The Hunt
18 Capítulo 18 - Micknoviktocsk
Notas iniciais
Harry aproveitava o passeio de carro ao som de The Killers -sua banda predileta-. Ele adorava dirigir assim, tranquilo, sozinho, com a música alta e sem ter um destino; fazia com que ele se esquecesse momentaneamente sobre tudo o que lhe perturbava e todos os deveres que tinha de cumprir. Em especial, naquele dia, tentava livrar sua cabeça de uma ligação que recebera na noite anterior, um homem, que se identificou como Micknoviktocsk, interessado em seus serviços que encomendara a cabeça da filha mais velha dos mais temidos vampiros da França, os Gauthier.
Os Gauthier eram uma família milenar de vampiros, Harry já havia lidado com eles antes, Elói Gauthier, o vampiro mais velho e pai do clã, encomendou uma vez um coração de dragão para sua mulher, que de milênio em milênio necessitava alimentar-se de um, caso não quisesse ser consumida internamente e dolorosamente por sua maldição. O corpo de Eloise nunca aceitou bem a mordida de vampiro, e ao longo dos séculos travava uma lenta e inacabável batalha com o veneno que seu marido injetara em seu corpo. Essa condição, entretanto, fez com que Eloise e Elói pudessem ter filhos, cinco meninas e um menino, mas depois que o veneno da mordida consumiu todo o seu sistema reprodutor, ela não pode conceber mais filhos. Isso, porém, aconteceu a muitos, muitos séculos atrás, fazendo com que o caçula, Alain, tivesse "apenas" mil e quinhentos anos.
Micknoviktocsk encomendara a cabeça de Janine, a filha mais velha do casal. Harry sabia que era uma missão suicida, por serem os primeiros e únicos vampiros legítimos (que já nasceram vampiros), e por serem tão velhos eram praticamente indestrutíveis, Harry ainda estava para ouvir de algum feitiço ou saber de algum objeto que fosse capaz de matar um dos irmãos Gauthier. Eles eram notáveis. Todos os filhos sofriam de albinismo, eram como borrões brancos -salvo pelos olhos cor de carmim- a pele tão branca como neve, cabelo, cílios, sobrancelhas e pelos em geral eram tão brancos como a pele. Eles eram, também, extremamente parecidos, com algumas diferenças apenas. Com toda a certeza, eles não passariam despercebidos se saíssem nas ruas, talvez esse fosse o motivo que quase nunca saiam, o pouco que tinham de contato com o mundo externo era durante a noite quando podiam ficar no jardim mórbido da casa, os pais, Elói e Eloise, saiam de tempos em tempos para caçar durante a noite, os irmãos não tinham permissão para fazê-lo.
Em meio ao som da música alta de Harry, e de seus pensamentos, ele sentiu o celular vibrar sob sua perna direita. Ele abaixou o som da música até ficar quase inaudível, e colocou o celular no modo viva-voz.
– Sr. Grayson — A voz abafada do outro lado da linha começou — Espero que já tenha considerado o meu pedido — O homem concedeu uma pausa de cerca de sete segundos, e como Harry não se manifestou, ele continuou — Estou ficando impaciente, Sr. Grayson.
– O senhor não tem noção do que pede, com todo o respeito, deve estar louco! — Harry não poderia aceitar esse trabalho, pois mesmo que a quantia de dez milhões fosse tentadora, de nada ela serviria a um homem morto. — Eu não posso aceitar esse trabalho, infelizmente, Sr. Micknoviktocsk, ainda prezo minha vida.
– É, de certo modo, irônico escutar isso de você Harry Grayson, filho do Senhor da Morte — O homem se divertiu ao escutar a respiração de Harry pesar, nenhum de seus clientes tinha acesso a essa informação, nunca, ninguém sabia quem ele era e quais eram suas origens. Isso colocaria em risco todo o seu trabalho, e até mesmo seus clientes. — Que eu saiba, sua vida nunca foi realmente... Sua, para prezar.
– Mas como raios você tem acesso a essa informação???! – Harry revoltou-se ainda mais quando escutou uma risada abafada vinda do outro lado da linha.
– Você tem trinta dias, Sr. Grayson. — O homem desligou o telefone e deixou Harry sozinho com seus pensamentos novamente.
Não demorou muito para que ele sentisse o celular vibrar outra vez, agora as iniciais "I.M." apareciam na tela, era uma abreviatura para Igor Mozarov. Harry nunca colocava o nome das pessoas em seus contatos no celular, para ele, era arriscado demais.
– Me encontre na grande gruta. Você tem vinte minutos. — Igor desligou o telefone sem dar chances para que Harry falasse o que quer que fosse. Era típico dele isso, tudo o que dizia soava como ordem, nunca como sugestão.
Harry obedeceu o que Igor tinha dito, apenas devido ao fato de ter notado a confusão em sua voz. Em vinte minutos, o menino de cabelos negros e olhos cor de avelã estava dentro da gruta e caminhando em direção a Igor -ele devia, realmente, estar com algum problema pois estava sentado em uma pedra, com a cabeça baixa e segurando-a com as mãos, os cotovelos apoiados nos joelhos-.
– Igor? — Harry se aproximou a parou cerca de trinta centímetros de onde o amigo estava sentado. Este levantou a cabeça, e depois de focalizar no amigo levantou-se para cumprimenta-lo.
– Harry, nós somos amigos a muito tempo, você sabe de "coisas", e eu também, e é uma das poucas pessoas em quem confio — Antes que Igor pudesse continuar, Harry o cortou.
– O que deu em você?? Está parecendo uma criança!! Ande Igor, desembuche!
– Olha Harry, eu sei que você não se da bem com seu pai, mas você tem alguma noção de que ele poderia querer com Annyat? — Os olhos de Igor brilhavam, ele realmente estava com medo?
– Aaaah... Então quer dizer que o bichinho novo dos Mozarov é... "Especial"? — Harry pareceu se divertir com a situação, mas não o culpem, não é todo dia que se vê um Igor Mozarov naquele estado.
– Annyat, Harry! O nome dela é Annyat! — Pois é, irrita-lo nunca perdia a graça — E sim, Anny é um animagis, sua forma animal é uma tigresa prateada enorme. No dia que Liev e Mikhail a trouxeram pra casa, sem saber, eles estavam caçando ela.
– Então nossa querida Ann é a tão famosa tigresa de prata, é? — Harry já ouvirá diversas histórias sobre "A Tigresa Prateada" devido a seu trabalho, mas nunca realmente se interessou pelo assunto — Olha Igor, eu sinto muito, mas devo saber tanto quando você, meu pai não confia em mim, ele não me concederia nenhuma informação importante. — Ao ver a decepção profunda estampada no rosto do amigo Harry decidiu revelar todo o pouco que sabia, mesmo tendo a forte impressão de que seria uma informação inútil para Igor. — Tudo o que eu sei sobre ela são boatos que ouvi em meu trabalho, todos relacionados com a pelagem dela e com carros de caçadores misteriosamente destruídos durante a noite. — Igor deu uma risadinha abafada ao escutar sobre os carros destruídos, mesmo com toda a paciência que ela tinha, ainda descontava a raiva de caçadores que acertavam tiros nela. Por um instante pensou o que seria de Mikhail e Liev se ela tivesse decidido permanecer como tigre. — Escute, Igor, se Alexander pretende alguma coisa com ela, se ela é tão importante assim para ele, você devia se afastar, eu conheço meu pai, e se tem uma coisa que ele gosta é de ver o sofrimento dos outros, e não é porque você é um dos caçadores favoritos dele que vira exceção. — Harry colocou a mão no ombro do amigo e apertou de leve, acompanhando isso com um sorriso que desejava força, e depois se afastou, indo em direção a seu carro.
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