas ele permaneceu ali, ajoelhado no meio da sala.
Não, não podia ser o professor. Mas eu tinha que ter certeza.
Fui me aproximar, mas ouvi um barulho vindo de cima e rapidamente pulei para trás, me salvando de um pedaço do teto que caiu bem no local onde estava anteriormente. Então um grande buraco se formou e parte do chão começou a cair, então tive que me arrastar para trás.
Não tinha mais como eu me aproximar para confirmar quem era o homem. E eu tinha que sair daquele lugar, antes que outra parte do teto tivesse a chance de cair em cima de mim.
Saí do apartamento, sem me importar em encontrar as minhas coisas.
Então foi uma longa batalha até que eu conseguisse chegar no último andar. Ouvi o som de bombeiros chegando. Os vi na distância, mas quando fui gritar por eles, caí e escombros cobriram a minha perna.
Não conseguia me mover e estava ficando muito, muito quente. Aos poucos a minha visão ficava turva, até que ouvi uma voz distante perguntar se eu estava bem.
Não tinha conseguido ver o rosto daquele homem direito, mas entreguei minha vida completamente a ele. E ele me tirou de lá. Quando acordei novamente, já em um hospital, ele não estava lá. Nunca pude agradecer, ou fazer alguma coisa por ele.
Nem pude devolver a jaqueta preta de couro que ele tinha usado para me envolver quando me tirou do prédio.
Eu guardei aquela jaqueta. Ainda tinha ela quando comecei as viagens. Sempre me perguntei o que ele estava fazendo com uma jaqueta de mulher, pois aquela jaqueta preta de gola alta era perfeita para mim.
Parece até que foi o destino.
Soltei uma lágrima ao lembrar de tudo aquilo. É uma parte do meu passado que ninguém conhece. Nunca contei a ninguém o que vi naquele prédio. Nem mesmo às pessoas mais próximas.
Mas aquela não era a pior das memórias. Tinha uma que conseguia ser tão traumática quanto. Entretanto, lembrar dela doía ainda mais.
Um quarto escuro, em um dia chuvoso. Sangue caia dos meus olhos, tudo era escuridão, eu não via absolutamente nada naquele dia...
Sim, aquele dia amaldiçoado.
Uma arma na minha mão. Um homem que segurava uma faca...qual era o seu nome mesmo? Não conseguia me lembrar. O som de tiros, aquele corpo caindo em cima do meu...
Me forcei a não lembrar. Doía demais. Aquela realmente não dava, já tinha sido demais lembrar do incêndio.
Então me levantei e tirei o manto, estendendo ele em uma cadeira. Fui na direção da cama, iria descansar mais um pouco.
Era verão. O meio do ano provavelmente já havia passado, e o outono se aproximava. Eu estava na Fortaleza da Floresta das Trevas. Mais de um ano sem retornar para casa. Meus poderes ainda estavam crescendo e eu ainda tinha muitas dúvidas.
Então percebi que era tempo para mudanças. Uma mudança que eu não tive coragem de fazer em toda a minha vida.
No fogo, eu conheci o que era o desespero. Aquela sensação agonizante, onde você sente que nada será o bastante. Você sente que não pode fazer nada. Não importa o quanto grite ou chore, ninguém vai vir para te socorrer. A não ser que faça alguma coisa, não há salvação. É simplesmente o fim.
E você sente que todos os seus medos se uniram e se colocaram ali na sua frente. Não, algo tão ruim e mal que consegue fazer você temer mais do que seu medo mais profundo.
E também, mesmo que com seu corpo intacto, você sente como se sua alma estivesse distribuída em pedaços e também sente muita dor. Uma dor que você simplesmente não consegue jogar para fora, uma que ficará presa dentro de seu coração junto com o desespero.
Foi então que percebi a verdade, que se ocultava na minha frente desde o início da minha vida. Eu não podia depender mais dos outros. E também não podia deixar os outros dependendo de mim. Eu tinha que ser forte, para impedir que tudo o que aconteceu no passado não se repetisse.
Assim que acordasse, seria outra Ana. Não uma Ana sentimentalista que só se machucava por dentro pelo que acontecia com os outros. Assim que abrisse os olhos, seria uma Ana objetiva, inteligente e perspicaz. Não ficaria chorando pelos outros. Lutaria para que não tivesse razão alguma para chorar. E não derramaria lágrimas para aqueles que não as merecessem.
Uma Ana temida pelos outros e que não se deixava levar pelos simples comentários da escuridão. Não podia deixar que o que passei no sonho se repetisse. De jeito nenhum.
Somente depois de refletir e me lembrar do passado eu percebi que só poderei seguir em frente se for forte. Só poderei achar as minhas respostas se for a mais esperta. E não daria oportunidades para deixar de ser.
Um incêndio como aquele não aconteceria novamente em minha frente. E se fosse o caso dele acontecer, que ele ouse queimar eternamente para que eu possa erradica-lo com meus poderes.
Aqueles seriam meus últimos momentos como uma Ana fraca. E a nova Ana começaria em breve, e já estaria em ação naquela conversa...
—Então você é o rei Thranduil, é um prazer.
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