The Hunger Games
19 A Raposa
Notas iniciais
Capítulo DEZOITO
e que a sorte esteja sempre a seu favor
As árvores balançavam com a ventania. Era tarde da noite quando Sasuke finalmente adormeceu. Para a surpresa de Sakura, ele adormeceu de um jeito tão profundo que sequer se moveu quando ela destrancou as algemas. Já com a garrafa de água cheia em mãos e uma das facas presa à cintura, ela se sentou ao lado dele e observou por alguns instantes. Quem era ingênuo agora?
Era interessante pensar que o mesmo Uchiha que tanto a amedrontava confiara nela a ponto de acreditar que ela permaneceria ali. Que o protegeria, que estaria ali por ele caso alguma coisa acontecesse. Caso contrário, como Sasuke se permitiria um sono tão pesado?
Observando a fumaça morna que vinha da fogueira já apagada, Sakura se perguntava quem eram aquelas pessoas. O que teria acontecido em todo aquele tempo dentro da arena e por trás dela. Qual a história por trás da morte de Karin? O que Itachi Uchiha estaria fazendo naquele prédio e por que ela desmaiara? Onde estaria Naruto? O coração se apertava mais a cada instante e mesmo depois de assistir a lista de mortos no céu e não encontrar Naruto entre eles, o conforto não durava muito.
Precisava encontra-lo.
Ela olhou para a pele de Sasuke, agora com alguns arranhões, mas ainda parecida com a de um boneco de porcelana. Se perguntou quanto tempo aquela máscara duraria. O Uchiha a estava usando. Primeiro como refém já que Naruto não ousaria fazer nada a ele caso ele a tivesse, depois como um kit de primeiros socorros. Definitivamente, a ideia era ganhar sua confiança a ponto de, caso qualquer coisa acontecesse, ela usar seus poderes médicos para ajuda-lo.
Ela já havia medido se o risco de sair pela arena sozinha era maior do que ficar ao lado dele. E definitivamente era. Mas as chances de encontrar Naruto, estando com Sasuke eram piores. Não de topar com ele em si, mas se estivesse amarrada ao Uchiha acabaria atrapalhando o Uzumaki. E se Sasuke descumprisse sua promessa e investisse contra Naruto... ela não poderia fazer nada.
Foi o que também a levou a pensar se Sasuke tinha mais medo de Naruto do que tinha de Sabaku no’ Gaara. Porque era o que parecia. Mas por quê?
O que significava ser um Uzumaki? O que a mãe dele dissera no dia da Colheita. O fato de Itachi Uchiha saber de tudo, inclusive da apresentação individual dela, e contar para Sasuke em detalhes. Será que ele também sabia algo sobre Naruto? Ela suspirou de leve. Estava escuro.
Foi quando um presentinho desceu próximo a ela, com um bilhete. Ela se levantou silenciosamente para pegá-lo do chão, ainda sem saber se era para Sasuke ou para ela. Ao abrir, viu uma bússola de agulha alaranjada. Com o mínimo de orientação que tinha logo viu que não apontava para o Norte. Ela abriu o bilhete.
“VÁ ATÉ ELE —TSUNADE”
A bússola estava conectada ao localizador de Naruto? Sakura estreitou os olhos. Era possível? Com a bússola em uma das mãos, uma faca na cintura e a garrafa d’água cheia que tinham, ela deu uma última olhada para Sasuke antes de ir.
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Após um bom tempo andando ela percebeu que andar de madrugada para depois ter que dormir de dia, quando a maioria andava, era mais arriscado do que passar a noite acampando. Mesmo assim, ela ouviu o barulho do rio e decidiu que desviaria do caminho direto da bússola e faria uma parada na água, onde poderia acampar.
Foi próximo às pedras que ela, já observando a água corrente, encontrou algo ainda mais interessante. Um arco pousava sobre elas, sob vigilância alguma. Ela ergueu uma sobrancelha mas não deixou de avançar, olhando ao redor com cautela.
Ela não chegou a tocá-lo.
— Em cima – Ino, completamente manchada de terra por todo o rosto, pulara sobre ela. As duas rodaram no chão e sobre as folhas até a água. Na primeira oportunidade, Sakura a empurra de cima de si e tira a faca da cintura.
— Você devia ter ficado quieta – ela resmunga.
— Você adora me dizer o que fazer – Ino rebate, e investe sobre ela novamente. As duas golpeiam e desviam até o momento em que se separam, em defesa, e se escondem – cada uma atrás de uma árvore. Sakura tenta localizar o arco. Está a poucos metros dela.
— Ino – ela grita – eu ergo a bandeira branca. Pelo seu filho!
— Pare de usar meu filho como desculpa pra não ter que me enfrentar – Ino rebate, entredentes – Eu não sou nenhuma inválida, só estou grávida.
Sakura suspira. Olha novamente para o arco. Espia por trás do tronco e corre pelo outro lado, desviando das duas kunais que Ino atira. Rolando sobre o arco e parando com ele em mãos, Sakura aponta para a Yamanaka, que saíra do seu esconderijo.
As duas sujas de lama se encaram friamente, estáticas.
Ino tinha a faca apontada para a Haruno – em uma distância suficiente para quem domina lançamento de facas, mas não para ela. A flecha de Sakura, em contrapartida, tinha uma distância ideal, sem margem para erros. Ela não aponta para nenhum órgão vital: aponta para o útero.
Ino respira ofegante, abaixando a faca. Sakura abaixa o arco em seguida. Depois se levanta, tira a faca que tinha da cintura e entrega para Ino.
— Em troca do arco.
Ino balança a cabeça.
— É pouco.
Sakura assente.
— Quando foi a última vez que você comeu?
Aquilo foi suficiente.
Sakura não comeu mas assistiu enquanto a loira devorava sozinha a carne mal assada do pássaro que ela caçara. Em um momento de devaneios, a Haruno olhou para a garrafa d’água que pegara de Sasuke. Provavelmente naquele momento ele precisava mais do que ela. Talvez logo se encontrassem no rio, que é para onde ele iria.
— Você parece bem – disse Ino, de boca cheia. Sakura olhou para ela.
— Você também não está nada mal.
— Já estive pior – ela deu de ombros. Sakura sorriu, concordando. Em casa todos já estivemos pior. — Para onde você está indo?
Sakura suspirou de leve.
— Naruto.
— Ah, sim – fez a loira, maliciosa. – Vai achar o cão de guarda.
— Ele pode precisar da minha ajuda – Sakura retrucou.
— Cala a boca – Ino riu – Você pode ganhar de mim em combate, mas não sei quem mais aqui dentro você poderia derrotar. Já com o Naruto, bem, por mais idiota que ele seja, suas chances aumentam muito. Não entendi aquela nota que te deram. Imaginei que você tivesse tirado a roupa.
— Teria sido uma boa ideia.
— Eu poderia ter usado.
Sakura olha para cima, analisando as árvores.
— Bem, eu vou ficar por aqui – continua Ino. – Você não perguntou, mas estou falando. Estou esperando uma pessoa e companhia seria bom. Você sabe que Naruto se vira bem sozinho, poderia ficar comigo.
Sakura pensa por um instante antes de falar.
— Não posso.
Ino a encara séria.
— Você foi uma família para mim em Panem – os olhos azuis dela brilhavam no contraste com a pele suja de lama – Desde o início eu soube que pelas suas mãos eu não morreria nessa arena. Você é boa, Sakura. Não precisei sequer conversar com você para saber disso.
— Onde você quer chegar?
— Eu vou com você.
Sakura fica levemente surpresa.
— Sei que pra você o Naruto é importante. Mas Moegi também era, não era?
— Ela é— Sakura corrigiu.
— Tem uma garotinha aqui – prosseguiu Ino – Exatamente como ela. Ela está sozinha e nós precisamos encontrá-la.
— Como você sabe que ela está sozinha?
— Ela pode estar.
Sakura Haruno sentiu o peito apertar. Olhou para o arco ao seu lado, satisfeita por tê-lo encontrado. Suspirou antes de dobrar as pernas e ajoelhar. Passou a lama no rosto e se levantou, estendendo a mão para Ino:
— Não podemos perder tempo.
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Sasuke acordou com barulhos ao longe. O sono profundo passara, seu corpo estava alerta. Com a faca em mãos, ele se aproximou da saída da caverna e ali ficou, em silêncio, por alguns instantes. Notou que Sakura não estava, mas já não pensou mais nisso. O garoto do Distrito 8, Shino, corria pela floresta. Parou em frente à caverna, olhando ao redor. Viu uma árvore e a escalou, sério. Com as mãos arreganhadas, ele pressionou a madeira do tronco principal. Imediatamente, insetos brotaram dela aos milhares. Sasuke estreitou os olhos.
Estava... fugindo? Que porra era aquela?
Em questão de instantes, uma rajada de vento faz com que a mochila do garoto caia da árvore. Sasuke olha em volta. Não aparece ninguém, o silêncio é quase total enquanto Shino se fecha em seu casulo de insetos. Ele então corre até lá, sem pensar duas vezes. Quando encosta na mochila, sente um baque vindo de trás. Ele rola para o lado e vê Neji Hyuga com as mãos voltadas para ele, pronto para a luta.
— Sinto muito Uchiha, eu preciso da mochila.
Sasuke sorri.
— O que ela tem de tão especial?
— Nada que interessa pra você.
Os olhos do Hyuga brilhavam, mais brancos do que nunca. Veias começavam a saltar em sua testa quando Sasuke estralou o pescoço e de repente o orbe de seus olhos foi se transformando em um vermelho vivo.
Neji franze o cenho.
— Sharingan.
— Ainda dá tempo de correr, Hyuga.
— Eu digo o mesmo, Uchiha.
Neji lutava artes marciais. Sasuke tira a faca da cintura e sorri.
— Vamos ver o que tem dentro dessa mochila.
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Sakura e Ino caminham sorrateiramente pelas árvores, seguindo a margem do rio. Por não saberem por onde procurar, procuravam por onde passavam, segundo a direção da bússola. Iam rápido, com os olhos atentos. Até que Saura para e se esconde atrás de uma árvore. Ino para em seguida e olha para ela sem entender.
— O que foi?
— Era para o Naruto estar por aqui. Já estamos chegando no limite da arena.
Ino olha em volta.
— Talvez mais perto das pedras.
— Certo.
Ino vai na frente. Sakura ainda encara a bússola, sem entender. É quando um presente cai exatamente sobre sua cabeça. Assustada, ela abre.
— Ino, espere um pouco – grita.
Não há nada. Apenas um bilhete.
“NÃO MANDEI A BÚSSOLA —TSUNADE”
Sentindo o estômago revirar em pânico, Sakura imediatamente olha para a direção que Ino fora e corre até lá. Se o rastreador que a bússola apontava não era o de Naruto, então... de quem era? A visão faz com que suas pernas quase parem de funcionar. Sabaku Gaara segura a loira pelo pescoço sobre um buraco profundo. Ao lado deles, dois cadáveres sem pele. Temari sorri para Sakura, assim que a vê.
— Você é a flor de cerejeira.
— Sakura – Ino geme – corra.
Sakura saca seu arco e acerta a mão de Temari, enquanto ela tenta sacar um grande leque de metal. Era grande, protegia, mas era pesado. Lento. Temari grita de dor e depois cerra os dentes:
— A ratinha quer brincar.
Temari investe contra ela, que se concentra em desviar e observar seu tempo de ataques. Quando ela terminava um, Sakura investia contra ela naquele instante. Nessa brincadeira, acertou alguns golpes. Mas ela não era nada boa em combate. Como se fosse o fim do jogo, Temari a puxa pelo cabelo, torce seu pulso e tira-lhe a faca. É essa faca que ela coloca em seu pescoço. Sakura geme.
— Olha só o rostinho preferido da Capital.
— Auto lá – a voz faz Sakura ter um arrepio. O cabelo tijelinha reluzia no raio de luz que descia entre as árvores – Rock Lee não tolera injustiças!
Temari sorri.
— Injustiças, eh? É um contra um. Não vejo onde está a injustiça.
Rock Lee une as sobrancelhas grossas, sério:
— Você desconta sua raiva nessa moça bonita – ele dá uma pausa e por fim conclui, apontando para ela: – porque é feia! Isso é uma injustiça que não posso tolerar!
Temari trinca os dentes.
— Pivete.
— Temari – Gaara intervém. Sakura trava. A voz dele era de um garoto. Ele era apenas um garoto. – Cuide dela e deixe ele comigo.
— Mas – fez Temari – Gaara.
Não houve discussão. Ao invés de argumentar, Temari se contentou com a pergunta:
— E essa aí?
Gaara olhou para Ino, já quase sem ar, pendurada sobre o buraco e, por fim, sorriu. Ino e Sakura se olharam, em desespero. Em um instante os olhos das duas transbordaram as lágrimas.
— Quem? – Fez ele, e soltou o pescoço de Ino.
Sakura parou de respirar.
Alguns instantes se passaram, o grito agudo da Yamanaka ainda cortante nos ouvidos, ecoando pelas árvores, até que soou o barulho do canhão.
— Espere eu terminar para mata-la – Gaara então murmurou, passando por Temari – eu quero que ela veja ele morrer.
Sakura gritava mas a garganta não obedecia. Ela permaneceu sem reação, tremendo, suando. Gaara caminhou até Lee, que não tirou os olhos dele. Como um som muito distante, Sakura ouviu Lee investir contra ele, que de repente se embaçou em tons. Ela estreitou os olhos. Aquilo era... areia?
“Eu realmente imaginei que todos tivessem seus truques. Aquelas notas nas apresentações individuais foram muito altas”, pensava Lee. “Mas... o que é isso?”
— Não se preocupe Sakura-san— disse Lee, ofegante – vou proteger você.
Sakura olhava para ele e depois para o buraco.
Não pude proteger. Não pude fazer nada.
Uma onda de adrenalina e ira toma conta dela quando ela sente Temari puxar ainda mais forte o seu cabelo. Todos os ataques que Lee investia contra Gaara eram barrados por uma parede de areia que se formava ao redor dele. Lee era extremamente rápido. Sakura o via quase como um borrão. Enquanto isso, sua mente voltava a funcionar. Estar presa atrapalharia qualquer plano. Lee se desgastaria até o fim com um oponente intocável. E ainda precisaria soltá-la.
Tinha que se soltar sozinha. E precisava de uma distração para que pudessem fugir. O que distrairia um cara daqueles?
O leque de metal de Temari estava a alguns metros das duas e pelo reflexo nele Sakura conseguiu observar o rosto dela. Estava apreensiva e observava o irmão como se preocupasse com ele. Será que Gaara também se preocupava com ela? Sakura torceu o pulso de Temari e tomou a faca para si. Em pouco tempo, porém, ela voltou a imobilizá-la, repuxando seu cabelo.
— Gaara!
Sem pensar duas vezes, Sakura ergue a faca e, como uma navalha, corta o cabelo até o final. Lee e Gaara voltam-se para elas com o grito da Sabaku. Atordoada e sem o leque em mãos, Temari recua, tentando apenas acertar a Haruno com uma faca, a distância. Em resposta, ela saca as flechas e a acerta na perna de Temari, que cai.
O seguinte aconteceu muito rápido.
O mundo escureceu ao redor dela e, de repente, um clarão. A areia ao redor do corpo a comprimia com força. Sakura e Lee começam a ser comprimidos pela areia.
— Gaara – grita Temari – a garota não.
Sakura já não soube se ouviu bem. Gaara a apertou ainda mais com a areia e Temari foi até ele, que com um empurrão a atirou e derrubou no chão, longe. Sakura estreita os olhos e vê Lee na mesma situação, a poucos metros dela. Sabaku Gaara gira o corpo, olhando para as árvores, como se procurasse as câmeras.
— É um combate que vocês querem? É combate que vocês vão ter – ele ria e gritava. – Uzumaki. Vamos ver se você é bom! Tragam ele até mim.
Gaara manteve Lee e Sakura imobilizados, contorcidos, em um forno de areia em que não durariam muito. A Haruno não teve tempo sequer de se sentir inútil. Como se sonhasse acordada, ela se limitou a assistir o momento em que Naruto apareceu de dentro das árvores. Ele queimava em brasa.
E, pela primeira vez, ela sentiu que a raposa de seus sonhos era real.
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