Notas iniciais
Enjoy ;)

“O que estou querendo dizer é que tem horas que você precisa

botar tudo pra fora. Toda a raiva. Toda a dor.”

— John Green

Alice Heartblood

Acordo com o barulho de alguém levantando da poltrona de couro. Meu braço já estava muito melhor e minha perna também, como se não tivesse os quebrado no dia anterior. Não foram todos os ossos do corpo, mas seriam dois de cada vez, acho. Menos dor para mim.

Abro os olhos lentamente, já que a luz batia em meu rosto. Era fraca, mas ardia como se minha pele queimasse. Sento-me olhando em volta. Harry fecha as cortinas. Estava com o cabelo totalmente bagunçado e as roupas amassadas. Sorrio.

-Hm... Bom dia.

-Bom dia... -ele parecia um pouco ofegante, como se acordasse de um pesadelo muito ruim ou de um sonho muito bom. O que era estranho, porque se fosse pesadelo eu acho que ele estaria em choque, como o da noite anterior. E ele não estava.

-Acho que meu braço já está normal de novo. E a perna também.

-Isso é bom... -ele encosta na bancada que ficava na frente da janela. Nos dias que passei ali, notei que ele geralmente parava com os pés tortinhos, virados com as pontas para dentro, os braços cruzados e olhando para baixo. O deixava com uma aparência tão misteriosa que nem Oliver conseguiria descobrir o que se passava por sua mente.

-Eu acho que sim... Ahn, Harry, está tudo bem?

-Sim... -ele ergue um pouco a cabeça, me olhando e sorrindo — Só estou cansado.

-Hoje eu vou para casa... Você deveria ir para a sua também. Ou pedir um tempinho de folga. Trabalha mais do que o hospital inteiro.

-Eu trabalho porque as pessoas precisam de mim, Alice. -ele fala, novamente olhando para baixo — Eu só vou para casa porque, por algum milagre, os ataques param.

Olho para baixo. Isso não era justo com ele. Tinha que lidar com recém-chegados a todo segundo, mal dormia. Talvez não comesse direito a semanas. Se dormia, era em uma poltrona desconfortável. Ele precisava de férias, de um descanso. Precisava de um tempo fora dali.

-Deve ter um jeito de parar para sempre. Matando o Oliver, os ataques devem diminuir muito, eu acho.

-Como você iria matá-lo?

-Um dia eu penso em como fazer isso. -sento na maca o olhando — E vou queimar os restos.

-Eu ajudo. -ele sorri, erguendo a cabeça. -Você está bem? Não está com dor em nada?

-Pela primeira vez em dias, eu estou bem e sem dor em nada. -sorrio mexendo o braço quebrado e tentando desenfaixá-lo.

-Deixa assim, Alice. -ele ri. -É melhor não mexer. Eu vou à sua casa amanhã tirar todos os curativos.

Paro de mexer o braço, o abaixando e fazendo biquinho. Queria o fazer rir mais.

-Ok então...

-Eu não deveria deixar você sozinha... Quer dizer... Você tem a Melody, mas acho que comigo seria melhor.

-Fala isso para ela então. -rio baixinho — Se ela não te der outro tapa, melhor ainda.

-Eu deveria te levar comigo... -ele fica um pouco vermelho — Pra eu poder cuidar de você.

Quando ele falou isso, minhas bochechas esquentaram e eu tive que esconder um sorriso.

-Por mim não teria problema. Mas ontem você viu que eu não decido nada. Tenta mesmo falar com ela, porque eu não quero ver minha mãe tão cedo.

Ele concorda com a cabeça, me olhando fixamente. Olho para o braço dele. Em meio a algumas tatuagens (entre uma ancora grande no pulso e uma rosa que começava em seu cotovelo e terminava pouco abaixo do mesmo, com um pingo de sangue) havia uma marca profunda de mordida. Causada por mim.

-Dói? -falo me referindo à marca.

-Você quer que eu fale a verdade? -ele ri, mordendo o lábio.

-Quero... -rio também, o olhando nos olhos. Estavam verde-claros, quase azuis. Como ele estava contra a luz, os ângulos de seu rosto se acentuavam, formando sombras no mesmo.

-Dói um pouco... Mas é uma dor tão boa que eu fico passando a mão o tempo todo. -ele ri baixinho, arrumando o cabelo. -Você pode achar que sou louco por gostar da sensação de ser mordido, mas um dia... Quando você encontrar o cara certo e vocês forem se morder para demonstrar união, você vai ver o quão bom é.

-Isso tem nome. Masoquismo. -rio alto — Você, sr. Stormblood, é masoquista.

-Não sou... Um pouco, mas todos acham isso bom. É como se... -ele ri alto, franzindo a testa. -Não sei como explicar, porque eu ia usar um exemplo meio inapropriado.

Faço careta o olhando nos olhos novamente. Aquilo era loucura.

-Você é inapropriado.

-Vou levar isso como um elogio -ele sorri maliciosamente -Eu ia falar que é como se estivesse tendo um orgasmo, mas acho que você não sabe qual é a sensação disso.

-Esse exemplo é mais inapropriado do que você! -sinto meu rosto esquentar — Melhor deixar isso quieto.

-Concordo... -ele ri, tapando a boca em seguida. Rio também. -Sabia que eu estava certo.

-Cala a boca, por favor.

-Eu estou totalmente certo... -ele morde o lábio — Mas conversamos sobre isso outro dia. Sua irmã deve estar chegando.

-Melhor. E pare de falar que você está certo.

A pupila dele aumenta um pouco. Ele pisca com um olho só, mordendo o lábio rapidamente. Ele vem até mim, chegando bem perto. O cheiro dele parecia estar mais forte, parecia me provocar algo. E não, eu não sabia o quê. Sou inocente.

-Eu... Estou... Certo. -ele sorri. Estava perto o bastante para que eu pudesse sentir a respiração quente dele batendo em meu rosto frio.

-Eu... Te... Odeio! Muito mesmo. -reviro os olhos, chegando mais perto ainda. Uma parte de meu cérebro avisava "PERIGO! SE AFASTE! ÁREA RESTRITA!" já a outra gritava um pouco mais alto "BEIJE ELE AGORA, ANTES QUE SUA IRMÃ CHEGUE!".

-Não odeia... -ele engole em seco — Eu consigo sentir a sua respiração acelerada quando eu chego perto assim. -ele sorri de um modo fofo e malicioso ao mesmo tempo, coisa que eu acho que apenas ele era capaz. -E o seu coração... Bate mais forte. Fala sério, isso não é odiar alguém.

-É vontade de te jogar pela janela mesmo... -desvio o olhar, o empurrando de leve. Ele se afasta, olhando para o lado e passando a mão na nuca.

Somente agora prestei atenção em sua respiração... Estava acelerada, assim como seus batimentos cardíacos. Sorrio de canto.

-Acho que sobre respiração e batimentos acelerados você não pode falar muita coisa.

-O que você quer que eu faça? -ele ri baixinho, ficando muito vermelho. -Eu não sou acostumado a ter pacientes como você, Alice. Normalmente são crianças ou homens.

-Vou fingir que acredito. -sorrio — Você fala que os outros mentem mal, só que essa foi a pior mentira que já ouvi.

-Você quer que eu fale a verdade? -ele dá dois passos em minha direção, meio relutante.

-Não tenho certeza... Mas fala ai.

-Eu fico assim porque... -escuto alguém bater na porta e ele para de falar.

Fico séria, olhando a porta. Nunca vou saber a verdade. Porque as pessoas chegam nas horas erradas? Mattew, Melody, Oliver... Meu Deus! Parece que amam isso. Toda vez que Harry vai falar alguma coisa que eu quero muito ouvir alguém abre a porta, entra no quarto... Incrível. Vou morrer curiosa como sempre achei que morreria.

-Entra. -falo deitando com os braços sobre o rosto, cobrindo o mesmo.

-Está pronta? -escuto Melody falar.

-Não... Acabei de acordar.

-Eu... Quer que eu fique esperando ou volto depois?

-Você que sabe, maninha. Eu... trouxe alguma coisa? Só lembro de estar com minhas coisas da faculdade aquele dia, do ataque... E não tinha roupas na minha bolsa. A menos que eu vá embora com as roupas do hospital...

-Eu trouxe coisas pra você... -ela fala um pouco mais baixo. -Mas parece que alguém não te avisou.

-Não posso mais me esquecer de nada? -ele murmura. Estava olhando para os pés, que estavam novamente parados tortos. O cabelo estava bem bagunçado e ele estava com os braços cruzados sobre o peito. Mordo o canto do lábio. Ele estava maravilhoso com aquela cara de quem acabou de acordar. Meu médico é o cara mais gato que já vi na vida. E me deixou beber o sangue dele, que é uma delicia, assim como ele. Eu não penso esse tipo de coisa, deve ser o efeito do sangue dele.

-O problema é que você esquece tudo. -a voz dela soa um pouco agressiva — Chega... Não quero ficar irritada de novo. — ela fala, irônica. -Eu vou ficar ali fora... Mesmo que não importe para você, Alice. Acho que você prefere ficar conversando com ele. Licença. -ela sai do quarto.

-Ah, puta que pariu, Melody Katherine! Chega de drama! -grito saindo da maca. Olho para Harry, falando de um jeito mais amigável. — Onde estão as coisas que ela trouxe?

-Dentro do armário. –ele continua encarando o chão, como se aquilo fosse de algum jeito transportá-lo para um lugar onde Melody não gritava com ele por causa de nada. Entendo esse sentimento, costumava fazer muito isso na época que ela foi transformada. Melody já foi muito pacífica, pelo menos quando morava com nosso pai... Que eu nunca conheci.

-Obrigada... E desculpa pela Melody, o.k? Ela deve estar assim por causa do Oliver.

-Talvez não só por ele.

-De qualquer forma... -olho para baixo, pegando as coisas no armário.

-Você... Quer que eu fale com ela sobre eu não concordar em você ir pra casa?

-Você fala? -o olho pelo canto do olho — Porque ela não vai me ouvir. Bem... De qualquer modo, ela vai gritar tanto contigo como comigo, falando que a culpa é do sangue... Mas sei lá, tenta. Vai que ela deixa.

-Falo... Acho que vou levar um soco dessa vez, mas falo. -ele ri de um jeito fofo.

-Posso tentar a carinha de cachorro que caiu da mudança, mesmo achando que não funciona mais... Ou você aparece lá do nada. Não seria má ideia.

-Não. Eu estou acostumado. Ela sempre me dava tapa na cara. Tipo... O tempo todo. -ele revira os olhos, bufando- Mas ela não sabe que não dói.

-Então eu não sei... -fecho o armário, olhando as roupas que ela levou pra mim. Moletom grade cinza, jeans, all star e a nécessaire com minha maquiagem -Nossa, até maquiagem...

-Parece que ela pensou em tudo. -ele ri baixinho- Parece que você é mais importante pra ela do que eu pensava. Eu achava que ela não ia ligar.

-Ou ela viu minha cara de morta e falou que não ia sair comigo daquele jeito. Simples. -rio, indo até o banheiro — Se eu tomar banho com os curativos, vai fazer alguma diferença? -o olho antes de fechar a porta.

-Não... -ele ri- Vai molhar tudo, mas não vai sair. E só uma coisa... Se precisar de ajuda no banho, eu estou aqui.

-Acho que não vai precisar, mas valeu.

Escuto ele rindo e sorrio. Iria ser ótimo se ele me ajudasse aqui... Mesmo eu não precisando de ajuda. Eu poderia fingir, só pra ele entrar no chuveiro comigo... Credo, estou pensando mais safadezas que Mattew.

Ligo o chuveiro e tiro a "blusona" do hospital. Olho-me no espelho. Eu estava pálida e meu cabelo estava horrível, parecia mais castanho do que loiro. As marcas na minha bochecha estavam aparecendo bastante e meu rosto estava todo arranhado. A pele e volta das minhas unhas estavam todas machucadas e os nós de meus dedos tinham sangue seco.

Entro no chuveiro e sinto os cortes e machucados arderem. Fico um pouco parada embaixo da água quente, sentindo a dor diminuir aos poucos. Quando a ardência fica quase mínima, começo a me lavar, cantarolando qualquer coisa baixinho. A sensação de sentir a água sobre meu corpo após tanto tempo era maravilhosa.

Termino o banho e começo a me arrumar. Fiz minha sobrancelha e passei rímel. Baguncei um pouco o cabelo para sair um pouco a água, escovei os dentes e saí do banheiro, passando os dedos no cabelo para tirar os nós.

-Pronto. Acho que eu só precisava disso mesmo pra ficar melhor. -falo e sento na maca, colocando o all star branco velho. Ele me olha, sorrindo de canto. Sorrio de volta e desço da maca, pegando minha bolsa. -Hm... Você falou com ela?

-Nã... Não. -ele gagueja- Eu... Vou falar agora. -ele tosse- Você está bem melhor assim sabia? Seu cabelo tinha perdido o brilho.

Sorrio e olho pra baixo. Sério que ele notou o cabelo? Ninguém nota meu cabelo... Faz muito tempo.

-Ahn... Obrigada.

Ele ri baixinho, saindo do quarto. Começo a mexer na minha bolsa. Caderno e coisas da faculdade, celular, papeis de bala, um livro e dinheiro. Pego o celular. Estava sem bateria, como o esperado. Mais de dois meses ligado dá nisso.

Respiro fundo. Quando os ossos pararem de quebrar e o pior passar... Ainda vou ver o Harry? Espero que sim. Quer dizer... Ele tinha que me ajudar, Melody não era tão calma na hora de me ensinar alguma coisa.

Saio do quarto. Vejo os dois no final do corredor, eles pareciam estar discutindo. Reviro os olhos e vou até eles em silêncio, parando do lado de Harry. Eles param de falar, me olhando.

-Dá pra vocês falarem agora o que vocês decidiram? Ou só ficaram se xingando para passar o tempo mesmo?

-Você realmente está concordando em ir para a casa dele? Vocês mal se conhecem. Vocês vão estar sozinhos... -ela parecia um pouco preocupada- E... Eu não acho uma boa ideia.

-Melody, ele só vai me ajudar! Só quebraram alguns ossos ainda. Eu... Preciso dele.

-Ele te explicou o que acontece depois que você bebe o sangue do outro? -ela estrala alguns dedos- Acho que já está acontecendo, parabéns Harry. -ela revira os olhos.

-Apaga o fogo do cu. Ele é médico, Mel. Você não. Não tem nada haver com o sangue, mas ele vai saber o que fazer quando sei lá, minhas costelas quebrarem.

-E quem disse que eu não sei fazer isso? -ela ri- Quem você acha q ficou do lado dele enquanto todos os ossos do corpo dele quebravam? Deus? Não querida. Fui eu.

-Não quero ir com você porque você não tem paciência. Você não sabe controlar a porra da sua raiva. Por isso eu prefiro ir com ele. Quantas vezes você já brigou e gritou comigo desde que viu que ele era quem estava me cuidando? Não foram poucas.

-Sua irmã sabe do que está falando, Melzinha — Oliver aparece do nada (literalmente do nada) bem atrás dela -Eu sinceramente acho que ela deveria ficar comigo. -ele ri e olha pra mim — Eu sim vou saber o que fazer.

-Experimenta tocar nela... -Melody vira para o Oliver- Se você fizer isso, todas as mortes que você provocou vão ser em vão porque você vai parar no mesmo lugar que eles.

-A ameaça foi muito boa, mas acho que você não conseguiria me matar. Você já tentou, lembra? E largou a faca.

Ela olha pro lado, respirando fundo. Suas mãos tremiam. Harry o derruba e coloca o rosto dele contra o chão, pisando em seu pescoço. Os olhos estavam mais escuros.

-Só não te mato agora, porque vão achar seu corpo e eu não tenho como queimá-lo aqui.

Ele ri alto, segurando o tornozelo do Harry e empurrando pro lado. Tiro o extintor de incêndio da parede, batendo o mesmo com tudo na nuca de Oliver, que cai de novo.

-Chega de ser estúpido? Está bom por hoje. E acho que pro resto da vida. Você é muito irritante.

-Alice... -Melody me puxa pra trás- Chega... Vocês só vão deixar ele irritado. Vamos sair daqui logo, por favor. Eu estou cansada.

Oliver levanta, rindo. Ele sabia que Melody queria chorar.

-Que meigo, ela está defendendo a irmã e o namoradinho -ele me olha -Acredite, você vai se arrepender por isso. Muito. –quando ele falou aquelas palavras... Eu notei que saíram meio estranhas. Soavam meio estranhas vindo dele, como se ele fosse um boneco de ventríloquo. Esmo não conhecendo Oliver, apenas por olhar em seus olhos... Eu sentia algo dentro de mim gritando que não era ele.

E apenas eu parecia notar. Talvez eu esteja errada.

-Oliver... Cala a boca... -ela o empurra contra a parede- Eu jurei nunca mais encostar as mãos em você, mas parece que eu preciso fazer isso para te matar. -os olhos dela ficam pretos- Eu já disse... Vai embora. Ninguém quer você aqui.

-É por isso que eu vou ficar. Se cuidem. -ele a empurra longe e sai dali.

-Você esta bem? -vou até ela, preocupada.

-Estou... -ela arruma o cabelo- Só... Harry... -ela olha pra baixo, cruzando os braços- Eu quero que você cuide dela, o.k?

-Eu vou... -ele vem até nós — Por que mudou de ideia?

-Acho que é melhor ela ficar com você... -ela morde o lábio com força, olhando pro Harry- E você sabe o motivo...

Não sei se foi impulso ou outra coisa. Só abracei Melody e fiquei esperando ser abraçada de volta. Ficamos longe uma da outra até quatro anos atrás, quando ela resolveu deixar nosso pai e morar com minha mãe e eu. Ela suspira, me abraçando também.

-Você vai ficar bem, né? -sussurro. Ela concorda com a cabeça, mexendo no meu cabelo. -Eu vou lá ainda hoje. O.k? Pegar umas coisas e ver a mãe.

-Acho melhor não... -ela sussurra- A mãe viajou a trabalho e o Oliver já sabe onde moramos. Eu levo para vocês no final da tarde. O que você vai precisar? Blusas, calças... Sutiã, calcinha, maquiagem? -ela ri baixinho, sabendo do meu constrangimento sobre essas coisas mais íntimas. Sim, tenho dezenove anos e ainda não consigo falar de roupas íntimas sem me sentir meio... Envergonhada, acho que é essa a palavra.

Reviro os olhos.

-Falar baixo, é isso que você precisa.

-Não... -ela ri alto- Ele iria escutar de qualquer forma. E mesmo assim, ele sabe que você usa isso. Pelo menos não perguntei se você queria outra coisa. Começa com "Ab". E com certeza você vai precisar.

-Pois é. Obrigada por não perguntar — rio alto, coçando a nuca. Sou extremamente ridícula 90% das vezes.

-Eu... -Melody para o abraço- Vocês querem que eu leve algo pra comer?

-Eu não sei... -olho pro Harry, esperando que ele respondesse. A casa é dele, afinal.

Ele estava tão quieto... Tão lindo na luz fraca do lugar. Sua pele estava um pouco mais pálida, e ele estava com o cabelo todo bagunçado. E ficava muito sexy naquele jaleco e naquelas coisas de médico.

-Pode ser. -ele sorri de canto.

Ela sorri de canto, me dando um beijo na testa e saindo dali. Respiro fundo, com um pouco de dó. Oliver com certeza apareceria na nossa casa, atrás dela. Ou de mim. Ele era mais forte, e eu não sei se ele seria capaz de matá-la. Olho pro Harry.

-Oliver não sabe onde você mora, sabe?

-Não... E acho difícil ele descobrir. -ele ri- Vou pegar as minhas coisas enquanto você pega as suas. E dai só vou colocar na sua ficha que você sai hoje e o horário. -ele sorri de canto- E eu vou te buscar no seu quarto, o.k?

-O.k então. -volto para o quarto, olhando em tudo para ver se não tinha esquecido nada. Depois sentei na maca e esperei. Ele devia estar quase saltitando. Pelo que ele me falou, faziam semanas que ele não ia para casa.

Começo a rir imaginando a cena. Não dava para imaginar Harry saltitando com o uniforme de trabalho e uma agulha de soro na mão... Mentira, dava sim. E era a melhor imagem de todas. Depois dele sem camisa. Ou ele cantando pelo hospital, começando a dançar com pessoas aleatórias. Patético e muito engraçado.

Olho para a porta e vejo ele parado ali, encostado no caixilho, me olhando fixamente e sorrindo. Sorrio, levantando e o olhando fixamente também.

-Eu estava rindo igual uma idiota, não estava?

-Sim... Não consigo imaginar no que você estava pensando. -ele ri

-Pois é... Na minha cabeça foi engraçado. Bizarro, na verdade. Pra caramba. -vou até ele. Harry é muito alto... Ou eu que sou muito baixa? — Pronto?

Ele concorda com a cabeça, sorrindo. As covinhas aparecem e os olhos fecham um pouco.

-Então... vamos? -sorrio parando na frente dele

-Sim... -ele pega a minha bolsa, sorrindo- Esta tudo aqui né?

-Está sim. -suspiro — Finalmente vou sair daqui.

Harry ri baixinho e saímos do quarto, começando a andar pelo hospital. Ele me olhava pelo canto do olho quase o tempo todo. Eu já me sentia exposta.

-Quer que eu leve minhas coisas? -pergunto quando saímos do hospital. Era comecinho da tarde e o dia tava nublado, frio e com vento. E eu só com o moletom. Me abraço, e começamos a andar. Não era tanto pelo vento frio, e sim porque tinha acabado de notar que estava me mudando para a casa de um praticamente desconhecido, do nada. Não exatamente desconhecido, já que ele cuida de mim faz tempo, mas... Eu não sei nada sobre ele enquanto Harry sabe tudo, ou quase tudo, sobre mim.

-Não... -ele fala, me olhando- Está com frio? Quer o meu casaco?

-Não precisa... Você vai ficar com frio. Eu aguento.

-Não vou não... -ele ri, tirando o casaco e colocando em mim. Estava com um moletom preto, jeans e um coturno velho. O cabelo também estava cobrindo os olhos por causa do vento- Pronto.

Sorrio o olhando.

-Obrigada...

Ele parecia estar cantarolando alguma coisa, mas eu não conseguia ouvir nada. Pouco depois, chegamos à frente de um prédio marrom, que era numa rua sem quase nenhum barulho. Entramos no mesmo, indo para o elevador, e ele aperta o botãozinho do nono andar. Saímos do elevador num corredor longo cheio de portas. Ele vai até mais ou menos a metade, parando numa porta com o número 944.

Entramos no apartamento. Era pequeno, devia ser pouco maior que uma quitinete. Tinha uma salinha com uma TV, a cozinha, dava para ver dois quartos e devia ter um banheiro. Sorrio. Meu sonho de consumo pra quando fosse morar sozinha em NYC. A diferença era apenas a cidade. Acho.

Ele coloca a minha bolsa sobre o sofá e joga a bolsa dele perto da porta de um dos quartos. Ele suspira e sorri de canto, olhando pelo lugar. Fecho a porta atrás de mim e tiro o casaco dele.

-Obrigada pelo casaco...

Ele ri, me olhando fixamente. Sorrio, indo até ele, parando a um passo de distância.

-Hm... E agora?

-E agora o que? -ele morde o lábio, olhando pro chão- Você esta com fome?

-Um pouquinho... -olho para baixo — Melody vai vir daqui a pouco com a comida...

-Se eu fosse você não ficaria esperando por ela... -ele ri, arrumando o cabelo- Ela parecia estar sem pressa então acho que ela vai demorar. Quer comer alguma coisa enquanto ela não vem? Eu tenho... Sorvete? -ele me olha nos olhos

-Não estou com tanta fome, mas é sorvete. -sorrio de canto

Ele vai até a cozinha e volta logo em seguida com um pote de sorvete e duas colheres. Sorrio e sentamos no sofá. Me encolho um pouco pelo frio e pego uma das colheres, abrindo o pote e comendo um pouco do sorvete de baunilha com chocolate. Ele fica me olhando fixamente, sorrindo.

-Que foi? -rio o olhando — Está sujo?

-Não... -ele sorri de canto- Eu só... Estou observando você.

-Isso não é legal, sabia? -sorrio — Não quer sorvete?

-Quero... -ele pega um pouco de sorvete- Por que não é legal?

-Sei lá... Não gosto de ser observada -pego mais sorvete -Você gosta? Que pergunta escrota. Mas é isso ai, não sei puxar assunto.

-Não ligo... -ele suspira, olhando pra frente- Mas gosto de observar os outros. Reparar em cada detalhe do rosto e do corpo... Para nunca esquecer as pessoas que eu já vi.

O olho, arqueando uma sobrancelha. Não acredito que ouvi isso. É sério que ele falou aquilo? Meu Deus... Ele devia estar acostumado com meninas o observando todo dia. Claro, eu me incluo nesse grupo, mas não era tão obvia, não deixava tão na cara quanto imagino que todas façam. Era estranho o fato de ele ficar assim, olhando fixamente para alguém. Meio assustador.

-Ta bom...

-Você pode achar estranho... Mas é o único jeito de lembrar das pessoas. -ele morde o lábio superior- Quando você perde todo mundo, você acaba ficando meio paranoico com essas coisas.

-Desculpa ter tocado no assunto... Eu... Não sei o que falar agora. -lindo, Alice. Parabéns. Agora ele ficou magoado. Mais é idiota mesmo, é melhor você calar a boca.

-Tudo bem. -ele me olha, sorrindo e pegando mais sorvete- Não faz mal. Eu estou acostumado.

Dou de ombros, pegando mais sorvete. Ele estava acostumado, porém isso não era bom. Ele parecia se afogar em memórias tristes, como se não tivesse nenhuma boa em mente para se segurar. Que triste...

-Desculpa de qualquer jeito... Odeio falar o que não devo mais do que odeio ficar curiosa.

Ele me olha fixamente, sorrindo e isso me fez sorrir também. Ele estava jogado no sofá, literalmente. Um pé no chão e outro no braço do sofá, ele estava descalço, apenas de meias. O moletom amassado ameaçava levantar e o cabelo estava ainda mais bagunçado do que de manhã. Seus olhos verdes estavam meio azulados e muito brilhantes Os lábios finos estavam avermelhados, assim como suas bochechas. Ele estava tranquilo, descontraído. Só faltava uma coisa para ficar perfeito. As covinhas, o sorrido brilhante que em pouco tempo acabei por gostar muito. E eu iria fazê-lo sorrir.

-Seria uma pena se seu nariz ficasse sujo de sorvete... -falei do nada, desviando meus pensamentos estranhos. Venho pensando muito esse tipo de coisa desde que tomei seu sangue. Não que eu já não achasse antes, mas depois daquela noite, era como se eu precisasse olhá-lo para manter a calma diante da minha situação.

-Tá sujo? -ele fica vesgo, tentando olhar para a ponta de seu nariz.

-Espera... -coloco um pouco de sorvete no nariz dele, rindo. -Agora está.

-Ei! -ele ri alto, passando sorvete em minha bochecha. -Vingança...

-Mim ser índio mal. -passo mais sorvete ainda em minha outra bochecha, fazendo careta.

-Idiota... -ele ri mais alto ainda, passando sorvete no meu nariz e no meu queixo. Missão de fazê-lo rir feita com sucesso. Ser tão idiota tem esse privilégio de fazer os outros rirem quando eu quero.

Rio também, limpando o rosto com a manga da blusa. Limpo a ponta do nariz dele, o fazendo sorrir de canto e me olhar nos olhos depois de um tempo. Ele passa o dedo na lateral de minha bochecha. Sorrio sentido o coração acelerar, olhando-o nos olhos também. Não bastasse o sangue dele, cujo gosto eu ainda sentia doce na boca, ele ainda fazia isso. Todas as vezes que Harry me olhou desse jeito... Fazia com que eu sentisse como se todas as células do meu corpo estivessem sendo atraídas para ele. Mas quando eu me aproximava, era como se elas se repelissem, como se... Não fosse para ficarmos juntos. E tudo o que eu não posso, eu quero mais ainda.

Ele piscava lentamente, agora sem expressão alguma. Olho para sua boca rapidamente e ele sorri rapidamente, ficando sério novamente. Franzo a testa, fingindo estar brava apenas para ver sua reação.

-O que foi? -ele sussurra, mexendo em meu cabelo.

-Não faço ideia, por quê? -continuo séria.

-Parece que você ficou brava do nada... -ele sorri, mostrando apenas a covinha esquerda.

-E você ficou sem expressão do nada. -sorrio de canto — Não estou brava, só queria ver como você ia reagir.

Ele ri baixinho, se aproximando de novo. O olho nos olhos fixamente, sorrindo. Sua pupila estava maior, sua respiração e seus batimentos estavam mais acelerados assim como ele disse que eu ficava.

-Eu... -ele olha para baixo, se afastando um pouco — Desculpa. Eu não posso fazer isso com você.

-Eu... Ahn.. -desvio o olhar, me afastando ainda mais, sentando direito. Por que não? -Tudo bem. Não precisa se desculpar.

Alice, por favor. Se ele terminou com sua irmã, por que iria querer alo com você? Além disso... vocês mal se conhecem. Tenho que aprender a ignorar os efeitos do sangue dele, mesmo que minha mente gritasse para eu beijar ele logo, eu não podia fazer isso. Tenho que fazer o que aquela coisa dentro de mim falava para eu fazer: me afastar. Mas meu corpo e minha mente não permitiam isso... O que fazia com que eu levasse altos foras do moreno com olhos claros e pele pálida que eu ando precisando até de mais.

-Eu só... -ele me olha novamente — Não quero fazer isso enquanto você está sobre efeito do meu sangue e não seria justo com você isso.

-Está tudo bem, Harry. -sorrio de canto. Mentira, claro, minto muito bem.

-Talvez daqui alguns anos você se arrependa e pense "que filho da puta... ele aproveitou a situação para me beijar e depois me levar para cama." — ele sorri e eu rio.

-Eu já entendi, Stormblood.

Ele fica um pouco vermelho, suspirando e mexendo num fio solto da blusa. Coloco a colher no pote e começo a mexer no cabelo. E então alguém bate na porta, fazendo Harry ir abrir a mesma.

-Oi, Melody.

-Harry... -ela entra e me olha, sorrindo em seguida. Melody segurava uma caixa de pizza e uma bolsa grande. -Oi.

-Oi. Pizza do que?-sorrio também.

-Frango com catupiry, calabresa e chocolate. Suas favoritas. -ela ri baixinho, colocando a caixa de pizza sobre a mesa e jogando a bolsa do meu lado — Acho que peguei tudo que você precisava.

Abro a mesma, fuçando ali. Roupas, pijama, coisas de desenho, nécessaire, roupas íntimas, coisas de emergência que apenas mulheres usavam, maquiagem, carregadores, meus livros favoritos e meu computador onde estavam os trabalhos da faculdade.

-Acho que trouxe sim. Senta ai.

Ela olha para Harry rapidamente, sentando no sofá com a caixa de pizza. Ignoro-os e pego um pedaço de pizza de calabresa, colocando um pé sobre o braço do sofá. Harry puxa uma cadeira, colocando a mesma na frente de Melody e senta. Ele me olha e sorri. Continuei comendo em silencio quando ele pega um pedaço, mordendo o mesmo e apoiando o queixo nas costas da cadeira.

-Acho melhor eu ir embora... -Melody me olha, passando a mão no braço do sofá. Termino o pedaço a olhando.

-Não precisa, só não tem muito assunto... E você acabou de chegar não tem porque você...

Sinto uma dor forte nas costelas, parando de falar e fechando os olhos. Sinto uma pontada do coração e nos pulmões e quando abro os olhos minha visão estava toda borrada. Coloco a caixa de pizza ao lado, fazendo careta. Melody coloca as mãos nas minhas costas e Harry senta do meu lado, pegando uma das minhas mãos.

-Calma. -ele sussurra — Você já sabe o que fazer... Apenas olha para mim e esvazie sua mente.

-Vai doer muito? -o olho nos olhos. Estava com o soro que usou em minha perna de novo na mão.

Ele nega com a cabeça e eu sinto a agulha perfurando a pele próxima a minha costela. De algum modo, ele havia dado o soro para Melody que injetou em mim enquanto ele me distraia. Sinto uma dor muito forte nas costelas e encosto a cabeça no ombro de Harry, respirando com dificuldade. Meus olhos estavam cheios de lágrimas e eu sentia meu coração fraquejar. Ele me abraça, passando as mãos nas minhas costas. Melody levanta, pegando uma coberta e colocando sobre mim.

-Você só vai dormir um pouquinho... -ela sussurra, fazendo cafuné em mim. -Nós vamos estar aqui quando você acordar.

-O.k... -fecho os olhos, ainda encostada nele. Tudo fica escuro e em silencio. Eu não sentia mais nada, nem ouvia.

Como no dia em que cheguei ao hospital.