The Hunger Games
20 Solidão
Notas iniciais
Capítulo DEZENOVE
e que a sorte esteja sempre a seu favor
Kushina Uzumaki segurava a mão pequenina de Naruto. Ele fungava. Os dois em frente ao túmulo do pai, no silêncio do cemitério. Era dia de homenagear os mortos. Muitos visitavam os túmulos dos que haviam lutado na revolta. A roupa preta fazia os olhos azuis do garotinho saltarem.
— Não chore, Naruto – ela diz em um tom suave. O garotinho cerra os dentes.
— Por que ele lutou na guerra? – Naruto resmunga – Ele não devia.
Kushina suspira e as árvores dançam com o vento.
— Ele lutou por todos nós. E salvou nosso Distrito com a sua ajuda. Todos sabem disso, do Distrito 1 até a Capital.
— Eu queria ele por perto.
— Quando perdemos alguém importante – Kushina agacha para ficar da mesma altura que o filho enquanto lhe limpa o rosto – fica um vazio no nosso coração. Mas, veja – Naruto olha quando a mãe aponta para uma família ao lado, observando outro túmulo. A garotinha tenta disfarçar o choro, mas soluça vez ou outra. Os cabelos cor-de-rosa colando no rosto úmido – a guerra deixou muitas pessoas com esse mesmo vazio que sentimos. A Sak-chan é sua amiga, não é?
Naruto assente.
— Vocês poderiam preencher o vazio um do outro – ela sorri.
— Eles têm medo de mim – ele lamenta, em um tom baixo. Kushina olha em volta. Realmente. Não era a primeira vez que os garotos da idade dele o viam e mudavam de rota ou comentavam coisas entre si e riam.
— A Sakura-chan também?
Naruto pareceu pensar a respeito, enquanto fungava e olhava para a garotinha. Por fim, balançou a cabeça.
— Não.
— Quando encontrar uma pessoa que vale a pena – Kushina ergue seu queixo, sorrindo – se agarre a ela com todas as forças. Os outros não importam.
Os olhos azuis de Naruto cintilam.
— Sim! – Ele faz, decidido. E se afasta rapidamente.
Sakura sente os cutucões e segura o choro, olhando para o garotinho em sua frente.
— Naruto...?
— Sakura-chan – ele grita – por favor, seja minha amiga. Eu vou te proteger com a minha vida!
A mãe de Sakura olha para o garoto assustada e depois para Kushina, que apenas dá um sorrisinho encabulado, coçando a cabeça. Após alguns instantes olhando para o menininho como se fosse parte de um sonho, Sakura finalmente se lembra de responder. Então assente e ergue a mãozinha em sinal de juramento:
— Certo.
Sakura sente a fraqueza por todo o corpo e se obriga a manter os olhos abertos. Ela contrai todos os músculos, tentando mantê-los ativos, apesar de imóveis, mas o braço dói, como se estivesse deslocado, e o cansaço se torna o maior inimigo. Ela vê o amigo rosnando e mostrando os dentes. Enquanto todos ao redor, inclusive Lee, tremem de medo do Uzumaki, que esquenta o ambiente apenas com a sua presença, Sakura ironicamente treme com receio de que ele se machuque. Atrás dele, Hanabi e Hinata se preparavam para lutar mas Sakura ouve quando Naruto manda elas saírem dali.
Quando Hinata tenta protestar, Naruto dá as costas para ela e faz um sinal. É quando ela pega Hanabi pela mão e volta para dentro da floresta. Gaara analisa o Uzumaki de cima abaixo.
— Não sabia que eram permitidos animais de estimação na arena – Temari não pode deixar de provocar. Naruto olha para a prisão de areia que aperta Lee e Sakura e estreita os olhos:
— Ou magia negra.
Gaara sorri.
— Minha areia é mais que isso.
Mas o Uzumaki apenas mostrou os dentes. E Gaara de fato não parecia mais tão confiante. O loiro olhou para Sakura uma última vez antes de atacar: “vamos ver por quanto tempo ele consegue controlar a areia e brigar”. Naruto já investiu como um animal: avançou com golpes repetidos contra Gaara e, sua areia, por mais que o protegesse, deixava a desejar no quesito força. Já atento a isso, Lee, que prestava atenção em cada detalhe da luta, sentia cada vez menos pressão do casulo sobre ele.
Se ele conseguisse se soltar e lutar ao lado do Uzumaki, Gaara teria menos chances. Mesmo assim, como derrotar aquela areia?
┼
Sasuke acabara de investir contra Neji, que desviara. Os dois se afastaram, levemente ofegantes. Foi quando Sasuke ouviu passos se aproximando e se voltou para eles. Kiba sorria com os caninos afiados:
— Tragam o bolo, a festa começou!
Kin, Karin e Tayuya apareceram com ele. Neji reconheceu a garota de cabelo vermelho e óculos:
— Você não estava morta?
— Vão precisar fazer mais se quiserem me matar – ela sorriu, olhando para Sasuke. Kiba apontou para a mochila.
— Continuem onde estavam. Vou pegar o que esse ladrãozinho tirou de mim e nos vemos por aí – mas antes que ele pudesse terminar, vários insetos começaram a tomar conta do corpo dele. – Que merda é essa?! Que nojo – e ele começou a bater as mãos e, em determinado momento, até correr. Shino, em cima da árvore, observou quando Tayuya partiu para cima de Sasuke e deu um leve aviso de cabeça que o Uchiha respondeu olhando para trás. Ela vinha com pedras nas mãos, das quais ele desviou. Sem muita dificuldade ele rodou sobre a mão no chão, apoiando-se no pulso e jogou Tayuya com um chute por cima de Kin. Karin partiu para pegar a mochila, irritada, mas Neji foi mais rápido: pegou a mochila e saiu correndo. Em dois segundos, Shino e Kiba, Sasuke e Tayuya, e Karin, todos fitavam o compartimento com olhos de água.
Kiba tentou se separar de Shino mas vinham cada vez mais insetos, que ele não tinha ideia de como combater. Tayuya demorou para se levantar e apenas assistiu deitada enquanto Sasuke e Karin disparavam atrás de Neji. Foi quando o chão tremeu.
A ponto de toda a arena balançar, como em um terremoto, o tremor veio com um rosnado de fundo de garganta. Sasuke olhou em volta, já quase alheio à importância da mochila, que voara das mãos de Neji. Atiradas de dentro dela, cinco seringas se espalharam no chão, duas delas quebradas. Foi no momento em que o Uchiha ouviu um segundo rosnado que ele sentiu a picada no pescoço, acima do ombro. Karin ainda sussurrou em seu ouvido:
— Lembre-se do que o Oroshimaru disse.
— O que você fez— possesso, Neji investiu contra ela, tentando tomar a seringa de suas mãos. O que se seguiu foi uma chama que Sasuke sentiu arder em todo o lado direito do corpo, gemendo e até gritando de dor. Dando Sasuke como inválido, Karin e Neji ainda disputaram o líquido restante da seringa utilizada. Os vívidos olhos vermelhos do sharingan, apontaram, porém, para as outras seringas. Em um dos golpes de Neji, Karin acaba sendo jogada e batendo a cabeça. Desacordada, ela soltou a seringa que o Hyuuga tirou de suas mãos e quebrou com o pé. Foi só neste momento, em que Neji se afastou para pegar a mochila, que ele percebeu que lá já não havia nada.
┼
O tempo de luta se estendia e seu desenho era o mesmo: Naruto investia, às vezes acertava alguns golpes, mas não o suficiente. Foi até que, em determinado momento, Naruto rolou para o lado de Gaara, ficando atrás dele. Então gritou.
— Agora!
Hinata e Hanabi começaram a lançar kunais e facas de dentro da floresta. A parede de areia, criada imediatamente, o protegeu de várias delas, mas enquanto Gaara olhava para as meninas, Naruto pegou um facão que desviara e investiu nas costas do ruivo, que gemeu. Houve silêncio por instantes. A loira trincou os dentes e só não correu até o irmão porque a perna doía e sangrava. A areia se dissipou e assim que conseguiu se mover, Lee correu para segurar Sakura, que caía. Vendo seu estado e tendo ouvido o que Temari dissera sobre a importância de troca que Sakura parecia possuir, Lee imaginou que a pressão da areia era maior sobre ela.
Mas foi só questão de tempo.
— Sabe, Naruto – a voz de Gaara estava diferente – a Raposa não foi o único monstro que a Capital criou pra conter os distritos. – Gaara se voltou para o loiro, com os olhos completamente distantes e opacos: – Nós somos iguais.
O primeiro impulso do Uzumaki foi olhar para Sakura.
— Saiam daqui – ele gritou. Ela engoliu em seco. Ino não lhe saía da cabeça e ela olhou para Naruto como quem olha pro colo da mãe. Lee a empurrou para o lado mas ela não foi. Apenas balançou a cabeça:
— Não.
— Sakura-san— fez Lee. – Nós temos que ir. As coisas vão ficar feias por aqui.
— Lee-san — o tom dela era firme – você pode ir. Eu não vou deixar o Naruto, assim como ele não me deixaria. – Lee a encara, com receio – Ajude a Hinata e a Hanabi. Vá com elas.
Ele olhou em volta, decidido a ajuda-la ao menos com o que podia. Procurou a outra Sabaku mas não a viu. Temari já havia se afastado.
— Eu vou atrás da loira – ele prometeu, com um tom já mais dramático do que o que Sakura estava acostumada. O pior veio quando ele lhe beijou a mão antes de ir. Cansada, a Haruno se limitou a balançar levemente a cabeça. Como em um jato de vento, ele sumiu. E ela também saiu da vista de Gaara. Escondida atrás de algumas pedras, ela olhava aterrorizada enquanto um animal se apoderava do corpo do garoto. Um de seus braços estava completamente bege, apesar de ter um tamanho e estatura humanas normais. Ele se transformava em um homem de areia aos poucos.
Naruto recuara, agora mais próximo à caverna e do buraco em que Ino caíra. Louca para sair dali com o amigo, Sakura decide engatinhar até seu arco – mas seu braço dói. Não conseguia sequer engatinhar direito, que dirá atirar.
— A sua infância deve ter sido como a minha – Gaara de repente fala, e a floresta se silencia – cheia de ódio. Porque todos sabem o que nós realmente somos. Enquanto você insistir em amar os outros e lutar por eles, será fraco e decepcionado.
— Você me chama de fraco – Naruto responde, com um sorriso – mas não sou eu que estou sangrando.
— Por isso é divertido – A íris nos olhos de Gaara se estreitam e giram e ele grunhe. Já não são mais os olhos dele. Ele grita de dor quando mais partes de seu corpo são tomadas pela areia. Sakura engole em seco. O sangue em sua ferida parece coagular e de repente a areia mescla, se tornando um escudo quase completo. Uma risada macabra sai da sua boca e sua voz já é completamente diferente – Derrotar quem conseguiu me machucar é o que mais importa! Fazer essa pessoa sentir dor e roubar tudo que ela tem me faz sentir mais e mais vivo! – É quando ele investe contra Naruto, finalmente. Acertando repetidos golpes, ele só para quando o Uzumaki já está exausto e muito machucado. O que o impede de acabar com ele é sua própria dor, que se torna aguda quando mais alguma transformação está por vir. Ele então recua.
Naruto o encara, irritado.
— Minha infância – ele começa – não foi de ódio. Eu encontrei pessoas que me ensinaram o verdadeiro valor das coisas. Apesar da fome e do sofrimento, desde então eu nunca mais fui só – Sakura segura o choro, ofegante. Cala a boca, Naruto, e faz alguma coisa, faz alguma coisa. Por favor, faz alguma coisa. No fim, já não sabia se falava para ele ou para si mesma.
Gaara rugiu, completamente transformado:
— Por isso você é fraco— e investiu em seu golpe final: – Morra!
Foi rápido, mas Gaara viu o exato momento em que a garota ficou entre ele e sua presa. O rosto de sacrifício de Sakura Haruno deu um nó em seu estômago. O coração tremeu e parecia prestes a se partir em pedaços. Que chance tinha um inseto como ela? E, mesmo assim. Mesmo assim... ali estava. Por causa dele.
— Há remédios para as feridas físicas, mas não para as feridas do coração. Às vezes elas nunca são curadas.
— Uma... ferida do coração?
— Só o amor cura feridas do coração.
Yashamaru. Amor.
— Sak...chan – Naruto gemeu.
Antes, porém, que a fúria do deserto atingisse qualquer um dos dois, um fantasma surgiu como um anjo da guarda. Em sua pele manchada, tatuada, suja, a marca se manifestava e ele, rígido, limitou-se a segurar a besta pelo pescoço e esvaziar o líquido da seringa em seu ombro. Imóvel, sem reação, Gaara foi voltando a ser o que era, lentamente. Diante de seus olhos, Sakura observou o verde musgo, escuro, voltar às pupilas do Sabaku.
— Gaara – sussurrou ela. O ruivo caiu no chão, sem forças. Com ele, ela também se deixou cair. Ofegante, já no chão, ela recuou mais para perto de Naruto, que não tirou os olhos da possível ameaça que teriam que enfrentar. Atrás de Gaara, de joelhos, o Uchiha gemia com a mão sobre a marca em seu ombro, que fervia – Sasuke.
Antes que Naruto pudesse passar na frente dela ou protestar, Sakura foi até o Uchiha, colocando a mão em seu ombro e sentindo o calor quase queimá-la.
— O que é isso? O que você fez? – Ele não respondeu, mas apoiou-se em seus braços, segurando os gritos. O olhar de Sakura é uma mistura de pânico, preocupação e dor e ela observa com cuidado Sasuke chegar a um pico de agonia e deitar a cabeça em seu ombro, exausto, ofegante e desacordado. Ela deita o Uchiha com cuidado, analisa sua marca e tenta pensar. Não sabe o que é, não se lembra de ter visto algo parecido. O cabelo de Sasuke cobria seus olhos. Com os dedos, da forma mais delicada possível, ela tenta desvia-los, transformando o ato em um carinho desavisado. Então, já com um pouco mais de calma e ternura, ela olha para Naruto, que já se levantara. Ao poder finalmente olhar para ele e sentir que estavam juntos e a salvo, os olhos se encheram de lágrimas, em uma reação que nem ela mesma esperava. – Não acredito que te encontrei e que você está bem. Agora está tudo bem, podemos ir embora.
— Eu vou esperar o Gaara acordar – foi a única resposta do Uzumaki, sério.
O olhar de Sakura mudou. Ela sentiu o pânico voltando.
— Você... não está falando sério.
Ele não disse nada. Então ela se levantou e perdeu a compostura:
— Você sabe com quem está lidando? – Ruge ela, entredentes – Ele carrega cadáveres de crianças por aí, Naruto! Ele matou a Ino! Se o Sasuke não tivesse aparecido, não sei o que poderia–
— Ele já tinha parado – o Uzumaki rebateu, também irado – Ele parou sozinho, antes da seringa. Por sua causa. Pelo que o seu sacrifício representou pra ele! Ou você acha que o seu herói Uchiha conseguiu barrar aquela besta com a superforça dele, sozinho?! Nossa, ele realmente é o cara.
Sakura balançou a cabeça, indignada:
— Até onde sua insegurança e o seu orgulho vão nos levar?
— Meu orgulho?!
— Como é possível você achar que pro Gaara o que eu fiz foi relevante, mas não ser nem um pouco pra você? Havia um motivo, e o motivo era ele — ela aponta para o Sabaku desacordado – Ele quase matou todos nós. E agora você quer colocar tudo em risco de novo por causa de uma intuição?!
— Sim – ele responde simplesmente – E pode ir se quiser, mas com o seu príncipe machucado duvido que você consiga deixar ele pra trás. E se levar ele com você, não vão conseguir chegar muito longe.
Sakura passa a mão na testa, sem saber onde colocar tanta raiva.
— Eu pensei que o plano fosse ficarmos juntos desde o início – ela murmura.
— O plano mudou quando você fugiu com ele— Naruto aponta para o Uchiha, irado – nos primeiros minutos da arena.
— Eu desmaiei! Não vi nada que aconteceu nos primeiros minutos de arena!
— Bom, eu vi. E tenho procurado você desde então mas não porque acho que você precise de mim ou queira me ver, mas porque amo você. Tudo mudou. Eu tenho procurado você feito louco mesmo sabendo que você não está nem aí.
— Você acha que aqui a questão é eu querer ou não te ver?! Você acha que eu não estou nem aí?! – Contra isso ela sequer argumenta. Apenas respira fundo e baixa o tom de voz: – Você não pode jogar nosso desencontro na minha cara. Você sabe que não foi culpa minha.
— Você imagina o quão desesperador é olhar os rostos lá em cima procurando o seu ou ouvir um canhão e ter que esperar pra saber? Você não tem a menor ideia— ele surta. Sakura de novo perde as estribeiras:
— Com quem você acha que está falando? Eu acabei de arriscar a vida por você, como eu faria de novo e de novo! Você acha que eu não sofri sem você, que foi fácil pra mim?! Qual é o seu problema— ela bate nele com força, enquanto as lágrimas vão rolando. Naruto parece ter algo em mente, mas não diz nada. Apenas solta um sorriso melancólico, puxando a Haruno para um abraço:
— Você procurou por mim?
— Foi tudo que eu fiz – ela o abraça de volta. – Sua carência vira insegurança e sua insegurança me irrita.
— Desculpe, Sak-chan.
Por um instante os dois ficam em silêncio, olhando os dois rapazes no chão.
— Eu espero que você saiba o que está fazendo – ela murmura, olhando para Gaara.
— Eu digo o mesmo – Naruto apoia a cabeça sobre a dela, encarando o Uchiha e sua marca da maldição.
Fale com o autor