Notas iniciais
Enjoy ;)

"Uns querem um final feliz.

Eu só quero a parte do feliz,

do final eu não quero nem saber."

—Caio Augusto Leite

Harry Stormblood

Olho em volta. Eu estava no quarto de Alice e o sol já entrava pelas frestas da cortina. Eu não consegui salvá-la pela segunda vez, mas havia sido um sonho. E sobre o quarto de Alice...

Ela estava caída no chão, xingando alguma coisa ou alguém com a mão ao lado do corpo, na mordida que havia reaberto. Com isso, levanto-me rapidamente, a pegando no colo.

-Merda, Alice. Você não podia ficar quieta na cama? -murmuro, abrindo a porta do quarto e a levando pra uma sala de cirurgia- Foda-se. Vou fazer isso sozinho...

-Deixo você morrer chorando no seu próximo pesadelo, ingrato. -ela fala me olhando séria

-Eu não estava chorando... -sussurro, a soltando sobre a maca, talvez um pouco bruto- Agora cala a boca. -pego um soro especial e as coisas para costurar a mordida e diminuir o sangue que saia.

-Por que você não me mata de uma vez? Um peso a menos na sua vida. Bruto... E sim, você estava se afogando nas próprias lágrimas — ela faz uma careta de dor e vejo seus olhos lacrimejarem. Talvez tenha sido bruto de mais.

Reviro os olhos, tirando a blusa dela rapidamente e tento não... Prestar muito a atenção nos detalhes. Tiro o curativo da mordida, injetando o soro com a anestesia em seu ombro.

Ela fica quieta, olhando pra porta, séria. Seus pensamentos eram claros. "Cara estúpido, eu tento acordar ele e ele me joga na maca. Sou uma pobre menina incapacitada". Típico. Não a conhecia há tanto tempo, mas pelo tempo que passei com ela posso dizer isso.

Espero um pouco para começar a fazer efeito e ela não sentir muita dor. Enquanto isso, eu limpava a mordida do modo mais delicado possível, evitando que ela sentisse.

-Com o que você estava sonhando? -ela fala depois de um tempo, provavelmente desconfortável com o silencio.

-Eu já disse pra você ficar quieta. -suspiro, colocando o dedo sobre a mordida- Esta sentindo isso?

-Obviamente. E dói muito, para sua informação. -ela respira fundo e murmurando em seguida -Você nunca me responde, só pergunta. Incrível isso, amo muito. Quem não ama?

-Não era pra sentir... Eu preciso que essa coisa funcione logo pra eu poder fechas os pontos novamente. -sussurro- Ou então vou ter que fazer assim mesmo.

-Fecha logo isso antes que eu tenha uma hemorragia. Obrigada. Gosto de dor, amo dor. Até virei um demônio para que meus ossos quebrem. Que divertido... Super masoquista eu. Amo. –ela quase chorava de dor.

-Vai doer muito, Heartblood... -olho nos olhos dela- Eu acho que consigo fazer o sangue parar um pouco pra esperar. -falo limpando o sangue novamente.

-Fecha logo isso! -ela me olha com os olhos pretos, a íris verde brilhando com a raiva e o nervosismo. Suas lágrimas estavam mais escuras e eu via dor e medo em seu olhar. Como um animal prestes a ser abatido.

-Calma... -reviro os olhos, pegando a agulha e começando a dar os pontos, limpando o sangue o tempo todo.

Ela morde o lábio, cerrando os punhos e olhando pro teto. Continuo a dar os pontos, olhando fixamente para a mordida. Às vezes olhava para a expressão dela. Os olhos fechados com força, os punhos cerrados, os lábios cortados.

-Pode segurar na minha blusa se quiser... -sussurro, dando outro ponto.

Ela faz isso, acidentalmente me puxando mais perto e deixando uma lágrima escorrer. Logo termino de dar os pontos, jogando as coisas no lixo apropriado. Faço um curativo e ela olha para o mesmo, mexendo nele em silêncio.

Lavo a minha mão, suspirando em seguida.

-Obrigada. E se tiver pesadelos como teve noite passada sempre, nunca mais durma no meu quarto. Não quero me preocupar com alguém que nunca corresponde nem responde a nada.

Fico sem silencio, colocando a mesma blusa sobre a barriga dela e a pegando no colo. Levo-a pro quarto dela, a colocando na cama. Jogo a blusa ensanguentada no chão, colocando uma blusa limpa nela. Ela não era tão magra, podia ver um quilo a mais. Nada que a deixasse sem cintura ou...

Chega, Harry.

Ela também continua em silencio, sem me olhar uma única vez. Pego a blusa, saindo do quarto e colocando na lavanderia do hospital. Sento no banco do corredor, bufando. Qual era o problema das Heartblood?

Tudo começou com Melody. Eu a salvei de um dos demônios mais fortes de Londres, o cara que a transformou. Já fui muito amigo dele, até ele se converter para o mal. É sério isso. Existem boatos que ele tenta achar a cura, fazendo experimentos em demônios recém-transformados.

Enfim, ele era namorado dela. E quando eles terminaram, ele a transformou e tentou a matar. Eu a salvei e começamos a sair. Chegamos a namorar, mas logo em seguida ela terminou comigo. Deus sabe o porquê.

E agora era a irmã dela.

Não sei como ela é direito. Até agora, irritante. Muito irritante e irônica, além de curiosa. Totalmente ao contrário da irmã dela, Alice não tinha desejo de descobrir quem a transformou e matar a pessoa. Depois que descobriu que não tinha cura, parece que ela desistiu da ideia de voltar. Ela entendeu.

Fui tirado de meus pensamentos quando as portas do elevador abriram revelando Melody, que usava uma jeans rasgada e jaqueta de couro por cima de uma blusa branca. Estava de coturnos e a maquiagem pesada de sempre, parecendo um panda. O cabelo dela estava meio cacheado.

Quando me viu, ela apressou o passo. Levanto lentamente, já pensando na pergunta evidente. "Alice vai sair hoje?". Faço que não com a cabeça. Ela para, confusa.

-Por que não? -Melody parecia querer me socar, como se a culpa fosse minha. Isso foi um dos muitos motivos do nosso término.

-A mordida reabriu hoje, ela vai ficar só mais hoje, já que tenho que ver se vai melhorar ou não. E Melody, não é minha culpa isso. Nunca as coisas foram minha culpa. Pare de me lançar esse olhar.

Ela revira os olhos e voltamos para o quarto. Paro na porta, surpreso. O que aconteceu aqui? Foi só eu sair do quarto e quando volto, Alice está de pé, obviamente mais confusa que eu e Melody. Olhava para os pés, com uma mão sobre o ombro esquerdo, sobre a mordida. Quando ela nos olha, seus olhos estavam pretos, com a íris verde, a bochecha pouco rasgada e dentes maiores. Estava mais pálida e chorava sangue.

Corro até ela quando ela se curva, gritando de dor. O osso de seu braço esquerdo estava quebrado. A transformação havia começado enquanto eu estava fora. Agora eu vou ouvir muita merda...

-Depois você ainda tenta me convencer de que a culpa não é sua. -Melody fala, irritada- Você é irresponsável. Por isso as coisas dão errado... Você parece uma criança. -ela faz eu me afastar da Alice- Deixa que eu cuido disso... Tem mais chances dela sofrer em suas mãos do que nas minhas. -ela faz a Alice sentar na cama- O seu trabalho é cuidar dela, não ficar sentado no corredor tentando se fazer de médico esforçado.

Minha visão fica turva e sinto minhas bochechas cortando, dentes crescendo.

-Se não fosse por mim ela já estaria morta. Foi você quem cuidou dela esses dois meses? Não. Você nem sequer apareceu nessa merda de hospital. Então sai da minha frente Melody. A criança irresponsável aqui é você.

-CALEM A BOCA! -Alice grita, com a forma demoníaca quase completa. Agora sua boca sangrava e os cortes na bochecha estavam maiores. Seus olhos estavam inteiros pretos, sem a íris verde. Ela parecia ter ficado um pouco maior e sua pele estava praticamente transparente, deixando todas as veias visíveis. Seu cabelo estava mais escuro e suas unhas enormes e seus dedos sangravam.

Quase uma loira do banheiro mais sangrenta.

Melody fica parada, me olhando fixamente. Seus olhos estavam mais escuros.

—Então se você se acha capaz de cuidar dela... -sua voz falha- Faça o que quiser. Mas se ela morrer, você também morre. -ela sorri de canto, indo na direção na porta- E só mais uma coisa... Você por acaso sabe o motivo de eu não ter vindo? Não. Então acho melhor calar a boca da próxima vez.

-Saiam os dois daqui -Alice fala com a voz mais rouca -Os dois. Me deixem sozinha. –Ela coloca as mãos na cabeça, puxando o próprio cabelo, como se estivesse enlouquecendo. E talvez estivesse mesmo, por mais que isso não fosse parte das transições que eu conheço.

-Não... –falo o mais calmo que consegui. — Você vai morrer se eu te deixar assim aqui. E se não morrer por causa da transformação, alguém vai ouvir você gritar e ai você vai morrer com um tiro na nuca.

-Você acha que eu não sei me controlar, Stormblood? Para quem não chorou até hoje, eu sei muito bem. Sai daqui.

-Não... -falo de um modo mais frio, vendo que apenas assim ela me deixaria fazer meu trabalho. — Eu sou seu médico e... Não quero que passe por isso sozinha.

-"Eu sou médico". Você só sabe essa frase? -ela levanta e vai cambaleando até a janela — Eu vou pra casa.

-Alice! -Melody fala um pouco mais alto- Obedece ele. Se não vou ser obrigada a te apagar agora.

-Me matem. -ela nos olha -Fiquem a vontade.

-Eu não disse que iria te matar. Apenas disse que iria fazer você dormir durante um tempinho, maninha. -seus olhos ficam pretos- Por que é tão difícil para você entender que só queremos te ajudar?

-Tudo isso é difícil, maninha. -ela ri sarcástica. -Afinal, eu sou um demônio agora. Não?

Em volta das duas, enquanto elas discutiam, a tinta das paredes mofava e o chão ganhava novas pequenas rachaduras, assim como o vidro perto de Alice. Era como se a ira das duas provocasse algo forte de mais. Até mesmo para o sobrenatural. Era como se elas tivessem ainda mais poder do que o resto de nós. O único relato de acontecimentos semelhantes foi com os demônios “originais”.

-Você é muito idiota... -Melody sussurra- Por favor, dá para parar de fazer drama?

-Que se foda. Eu quero ir pra casa. -Alice respira fundo, arrumando a franja que estava sobre o olho esquerdo, o mesmo cuja sobrancelha tinha uma pequena cicatriz funda.

-Você não vai para casa –falo, arrumando a postura e sentindo minhas unhas crescendo. — Você vai deitar nessa cama e vai me deixar cuidar de você. Não porque eu sou médico... -Merda, falei a frase de novo. — Mas porque eu não quero que você sofra como eu sofri. -suspiro- Por favor, Alice! Deita.

Ela me olha e os olhos dela clareiam. Os cortes diminuem, o sangue começa a parar. O vidro, antes prestes a explodir, se concerta e os batimentos cardíacos barulhentos da loira acalmam. Ela parecia mais humana, mais frágil. Mais ela mesma.

-Eu não quero ser isso, Harry...

-Eu sei... Eu também não queria. Mas você vai se acostumar. Só, por favor, deita aqui e me deixa tirar a sua dor. -vou ate ela, a olhando nos olhos- Eu juro que vai ser rápido.

-Você promete? -ela me olha nos olhos. Ela parecia ter seis anos agora.

-Prometo. Essa é a melhor opção, o.k? E eu posso te ajudar com outras coisas depois. Mas agora, eu só preciso que você me deixe parar isso antes que você tenha uma hemorragia. Ou quebre alguma coisa.

Ela olha pra baixo e pouco depois senta na ponta da cama, limpando o sangue do rosto. A boca dela vai diminuindo, de gato Cheshire a uma boca normal. Faço ela deitar na cama, fechando as cortinas em seguida.

Ela fica olhando pro teto, em silencio. Escuto a porta fechando e olho pelo quarto todo. Melody havia saído dali. Respiro fundo e pego uma seringa de anestesia, olhando para Alice.

-Isso vai doer um pouco, mas já vai passar... -sussurro, a virando um pouco de lado e injetando a anestesia em sua coluna. Ela cerra os punhos, ainda em silencio enquanto eu coloco a seringa sobre a mesinha de equipamentos, pegando a faixa e a agulha. -Você consegue sentir isso? -passo a ponta do dedo no braço dela

-Sim...

Pego outra anestesia, aplicando a mesma em seu braço. Mordo com força o canto do lábio, passando o dedo no mesmo lugar de antes.

-Um pouco menos... -ela suspira

-Me avisa quando parar de sentir. -fico passando o dedo de leve no braço dela.

-Pronto. -ela fala baixinho depois de alguns minutos.

-Então... -a minha voz falha- Se quiser pode apertar a cama ou a minha perna. -suspiro- Vai doer um pouco mesmo com a anestesia, infelizmente. Só não dou meu braço para você apertar porque ai vai dar errado.

Ela sorri de canto e segura o lençol. Eu sabia que este não seria suficiente, mas não queria deixá-la com medo. Mordo o lábio, segurando o braço dela com uma mão. A olho rapidamente, colocando a outra mão na parte quebrada a fazendo morder o lábio.

-Preparada? -sussurro.

-Não muito, mas creio não poder mudar a situação.

-Fica me olhando, ok? Olha fixamente pra mim e não pensa em nada.

Empurro com força a parte quebrada do osso pra dentro do braço dela o mais rápido possível, o colocando no lugar. Ela morde a outra mão e fecha os olhos com força. Uma lágrima de sangue escorre. O sangue que sujava minhas mãos inteiras. Costuro a parte rasgada do braço dela.

-Você... -engulo seco- A sua transformação foi mais rápida do que eu pensava que iria ser. Os seus ossos parecem estar lutando contra, mas mesmo assim... É forte de mais. -começo a enfaixar o braço dela- Eu não vou poder deixar você ir pra casa sozinha. Mas... -suspiro- Não posso deixar você aqui. Eles vão descobrir logo.

-Eu não sei. -a voz dela estava fraca. Ela senta, sem mexer muito no braço recém enfaixado — Não sei se quero ir para casa. Eu... Não sei me controlar e geralmente fico fora quando brigo com a Melody.

-Eu podia... -nego com a cabeça- Esquece...

-Fala. Eu odeio isso. Pessoas se interrompendo ao me deixar curiosa. E bem... Odeio ficar curiosa.

-Não... A sua irmã vai me odiar mais ainda se eu fizer isso. -franzo a testa- E é errado. Eu não posso fazer isso.

-Você já namorou ela? –a loira encarava algum ponto fixo, sem nenhuma expressão evidente.

-Eu... Vamos falar sobre isso outra hora, o.k? Eu só quero arrumar um jeito de te tirar daqui. E te manter segura.

-Onde eu ficaria?

-Eu não sei. A única opção era a minha casa. Mas como eu disse, a sua irmã iria me odiar e isso é errado. Um médico nunca deve levar uma paciente em sua casa.

-Você não tem vida fora dos hospitais? -ela sorri de canto.

-Tenho... Tinha. Eu não tenho motivos pra viver fora daqui. Não tenho ninguém que precise de mim lá fora. Todos que precisam de mim são desconhecidos que chegam aqui com o mesmo problema... Mordidas de demônio. Essas são as únicas pessoas com quem me importo.

-Hm... entendi. Dou um jeito nisso quando o pior passar... O pior passa né? -ela me olha

-Passa... -sorrio de canto- Você esta sentindo dor em algum lugar?

-Bochechas. E no braço

-Muito? -sento na ponta da cama- Quer que eu de um remédio para parar a dor?

-Daqui a pouco passa. A sua bochecha não dói? -ela coloca a mão em minha bochecha. A ponta de seus dedos estava gelada, fazendo com que o lugar encostado se arrepiasse. Sua voz estava baixa e rouca e ela parecia cansada. A anestesia iria a deixar meio mole.

-Não mais. A gente se acostuma. -sorrio- Se você quiser, eu posso explicar como vão ser as coisas daqui pra frente.

-Pode ir falando — ela ri baixinho

-Não quero que fique assustada... Então se quiser que eu pare, me fala. -sorrio de canto- Você vai se sentir fraca no começo... Vai sentir como se apenas um sopro fosse capaz de te derrubar. -suspiro, mexendo no lençol- Você irá sentir muita dor, mas eu vou impedir isso e não posso te falar como. -rio baixinho.

-Por que não? -ela faz biquinho

-Porque não... Vou te contar depois que a transformação terminar. -sorrio.

-Ainda tem mais? -ela finge chorar, o que me fez querer rir.

-Tem... -rio- Mas acho que você fica fofa quando está curiosa. -sinto meu rosto ficar quente- Desculpa... Eu não devia ter falado isso.

As bochechas dela ficam vermelhas e ela esconde um sorriso.

-Eu... Sou fofa... E eu só falo merda quando estou com vergonha então... Então. É... então.

-Então é melhor eu parar. -rio, levantando

-É... Não sei quem precisa parar, na verdade. Digo, qual dos dois... Você de falar essas coisas e eu de ser idiota e ficar falando besteiras.

-Eu... Acho que ninguém precisa parar... -sorrio, me aproximando dela- Mas você não pode contar pra ninguém se falarmos algo que não devíamos falar.

-Sei guardar segredo -ela sorri -Muito mais do que sei me controlar.

-Ainda bem. -olho para a boca dela- Porque eu tenho muitos deles.

-Vai falando, Stormblood, desembucha.

-Não... -sorrio- Prefiro fazer os nossos próprios segredos. -passo a mão no rosto dela, parando com os dedos sobre seus finos lábios.

Ela sorri de canto, meio vermelha ainda e eu me aproximo mais um pouco.

-Harry... -escuto alguém me chamar. Sua voz era grossa e muito familiar para mim. -Você não muda mesmo, amigo. -ele usou tanta ironia que me virei apenas para ter certeza. Era Oliver Graywolf, o demônio que me transformou e transformou Melody. Aquele que matava outros da "espécie" ao fazer experimentos. Um assassino de sangue frio. Ele sorri de um jeito malicioso — Sentiu minha falta, Stormblood?