Notas iniciais
Enjoy ;)

"Viver tem que ser perturbador, é preciso que nossos anjos e

demônios sejam despertados, e com eles sua raiva, seu

orgulho, seu asco, sua adoração ou seu desprezo. O que não faz

você mover um músculo, o que não faz você estremecer, suar,

desatinar, não merece fazer parte da sua biografia."

— Martha Medeiro

Melody me olhava nos olhos, ainda mais preocupada do que quando saiu do quarto. Ela senta na ponta da cama, segurando a minha mão enquanto Harry volta para o canto do quarto, sentando ali. Olhei para os dois, ainda mais confusa. Eles estavam quietos de mais. Aprendi que nunca vem coisa boa quando as pessoas ficam olhando o nada, sérios, preocupados e quietos.

-O que aconteceu? Por que estão assim?

-Nada. -ela fala, normalmente- Eu só... Queria conversar com ele sobre a sua recuperação. Apenas isso.

-Melody, está na cara que não é só isso. Fala de uma vez. Chega de perder tempo, por favor. Já me enrolaram de mais hoje pra contar as coisas. To cansada. -realmente estava. Meus ossos doíam e minha cabeça latejava.

-Pode falar... -Harry começa- Ela já sabe. Eu já contei pra ela.

-Você não deveria ter feito isso! -Melody o olha um pouco irritada- Era melhor deixar outra pessoa contar. Uma pessoa que ela confiasse. -ela me olha novamente. Eu estava sendo tratada como uma criança. Isso estava me irritando.

-Ela ficou me enchendo o saco, perguntava a cada 5 minutos. Não aguentava mais. -ele revira os olhos, cruzando os braços. Senti a raiva subir a cabeça e fecho os punhos, sentindo as unhas perfurarem a pele.

-Ah, que bom saber! — o olho, incrédula — Na boa, se você pedisse pra eu calar a boca eu calava. Bem mais simples.

-Eu não podia fazer isso. -ele fala, rindo baixinho- Você é uma paciente. E eu médico. -ele pisca com um olho só, o que apenas me irritou mais.

-Enfermeiro -o corrijo -Não médico. Há uma grande diferença entre os dois.

-Sou médico de casos especiais aqui. -ele levanta- E em outros três hospitais. -ele parecia irritado- Se você não sabe das coisas, é melhor ficar quieta. -ele sai dali.

-Ui... Está bem, moça. Não precisa ficar nervosinha. -murmuro revirando os olhos -Tem alguém na TPM descontando a raiva em pobres menininhas incapacitadas e com a vida acabada.

-Não tem ninguém na TPM. –minha irmã franze a testa- É só você mudando.

-De que lado você está? O dele? -a olho, séria.

-Não estou do lado de ninguém. Eu nunca fico do lado de ninguém. -ela suspira- Eu só acho que você devia tentar não ser tão rude com ele. Você poderia estar morta.

-Depois do que ele falou que vai acontecer comigo, eu acho que seria melhor eu morrer mesmo. O que vocês conversaram? -perguntei pela milésima vez, já tendo que controlar a raiva.

-No seu caso não vai ser tão ruim. -ela estava um pouco pálida- Você vai ficar bem. E pode parecer horrível agora, mas depois você acostuma...

-Não quero me acostumar, não quero virar isso! Seja o que for que vai acontecer. Vocês só me falaram os lados negativos, não me explicaram nada até agora e depois não querem que eu seja rude com vocês. É impossível.

-Desculpa, Lice... -ela começa, colocando a mão em meu rosto- Eu só quero que você não fique preocupada. Acredite em mim, vai dar tudo certo. Ok?

-Eu não estou preocupada. -olho pro lado, suspirando — Eu só quero saber porquê logo eu. Por que essas coisas horríveis só acontecem comigo? E por que ele tinha que me ajudar?

-Isso não aconteceu só com você. -ela tira a mão de mim- Você ainda não entendeu? Ele fez isso porque já passou por isso. Sozinho. E é horrível.

Com a frase, nem perguntei como ela sabia. Ela devia ser um deles. Isso explicava muitas coisas... Como ela sumia sempre, seu comportamento há um ano, as mudanças na aparência e jeito de se vestir...

-Dá para parar de tentar me fazer aceitar isso e ficar com pena e contar logo o que vocês conversaram? -a olho novamente, séria. –Isso é uma das primeiras coisas que me ensinaram na faculdade, se a pessoa não quer aceitar, ela não vai aceitar.

-Você começou o curso a menos de um semestre! E eu... -ela fala, olhando fixamente pros meus olhos- Eu já volto. -ela levanta, saindo do quarto. Pouco tempo depois ela volta, junto com o Harry. Eu nem havia notado a saída dele. Ambos pareciam preocupados- Olha...

Franzi a testa, confusa. Olhei para mim mesma, procurando alguma coisa de anormal, mais não encontrei nada. Sangue nas roupas, ossos saindo do lugar, unhas, pelos, espinhos. Nada. Os olhei de novo.

-O que foi? -começo. Harry fecha a porta, pegando a lanterninha no bolso e vindo até mim. -Essa merda de novo? -reviro os olhos.

-Para de reclamar ou vou ser obrigado a colocar uma mordaça em você. — ele fica me olhando por um tempo- Ok... Fica com os olhos abertos e olha pra luz. -ele liga a lanterna, colocando a luz nos meus olhos.

Suspiro olhando pra luz. Parecia não estar tão forte quanto da ultima vez. O que era estranho, já que meus olhos são realmente muito sensíveis à luz. Ele mexe a luz de um lado para o outro e eu a sigo com os olhos. Harry desliga a lanterna, olhando pra Melody.

-Está sendo mais rápido... -ele suspira- Cada vez mais rápido. A ultima pessoa que eu ajudei, demorou uma semana a mais que ela.

-Parem de falar só entre si como se eu não estivesse presente. E, por favor, comecem a me falar o que está acontecendo. — olho para ela. Melody fica me olhando, franzindo a testa. Olho para Harry, que olhava pela janela, mexendo em um anel dourado em seu dedo do meio. Suas mãos tremiam um pouco. -Não vão me explicar? Sério mesmo?

-Você já esta em transição. -Harry começa, ainda sem me olhar- Os seus olhos... Já mudaram. Você deve estar ficando irritada... Muito irritada. -ele me olha- Você sente alguma coisa diferente?

-Irritação. Muita irritação. O que aconteceu com meus olhos?

-Eles estão... -ele pega um espelho que estava sobre a mesa- Assim. -ele me dá o espelho. Olho o mesmo.

Arregalo os olhos. Estavam inteiramente negros, sem nada... humano. Como os de um tubarão ou como os do demônio que me atacou. Me aproximo do espelho, notando um anel verde claro em volta de onde deveria estar a pupila.

—Mais que diabos... Eles não vão ficar assim por muito tempo, né?

-Vai ficar apenas quando você estiver irritada, com muita fome, agitada... -ele fala, normalmente- Você apenas precisa aprender a se controlar. -ele sorri de canto.

-Isso vai ser difícil... Mas vou tentar... -suspiro, colocando o espelho na cama e encostando a cabeça nos travesseiros. Nunca consegui me controlar. Quem dirá agora, que tenho que conseguir? Talvez tudo piore.

-Eu vou te ajudar a praticar ok... -ele sorri de canto- Eu juro.

-Não entendo você. Você até agora pouco estava bravo comigo e agora já esta ai, sorrindo. -acabei falando. Espero que não tenha soado tão patético quanto pareceu. Porque realmente... Não penso antes de falar.

-Vai se acostumando. -Melody começa- Com você vai ser igual. -ela senta no sofá, cruzando as pernas. Harry a olha como se a repreendesse por sentar em seu lugar.

-Que bom saber... E por que você não me falou que era um deles? -a olho, arqueando uma sobrancelha.

-Você ia amar. -ela fala sarcasticamente- Imagina. Eu chego de viagem e corro pra você dizendo "maninha, a sua irmã mais velha acabou de se transformar em um demônio e tenho vontade de atacar todos que eu vejo na minha frente. Posso cortar a sua garganta e me alimentar de você?" — ela revira os olhos.

-Você sabe que eu acharia isso muito legal. — reviro os olhos — Ou ia rir da sua cara. Não ia sair gritando e correndo igual o Mattew faria. Não sou ele ou algo parecido.

-Alice, não é bem assim... -ela olha pro chão- Eu não sabia o que fazer. Eu passei por isso sozinha. Ninguém sabia disso. Vocês dois são os únicos que sabem.

Fico quieta, mexendo no lençol. Harry a olhava como se soubesse do que ela estava falando. Queria sair e deixar os dois conversando sobre isso, para que não se sentirem babás. Mas não conseguia mexer as pernas, quem me dera sair dali. A vontade de chorar era grande.

Alguém bate na porta e Harry abre a mesma. Era uma enfermeira morena e alta. Ela sussurra logo pra ele, saindo dali em seguida. Ele me olha.

-Acabou o horário de visita. Mas um familiar pode dormir aqui. Você vai ficar? -ele olha pra minha irmã e eu a olho também

-Se você quiser... -ela me olha.

-Você que sabe, na verdade. -dou de ombros

-Eu não vou ficar se for para ficar brigando com você. -ela levanta- Se você não quiser que eu fique eu vou embora.

-Moça, você que sabe. Por favor, decide. -falo respirando fundo. Eu já estava extremamente cansada, por alguma razão. Parecia não dormir por dias e minhas costelas doíam como se eu estivesse levando uma facada entre cada uma delas.

-Acho que talvez seja melhor você ficar sozinha para pensar que nós dois estamos apenas tentando ajudar. -ela olha pra baixo, suspirando- Eu volto amanha. -ela vem até mim, me dando um beijo na testa.

-Está bem... Tchau. -reviro os olhos e sorrio de canto.

Ela olha pro Harry e sai do quarto. Enquanto isso, tiro um travesseiro de trás da cabeça e o coloco sobre os pés, virando pro lado, de costas pra ele. Escuto ele suspirar.

-Boa noite, Stormblood... -respiro fundo. Harry Stormblood. Médico de casos especiais em o caralho de quatro hospitais. Um demônio que conseguiu continuar com a vida, muito bem por sinal.

-Você não precisa dormir já. -ele começa- Se você quiser, eu posso te explicar o que vai acontecer.

-Então explica, por favor... Você deve ter notado que eu não estou entendendo absolutamente nada. -continuo sem o olhar.

-É que... É confuso. E talvez você fique assustada. Me olha, por favor.

-Por que quer que eu te olhe? Estou ouvindo... E não vou ficar assustada. Eu acho que não pelo menos. Não pode ser tão confuso assim.

-Não vai ficar assustada? Ok... Então posso falar do modo mais frio o possível. -ele parecia um pouco irritado- Todos os ossos do seu corpo vão quebrar, você nunca sentiu tanta dor ao mesmo tempo quanto vai sentir. -a voz dele falha um pouco- Você vai ter vontade de matar todas as pessoas que você ver... Você vai poder escutar os batimentos e a respiração de todos, vai poder sentir coisas que nunca sentiu. Você vai ficar mais irritada, mais faminta, mais ágil.

Meu coração acelera e eu me encolho um pouco. Se a dor que eu estava sentindo era só o começo... Eu iria morrer. Resumindo. Morrer, ressuscitar como uma assassina, e tudo isso em pouco tempo. Iria matar todos que conhecia, todos que não conhecia, iria me alimentar de carne humana. Do jeito que sou isso pioraria ainda mais.

Ele fica em silencio durante alguns minutos. Sua respiração estava pesada e eu ouvia, ao fundo, a batida de seu coração se estabilizando. Pude imaginá-lo com olhos negros, pálido e com presas, garras ao invés de unhas e o cabelo desarrumado. Não queria vê-lo assim. Não de novo.

-Mas com a minha ajuda... -ele sussurra- Você pode sentir metade disso. Ou talvez quase nada.

-O que você poderia fazer? -minha voz sai falhada e eu viro um pouco a cabeça, o olhando pelo canto do olho. Consegui ver apenas sua silhueta. Os ombros largos, os braços musculosos e tatuados. Fiquei em silencio, não querendo irrita-lo ainda mais.

-Eu posso diminuir a sua dor. -ele se aproxima- Eu aprendi que tem como evitar algumas coisas. Deixa eu te ajudar, por favor.

-Tá... Desculpa por mais cedo, ok?

-Tudo bem. -consigo o ver sorrindo- Eu sei que é difícil. Mas você precisa saber que a sua irmã estava mal por você ter que passar pela mesma coisa que ela passou. Pelo o que eu percebi, ela ainda não gosta de ser assim. A maioria de nós não gosta principalmente os que foram transformados a força. -a voz dele falha- Eu só... Quero que saiba que eu vou te ajudar. E não é porque eu sou medico. É porque eu sei o quanto isso é ruim e o quanto você vai ficar mal.

Sorrio, virando pra ele. Ele estava consideravelmente perto. Eu podia sentir o cheiro dele. Algum perfume masculino, hospital e... cupcakes.

-Tudo bem. Obrigada. Eu falo com ela sobre isso amanha. -bocejo tapando a boca.

-Você quer que eu te deixe dormir? -ele morde o canto do lábio, deixando uma de suas covinhas aparecerem levemente.

Faço que sim, fazendo careta em seguida. O olho nos olhos. Estavam mais claros e agora pude notar as olheiras profundas abaixo dos mesmos. Sua postura era cansada e corcunda.

-É normal parecer que eu não durmo por semanas?

-Sim. -ele ri- O seu corpo está mudando. E você vai se adaptando lentamente. Mas amanha você vai se sentir melhor. Prometo.

-Tomara. -respiro fundo — Boa noite, Stormblood

-Boa noite Heartblood. -ele sorri de canto, arrumando a minha coberta- Qualquer coisa, eu vou estar ali fora. É só você me chamar.

-Nunca vai pra casa? -rio baixinho, me ajeitando na cama.

-Vou... Quando não tenho ninguém pra cuidar. -ele ri- Você está confortável assim? Quer que eu traga alguma coisa?

-Estou sim. -rio — Vai pra casa e dorme direito. Você parece mais cansado que eu. E deve estar mesmo.

-Só pareço. -ele sorri- Eu preciso ficar aqui.

-Entendi... -sorrio de canto — Tenta descansar mais então. Agora sim... Boa noite, Harry. -Ele sorri e sai do quarto, encostando a porta.