The Haunted
6 Capítulo 5
Notas iniciais
"Demônios são fáceis de lidar, o difícil esta nos humanos."
—Célio Montagna
Harry Stormblood
Saio do quarto e olho para o corredor vazio. Era mais ou menos dez da noite e eu estava exausto. Já havia tomado várias xícaras de café, mas a cafeína não funcionava mais. Queria ir para casa pela primeira vez em quase duas semanas, e não podia. E, além disso, teria que achar um lugar para cochilar por uma ou duas horas. Eu vinha dormindo no sofá do quarto de Alice, e tinha que parar com esse costume. Nunca é muito bom se prender ao paciente. Uma hora ou outra eles irão embora. Tive experiências assim nos outros trabalhos e não queria ter nesse.
Vou andando até o quarto dos outros pacientes que eu estava ajudando a cuidar. Ela era a única que eu cuidava sozinho por motivos de "já passei por isso". Era médico só desses casos, nos outros era enfermeiro mesmo. E menti para ela sobre isso... Menti também sobre trabalhar em três hospitais. Eu trabalhava apenas em outro, e bem raramente, também com casos especiais de demônios. Depois de passar em todos os quartos, fui até a sala onde os médicos e enfermeiros ficavam e peguei o livro em minha mochila, duvidando que conseguisse ler uma única página. Achei uma poltrona no canto da sala e sentei ali, com um cobertor e uma almofada. Me ajeitei e tentei começar a ler, com os pés na mesinha que estava na minha frente. Em dez minutos estava dormindo.
Escuto o barulho da porta abrindo e alguém chamando o meu nome. Abro os olhos rapidamente.
-Vem, Stormblood. É uma emergência. -um enfermeiro fala pegando alguns materiais
Levanto rapidamente, ainda meio grogue pelo sono e sigo o outro enfermeiro até uma das salas de emergência. Uma menina pequena, com mais ou menos uns 12 anos, estava deitada em uma maca com uma marca na barriga. Uma mordida de demônio.
Ela lembrava a minha irmã quando era mais nova. Seu cabelo estava sujo de sangue e terra, seus olhos estavam fechados e molhados por lágrimas. Ela estava pálida, parecia ter perdido muito sangue. Abro os olhos dela com o polegar. Seus olhos estavam pretos, mas sem brilho algum. Os lábios dela estavam brancos, como de uma pessoa morta, ela tremia, seus batimentos cardíacos estavam descontrolados e sua respiração muito ofegante.
Minha respiração falha e eu murmuro um "Cassie". A bolsa que estava ao lado dela... Não, não podia ser ela. Ela morreu no incêndio que levou minha família toda a nove anos atrás. Não tinha como ela estar ali naquela maca.
-Harry! -alguém grita- Faz alguma coisa. Você entende dessas mordidas.
Mordo o lábio com força. Estava nervoso. Não sabia o que fazer. Não parava de pensar na possibilidade de ser minha irmã ali, deitada e praticamente morta. Meus olhos estavam ardendo e eu me sentia mais fraco. Minhas mãos tremiam. Pego uma seringa com anestesia, aplicando na barriga dela rapidamente.
Um enfermeiro me entrega algumas coisas. Limpo a mordida enquanto eles tentavam colocar algum aparelho para manter a respiração e os batimentos dela controlados. Ela segura a minha mão, abrindo os olhos.
Seus olhos estavam normais, verdes.
A mordida foi muito grande e talvez violenta de mais, a pele dela estava totalmente cortada, deveria caber a minha mão dentro do corte. Mando que eles costurem a parte rasgada, segurando a mão dela. Ela começa a tremer mais.
-Liguem logo esse negócio! -falo tremendo, me referindo ao aparelho que a manteria respirando.
Ela solta um grito agudo e seus olhos ficam pretos. Faço-a fechas os olhos, a segurando na maca. Ela fazia força pra sentar e eu a mantinha deitada.
-Liguem isso! -falei mais alto, sentindo o pulso dela diminuir a cada instante.
Eles haviam visto os olhos e estavam parados com medo. Não iriam fazer nada para ajudá-la. Deixariam ela morrer. Solto ela, tentando ligar o aparelho. Ouço o barulho do aparelho que media os batimentos marcando que não adiantava mais esforços.
Deixo minhas mãos caírem ao lado do corpo, lutando pra conseguir permanecer em pé. Meus olhos estavam cheios de lagrimas e eu estava tremendo muito. Minhas pernas estavam bambas.
Olho para os enfermeiros, parados, com o medo estampado nos rostos.
-Qual o problema de vocês?
—Você viu os olhos dela. -um dos enfermeiros começa- Ela era uma aberração.
-Cala a boca, cara... -respiro fundo saindo dali. Entro no banheiro e lavo as minhas mãos que estavam cobertas pelo sangue dela. Vou até a sala que eu estava antes, mas a poltrona já estava ocupada. Pego o meu livro, a almofada e a minha coberta, saindo dali. Não tinha um sofá vazio em nenhuma das salas e nem no corredor. Cada enfermeiro estava ocupando um sofá inteiro. Reviro os olhos, indo até o quarto de Alice. Ela parecia estar dormindo.
Estava abraçada a um travesseiro, virada de costas pra mim. Conseguia ver apenas o cabelo dela, que estava espalhado pelo travesseiro e cobertas. Parecia estar com frio e não precisava mais ficar ligada a maquinas. Tentei ouvir o coração dela, mas estava muito cansado.
Suspiro, indo até o sofá e sentando no mesmo, colocando a almofada no canto, o livro no chão e me cobrindo.
-Eu ouvi o grito... Da menininha. Não sei como consegui saber disso tão rápido ou como ouvi tão bem, devem ser os efeitos... -ela sussurra um tempinho depois. Parecia preocupada e devia ter acabado de acordar. -Você... Está bem?
-Eu... -a olho, esfregando os olhos- Não sei.
-Dorme um pouco. Depois, se quiser, você me conta. -ela sorri de canto. Estava piscando lentamente e parecia batalhar para continuar acordada.
-Você já tinha dormido?
-Estava quase dormindo quando ouvi o grito. Queria ir ver o que aconteceu e ver se você estava bem. Mas ai lembrei que não consigo andar. — ela boceja.
-Por que ver se eu estava bem? Não fui eu que gritei. -arqueio uma sobrancelha.
-Não sei. -ela dá de ombros. -Alguém podia ter descoberto o que você é, te matado, alguém viu e gritou.
-Por que veriam? Eu sei me controlar melhor do que você. -rio- Dorme...
Ela revira os olhos. A luz que vinha por baixo da porta acentuava os ângulos de seu rosto e a deixava mais pálida, com os olhos mais escuros e o cabelo mais dourado. Talvez ela ficasse assim quando se transformasse. Não tão demoníaca, mas sim angelical com um pouco de trevas. Ou, se o que diziam nos livros fosse verdade, como um demônio, dos piores. Se Alice se transformasse e ficasse daquele jeito, seria como a versão feminina do Diabo após assumir uma forma humana para seduzir mulheres. Linda, em minha opinião.
-Só me responde mais uma coisa.
-O quê?- a olho nos olhos.
-Por que veio pra cá?
-Porque... Porque não tinha outro lugar pra eu dormir... -deito- Agora, boa noite.
-Hm... Boa noite... -ela sussurra e se encolhe ainda mais, fechando os olhos. Suspiro, cruzando os braços e fiquei sério a olhando. Sua expressão era calma, e a respiração controlada. Desde que chegou aqui, era a primeira vez que parecia totalmente relaxada, talvez por saber o que era.
Queria poder me desligar assim, pegar num sono facilmente e relaxar. Mas depois de alguns anos trabalhando nos hospitais, sempre socorrendo pessoas que muitas vezes morriam, aprendi a ter sono leve. Estes, que morriam, geralmente eram os pacientes que eu mais deixava me apegar, aqueles que eu tinha esperança em voltar meses depois apenas para me dar um "oi, se lembra de mim? Você salvou minha vida".
Pouco depois eu também estava dormindo, tentando relaxar.
Eu estava dormindo não fazia muito tempo e escuto alguém chamar o meu nome. Eu não estava mais no quarto de Alice, mas sim em uma sala de cirurgia. As luzes estavam apagadas e eu enxergava muita pouca coisa.
Havia apenas uma luz acesa, e estava acima de uma maca na qual tinha muito sangue em volta e aparelhos ligados a alguém. Isso me fez levantar e ir até a maca.
A menina que morrera mais cedo estava ali, deitada, com a mordida do demônio sangrando. Ela estava pálida, com os olhos fechados, com muitas olheiras e toda suja de sangue. Minhas mãos começam a tremer de novo e eu começo a me afastar lentamente.
Ela abre os olhos, me olhando. Seus olhos eram como órbitas negras e as veias em volta estavam saltadas. Coloco as mãos na parede atrás de mim, onde deveria estar a porta. Ela senta, franzindo a testa.
-Harry? -ela começa. Sua voz era fina e delicada- Stormblood... Você não vai me ajudar? Você já se esqueceu de mim? -algumas lagrimas de sangue escorrem por suas bochechas pálidas, que indicavam que naquele corpo não havia mais vida.
-Não... Eu queria te ajudar. Não deu tempo e eu não esqueci. -continuo procurando a porta discretamente. Era apenas um sonho, deveria ter uma porta em algum lugar e eu tinha que me lembrar disso. Ela não era minha irmã. E isso é tudo mentira.
-Imagina se não desse tempo para todas as pessoas que vem aqui. -ela levanta da cama, limpando as lagrimas- Você não se sente culpado? Você podia ter feito mais... Você parecia uma garotinha com medo de apanhar do pai porque perdeu a boneca. E acredite, conheço muito essa cara.
-Eu tentei fazer mais. -a olho, sério — Você não iria sobreviver mesmo que eu conseguisse ligar aquele aparelho. Eles viram seus olhos e iam te matar.
-Eles deveriam saber sobre você também... -ela começa a andar na minha direção, com as mãos sobre a mordida e mancando- Imagina. Eles te matariam de um jeito tão legal.
-Não vão descobrir... Não conseguiriam me matar, faria isso antes com eles. -meu coração acelera. Cada vez mais ela se parecia com minha irmã.
-Harry... -ela quase cai- Vamos brincar de esconde-esconde. -ela sorri de canto e seus olhos ficam verdes- Por favor, é a última vez.
-Não... -minha voz falha — Você não é ela. Isso não vai funcionar comigo... Não vamos brincar de nada.
-Harry! -os olhos dela ficam negros inteiramente, maiores e os dentes um pouco mais afiados- Vamos brincar... Agora!
-Não vamos.
Ela chega perto de mim, sorrindo de um modo malicioso. Fico parado, apenas a olhando. Aquilo não podia ser real, eu a vi morrendo, vi a vida deixando seu corpo, ouvi seu coração parando de bater.
Ela fica me olhando, séria agora. Eu podia ver o meu reflexo em seus olhos, eu estava pálido e os cantos de minha boca começavam a rasgar, mostrando os dentes agora afiados e meus olhos ficando escuros. Se for uma ameaça, eu estava pronto.
-Quem é você? -murmuro. Aos meus ouvidos, minha voz estava mais rouca e baixa que o normal, como um rosnado.
-Eu? -ela arqueia uma sobrancelha e sorri de canto- Você me conhece, irmãozinho. Somos do mesmo sangue. Da mesma mãe e do mesmo pai.
-Você não é a Cassie. Minha irmã esta em morta. Faz anos, não tem como ela simplesmente voltar para me atormentar. As coisas não funcionam desse jeito.
-Claro que sou. -ela fala, franzindo a testa e olhando para a mordida- Harry... Acho que não vai dar tempo de novo. Eu estou tonta.
-Cas... Vai dar tudo certo Por que você saiu da maca? -pego ela no colo e a coloco na maca delicadamente, tirando a mão dela de cima do ferimento e analisando o mesmo. Era óbvio que aquilo não era minha irmã. Mas eu sou idiota, então cedi assim que aquela criança tão idêntica a minha criança precisava de minha ajuda.
Os olhos dela enchem de lagrimas e olho de relance para a mordida que parecia estar meio podre, pois estava toda preta e cheia de sangue. Ela estava tendo hemorragia. Sinto uma pontada de desespero. Começo a procurar as coisas que deveriam estar ai.
No momento, os aparelhos haviam sumido. Começo a escutar sussurros sobre demônios, sangue e mordidas. Olho em volta, ainda estávamos sozinhos. Porém, os sussurros continuavam cada vez mais altos e pareciam também estar mais próximos.
-Fica de olhos abertos... Por favor... -murmuro olhando em gavetas e derrubando armários. Tinha que ter alguma coisa ali, era impossível que não tivesse nenhum equipamento médico em um quarto num hospital.
-Harry... -ela sussurra, se contorcendo- Está doendo muito.
-Eu sei que está... Mas aguenta só mais um pouquinho. Você vai ficar bem, eu prometo. Vai sair daqui logo.
-Faz parar. -ela grita- Está doendo. PARA!
-Só mais um pouco... -grito de novo com os olhos marejados e vasculhando pela ultima gaveta do quarto. Havia algumas agulhas, mas nenhum soro ou remédio. Não tinha ataduras nem nada que eu pudesse usar naquele momento, naquela situação.
-Não grita. -ela sussurra- Não está ajudando. -escuto ela soluçar- Está doendo... Eu não quero mais. Para isso, por favor Harry. Eu não quero morrer.
Achei alguma coisa que pudesse servir corri até a maca de novo. Ela estava tremendo e estava totalmente coberta de sangue. Seus olhos estavam sem brilho novamente, sua pele e sua boca estavam mais pálidas. Sua respiração estava ofegante e seus batimentos descontrolados. Tentei fechar o ferimento, mas parecia que a agulha não perfurava sua pele por mais que eu tentasse. Ela grita alto, tremendo mais ainda.
O quarto parece triplicar de tamanho, e eu vejo uma das máquinas que poderia a deixar viva do outro lado, junto com o soro que eu usava com os demônios para deixá-los vivos.
-Não me deixa aqui sozinha. Não me abandone, Harry.
-É rápido... Você vai ficar bem eu só preciso daquela maquina. Não vou te abandonar. Vou te salvar. — Ela olha pro teto, mordendo os lábios com força. -Tenta aguentar... -minha voz falha e eu corri para a máquina.
Escuto ela sussurrando alguma coisa e chorando. Puxo a maquina até o lado da maca. Quando olho para a mesma novamente, ela estava ali parada e ensanguentada, o coração parando de bater e os pulmões parando de funcionar. Ela olhava fixamente pra lâmpada sobre a maca, sem movimentar os olhos. A boca dela estava um pouco aberta e um pouco roxa. Ela não tremia muito e a respiração diminuía cada vez mais.
-Não... Não, você não vai morrer. -ligo ela na maquina, a olhando -De novo não.
Ela da um último suspiro e consigo escutar o coração dela parando de bater lentamente. Meus olhos estavam cheios de lágrimas, mas eu me segurava para não chorar. A verdade é que eu não queria acreditar. Mesmo tendo visto o nome da menininha hoje, depois dela ter morrido, eu ainda via minha irmã em seu lugar. Se Cassie tivesse sobrevivido mais um tempo, se ela não tivesse morrido naquele incêndio... Ela estaria assim.
Minha irmã de doze anos, que sonhava em ser cozinheira, que me visitava no trabalho toda semana após a aula. Era isso o que ela iria fazer naquele dia. Mas decidiu voltar para casa, pois nossa mãe não estava passando bem. Então, quando voltei para casa aquela noite, vi tudo em chamas e os corpos daqueles que mais amava jogados nas cinzas. E ao lado deles haviam pequenas rosas com cor de sangue, quase negras. Um aviso de alguma coisa.
A morte da minha irmã era minha culpa. Eu não insisti para que ela viesse para cá para irmos depois cuidar da minha mãe.
Alguém começa a me chamar. Parecia estar fora do quarto e eu não queria ouvir. Eu queria poder sentar a beira da maca que ela estava, segurar sua mão e chorar.
Então sinto alguma coisa atingindo meu rosto e um barulho de algo ou alguém caindo me acorda.
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