The Haunted House.
1 Solution or complication?
Rápido, Brian arrumou sua bagagem, primeiramente afobado, jogando a roupa; depois, tentando se acalmar, dobrou as peças, ajeitando-as com cuidado na mochila.
"Assim terei mais espaço" — pensou, e olhou no relógio pela décima vez — "Falta uma hora para o ônibus sair. Devo levar meu disfarce. Achei aquela mulher, dona Cristian, muito atrapalhada. Ainda bem que não recusei o trabalho. Eu me ausentarei e ainda serei remunerado. Por que fui fazer isso?" — perguntou a si mesmo. — "Michelle é bela, mas não precisava sair com ela. Mas, também, como ia saber que o marido dela é violento e bandido?".
- Pronto, está tudo aqui. — falou baixinho. — Fecho o quarto, saio, digo à dona Antônia que voltarei no final do mês. O quarto está pago mesmo.
Brian pegou a mochila, fechou a porta e desceu as escadas. Aliviado, viu que dona Antônia, a proprietária da pensão, não estava na sala. Escreveu um bilhete, informando que ia se ausentar, anotando o nome de uma cidade bem distante da qual iria. Saiu andando apressado, foi para o ponto de ônibus e logo entrou em um que o levaria para perto da rodoviária. Nem olhou se estava ou não sendo seguido. Na estação rodoviária comprou passagem para uma cidade que ficava duas horas depois de onde iria parar. Aguardou, ansioso.
Acomodado no ônibus, deu uma olhada nos companheiros de viagem.
"Hábito de quem age errado", pensou.
Não viu nada que pudesse preocupá-lo.
Brian, profissionalmente, já havia feito muitas coisas, teve vários empregos, mas não parava muito tempo em nenhum. Isso, para ele, tinha somente uma vantagem: podia aprender a fazer um pouco de tudo. Do último emprego, como frentista do posto de gasolina, fora despedido no dia anterior, porque o dono ficara sabendo que ele estava se encontrando com Michelle, a bela morena, mulher do bandido que mandava no bairro e de quem todos sentiam medo.
"Eu estou com medo! Confesso que estou receoso! Ainda bem que ontem, ao sair do posto", continuou ele pensando, "encontrei com Zacky, um ex-patrão. Que sorte! Ele disse que estava para recusar um trabalho porque não podia se ausentar da cidade. Sua esposa estava para ter mais um filho, o quarto. Ofereceu-me o trabalho, mas avisou que achara a cliente confusa."
Sentiu-se aliviado quando o veículo saiu da rodoviária e mais ainda quando ele se afastou da cidade.
Abriu seu caderninho de anotações e leu: iria trabalhar para Cristian, uma senhora de aspecto vulgar que lhe pagara pelo trabalho somente um terço do combinado, pagaria o restante quando recebesse os documentos. Ali estava escrito o local em que deveria procurar esses documentos: a Casa do Bosque.
"Esse serviço deve ser difícil! Zacky não iria me passar um trabalho que fosse fácil", concluiu Brian.
Continuou lendo o que anotou: casa habitada, talvez por duas ou três pessoas. Afastada, localizada num sítio.
"Tenho de procurar por um documento que nem sei bem o que é. Algo escrito por um tal de Robson, falecido há anos. Dona Cristian não deu muitos detalhes. Mandou que pegasse tudo que encontrasse escrito e assinado por esse Robson, avisando somente que ele tinha a letra grande e desenhada."
Ainda não tinha conseguido se tranquilizar totalmente, olhou até se o ônibus não estava sendo seguido. Nada vendo que o pudesse preocupar, releu as anotações.
"Não gosto de fazer algo desse tipo sem planejar antes. Mas como fazer planos se não conheço o local, quem vou encontrar? O melhor é deixar as coisas acontecerem."
Levantou-se do banco e observou novamente os passageiros, tentando disfarçar. Foi conversar com o motorista, indagou sobre as cidades em que o ônibus pararia e voltou a seu lugar.
"Devo relaxar e tentar dormir. O ônibus irá parar em várias localidades, a terceira é o meu destino. Fiz bem em comprar a passagem para outra cidade. Boa forma de despistar!"
Brian dormiu, mas acordou por várias vezes. Ao entrar na cidade em que iria descer, ficou atento. Quando parou na rodoviária, pegou sua mochila, que colocara no porta-objeto dentro do ônibus, e desceu. O motorista avisou que a parada era de dez minutos. Brian tomou um café e andou pela rodoviária. Quando faltavam três minutos para o ônibus sair, viu um companheiro de viagem que estava sentado no banco ao seu lado e lhe pediu:
- Avise o motorista para mim, por favor, que não irei embarcar, encontrei um amigo que me dará carona.
Agradeceu e pensou:
"Ia avisar o motorista, mas foi melhor dar o recado."
Entrou no sanitário; abriu a mochila; trocou de camisa; colocou um enchimento no abdômen; placa de silicone na boca, aumentando as bochechas; pôs uma peruca ruiva, óculos e olhou no espelho. Parecia outra pessoa. Abriu a porta, verificou se o ônibus em que viajara havia partido e saiu do sanitário, tentando não chamar atenção. Afastou-se da rodoviária, andando devagar, rumou para o centro da cidade e, depois de andar cinco quadras, parou num bar. Tomou outro café, comeu um lanche e depois perguntou ao proprietário:
- O senhor pode me informar como faço para ir ao sítio São Judas Tadeu?
- Você vai lá? — indagou o homem, espantado. — Irá à Casa do Bosque? O que vai fazer lá?
Não foi difícil para Brian inventar uma desculpa.
- Trabalho com sementes. Os proprietários pediram à firma onde trabalho que enviasse um representante. Farei uma visita.
- Muito estranho! Será que a viúva quer plantar algo? Ou o filho da dona Eunice está pretendendo tornar um sítio produtivo? Aquelas terras estão abandonadas há tanto tempo, desde que o velho Gabriel morreu não se planta mais nada lá.
- O senhor conhece o lugar? — Perguntou Brian, querendo obter mais informações.
- Vi as terras de longe, como todos da cidade. Acho que ninguém conhece a casa. Você tem certeza de que tem de ir lá?
- Tenho. — respondeu Brian.
- Vão recebê-lo no portão, como fazem com todos que vão lá. Melhor!
- Por que "melhor"? Não podem me receber na casa?
- Não queira entrar na casa. Dizem que é assombrada. Os netos do senhor Gabriel estudam em outra cidade desde pequenos e, pelo que sei, não vêm para a casa. Penso que ninguém gostava daquele velho sovina. Pelo que dizem, ele morreu e ficou lá, guardando seus pertences.
- Assombrações? Elas ainda aparecem nos dias atuais? — indagou Brian.
- Se não quer vê-las, não entre na casa — aconselhou o proprietário do bar. — Já houve muitos falatórios sobre o sítio e a casa. Não sei se é boato ou não. Mas, como muitos falam, um pouco de verdade tem. E por que não haveria assombrações nos dias atuais?
Brian, em vez de respondeu, indagou novamente.
- Como faço para ir lá? É longe?
- É um sítio; logo, é longe para ir a pé, porém você pode pegar um táxi duas quadras adiante. Eu o aconselho a não pousar por lá.
Brian agradeceu, comprou uma garrafa d'água, um pacote de bolachas e foi para o ponto de táxi. Quando falou o nome do sítio, o taxista perguntou:
- O sítio do finado Gabriel?
- Sim, é esse.
- Posso saber o que irá fazer lá? Ninguém vai ao sítio. — quis saber, curioso.
- Sou esperado. Vendo sementes.
- Entre! Eu o levo até a ponte. Não é recomendável passar com o carro por ela. Mas não se preocupe, basta atravessá-la para estar em frente ao portão.
O motorista foi falando da cidade e fez algumas perguntas: se ele iria a outros lugares, se queria que o esperasse ou buscasse... Brian respondeu monossilabicamente, não queria que o esperasse ou viesse buscá-lo.
- Conhece o sítio? — perguntou Brian.
- Claro que não! — respondeu o taxista. — Não conheço ninguém que conheça. Nem o velho Chico, que faz compra para eles, nem ele sabe quantas pessoas moram lá.
- Quem é esse Chico? — indagou Brian.
- É um senhor idoso que tem uma charrete e costuma comprar mantimentos para as pessoas do sítio.
- Ninguém sai de lá, da casa?
- Uma vez por mês, dona Eunice sai. Ela é a nora do velho Gabriel. Vai ao banco, faz algumas compras e, umas três ou quatro vezes por ano, vai ver os filhos na cidade em que eles estudam. Uma vez, vim trazê-la até a ponte. Uma mocinha também costuma, às vezes, ir à cidade. Se você não tivesse marcado a visita, diria que não entraria na casa, nem passaria do portão. Chegamos.
Brian pagou, desceu e ficou olhando o carro ir embora. Observou o lugar. A estrada era de terra batida. Estava parado à frente de uma ponte velha e estreita. De fato, o sítio não ficava longe da periferia da cidade. Vendo a ponte, ele pensou: "O taxista tem razão de sentir receio de passar por ela. Não deve aguentar peso".
Abaixo da ponte corria um riacho de águas limpas. Dali podia ver o sítio, que era cercado por arame farpado. Resolveu atravessar a ponte. Atento, observando tudo, andou devagar. Depois da ponte, a uns cem metros, viu o portão. Ficava dentro de um pedaço do cercado de arame, rodeado por um paredão de três metros de altura, liso, construção forte que certamente murava toda a casa. O portão de madeira era pesado, com duas partes. Tão alto quanto o muro, tinha uma pequena janelinha. Com certeza, ao abri-la, daria para ver quem estava em frente a ele. De fora, somente viam-se as copas das árvores, deveriam ser muitas, as que estavam perto do muro não eram frutíferas.
"Talvez para não serem uma tentação para roubos. O arvoredo é diversificado, um bosque realmente", pensou Brian.
- Como será que se faz para se atendido? — perguntou ele baixinho, para si mesmo, examinando o portão. — Não tem campainha, sino, nada. Se alguém quiser ser atendido, bate no portão, grita? Não importa, não me receberiam mesmo.
Olhou para todos os lados, não viu ninguém. Voltou a examinar o muro. Suspirou aliviado quando viu que a dez metros do portão, dois galhos de uma árvore frondosa ultrapassavam o muro. Aproximou-se do local.
"Se conseguir abaixar este galho, escalo o muro."
Colocou a mochila nas costas e tirou seu cinturão. Em uma das pontas, colocou a garrafinha d'água como peso e a jogou numa forquilha de galho, puxou-o e ele abaixou. Segurando firme a outra ponta da cinta, pulou, batendo os pés no muro, e conseguiu pegar o galho com a outra mão. Ouviu um estalo e, com rapidez, apoiou-se na borda do muro. Ergueu o corpo devagar e olhou para dentro do terreno: não viu ninguém e nada ouviu. Sentou-se no muro. Tirou a cinta da forquilha e pegou a garrafa.
"Preciso sair rápido daqui", pensou.
Perto do muro, do lado de dentro, os galhos da árvore eram mais grossos. Mudando de galhos, acomodou-se num mais forte, onde não seria visto do lado de fora. Tirou a mochila das costas, livrando-se também de seu disfarce.
"Que alívio! O silicone da boca estava incomodando, e a peruca, esquentando minha cabeça".
Guardou-os na mochila. Observou bem o local. Viu o telhado da casa.
"Tudo parece simples! O telhado está velho! E a casa não é muito grande. Será que tem cachorro? Não escuto latidos. Com certeza, se houvesse, teriam percebido minha presença. A não ser que estejam presos. Que silêncio!"
Sem saber o que fazer, ficou na árvore.
"Se houver cães, eles nmão me pegarão aqui em cima. Porém, não posso ficar o tempo todo na árvore. Preciso urgentemente planejar o que fazer", pensou, tentando encontrar um modo de entrar na casa. Resolveu esperar escurecer.
"Posso ser preso. Como um ladrão! Não encontrei uma solução, mas sim uma complicação. Devo estar louco! Primeiro saí com a mulher de um bandido, depois aceitei um trabalho aparentemente fácil, que agora percebo não ser bem assim. Devo pegar uns papéis, só que eles não gostarão de ver um intruso. Bem, pelo menos na cadeia o bandido não me pega. Ou pega?"
Estremeceu, mas resolveu ficar, agurdar e entrar na casa. Comeu as bolachas, tomou água, não viu nenhum movimento nem escutou latidos.
A posição estava incômoda e, assim que escureceu, pegou uma lanterna e desceu da árvore, escondendo sua mochila entre os ramos para protegê-la.
"Se chover, ela não irá molhar."
Cauteloso com o coração disparado, Brian foi caminhando rumo à casa. Não escutou barulho nenhum, nada de latido. Aproximou-se e então viu a residência. Embora tivesse muitos anos, foi feita para resistir. A pintura estava desbotada. Ao vê-la de perto, percebeu que a moradia não era tão pequena, diria que era de porte médio, com várias janelas, todas fechadas. Somente viu luzes em duas janelas menores onde havia vidraças.
Atento, observou a frente da casa, onde havia algumas plantas com flores. Concluiu que não cuidavam bem do jardim. Para chegar à porta de entrada, uma escada larga, rapidamente ele controu os degraus, oito. Havia também uma pequena área, onde tinha somente uma cadeira e a porta.
Pisou no primeiro degrau, a madeira rangeu. Tirou o pé e correu para trás de uma árvore. Nada aconteceu.
"Os moradores deste lugar devem ser adeptos do silêncio", pensou.
Voltou a examinar a casa. Estava parado, olhando-a de frente. Do lado direito, havia seis janelas bem fechadas e as duas com vidraças. Do lado esquerdo, mais quatro janelas. Olhando onde pisava para não fazer barulho, ele contornou a casa pelo lado direito, viu outras duas janelas e, em direção das vidraças do outro lado, nos fundos, a construção se estendia. Pela chaminé, concluiu que ali deveria ser a cozinha. De onde estava, não viu janelas ou vidraças nela. Uma cerca alta, bem feita, impediu sua passagem. Era uma galinheiro.
"Devo me afastar, se as aves perceberem minha presença, farão barulho, me denunciando."
Voltou à frente da casa andando rente à parede. A construção acabou e, novamente, havia uma cerca alta fechando o quintal.
"Deve ser cercado por terem aves e alguns animais", concluiu Brian. "Não devo pular. Aves são barulhentas."
Voltou à frente. Olhou dentro da casa pela vidraça, estava iluminada por uma lâmpada no teto e não havia ninguém. Forçou a vidraça, e ela se moveu. Devagar, levantou uma parte, travou-a, colocou a cabeça para dentro e observou, era uma sala. Estava decorada com sofás, cadeiras, mesas... Tudo limpo, mas velho e desbotado.
"Devo entrar. Afinal, vim aqui para isso! Depois, estou faminto. Pelo silêncio, os moradors devem estar dormindo, vou à cozinha."
Tentando não fazer barulho, entrou pela janela envidraçada, seu coração batia forte. Largou a janela aberta e foi andando nas pontas dos pés. Atravessou a sala. Passando pela porta, defrontou-se com outra sala, esta era menor, com algumas poltronas, e recebia a claridade do outro cômodo. Escutou um barulho, encostrou-se à parede e ficou imóvel. Passou por ele um vulto que lhe deu calafrios. Não distinguiu o que via. Parecia um saco andando, olhou para o chão e teve a impressão de ter visto dois pés com botas pretas. Mas, ao olhar bem, não os viu mais, e o vulto parou aproximadamente um metro de meio de onde estava. Nisso, uma mulher entrou na sala, olhou o vulto e depois para Brian, que tremia encostado na parede. Ela se benzeu com a mão direita, fazendo o sinal da cruz. Na mão esquerda, segurava um pequeno lampião.
- Por Santa Rita! Outra alma! — exclamou a mulher.
Foi para a outra sala e Brian escutou:
- A vidraça está aberta!
Ele a escutou fechas a vidraça, apagar a luz, passar por onde ele estava sem olhá-lo e atravessar a porta. Pela luz do lampião, Brian viu que ela se dirigia para o lado direito. O vulto que estava parado resolveu sumir. Ficou tudo escuro, mas não totalmente, porque ele viu uma pequena claridade vinda do lado esquerdo. Tentou se acalmar e concluiu: "Estou impressionado. Com esta pouca iluminação e muitas sombras, pensei ter visto algo estranho. A culpa é do proprietário do bar que me contou sobre assombrações. O que vi foi fantasia da minha mente."
Andando devagar, foi até a porta e defrontou-se com um corredor. Olhou para o teto, não havia lâmpadas. Percebeu, então, que não havua lâmpadas em todos os cômodos e concluiu ser por esse motivo que a mulher carregava um lampião. Rumou para a claridade.
Deparou-se com a cozinha, onde uma lâmpada fraca continuava acesa no teto e no fogão a lenha havia um fogo quase extinto.
"Comida! Na mesa tem pães, doces e frutas. Vou comer", — decidiu ele.
Com fome, colocou um pedaço grande de bolo na boca, enchendo-a, quando escutou alguém dizer:
- Quieto! Alma não come! É um ladrão!
E gritou:
- Eunice! Vem aqui na cozinha. Um ladrão!
Brian olhou assustado. Uma moça de camisola entrara na cozinha com uma espingarda apontada para ele.
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