The Hell Verse
31 Epílogo
Notas iniciais
O valor da paz encontrava-se na sua efemeridade. Por ser precária, era tão estimada. A felicidade que transbordava no quotidiano dos humanos, era uma mera fantochada. Enquanto, as famílias reunidas sorriam despreocupadas com os males ainda existentes, o inimigo escondido nas sombras reinava.
E foi no momento mais importante da vida de Kurosaki Ichigo, que oficializara seus sentimentos pela pequena Kuchiki e vivendo com a família em harmonia, que a sombra se materializou.
As peças de xadrez estavam tombadas no tabuleiro, e sobre todas elas encontrava-se o rei, pronto a dar o xeque-mate finalizando o jogo.
O sono de Ichigo foi interrompido, durante a noite, com Rukia em seus braços. Um forte aperto do peito roubara seus sonhos, o trazendo para a amarga realidade. Afastou os pequenos braços de seu corpo, levantando-se. Saiu de casa sem causar transtorno, dirigindo-se ao local que os espadas Yammy e Ulquiorra invadiram o Mundo Real pela primeira vez. Um pressentimento, que mexia com sua reaitsu o conduziu àquele lugar.
Ajoelhou-se, tentando sentir algum vestígio de poder fora do usual.
— Kurosaki Ichigo. Estava o esperando.
— Bastardo, tudo aquilo dos pecadores… foi obra sua. Não é, Aizen?
A fisionomia do homem experiente em jogos de tabuleiro, portador de um sorriso cínico porém encantador, reluzia entre as nuvens baixas no jardim.
— Não previa um juízo perspicaz de sua parte, Ichigo. Isso é efeito da convivência com a shinigami Kuchiki Rukia?
Abandonando seu corpo humano, impulsivo, atacara o ex capitão que esquivara magistralmente de seu ataque previsível.
— Realmente, acredita que um ataque desses me poderia acertar?
Ichigo odiava seu jeito de ter tudo planeado, como se soubesse -de facto- tudo. Os golpes consecutivos e rápidos do ruivo, forçaram Aizen a empunhar sua katana para travar a lâmina a centímetros de sua pele. O Kurosaki claramente possuía uma vantagem em poderio nos ataques agressivos, porém a fraqueza dos humanos eram seus sentimentos.
— Ichigo!
— Rukia?— A morena surgira com o vestido azul sujo e suado, pela corrida desta até aquele local.
Ela sorriu quando Ichigo olhou para si, no entanto em poucos segundos viu seu rosto machado de sangue e sem vida. O rosto do ruivo empalideceu, ao reviver o momento que encontrara o corpo gelado da morena no Inferno. Não só essa experiência, como todas as dolorosas torturas vividas pela Kuchiki, ele fora obrigado a assisti-las.
As chamas infernais eram desesperadoras. Lágrimas molhavam por seu rosto, ele sabia que estava preso a uma ilusão de Sousuke, no entanto, o facto de conhecer toda a dor que Rukia ultrapassara por ele não a ter protegido estava re-trazendo a chuva a seu mundo, inundando sua alma.
A pequena Kuchiki estava presa em correntes, ensanguentada, usando um kimono alvo. Ichigo aproximara-se com o rosto suado, nervoso. Ela abriu os braços, e ele afundou o rosto em seu peito sendo abraçado pelo pescoço. Inesperadamente Rukia crava uma zanpakutou pelas costas de Ichigo. Contudo, o mesmo, quase em simultâneo, perfurara seu abdómen com a Zangetsu.
— Eu nunca machucaria Rukia…
Lembranças de quando o hollow se apoderaram do corpo de sua mãe, e o ruivo não conseguiu a ferir inicialmente. O passado com sua mãe foi usado como fraqueza, não permitira que isso se repetisse com a sinigami.
Cuspiu uma poça de sangue, contudo sem largar o cabo de sua zanpakutou. Aizen cruzou a espada lançando um kido no ferimento aberto em seu peito, abrindo um oco. O ex capitão, machucado, conseguiu recuar mesmo machucado, porém, um cubo negro de alta densidade de poder espiritual o prendeu. Urahara acompanhado de Yoruichi acorrentaram o traidor e foram até o Kurosaki desabado na terra húmida. Sem frio, medo ou dor. Foi perdendo a consciência, apenas murmurando um pedido de perdão àquela que o esperava em seu quarto.
A notícia que o humano Ichigo Kurosaki, substituto de shinigami, perdera a vida num combate e que sua alma desaparecera do Mundo Real fora a novidade lastimável que roubara a felicidade de todos os seus conhecidos, dias alegres converteram-se me trevas. Todos os amigos do ruivo ficaram abatidos, porém o mais comovente era o frio de Sode no Shirayuki que circulava a Kuchiki quando se deparara com o corpo inerte. Seus dedos tocaram com cuidado sua face que parecia adormecida, sentindo a ausência do calor que anteriormente a reconfortava. Por sua vez, Isshin e as irmãs Kurosaki encarregaram-se dos preparativos para o evento fúnebre, enterrando o ruivo perto do corpo de sua mãe.
Rukia começou a vaguear pelas ruas, sem nunca os humanos a verem. Por vezes caminhava entre eles, mas nenhum constatava seu kimono negro, ou comentava algo por ela usar uma espada, sequer tinha alguém em com quem esbarrar. Ela estava terrivelmente só, uma extremidade do laço vermelho da coexistência que partilhava sumira, sendo um fio sem fim, com apenas uma ponta: ela.
As gotas de chuva golpeavam agressivamente o rosto sem cor da Kuchiki. Uma deusa da morte sob o telhado de um humano comum, encarando o céu nocturno sob o brilho lunar. Sua história com Ichigo começara com um céu sem estrelas, no entanto, ela ainda não aceitava que essa mesma história tinha chego ao seu final. Foi tão… breve. Por um instante ela acreditou que um humano poderia viver para sempre ao lado de um ceifador de almas.
Ter dado seus poderes a um humano foi um crime grave. Contudo, sua maior transgressão foi ter amado esse mesmo homem.
Uma semana, foi o tempo que aguardou que seu poder espiritual milagrosamente surgisse e revelasse que estava vivo. Sua espera foi interminável e inútil. Em sete dias, seu mundo interior converteu-se em uma tempestade de gelo que cortava sua pele. Será que um dia voltaria a enxergar o sol?
O sol que sempre a conduziu e a retirou de sua escuridão. O sol negro.
Rukia retornou a Seireitei, à mansão Kuchiki, sendo recebida com todo o luxo e privilégios que merecia. Seu irmão encontrava-se sobre a cerejeira em flor, ele desviou o olhar na sua direcção, não pronunciando uma única palavra. Com o olhar indicou o trajecto até a sala onde Byakuya fizera um simples altar a Hisanna, agradeceu-lhe com um sorriso cabisbaixo e trancou-se nessa divisão. Os próximos dias resumiram-se a Rukia escondendo-se de todas as almas junto do retrato de sua irmã, tendo por vezes visitas de Byakuya que nada dizia para não atravessar ainda mais sua dor. Apenas, se agachava e de vez enquanto fazia carinho em seus cabelos. Rukia sempre chorava no colo de seu irmão mais velho até adormecer, mas nunca comentara o que sentia. Engolia toda a mágoa que a consumia, justamente como seu irmão fizera no passado e no quotidiano.
Treze borboletas infernais espalhavam seu pólen reluzente pela Sociedade das Almas, redireccionando uma mensagem especial a cada esquadrão. Uma flor que desabrocharia após dias consecutivos de chuva inundando os corações dos shinigamis, pela perda do seu herói, substituto de shinigami. Todo o capitão e tenente foram convocados para uma reunião de emergência, em que o Comandante Yamamoto anunciava que o novo capitão para ocupar o lugar do traidor do ex capitão Gin, fora escolhido.
Sem cerimónia, despromovidos de ânimo, era o retrato das emoções da maior parte dos membros de elite que ainda se encontravam de luto.
Alinhados em duas filas, os capitães posicionavam-se no lado esquerdo e direito do Comandante no salão principal do primeiro bantai. Atrás destes, colocavam-se seus respectivos tenentes. Exceptuando Kira Izuru, que à sua frente tinha uma pequena abertura, lugar que seria prontamente preenchido pelo desconhecido.
— Entre. – A ordem fora ríspida, porém, não escondeu de todo uma delicadeza suspeita em Yamamoto.
O sobretudo branco repousava no ombro esquerdo, bagunçado. O kimono negro levemente aberto no peito, mostrando o músculo definido e pequenos arranhões dispersos pelo tórax. Contudo, o mais surpreendente era o largo sorriso do novo capitão, como se sua presença fosse um acontecimento previsível.
— … I-ichigo?— As pupilas do olhar de Rukia dilataram-se ao enxergar o Kurosaki, sentindo um ardor típico em seus olhos.
— Yô Rukia!
O salão entrara num silêncio sepulcral, com certeza, todos estavam completamente incrédulos pela presença ruiva. No entanto, ninguém se comparava com as faces dos tenentes do décimo terceiro e sexto bantais.
— Como…?
— Por quê a surpresa Rukia? Quando um humano morre vem para a Soul Society, o lugar a que nós chamamos de “céu”, não foi isso que disse quando nos conhecemos?
A Kuchiki continuava a encarar incrédula seu sorriso. Os humanos quando morrem nem sequer deveriam conseguir manter suas memórias nos distritos de Rukongai, muito menos manter o seu poder espiritual tão alto, pelo menos, não inicialmente. Se bem que Ichigo não era alguém propriamente normal. Fora por isso que compartilhara com ele seus poderes.
Uma discreta curvatura subiu pela sua face, após sete dias de tempestade, de inundação espiritual, ela finalmente enxergara o sol. Um calor reconfortante apoderou-se de seu corpo, finalmente a acalmando da notícia que lhe causara pesadelos todas as noites, roubando seu descanso.
— Está certo.
Aproximou-se, em passos lentos, com um sorriso terno no rosto com os olhos violáceos ligeiramente húmidos. A cada passo que ela dava, o coração de Ichigo acelerava nervoso com a sua eventual atitude. O Kurosaki, proclamado capitão do terceiro esquadrão, sentia as vibrações que o corpo da morena emanava de tão perto que estava, engoliu em seco ainda mais ansioso.
A expressão drasticamente transformara-se em feições furiosas, desferindo um soco em seu estômago. Ichigo gemeu quer pela surpresa quer pela dor, agachando-se abraçado no local dolorido. Rukia segurou-o pelos ombros, abraçando-o, encostando o rosto no pescoço do ruivo. Em sussurros, o chamava de idiota ou questionava-o como ele pudera demorar tanto. Ele ria abertamente, não esperava propriamente um agradecimento da orgulhosa Kuchiki. Talvez por esse motivo, as suas seguintes palavras o emocionaram fazendo com que correspondesse ao abraço.
— Obrigada Ichigo, por me salvar.
Não era apenas gratidão como tenente do Gotei 13, por ele ter salvo a Soul Society dos planos maléficos do pior dos criminosos. Era algo mais… estava grata ao homem pela qual se apaixonara por a ter ido resgatar, duas vezes, a dois mundos perigosos e totalmente desconhecidos, arriscando sua vida no processo.
Para além dos grandes portões da sala de reuniões do primeiro bantai, ocultando sua presença, apreciando as flores de cerejeira em flor, encontrava-se Isshin. Em trajes negros, com uma zanpakutou na cintura, na posição de lótus, observando atento todos os capitães e tenentes reunidos.
— Não irá cumprimentar o seu filho, Isshin?
— Neste momento, ele está ocupado. Aquele filho ingrato preocupou muita gente.
Kukaku o encarava pelo canto do olho, discreta, enquanto bebia seu saquê. Possivelmente seria instinto familiar, ou simplesmente por todos os anos que conviveram juntos, porém ela percebeu que sua expressão séria não era alarmante. O chefe da família Kurosaki, encarava um tanto melancólico o crescimento e evolução de seu filho mais velho, que abdicou de sua família pela mulher que amava. Melhor que ninguém ele o entendia, e estava profundamente orgulhoso.
Como pai, sentia-se aliviado por Ichigo estar bem, depois do tormento infernal que batalhou e por ter combatido contra o grande inimigo da Sociedade das Almas. Contudo não se resumia apenas a esse sentimento, expandia-se à felicidade de reencontrar Ichigo como uma alma segura e por ele estar verdadeiramente feliz.
Alargou seu típico sorriso bobo quando a pequena Kuchiki segurou entre as suas palmas o rosto escarlate de seu filho o beijando, na frente de todos os capitães dos treze Esquadrões.
— Não pensei que o teu filho fosse tão tímido, Isshin. O garoto está prestes a desmaiar.
Kukaku perdeu-se em estrondosas gargalhadas, sem saber se a razão se o descontrolo de seu riso se devia à situação caricata do ruivo ou pelo efeito quente do álcool. Os olhos ónix voltaram-se novamente para um Ichigo encabulado, tentando disfarçar seu nervosismo, sobretudo, perante o capitão Kuchiki.
— Masaki ficaria orgulhosa de você, Ichigo.
O encontro do destino, entre um humano e shinigami. Os laços que não se podiam ver, perduraram após a morte.
Afinal, sempre se justificou ir ao Inferno por Rukia.
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