The Hell Verse
14 A Decisão de Renji
Notas iniciais
Quarto nível do Inferno. Na abertura da imensidão do denso nevoeiro, o grupo de Ichigo defrontou-se com uma cachoeira trovejante de chuvas de lava amarela em torno deles. Subitamente, o substituto de shinigami detém-se encarando o solo arenoso.
– Kokuto o que é esta areia? Sinto uma reaitsu estranha nelas.
– Não é uma areia normal. Essas areias vieram dos ossos dos pecadores.
– O quê?
– Depois de serem incontavelmente massacrados pela Vontade do Inferno, os pecadores perdem seus corações. E eventualmente seus corpos apodrecem no chão e as chamas do Inferno queimam seus ossos. Este deserto é o fim dos togabitos. Não importa onde esteja, não existe liberdade neste lugar.
– Sem liberdade? Mas um de vocês não apareceu na cidade de Karakura para levar Rukia?
– A Vontade do Inferno chega lá também, era uma questão de tempo até ser sugado de volta. No fim de contas, nós não podemos escapar… Nós não sabemos por quanto tempo vamos suportar este sofrimento… No fim, tudo é destruído.
Ishida e Renji limitam-se a ouvir a conversa, como meros espectadores de um espetáculo. O quincy pressentia que algo de catastrófico estaria para acontecer, e aquele vasto cemitério de togabitos alimentava sua intuição, que nunca falhou. Abarai, desde as palavras de Ishida acerca da transformação hollow, ficara mais apreensivo, mirando constantemente Kokuto desconfiado. Cada vez suspeitava mais que ele os estava a enganar mas o Kurosaki tinha razão numa coisa: como encontrariam Rukia sem o pecador? Poderiam demorar décadas para a encontrar, e tempo era o que não tinham.
Abrutadamente, o piso começa a estremecer. A superfície rasga-se numa cratera surgindo entre ela uma alma pecadora. Seu corpo era asqueroso, coberto de tentáculos pegajosos. O Kurosaki não evitou enjoar-se com a súbita visão e com o cheiro horrendo que invadiu suas narinas.
– Já vi hollows com melhor aspecto.
O tenente estava desinquieto observando o ruivo preparando-se para o combate. Era uma corrida contra o tempo resgatar Rukia e agora surgia um novo inimigo… Como a iriam resgatar assim? Se desaproveitassem mais minutos com lutas inúteis, poderia ser tarde demais quando a reencontrassem.
– Continuem.
– O quê?
– Que disparates dizes Renji!? Ficas-te maluco!? Não te podemos deixar sozinho contra ele!
– Ichigo! Não percebes? A Rukia está em perigo… Eles querem-nos atrasar!
– Nós salvaremos a Rukia, não precisas de ficar para trás Renji!
– Eu nunca te contei mas… Um shinigami tem um tempo limitado para ficar no Inferno, até se tornar num pecador.
– O que isso significa Renji?
– Significa que se a Rukia não sair daqui em breve, ela irá permanecer aqui toda a eternidade…
– Isso se aplica também a nós certo Abarai?
– Sim…
Ichigo viu seu mundo ser abalado com a recente informação. Ele teria de escolher, entre dois amigos? Se ele não prosseguisse seu caminho, Rukia não teria salvação, mas se partisse Renji poderia morrer. Uma leve brisa sacudia as roupas negras do substituto de shinigami, que permanecia atordoado, sem rumo. Pela primeira vez desde que entrara no submundo perdeu o foco de seu objectivo. O que deveria fazer?
Abarai pousou a mão no ombro de Ichigo, atraindo a sua atenção. Ao ver o olhar confuso do mesmo, o tenente sorriu como confirmando as suas palavras.
– Não existe um mundo sem sacrifícios, será que ainda não percebes-te isso? Este mar de sangue coberto de cinzas, que chamamos de inferno, outros chamam de realidade. Não podemos permitir que a Rukia seja uma dessas pessoas...
"Caso tema a derrota basta ficar forte. Caso tema não poder proteger seus companheiros, torne-se forte e prometa que conseguirá protegê-los. Caso tema o hollow dentro de si, torne-se forte o bastante pra acabar com ele! Mesmo que ninguém acredite bata no peito e diga a si mesmo! Porque essa é a imagem do homem que tenho dentro de meu coração!"
Rukia…
– Não morras, Renji.
O Kurosaki encontrou a sua direcção, bastou o ânimo de seu amigo, e o conselho de Rukia para ressuscitar seu espírito. Irónico como mesmo ausente, aquela baixinha barulhenta conseguia ajuda-lo em suas decisões. Mesmo não estando com ele, ele a ouvia e sentia a presença dela dentro de si.
Ichigo não podia desacreditar no seu poder, nem de seus amigos. Se eles acreditassem suas zanpakutou nunca se quebrarão. Se cressem, seus corações nunca cederam. Mesmo que tenham de tomar caminhos diferentes, seus corações de ferro baterão como um só. Mesmo que a Terra se abra em dois, que os céus se rasguem, que o Inferno seja destruído, eles viverão e voltarão para casa juntos.
O ruivo decidiu que faria o mesmo que em Hueco Mundo, confiaria no poder de seus nakamas, com a promessa que todos retornariam ao mesmo lugar. Afinal, ele não está a abandonar um colega e sim a permitir que Renji vença aquela luta, os pecadores merecem aprender uma boa lição… E acontecesse o que acontecesse, ele não podia morrer. Se não todos que contam com ele, tudo o que estaria em suas costas desabaria.
Com a mente longe, Kurosaki prossegue a sua busca sendo acompanhado por Ishida e Kokuto. Ele não se despede nem olha preocupado para Renji, ele teria de ter convicção, assim como o tenente tinha nele.
O quincy seguia o ruivo, absorto em pensamentos. Tudo aquilo poderia acabar muito mal… E algo lhe chamou a atenção: porque atacavam os invasores e não eliminavam directamente o traidor? Não era ele que possuía informações, que poderia ser um problema? Algo estava errado. Ou queriam que encontrassem a Rukia ou então aquele pecador não era um traidor.
Renji acompanhou as três fisionomias desaparecerem entre a montanha rochosa, activando em seguida a sua shikai, aumentando a pressão esmagadora da sua reaitsu, encarando o inimigo. O poder espiritual opressivo do shinigami quebrou o solo em sua volta, criando mais crateras. E por um milésimo de segundo, o tenente viu o inimigo recuar, pela densidade atmosférica que ele emanava. Sorrindo, arqueou as costas posicionando-se para a batalha.
– Conto contigo Ichigo.
I&R
Rukia mexia os pulsos tentando combater a dormência que se aposentara de seu corpo até que uma pressão familiar a acordou de seus exercícios matinais. Um sorriso formou-se em meio das lágrimas que escorriam livres pelo rosto da morena.
– Renji…
"Como sempre… Preocupas-te e pensas demasiado. Ninguém tem uma má imagem de ti como pensas. Não tentes carregar sempre com todo o peso… Em vez de isso compartilha-o, apoita-te em meus ombros, e nos de Ichigo. Foi para isso que nos tornamos fortes."
A Kuchiki sentia o seu coração palpitar por eles terem cumprido sua promessa novamente, por eles a virem salvar daquele sufoco mesmo sabendo que não devê-lo-iam fazer, pois nenhum shinigami tinha permissão para adentrar no Inferno.
Rukia sentiu vontade de rir… De certeza se Ichigo ouvisse as palavras de Renji, reclamaria da mesma coisa que o tenente do sexto esquadrão, afirmando que ela era pequena demais para suportar tanto peso e que deveria compartilhá-lo com seus amigos, e foi naquele momento que percebeu o quanto sentia saudades de ser chamada de “baixinha” e “naníaca” por Ichigo. Talvez fosse um delírio provocado pelo ar tóxico daquela masmorra.
Apesar de estar radiante por eles estarem ali, ela também se sentia sufocada. Temia as ameaças que eles teriam de enfrentar… Ela não queria perder um de seus amigos naquele lugar deplorável e imundo.
– Tenham cuidado, nós prometemos regressar juntos.
Exausta, Rukia deixa a cabeça sucumbir pela força da gravidade, permitindo que seu cérebro relaxasse na inconsciência. Num mundo oco, sem sonhos. A shinigami estava tão focada em sentir as reaitsus que não percebeu Kaien nas sombras velando por ela, nem o desgosto transfigurado na face dele ao encará-la feliz por a terem vindo salvar, por o outro shinigami ruivo ter vindo. Kaien calmamente saiu do cómodo, ele sabia o que tinha que fazer.
I&R
Antes de desaparecer completamente, Kokuto disfarçadamente olha para trás, acenando com a cabeça para o outro pecador, enquanto a luta se iniciava.
O sorriso macabro de Kokuto era camuflado pela máscara negra. A angústia de Ichigo e de seus amigos era um alimento para sua alma condenada, um sabor agridoce.
Por um breve momento, uns olhos esmeralda invadiram a mente do pecador mas não se recordava a quem pertenciam. Talvez fosse fruto da sua cabeça… Mas porque apareceu justo naquela hora a imagem? É como se aquele olhar o recriminasse por suas acções.. Mas preferiu ignorar, afinal ele era um pecador. Ninguém o amava, ele estava sozinho. Essa era a lei do submundo.
Tudo corria como o plano, não poderia supor Kokuto que ele também era um peão por derrubar.
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