The Hell Verse
22 Irritando os céus e os mares
Notas iniciais
Os primeiros raios de sol penetraram pela cidade de Karakura. Para muitos, o amanhecer representava um novo dia, um novo começo, uma nova vida. Onde se é possível emendar os erros do dia anterior, onde na alvorada todas as oportunidades são disponíveis de alcançar. Porém um grupo de shinigamis discordava desse pensamento. Após uma longa e exaustiva noite a conterem o portão infernal, sem qualquer descanso para recompor as forças, o cansaço reflectia-se em suas olheiras.
Enquanto equipas organizadas de shinigamis com determinadas funções atribuídas trabalhavam, numa tenda mais afastada encontrava-se o Comandante com os capitães Byakuya, Hitsugaya e Ukitake.
– Nossa equipa de kido preveniu que o miasma do portão se espalhasse.
Assim que o oficial se retirou, o Comandante mantinha-se impassível porém os capitães sabiam que este estava bastante angustiado com o bem estar dos humanos.
– Como está a cidade de Karakura?
– Não houve anormalidades até o momento.
– Certo. Continuem os reparos. Capitão Ukitake você ficara encarregue disso.
– Sim senhor.
– Mas faz só um dia que houveram anormalidades no portão do Inferno. E agora o próprio portão foi destruído.
– Capitão Hitsugaya, o tenente Abarai foi enviado para investigar pelo capitão Kuchiki… Entrou junto com o substituto de shinigami, Kurasaki Ichigo. Isso está confirmado.
– Francamente!
– Relatando!
Um serviçal entra na barraca para comunicar novas informações, interrompendo o diálogo entre os capitães.
– O substituto de shinigami, Kurodaki Ichigo, foi encontrado no portão do Inferno. Nossos homens já estão cuidando dele.
O corpo de Ichigo tinha absorvido a zanpakutou de Rukia e automaticamente curou o ligeiro ferimento, como se este nunca tivesse existido. Desdobrado pelo chão, o kimono em farrapos, com um pequeno nevoeiro a circulá-lo, nenhum dos shinigamis chegou a enxergar a Sode no Shirayuki. O grupo médico aproxima-se do ruivo para o auxiliar nos primeiros socorros e de seguida o transportam para uma barraca para este repousar e ficar encarregue a Orihime Inoue.
A humana foi das poucas que não sofreu com o miasma graças às suas fadas. A cura era o maior dom de Inoue. Ao ser convocada para tratar Ichigo, esta aprontou-se rapidamente para a sua tarefa. Quando o encarou desanimado ficou preocupada... Sentia algo ruim emanar dele, provavelmente efeitos do Inferno. Ao curá-lo percebeu que os seus poderes não tinham interferência na zona do peito. Era como se uma camada de gelo invisível protegesse aquela zona, não permitindo que ele morresse.
Orihime escutou umas rezingas baixas, finalizando o seu tratamento, apreciando o despertar do substituto de shinigami.
– Inoue? Como… A Karin!
– Kurosaki-kun, Karin-chan foi resgatada pelo Isshin-san.
– O velho?
– Karin-chan está a salvo!
– E os outros? Eu preciso voltar Inoue!
O Kurosaki finalmente percebeu o que acontecera no Inferno. Descontrole. Novamente não controlou seu poder, como em Hueco Mundo. Ele não salvou seus amigos, em vez disso quase os matara. O olhar cabisbaixo da ruiva alertou o shinigami prestando atenção na movimentação fora da tenda, acabando por escutar que o portão do Mundo Real fora destruído, cujo autor fora ele, e que com isso quase dizimou a espécie humana.
Ichigo sentiu que o ar, por momentos, lhe faltara. A culpa o intoxicava. Queria respirar mas a desilusão consigo próprio o impedia. Ele precisava de Rukia.... Sentia-se um monstro egoísta. Queria o apoio da Kuchiki mas neste momento quem mais precisava era ela, que continuava em cativeiro. E tudo porque ele não a salvou. Ao erguer o olhar para questionar Inoue, ele assustou-se, porque em vez da ruiva viu Rukia no seu lugar, sorrindo para ele, como sempre. Ela deveria estar brava com ele, querer socá-lo e gritar porém ria. O ruivo começou a questionar seriamente se a sua mente estava completamente sã, ou se tinha ficado afectada com os gases mortíferos do subsolo.
– Com licença.
– Byakuya!?
O ruivo fora surpreendido pelo capitão adentrar no compartimento. Contudo ao observá-lo o remorso intensificou-se mais, baixando o olhar, tendo vergonha de seus actos falhados. Por não ter conseguido resgatar sua irmã como prometera.
– Kurosaki Ichigo, porque está desviando o seu olhar?
– Eu deixei a Rukia, o Renji e o Ishida lá. Eu abandonei todo o mundo! E a Karin… Eu não a pude salvar! Eu decepcionei todos!
A voz do substituto do shinigami estava rouca; ele sentia a sua garganta seca rasgando quando as palavras saíam. Colocou-se de joelhos em frente do líder da família Kuchiki, com a cabeça agachada, implorando silenciosamente pelo perdão. O corpo dele tremia compulsivo quando recordava dos seus momentos singelos com a shinigami barulhenta, como quando lhe ensinou a beber sumo com a palhinha. Tinha vontade de rir, como se ele os tivesse a reviver em sua mente. Trincou o lábio superior quando recordou o beijo, quando o fado insensível os decidiu afastar depois desse belo acontecimento.
– E então?
– Byakuya?
Ichigo não conseguia compreender, ficava de facto revoltado com a indiferença demonstrada pelo capitão. Era algo que ele nunca conseguiria aceitar. Levantou-se bruscamente, agarrando no sobretudo deste, olhando ferozmente.
– Rukia, a tua irmã, está no Inferno! E o Renji fez de tudo para me tirar de lá…
– Renji é um honrável shinigami. Ele sabia o que estava fazendo.
Estupefacto, o ruivo finalmente identifica um mísero sofrimento em sua voz, tentando não falar na irmã para não demonstrar seu padecimento. Byakuya estava com os olhos fechados, seu rosto indecifrável mas lentamente os reabre, encarando o Kurosaki muito seriamente.
– Se ele decidiu que era você quem deveria escapar… Pense em quais serão as suas intenções.
O ruivo largou as vestes de Byakuya, abismado pelas suas palavras. Ele assiste o capitão se virar para retirar-se da divisão.
– Me perdoe pela intromissão.
Ichigo fica estático, pensativo, assustando Orihime que se limitara a comparecer silenciosa durante o diálogo entre os shinigamis. O ruivo desvia seu olhar para ela, mais relaxado, contudo sem deixar a sombra de preocupação em seu olhar.
– Como está o Chad?
– Inconsciente… O miasma foi muito forte para todos nós… Mas ele vai ficar bem em breve!
– Entendi. Obrigado de verdade Inoue.
– Kurosaki-kun.
A humana percebera que Ichigo tentava esquivar o assunto com Chad. Inútil, certamente a Kuchiki não abandonara a mente do ruivo em um único momento. Inoue assumiu uma postura austera, algo irregular nela, um detalhe que não passou despercebido a ele.
– Vais voltar para aquele lugar?
– A Rukia e os outros precisam de ser salvos.
– Mas…
– Eu sei, se perder o controlo de novo o mundo será destruído. Mas, desta vez eu não vou perder o controle. Aquele cara é forte… Eu não acho que o consiga vencer sem o poder hollow mas eu tenho que vencer! Se não… Eu não vou conseguir encarar os meus amigos que me confiaram suas vidas.
Ichigo não conversava com a amiga, ele não desabafava, ele se auto repreendia bruscamente. Apertava o punho com excessiva força, ele estava exaltado, o conflito sentimental no ruivo era muito intenso e estava a abalá-lo, sentia-se a desmoronar progressivamente. Contudo, inesperadamente, Orihime abraça suas costas, fazendo-o sobressaltar pela surpresa do acto repentino. Só nesse momento Ichigo percebeu seus músculos tensos e então suspirou fundo, relaxando.
– Prometa… que vai voltar.
– Sim, eu não vou demorar.
Orihime afasta-se do contacto com o substituto do shinigami, tentando camuflar as lágrimas com a sombra de suas longas madeixas. Ela sabia que não o podia encarar directamente, não o poderia preocupar com sentimentos mesquinhos dentro dela. Mesmo se sentindo um ser imundo por invejar a Kuchiki, a ruiva fala com uma ternura arrebatadora que foi capaz de emocionar o Kurosaki.
– Trás a Kuchiki-san para casa.
Ele não pode evitar sorrir largamente com a ideia de regressar com Rukia, era felicidade a mais para não se expressar.
– Sim!
– Tu amas-a.
– Nani?
A afirmação de Inoue fez Ichigo corar levemente. Não era segredo para ele, mas como ela percebera isso? Ele era tão límpido assim?
– Kurosaki-kun tu amas a Kuchiki-san. Por isso a vais salvar.
– Eu luto por qualquer amigo.
Inoue gargalhou carinhosamente ao recordar de quando ela própria fora resgatada por Ichigo. Sim, ele sempre se preocupou com seus amigos. Ele era assim... Por isso o amava tanto.
– Haii, também me salvaste no Hueco Mundo mas é diferente. Tu não vais salvar uma amiga e sim uma parte de ti, o motivo para sorrires todos os dias.
A ruiva coloca uma mão do rosto de Ichigo, numa leve carícia.
– Volta com ela e com os outros. Eu confio em ti.
– Arigato Inoue.
Ichigo sorri uma última vez para a amiga, agradecendo, sumindo em seguida. Inoue desmanchou o sorriso largo que mantivera desde o início da conversa, porém não completamente. Lágrimas fluíam por seus belos olhos acinzentados, duas pérolas esquecidas no denso mar. Ela estava triste por não ser correspondida mas feliz, porque Ichigo continuava com seu cativante sorriso. Sem o seu sorriso, ela era quem não iria conseguir sorrir. A felicidade dele contagiava a sua. Erguendo a mão que tocou no rosto de Ichigo, ela acena na direcção que o ruivo prosseguiu, dizendo adeus ao sentimento que nutria por ele.
Mais confiante, o substituto de shinigami atravessa clandestinamente a barreira criada pelos shinigamis que rodeava o portão, protegendo o seu mundo. Imediatamente, alguns membros perceberam isso enquanto reparavam o portal, dentro deles o capitão do décimo bantai. Hitsugaya deslocou-se até o ruivo, observando-o com a Zangetsu empunhada. O albino tentou conter a frustração que sentia naquele momento, um desastre completo.
– O que pensa que está fazendo, Kurosaki? Está querendo vingança?
Ichigo permanece num absoluto silêncio, irritando Toushirou.
– Se for isso, iremos pará-lo de qualquer forma.
Ukitake que assistia à cena, tenta apaziguar a situação, convencendo o Kurosaki a desistir de seu regresso ao Inferno.
– Se você se descontrolar de novo…
– Ban-kai…
Uma onda poderosíssima de reaitsu cobre Ichigo fazendo os demais capitães recuarem três passos.
– Eu apenas vou salvar meus amigos.
– Kurosaki.
Uma misteriosa luz avermelhada faz com que todos os shinigamis se distraiam do início de um combate, desviando o olhar para o portão, a origem da cintilação.
– O que é agora?
Como uma resposta à pergunta de Toushirou uma mão gigantesca surge pelo portal: um guardião quer sair. Todos os shinigamis que estavam no seu alcance se afastaram rapidamente.
– Defendam o local! Não permitem que o kushanada adentre no Mundo Humano!
Ao indicar as ordens aos subordinados, Hitsugaya repara algo esvoaçar por eles, em direcção do portal.
– Ah, Ichigo!
– Deixe-o Matsumoto. Não temos tempo para ele agora.
Sob os comandos de Hitsugaya, as nuvens cinzentas adentram pelo céu azul, enquanto Matsumoto e Ukitake se precaviam para uma batalha que prometia ser exaustiva.
Ichigo vai em direcção do portão infernal para o atravessar mas o guardião eleva a sua mão para o atacar porém pétalas de sakura protegem o shinigami, evitando que o ser abominável investisse. Permitindo assim que ichigo cruzasse pela sua abertura. Byakuya assistiu o vulto do ruivo desaparecer, para depois novamente comandar as sua lâminas róseas contra o guardião.
Sobrevoando os céus do primeiro nível, afundando-se nas massas de água do segundo e esvoaçando pela paisagem rochosa com crateras do terceiro. Porém uma explosão súbita o obriga a recuar, impedindo-o de continuar seu trajecto.
– Nani?
Ichigo encara atónico o indivíduo que o impede de prosseguir, incrédulo, não aceitava o que enxergava. O estranho tinha uma aparência jovial mas era bastante alto. Um de seus olhos estava enfaixado enquanto que o outro era horrivelmente negro como o carvalho; seu cabelo era de um preto corvo espetado. Porém mesmo com essas desigualdades, no restante eram idênticos. Pareciam quase irmãos. O Kurosaki observou como o inimigo empunhou sua zanpakutou, não compreendendo porque este o atacava uma vez que não era um pecador.
– Não passarás daqui, Kurosaki Ichigo.
– Quem és tu?
– Kaien Shiba.
– Porque ajudas os pecadores? Eu não quero lutar contigo!
– Prepara-te eu não terei piedade contigo, mesmo que sejas meu sobrinho.
Rukia sente a vibração de duas reaitsus conhecidas próxima dela, pressentindo a luta vigorosa que se avizinhava. A pequena shinigami aumenta seu poder espiritual, congelando parcialmente as algemas que a prendiam. Foi aumentado gradualmente seu poder, queria comunicar com Ichigo. Mostrar-lhe que desejava-lhe sorte para o combate... Foi nesse momento que Ichigo se deparou com algo inacreditável: estava a nevar no Inferno. Quando o último floco de neve se agarrou no chão foi quando a luta começou entre os céus e os mares.
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