Notas iniciais
Olá pessoal! Tudo bem? E o capítulo tão esperado chegou! Sem enrolação, vamos lá!

Olhei para o relógio no centro do teto, era 23h40min. Hora de sair do quarto. Encarei as câmeras que ficavam na lateral. Estavam todas aparentemente desligadas, como se fosse uma câmera fotográfica fechada. Abri um sorriso. Ninguém estava nos vendo.

Alguém bateu na porta. Meu coração congelou. Será que fomos descobertos. Não. Estava tudo dando certo, pelo menos em nossas mentes.

As outras garotas se levantaram e eu as segui. Atrás da porta estava Treze. Girei os olhos, sempre ele.

– Vou acompanhá-las.

Treze colocou Jane em sua cadeira de rodas e a ofereceu para Vick empurrar. Seguimos pelo corredor ainda com medo. Nem sequer olhávamos para os lados. Era algo proibido mentalmente por cada um de nós.

– Onde estão as outras? – Vick perguntou.

– Já foram. – ele respondeu. – Eu as levei. As câmeras foram desligadas quando o relógio marcou 23h30min.

Ficamos quietas enquanto seguíamos ele. Um barulho poderia entregar tudo.

Todos os guardas pareciam estar em transe, dormindo. As luzes já estavam até fracas. Parecia que a Proteção havia adormecido. Era um sono que poderia ocorrer todos os dias. Eu estava grata por isso.

Ouvimos alguns passos e descobrimos de quem eram quando cruzamos com alguns dos meninos. Seguimos o grupo andando juntos, sem nem nos cumprimentar. Josh estava junto deles, porém ele entrou em outro corredor. Em buscas das crianças ou da mulher.

Continuamos com o passo apressado. Chegamos no jardim. As luzes estavam apagadas, então não conseguia ver praticamente nada, somente os colegas do meu lado e a frente, mas eram vultos. Pisei sem querer nos pés de alguém e em seguida ouvi uma voz bem à frente:

– Mariah.

Levantei meus braços tentando mostrar que estava lá. Era um impulso de mostrar que existia, eu sei.

– Venha para frente. – a voz era de Frank e senti um impulso de ir para ainda mais longe, mas tinha que ir.

Fui pisando as cegas. Levando pequenos tropeços na grama que parecia só aumentar. Aquilo deixava claro que ali não era um local tão bem cuidado. Apenas usado para mascarar a dor.

Quando cheguei à frente pude identificar Frank e Robert. Estávamos a um passo da estrada, três metros até o muro. Alguém beijou minha bochecha e eu conhecia muito bem aqueles lábios.

– Vamos ficar livres. – Liam sussurrou no meu ouvido.

– Todos já estão aqui. – Josh surgiu do nosso lado com as duas crianças, eles pela altura, tinham entre doze a dez anos.

– Oi. – segurei a mão dos dois e eles apertaram com força, senti que estavam com medo.

– Quem vai primeiro? – Frank perguntou.

– Ginna. – foi o primeiro nome que veio a minha mente, era a fantasma.

Ela surgiu calma e sorrindo. Ao contrário do que eu imaginava.

– Consegue transmitir seu poder, passar duas pessoas junto com você? – perguntou Josh.

– Consigo. – ela deu um passo. — Chame Ryan e Sam, eles não vão conseguir passar sozinhos, só se destruírem o muro.

Os dois irmãos vieram para frente e seguram as mãos de Ginna. Deram um passo para frente. E o que eu julgava praticamente impossível naquelas circunstâncias aconteceu. As veias nos músculos de Ryan começaram a destacar, seu poder havia voltado. Caminharam até a frente do muro.

– Vamos esperar vocês do outro lado. – Sam sorriu para nós.

Os três atravessaram o muro e eu senti o impulso de tampar os olhos, esperando que batessem de cara. Mas não. Apenas atravessaram e aquilo significava que estavam livres.

– Poderíamos pedir para ela voltar e passar todos nós. – Frank sugeriu.

– Estaríamos cansando ela. – respondi.

– Rachel. – chamou Robert e ela em seguida apareceu. — Quantos consegue levar?

– Dois também. – respondeu Rachel com seu típico tom confiante. — Posso fazer isso duas ou três vezes. Caso queiram.

– Amy e Vick. – foi apenas dizer o nome delas que elas deram um passo a frente, dando as mãos rapidamente para Rachel.

Elas sumiram e Rachel voltou exalando toda confiança que possuía. A teletransportadora conhecia seu valor.

– Quem mais? – ela perguntou.

Wesley e Peter foram diretamente a ela e em seguida sumiram.

Ela voltou suando muito. Rachel havia acabado de perceber que seus poderes possuem limitações.

– Desacostumei. – ela respirou fundo. — Quem mais? Essa é minha última leva.

– Eu. – Chris foi até ela.

A mulher metamórfica também foi. Quieta. Com os cabelos presos e o olhar abaixado. Era frágil.

– Peça Ginna para voltar. – Robert pediu.

Os três sumiram.

Ginna apareceu logo depois. Não suava como Rachel, mas a face de cansaço estava exposta, mas talvez aquilo fosse apenas má vontade.

– Sabia que iam precisar de mim novamente. Consigo levar mais de duas pessoas se quiserem.

– Por que não disse antes? – Robert perguntou mostrando um pouco do nervosismo que sentia.

– Pensei que não conseguiria, mas lembrei de que já fiz isso antes. – ela respondeu. — Quatro pessoas e eu não volto.

– Eu, Josh, Frank e Yoko. – Robert encostou a mão no ombro de Ginna e eles passaram pelo muro.

– Théo, consegue levar a Jane? – perguntei.

Ele respondeu que não. E a sua resposta havia me deixado preocupada. Jane não poderia ficar para trás. Nenhum de nós podia sofrer naquele inferno branco.

– Eu posso ir sozinha. – Jane levantou da cadeira e deu um passo até a estradinha.

Ela caiu e se levantou, como se fosse algo automático. Mas aquilo era sinal que estava mais forte, capaz de sustentar o próprio peso. Abriu as asas belas que reluziram na escuridão. Eu nunca havia visto algo tão belo e surreal. Jane tinha razão. Suas asas eram lindas. Alçou voo por cima do muro. Abri um sorriso.

Théo se transformou em uma águia e voou também por cima do muro.

Sobrara então somente Liam, eu e as crianças para cruzar o muro. E aquilo me deixava nervosa.

– Liam, eu não sei se consigo passar. Na verdade eu tenho certeza que não consigo.

Ele deu a mão para nós. Envolvendo-nos em uma espécie de nuvem, criado por ele próprio. Liam olhou para mim e fechei os olhos. Medo. E quando abri novamente os olhos, estava do outro lado do muro. Livre.

Todos estavam com olhares atentos e brilhantes. Livres. Nada de Proteção, horários e coisas brancas. Sem mentiras.

Liam estava do meu lado e eu não conseguia desgrudar das duas crianças.

– Para onde vamos agora? – perguntou Peter.

Josh apontou para uma decida. A Proteção ficava no topo de uma montanha. O que significava que tínhamos andar muito. Por que nada podia ser fácil?

– Vou pedir uma coisa a vocês, não usem seus poderes para descer. — disse Josh. — Esta montanha inteira é equipada com armadilhas para capturar mutantes. – como eu imaginava. — Cuidado com as estradas aqui também, há muitos vigias nelas fazendo seu turno.

– Nós somos mutantes. – Frank comentou com confiança.

– Se usarem os poderes serão localizados, se não usarem vocês não serão capturados. Humanos não são pegos aqui. – respondeu Josh.

Começamos a caminhar em fila. Tentávamos não tropeçar nas raízes enormes das árvores. Com apenas alguns minutos já estávamos nos queixando por sede, cansaço e fome. Eu ainda estava bem. Minha cabeça voltou a doer graças a volta dos poderes, até mesmo os pensamentos deles estavam exaustos.

– Falta muito? – Théo perguntou.

– Quantos quilômetros já foram Robert? – Josh perguntou.

– Quatro quilômetros. – a resposta era curta e o caminho longo.

– Bom, até a estrada são quinze, faltam onze. – Josh respondeu a pergunta de Théo.

O cansaço era tão grande que caminhávamos curvados, como se fossemos velhos.

– Eu vou morrer até lá. – Rachel parou e se apoiou nos joelhos. — Não podemos parar para descansar?

– Não. – Josh respondeu.

– Todos nós precisamos até você! – Vick disse indignada.

– Josh, você disse hoje de manhã para Frank e eu que há um riacho e que nós poderíamos parar lá para dar uma respirada. – Robert havia enchido todos de esperança naquele momento.

– Respirar não quer dizer descansar. – Josh continuou seguindo na frente.

– Quantos quilômetros até o riacho? – Wesley perguntou com a mesma curiosidade que todos tinham.

– Cinco. – Josh fez sinal de silêncio.

Josh apontou para uma estrada que parecia estar a cinquenta metros de nós.

– Vamos ter que cruzá-la. – ele sussurrou.

– Vamos logo! – Frank passou na frente de Robert que estava atrás de Josh.

– Nem pense nisso garoto. – Josh segurou o braço de Frank. — Você não conhece essa montanha. Faltam três minutos para uma hora e a cada quinze minutos um grupo de vigilantes da Proteção passar por ali. Escondam-se atrás das árvores.

Fizemos o que ele pediu e no tempo que ele disse, um grupo de vigilantes de branco passou pelo caminho. Passos longos e praticamente medidos, uma marcha perfeita. Eram praticamente iguais. Nos rostos estava presente o nada. Como se não fossem felizes nem tristes. Eram praticamente cópias um do outro. Eram números, assim como Treze. Não consegui escutar os pensamentos deles, era como se suas mentes fossem bloqueadas. Ou como se não tivessem vidas. Eram apenas bonecos manipuláveis da Proteção. E isso fez minhas pernas tremerem. E se fossemos descobertos?

Eles passaram sem desconfiar de nada. Logo sumiram pelo caminho. Cruzamos a estrada e entramos novamente na floresta.

– Não podemos ir pela estrada? – Peter perguntou.

– Já disse o motivo. – Josh continuava sério.

Seguimos na mesma ordem de antes. Afinal Josh conhecia muito bem a montanha e nós não, mas se fosse para alguém ficar no comando sem ser Josh, seria com certeza Robert. Desde o início Robert estava calculando nossa distância da Proteção. Ele disse que era importante e que isso o deixa mais seguro, Josh concordou com ele. A cada cem metros Robert contava a distância que faltava até o fim da montanha.

Esforcei-me ao máximo para não me preocupar com os pensamentos de meus colegas. Sabia muito bem que eles estavam em péssimo estado. Jane já estava apoiando em Ryan. Rachel não parava de reclamar por sede, não só nos pensamentos, mas todo o tempo ela reclamava e pedia para parar, Josh dizia para continuar seguindo e isso fazia com que Vick discutisse com ele. Fiquei com um pouco de pena deles. Josh estava cansado e sabia que estava querendo parar, mas por fora ele tentava demonstrar que estava tudo bem, que devíamos andar cada vez mais rápido. E eu não conseguia entender isso. Já fazia mais de uma hora que estávamos caminhando.

– 500 metros para o riacho. – Robert anunciou, fazendo um sorriso brotar nos lábios dos gêmeos.

– Estão com sede? – Liam perguntou a eles que assentiram

– Qual é o seu nome? – perguntei.

– Eu sou Lucy e ele é Lucyo, com Y não com I.

Sorri. Era engraçado de certa forma.

– Sou Mariah e ele é Liam.

– São namorados? – Lucyo perguntou de um jeito curioso, mas parecia totalmente natural.

Liam e eu nos olhamos e rimos.

– Correto. – Liam respondeu mostrando a aliança que a Proteção não arrancou dos nossos dedos.

Os irmãos sorriram de um jeito animado.

O passo de todos havia aumentado. A sede tomou conta do grupo por completo. E quanto a mim, não sentia sede nem fome. Apenas meus joelhos doíam um pouco.

Chegamos logo no riacho. Todos correram até a água, estavam desesperados. Josh pediu para pararem, que somente quem controlava os poderes poderiam ter contato com aquela água.

– Vem Vick! – chamou Rachel.

– Eu não posso tocar na água. – Vick se manteve parada, mantendo distância da água. — Meus poderes podem vir a tona e eu ainda não sei controlá-los direito.

Levei as crianças até o riacho. Elas correram e se saciaram.

– Logo teremos os nossos. – Liam segurou minha mão.

– Logo. – respondi com um sorriso.

Todos pararam de beber a água e começam a olhar uns para os outros. E eu sabia bem porque. Não sabíamos como atravessar o riacho sem usar nossos poderes, ainda mais porque não tinha nenhum sinal de ponte.

– Como vamos passar? – Théo perguntou.

– Vocês sabem que eu não posso entrar na água! – Vick deu um passo para trás, estava com medo.

– Sabemos disso. – Robert se abaixou perto da margem, ele colocou a mão no fundo e olhou para nós.

– Estamos ferrados. – disse Frank.

– Não, não estamos. – Robert se levantou. — Tem como passar.

– Mas a Vick não consegue! – Rachel estava tensa.

– O riacho é raso e não é largo. Eu só preciso de três pessoas para atravessar junto comigo. – Robert deu um passo para dentro do riacho. — Tem uma árvore caída logo ali na frente, podemos fazê-la de ponte. – revelou Robert já do outro lado da margem. — Sua vez Ryan!

Ryan olhou para ele sem entender muito bem o que ele disse, mas mesmo assim ele cruzou tranquilamente o riacho, indo para onde Robert estava.

– Sam! – Ryan a chamou, ela também cruzou com facilidade.

– Amy! – Robert a gritou e rapidamente ela já estava lá com eles.

Os quatro arrastaram o pequeno tronco de árvore até o riacho, colocando-o sobre o rio.

– Não parece seguro. – Rachel deu o primeiro passo, voltando rapidamente para a terra. — Não irá aguentar todos nós.

– Isso é para Vick e Yoko. – disse Robert.

– Por que somente para elas? Yoko pode entrar na água. – Théo olhou para Yoko.

– Não, eu não posso, a água entraria em contato e eu poderia manipula-la sem querer. – Yoko respondeu. — Não é seguro.

Vick subiu no tronco, mas não parecia muito segura, seu equilíbrio não era tão bom quanto o controle. Corri e dei um passo dentro do riacho, dando a mão para Vick, logo Lucy faz o mesmo que eu. Vick nos olhava com um sorriso.

– Obrigada.

Cruzamos o riacho e esperamos todos passarem, até que Yoko não quis a ajuda de ninguém. E o que não esperávamos aconteceu. O tronco se partiu. A água começou a se juntar envolta dela, em seguida a cuspindo para o nosso lado. Seus olhos estavam arregalados.

– Fiquem em silêncio. – Josh cochichou. — Não se movam.

Tarde demais, Vick espirrou.

Vários vigilantes surgiram e nos cercaram. A qualquer momento poderíamos ser mandados novamente para a Proteção. E dessa vez seria pior.

– Usem seus poderes! – Josh pediu com um tom desesperado.

– Você disse para não usarmos. – Wesley lembrou.

– Você escolhe voltar para a Proteção ou ser livre. – os olhos de Josh estavam arregalados, estava desesperado.

Frank de imediato lançou uma bola de fogo contra eles, fazendo com que cinco deles caíssem no chão gritando de dor. Yoko fez uma onda, levando esses cinco para o riacho que naquele momento mais se parecia com um rio. Liam fez uma parede de ar entre nós e os vigilantes. Nós demos passos leves, nos distanciando.

– Eu não vou aguentar por muito tempo, eles estão revidando. – Liam gritou.

– E agora? – Sam perguntou com a voz controlada, disfarçando o nervosismo que sentia.

– CORRAM! – Josh gritou.

Saímos todos correndo pela decida. Desesperados. Sem enxergar nada, pois ainda era noite. Tropeçávamos uns nos outros, esbarrando em árvores, evitando olhar para trás. O desespero era a maior emoção naquele local.

Não queria voltar para a Proteção. Não queria ser uma prisioneira, não queria ser enganada, precisávamos escapar.

Não soltei a mão das crianças, eu tinha que os proteger.

Nas raras vezes que olhei para trás, vi Yoko jogando bolhas enormes de água neles e Frank com suas bolas de fogo. Repetidas vezes.

– Tive uma ideia. – Lucyo fala para sua irmã. — Precisamos parar!

– Vocês não podem. – gritei em meio ao desespero.

Eles não me ouviram e pararam, deixando os outros mutantes nos passarem.

Os gêmeos fizeram juntos, um muro enorme. Nos separando dos vigilantes da Proteção.

– Isso vai impedi-los por um bom tempo! – Lucy pegou minha mão novamente.

– Mesmo assim, volte a correr! – gritou Lucyo.

Corremos. Corremos tanto. Mais do que eu imaginava que podia correr. Já nem sentia minhas pernas, parecia que elas estavam correndo automaticamente.

– Nos solte. – Lucy gritou desesperada.

– Não posso. – disse a ela com a voz abafada.

– Você vai correr mais rápido. – Lucyo se soltou de mim e Lucy também.

– Fiquem próximos de mim, então. – pedi.

Os irmãos tentaram ficar próximos de mim. Uma distância que pelo menos não nos fazia esbarrar.

Tropecei em uma raiz e levantei com um pouco de dificuldade em meio ao desespero. Estava fraca, suada e não conseguia respirar. Tropecei novamente e me levantei com dificuldade. Até que em mais um tropeço eu comecei a rolar da montanha. Fechei meus olhos. Não vi mais nada. Não sentia mais nada. Bati minha cabeça em alguma pedra. Desmaiei.

Notas finais
E então pessoal, o que acham que vai acontecer agora? Comente!