The Haunted
22 Capítulo 21
Notas iniciais
“Assim como o mar, tenho meus dias de fúria.”
— Mar, amar.
Alice Heartblood
Acordo com a respiração meio falhada de Harry próxima à minha orelha, o som da TV ligada em algum episódio de Middle Family (que eu provavelmente já tinha assistido) e o barulho baixinho e distante da coberta caindo no chão, fazendo com que eu me arrepiasse graças ao frio.
Abro os olhos, me espreguiçando. Com isso, Harry acorda também. Ou... mais ou menos isso. Quando o olhei, ele ainda mantinha os olhos fechados; seu cabelo tinha crescido um pouco e estava bagunçado de modo que cobria parte de seu rosto. Seus lábios estavam avermelhados, assim como a ponta de seu nariz. Harry geralmente dormia de braços cruzados, mas no momento me abraçava. Sorrio de canto, tirando os cachos da frente de seu rosto. O jeito que ele tentou esconder o sorriso entregou que ele estava acordado.
-Bom dia, Victoria. -ele sussurra com a voz muito rouca e grossa, depositando um beijo em minha testa.
-Bom dia, Jonathan. -rio baixinho. -Dormiu bem?
-Uhum... Seu sofá é bem mais confortável que as camas no chalé de Tony, sem dúvidas.
Ouvimos a porta do quarto de Melody abrindo. Eu havia a ouvido chegar bem tarde, pouco antes de realmente pegar num sono. Agora eu sabia que ela não estava sozinha. Além do cheiro de outro demônio, podia ouvir os passos do mesmo.
Esfrego os olhos e olho em direção as escadas, assim como Harry. E isso fez com que eu arregalasse os olhos e que Harry engasgasse (provavelmente com a própria saliva).
Melody estava parada na escada, olhando para mim e para Harry alternadamente. Seu cabelo estava todo bagunçado, ela estava sem maquiagem agora e usava apenas o casaco gigante que sempre usava para dormir. Ela realmente não estava sozinha... Oliver estava ali também. OLIVER! Apenas de calça e com o cabelo muito bagunçado também. Eles nos olhavam, vermelhos e com os olhos arregalados.
-Mas... Que merda... É essa? -acabo falando, sem tirar os olhos deles. Se minha mandíbula não estivesse bem presa ao resto de meu crânio, já estaria no chão.
Harry começa a rir e cai do sofá ainda rindo, igual a um completo idiota. Ou a uma criança com problemas.
-Eu... -Melody começa. -Droga...
-Melody... Que merda é essa? -eu não estava entendendo a razão de Harry estar rindo tanto, mas tentei ignorar.
-Calma, Ali... -Harry fala, tentando parar de rir.
Fiquei observando Melody, que evitava olhar para mim, entregar a Oliver sua blusa e seu casaco e ele colocando os mesmos. Sim, sou exagerada. Mas quando você vê aquela cena... sua irmã e o ex-ex-namorado dela... Estranho.
-Estou calma. -encaro Harry, séria. -Só que assim, para quem estava desejando ele morto a menos de duas semanas e agora está assim...
-Ali... Você não vai entender mesmo se eu te explicar. -Melody fala, meio constrangida, atraindo meu olhar novamente para ela. Oliver parecia chocado também. Não pelo mesmo motivo que eu. Obviamente.
-Não. Eu esqueci que nunca entendo nada. -reviro os olhos.
-É sério. Ele... Eu... -Mel morde o lábio, terminando de descer as escadas, seguida por Oliver. -Eu não sei explicar... Apenas...
-Vocês se comeram. -dou de ombros. -Expliquei por você. Pode falar, não tenho mais três anos... Só não entendo uma coisa. Você não o odiava? -arqueio uma sobrancelha, ouvindo Harry segurar a risada.
-Eu... Eu nunca odiei ele. Eu odiava quem ele tinha se tornado. -ela fala um pouco mais baixo, olhando para Oliver, que sorri de canto. E nesse momento tão lindo e épico, eu senti vontade de vomitar. Melody não era assim.
-Nossa, Mel... -tapo o rosto com a mão esquerda, sorrindo de canto. Eu não conseguia controlar meus pensamentos, minhas palavras. Eu sabia que estava sendo estúpida, mas não conseguia me conter. -Você conseguiu ser mais clichê que Harry. Parabéns.
Fala sério, sou a melhor irmã do mundo. Não sei por que ela reclama da minha ironia, sarcasmo, preguiça, do drama que eu geralmente faço, exagero... É, esquece.
-Não enche o saco. -ela franze a testa. -Oli, acho melhor você ir. Depois falo contigo. -ela praticamente sussurra a última parte.
-Oli? -minha voz parece mais fina. -Eu desisto! -jogo os braços ainda mais dramaticamente e levanto, respirando fundo.
-Alice, fica quieta ou eu vou te dar um soco. -ela bufa, puxando Oliver para a porta. -Que merda...
-Cala a boca, Melody. -vou até a cozinha, pegando uma xícara assim que chego à mesma, colocando esta sobre a bancada de um jeito bruto. Começo a fazer o café, evidentemente irritada. Ela queria matar ele, não queria ver Oliver nem pintado de ouro. E depois, eu sou a bipolar.
Escuto um barulho na porta da cozinha e logo depois sinto a respiração quente de alguém em meu ombro. Isso me faz arrepiar, já sabendo quem era. Porque, convenhamos... Melody não era.
-Você não acha que foi muito dura com ela? -Harry sussurra ao pé de minha orelha. Sua voz estava extremamente rouca... E sexy. Meu Deus, tudo nele está assim hoje. -Devia ter dado uma chance.
-Acho que sua reação não seria diferente se fosse sua irmã mais velha. -respiro fundo. -Não é legal ver ela com o ex dela depois de eles se comerem. Nenhum pouco legal.
-E se eles não tiverem feito nada? Sei que prece impossível, mas e se eles tivessem passado a noite juntos, sem sexo? -ele coloca a mão na minha cintura, pressionando meu corpo levemente contra a bancada, com os lábios ainda em minha orelha, como uma vez fizera em sua casa. -E mesmo assim... Ela já tem vinte e quatro anos.
-Olha... E.eu não vou discutir nada... -minha respiração falha devido à proximidade de nossos corpos. -E... está meio óbvio que eles fizeram muito mais coisa além de dormir. O "apenas dormir" foi a gente que fez.
-Você ouviu? Não... Então não te atrapalhou em nada. Ela decide com quem ela dorme. -Harry ri baixinho.
-Eu já disse... Não vou mais discutir! -me afasto dele, pegando alguma bolacha aleatória no armário.
-Ei, calma. -ele ri mais ainda. -Eu só estava tentando ajudar.
-Eu estou calma, Stormblood... Só estou... Nada. Esquece.
-Hey... Olha pra mim. -Harry coloca uma mão em cada lado de meu rosto, fazendo com que eu o olhasse. Seus olhos estavam com um tom de verde muito claro, quase que azul, e seu cabelo estava totalmente bagunçado. Durante nossa pequena viagem, seu cabelo tinha crescido, era como se ele fosse um daqueles soldados dos filmes de segunda guerra mundial, e eu achava isso muito bom. -Esquece eles... Eles devem saber o que estão fazendo, confia em mim... Você sabe que quando conheceu Oliver ele não estava em si...-ele sorri, deixando com que sua covinha esquerda aparecesse.
-Eu... Eu sei. É só que... -respiro fundo, cruzando os braços. -Não quero que ele a machuque de novo. Eu sei que ela não parou de amar ele, mas não quero ver Melody acabada novamente por causa dele.
-Eu sei disso. -ele respira fundo, passando o polegar sobre a cicatriz em minha sobrancelha. -Mas, só de olhar pra ele, reconheço meu melhor amigo. Não é aquele Oliver que mata por prazer. Confia em mim.
Sorrio de canto e ele me beija. Quando nos separamos, mordo o canto do lábio, olhando para baixo.
-Psiu... —ouço aquilo e o olho, vendo um sorriso sacana brotar em seus lábios. -Alguém já te disse como você fica linda quando faz drama?
Acabo rindo, dando um soco em seu braço e revirando os olhos, indo pegar o café. Com certeza eu estava corada, mas quem ligava? Era melhor ver Harry assim, sorrindo e fazendo piadas, parecendo ter dezenove anos assim como eu do que o médico sério que eu havia conhecido a pouco mais de quatro meses.
Meu Deus! Conheço Harry há tão pouco tempo e já estou assim com ele? Isso é tão historinha da Disney... Merda, prometi a mim mesma quando fiz dez anos que nunca me apaixonaria por um cara tão rápido.
Coloco café em duas xícaras, levando uma para Harry e me sentando na bancada ao seu lado. Cadeiras? Quem precisa disso?
Ficamos em silencio até terminarmos os cafés. Sua mão estava sobre a minha, e ele brincava com meus dedos; os cruzando e descruzando, fazendo com que eu sorrisse o olhando. Realmente Harry não parecia mais aquele médico sério que precisava urgentemente dormir direito, que me falou que demônios existiam e que minha vida mudaria para sempre. Agora ele parecia um cara normal, que dormia todas as noites, comia direito... Um namorado normal.
Tudo bem, não estávamos namorando sério, apenas ficando... Mesmo assim. Credo, o que ele fez comigo? Eu pareço tão mais... Amável.
-Ali... -ouço ele rir baixinho, o que fez com que eu interrompesse minha reflexão mental sobre mim mesma. -Está ai ainda?
-Hein? Ah, oi. -o olho, sorrindo. -Desculpa, eu estou meio viajando esses dias. Refletindo muito... Bem, eu já fazia isso, mas eram mais coisas do tipo "nossa, que fome..." ou "uma mosca! Vamos seguir a trajetória dela. Muito mais interessante que fazer esse trabalho".
-Tudo bem. -ele ri, passando os braços sobre meus ombros, num tipo de abraço de lado, e beija minha testa. Suspiro, colocando nossas xícaras de lado e o olhando nos olhos. Harry franze a testa. -O que foi?
-Sei lá... -faço careta, o abraçando pela cintura. -Quando vai voltar para o hospital?
-Hoje é sábado? Hm... Possivelmente volto na segunda, preciso ajudar Anthony a se acostumar com o ambiente, cuidar de alguns pacientes... Relaxa, o mais perto que tenho de você é uma menininha de sete anos, ou uma senhora de sessenta. -ele ri após ver minha cara quando ele falou "cuidar de alguns pacientes". Ciúmes à toa? Talvez.
-Eu sei... -rio baixinho. -Vou voltar para a faculdade segunda também. Não queria, mas não tenho escolhas... Agora vai ser o resto do ano correndo atrás do que perdi. Bem legal isso...
-Vai se formar daqui a quanto tempo? -ele sorri, colocando uma mecha meio ondulada de meu cabelo atrás de minha orelha.
-Daqui a uns quatro anos. Acho que em abril, perto do meu aniversario de... Vinte e três anos! Se eu não reprovar ou nada do tipo.
-Eu estava pensando... Pelo jeito, Melody e Oliver voltaram... -ele respira fundo, desviando o olhar. -E, se os conheço bem, vão quase morar juntos, ahn... Aqui. E, bem, a menos que você queira os dois com aquelas coisas babacas de Melody e Oliver, tipo brigas de manhã e acerto de contas à noite...
-Você está nervoso. -o olho, sorrindo. Ele estava demorando para falar o que queria, e estava brincando com o pingente de seu colar. Além disso, sua voz estava mais baixa e vacilante. -Fala logo, Stormblood!
-Não estou nervoso. -ele revira os olhos, e antes que eu pudesse falar alguma coisa, ele prossegue. -E como eu imagino que não queira ouvir coisas clichês deles... Hm, e já estamos praticamente juntos. -sinto meu rosto esquentar um pouco. Estamos namorando. É isso que ele disse? -Eu queria saber se você não quer ir passar um tempo lá em casa. A maioria, se não todas as suas coisas já estão organizadas lá. E é mais perto da sua faculdade. O que acha? -ele finaliza me olhando ansioso.
-Morar um tempo com você, como aqueles namorados que parecem melhores amigos, para poder comer sorvete no frio e dormir assistindo Friends ou qualquer outra série que esteja passando na TV? -fico um tempo em silêncio, escondendo um sorriso de canto, fazendo com que ele parecesse ainda mais ansioso. -Que tipo de babaca não aceitaria isso? Não sei, mas essa idiota aqui aceita.
Ele sorri e me beija. Foi uma coisa tão inesperada que se ele não estivesse me abraçando, eu teria caído da bancada. Ele ama fazer isso... Coisas inesperadas. Como aparecer na noite anterior aqui no momento em que ia ligar para ele. Ou quando me ajudou a acabar com as minhas três piores inimigas. Harry Stormblood era especialista em agir inesperadamente. E eu simplesmente amava isso.
Coloco uma mão no canto de seu rosto, dando um sorriso fraco sem afastar nossos lábios. Suas mãos envolviam minha cintura, e nossas pernas se entrelaçavam de um jeito unicamente estranho.
Beijo sabor café, bem melhor do que o comum.
Sorrio mais ainda com meu pensamento, colocando ambas as mãos em sua nuca, mexendo em seu cabelo, puxando-o levemente. Harry acaba se arrepiando e posso ouvir seu coração acelerar, sua respiração falhar fazendo com que ele tentasse conter um baixo suspiro e mordesse meu lábio de leve, no canto onde estava meu piercing. Se aquilo era um jogo de provocações, eu havia finalmente encontrado alguém a altura de competir comigo. Porém, provocações desse tipo estão totalmente fora do que eu sei fazer. Ou seja, merda. Afinal, mesmo que alguns livros detalhados (até de mais, geralmente) tragam isso, não eram a melhor forma de... Bem, se aprender isso.
Passo a mão sobre a pequena cicatriz em seu pescoço, provavelmente a marca do ataque de Oliver. Ele para o beijo, colando nossas testas. Venci? É isso? Meu Deus, precisamos fazer isso mais vezes.
-Sua irmã está vindo... -ele sussurra, com a voz rouca e falha graças à intensidade de nosso beijo. Minha voz deveria estar igual, se não pior. -Melhor pararmos.
Concordo com a cabeça e descemos da bancada de granito assim que Melody pisa na cozinha. Já estava mais vestida, e Oliver pelo jeito já havia ido embora. Ela nos olha, pegando café em seguida. Ao ver sua expressão meio irritada, meio triste... Me veio a mente que talvez ela não gostasse da ideia de eu ir morar com Harry, nem que fosse apenas por um tempo. Quer dizer, eu havia acabado de voltar para casa, depois de uns quatro meses. E já estava indo embora novamente. Ela ainda era minha irmã mais velha, e se não tivesse mudado, queria passar um tempo comigo. Fazia um tempinho que não saiamos juntas, e isso estava fazendo meu coração doer.
Harry me olha, meio preocupado e eu forço um sorriso de canto, tentando tranquilizá-lo. Respiro fundo, prendendo meu cabelo em um rabo de cavalo, tiro a franja do rosto e vou até Melody, com os braços cruzados, pouco a vontade. Ela me olha, curiosa.
-Posso falar com você rapidinho? -falo. Minha voz estava rouca e baixa, mais que o normal.
-Hm... Claro. -ela arqueia uma sobrancelha e saímos da cozinha, indo para a sala. O sofá ainda estava com algumas almofadas bagunçadas e o cobertor ainda estava no chão. A TV havia sido desligada, então pude ver rapidamente meu reflexo ali.
Meu cabelo, mesmo preso, estava totalmente bagunçado e minha roupa estava amassada. Minhas bochechas pareciam meio coradas e as veias em meus braços e da lateral direita de meu pescoço estavam mais escuras desde o pequeno incidente na última etapa da iniciação. A rosa em meu colar se destacava em meio a minha pele e roupas acinzentadas. Okay, eu não estava com uma aparência tão ruim do que achei que estaria.
Ela se encosta no sofá, me olhando curiosa. Respiro fundo e a olho nos olhos.
-Eu estava pensando de ir passar um tempo na casa de Harry.
-Como assim? -ela franze a testa e uma linha de preocupação aparece no meio de seus olhos.
-Você e Oliver... Sei lá, podem ficar com a casa toda por um tempo e... Eu... Eu não sei. Harry perguntou se eu não queria, já que a casa dele é mais perto da minha faculdade, e eu nem pensei direito o porquê... -coço a nuca, meio nervosa.
-Ah... Se é isso que você quer, okay. -ela ainda estava franzindo a testa. -Qualquer coisa, sabe que essa casa é sua também, Lice.
-Está tudo bem mesmo, Melody?
-Sim... Eu já imaginava que isso iria acontecer. -ela sorri de canto, me olhando nos olhos. -Mas cuidado, okay? Não deixe ele fazer nada que você não queira. Qualquer coisa, me avisa...
-Eu sei. -acabo sorrindo também. -Eu não deixaria. Ahn... Então. Oliver e você estão juntos?
-Não sei se estamos juntos. Eu só... -ela suspira. -Não sei.
-Entendi... Mas você gosta mesmo dele?
-Eu sempre gostei dele... Mas não gostava e ainda não gosto do que ele havia se tornado. -ela olha para o chão. -Mas ele me mostrou que ainda é o mesmo de quando nos conhecemos. Você talvez goste dele agora.
-Se ele não te machucar de novo e deixar você acabada. Por mim tudo bem, eu aceito numa boa. -olho para o lado. -E... Desculpe por hoje cedo.
-Tudo bem. -ela ri baixinho. -Eu sabia que iria ser estranho quando você visse, mas foi ainda pior porque achávamos que vocês estavam dormindo ainda.
-Foi... até que engraçado. -rio também. -Mas eu meio que exagerei, como sempre. Foi mal mesmo.
-Não faz mal, Ali. -ela ri um pouco mais alto. -Ele entendeu.
-Acho que sim... Então, estamos de boa?
-Claro que sim. -ela sorri de um jeito amável e carinhoso. Sorrio e começo a voltar para a cozinha. -Ah, só mais uma coisa... Você e Harry estavam se pegando na cozinha quando voltei?
Aquela pergunta fez com que eu me engasgasse com o nada e parasse de andar, a olhando. Meu rosto estava muito quente, e eu estava com os olhos arregalados. Ótimo, ela viu. Bem, não era nada de mais ainda, as mãos bobas não haviam nem começado...
-Você quer mesmo falar sobre isso? -arqueio uma sobrancelha.
-Nem fodendo... Mas tenho que te avisar, já que infelizmente já passei por isso... Se Harry quer alguma coisa, ele é ótimo em dar um jeito de conseguir e não deixar você arrependida. Parece que ele descobre seus pontos fracos e...
-Melody! -fecho os olhos, franzindo a testa -Eu realmente prefiro descobrir isso sozinha, não é legal ouvir isso do meu namorado saindo da sua boca... Preferia ver você e Oliver pelados.
Ouço ela rir alto e começar a subir as escadas. Abro os olhos, revirando-os e rio baixinho, indo para a cozinha e encontrando Harry encostado na bancada, olhando pela janela e comendo um sanduiche calmamente. Sorrio com a imagem e vou até ele, o abraçando pelas costas, ficando na ponta dos pés e me inclinando um pouco para o lado, para poder ver seu rosto e o sorriso que esboçava. Ele termina o sanduiche, colocando as mãos sobre as minhas. Sua expressão era calma, tranquila, relaxada. As olheiras começavam a desaparecer e ele parecia ter dezenove anos. Solto uma das mãos, a estendendo para frente o bastante para que eu conseguisse tocar em sua barba rala, quase inexistente, acariciando seu queixo. Ouço ele rir baixinho enquanto se vira de frente para mim, me olhando profundamente nos olhos.
Harry coloca uma mão no canto do meu rosto, acariciando minha bochecha e me beijando em seguida. Sorrio, colocando as mãos em sua nuca. Ficamos assim por um tempo, e em seguida encostamos nossas testas, em um silêncio reconfortante. Ele acariciava meu rosto enquanto eu mexia na parte de baixo de seu cabelo, enrolando e desenrolando cachinhos.
-Ali... -ele começa baixinho, fazendo sua voz parecer ainda mais rouca.
-Hm? -sorrio de canto, o olhando nos olhos, observando suas pupilas dilatarem um pouco e logo diminuírem de novo. Ele sorri de canto.
-Eu... Eu te... -Harry começa, parecendo envergonhado, mas é interrompido pelo som da porta da frente sendo aberta bruscamente.
O barulho de saltos batendo no chão de concreto foi o bastante para que eu soubesse quem era. Franzo a testa, sentindo o cheiro do leve perfume tão familiar. Harry parecia confuso, mas arregalou os olhos assim que os passos começaram a se aproximar. Ouço algo sendo colocado brutalmente sobre a mesa de vidro da sala e um suspiro longo e cansado.
-Melody, Alice... Voltei de viagem! -ouço uma voz feminina séria e cansada vinda da sala e acabo me separando de Harry. Eu não a via fazia um bom tempo, quase quatro meses ou mais. Nem tinha pensado da possibilidade de a encontrar.
Logo ela estava ali, parada na porta. A maquiagem impecável de sempre e o cabelo castanho cacheado estava preso em um coque perfeito. O vestido preto super bem passado e os saltos da mesma cor acabavam realçando a pele pálida dela. Os olhos eram de cores diferentes, um azul e um verde, estavam frios e calculistas como sempre, mas pareciam ainda mais amedrontadores ao olhar a imagem que estava a sua frente. Tinha tanto tempo que não nos víamos que ela parecia não me reconhecer, e se reconhecia queria que eu não estivesse ali, abraçada com um cara na cozinha dela. May Heartblood, uma das melhores arquitetas de Londres. Mais conhecida como...
-Oi... Mãe. -me afasto um pouco de Harry, arrumando o cabelo e evitando contato visual. Eu sentia ela me fuzilando e aquilo me causava uma sensação pior do que ser perseguida por mil bonecas. Eu sabia quase que exatamente o que ela ia falar. Eu sabia o que ela pensava sobre sua filha mais e sabia o que ela teria achado de me ver abraçada com um cara mais velho na cozinha da casa dela.
-Oi, Alice... -ela parecia um pouco irritada e desconfiada- Voltou faz quanto tempo? -ela coloca algumas pastas sobre a cadeira, ainda me olhando.
-Hm... Ontem. -coço a nuca, rindo meio nervosa. Sim, minha mãe me dá muito medo pelo simples fato de eu nunca ter feito ela se sentir orgulhosa. Eu tinha medo da rejeição dela e do jeito que ela me olhava quando eu fazia merda. O jeito que ela estava me olhando no momento, na verdade. -Quanto... tempo né?
-Sim. Você estava no hospital até agora? -ela franze de leve a testa- Cadê a Melody? E quem é esse? -ela arqueia um pouco as sobrancelhas, parecendo um pouco preocupada.
-Não... Sai do hospital faz um tempinho, mas tive que ir fazer uns exames. Melody está no quarto dela. E... Esse é o Harry -sorrio de canto -Hm... Harry Stormblood. -se ela soubesse que ele já foi namorado da Melody, ela ia simplesmente perder a cabeça.
-Olá, Harry. -ela o olha de cima a baixo, certamente o analisando, quase julgando suas tatuagens. Para mim poderiam ser as coisas mais sexys e perfeitas nele, mas para ela com certeza eram horríveis e erradas. — Sou a mãe da Alice.
-Hm... Oi. -ele sorri meio nervoso — Prazer.
-Então... Como foi a viagem? -mudo de assunto, tentando desesperadamente trazer a atenção dela de novo para mim. Harry ia acabar ouvindo o que não precisava se ela continuasse o analisando.
Por trás de nossas costas, seguro a mão dele. Não sabia quem estava mais nervoso, mas queria tentar passar alguma confiança para ele. A mão de Harry estava quente, e o anel que ele usava no dedo do meio estava frio como gelo. Esse simples toque me fez arrepiar, deixando tudo pior. Afinal, estávamos na frente da minha mãe, uma pessoa que colocaria Anthony e Oliver para correr ou chorar em seus quartos. Não podia expressar qualquer sentimento por Harry naquele momento. Por mais que eu quisesse sorrir e falar para ela tudo o que aconteceu nesse um mês e meio que ela estava fora e ignorar tudo, indo para casa com Harry. Eu não podia fazer isso.
-Foi cansativa, mas boa. -ela encarava Harry- Ele... É seu amigo? -ela me olha, esperando que eu concordasse com a primeira opção. — Ou seu namorado?
Por um minuto, eu e Harry trocamos olhares. Ele fala "amigo" ao mesmo tempo que eu falo "namorado", então franzimos a testa. Eu falo "amigo", ele "namorado". Respiro fundo, fechando os olhos, rindo mentalmente da situação. Onde eu havia ido parar? Ele aperta minha mão de leve e eu encaro minha mãe.
-Namorado...
Assim que pronuncio a palavra, com todas as letras, May endireita a postura. Ela cruza os braços, me olhando com o nariz empinado. Seus olhos estavam mais escuros e pude ver uma veia em seu pescoço ficar mais evidente, como sempre acontecia quando ela estava com raiva.
-Sua irmã sabe disso? Quantos anos você tem, Harry? -ela nos olhava com um pouco de nojo – Alice, você é muito nova pra namorar, principalmente alguém mais velho que você. -ela fala como se eu fosse uma criança mal educada que chutou a canela de alguém.
-Ele tem vinte e três anos. -sinto minhas bochechas começarem a incomodar, como acontecia quando iam rasgar, fazendo meus dentes aparecerem. -Vou fazer vinte anos em pouco tempo, May. A minha irmã sabe sim, desde o começo. Eu não sou mais uma criança. Ele não é tão mais velho que eu. -reviro os olhos.
-Você é muito nova! -ela fala mais alto e escuto os batimentos dela acelerarem- E não pode namorar alguém mais velho!
-Posso sim. -a olho diretamente nos olhos, tentando controlar minha respiração, para não ficar nervosa e assumir minha forma demoníaca. -Eu posso e já estou. E... Eu vou morar com ele também.
-Você vai o quê? -ela me olha, tremendo de raiva- Quem te deu permissão? Se você for, não volte nunca mais! -ela revira os olhos- Tomara que você se arrependa de tudo isso e venha correndo chorar e falar que quer voltar, para que eu possa dizer "Eu te avisei". Eu sei que isso nunca vai dar certo. Você é muito criança pra ter um relacionamento!
-Sabe mãe... só porque meu pai largou você quando foi morar com ele não quer dizer que Harry vá fazer a mesma coisa comigo. Sabe como eu sei disso? Porque eu não sou você. Não sou grossa com ele, não fico impondo ordens. Eu vou voltar se eu quiser, porque minha irmã ainda mora aqui. -cerro os punhos, sentindo minha visão ficar mais escura.
-Fica quieta, mãe. -Melody aparece ali na escada- Você ficou grávida quando tinha a idade dela. Hipócrita. -ela revira os olhos- Alice, eu posso te ajudar a arrumar as coisas. -ela sorri de canto- Acho melhor você ir pra sua casa, Harry. Depois eu levo ela.
Harry sorri de canto, concordando com a cabeça e me olhando nos olhos, preocupado. Sorrio de canto e ele me dá um selinho, beijando minha testa em seguida. Ele murmura um "te espero lá, fica bem" e se despede de Melody, pegando a jaqueta e parando na porta, acenando e saindo da casa. Respiro fundo, indo até Melody, passando por minha mãe sem falar nada. Se abrisse a boca, era capaz de atacá-la.
Eu e Mel subimos rapidamente até meu quarto e eu fecho a porta, encostando na mesma, arranhando um pouco logo abaixo do trinco, deixando marcas ali.
-Eu odeio ela. -sussurro, sentindo os olhos encherem de lágrimas. -Odeio muito...
-Eu sei que odeia. -Melody começa a falar mas eu a interrompo, sentindo minhas bochechas rasgarem e minhas unhas crescerem.
-Não. Não sabe. Porque ela nunca foi assim com você. Eu sou o erro aqui, Melody. Eu sou a sujeira que ela esqueceu de limpar nessa família. Ela sempre te apoiou, mesmo quando fez as tatuagens ou sei lá, começou a sair com o Oliver. Depois que você foi morar com nosso pai o amor dela por você aumentou. E então eu nasci... Me fala, eu tinha algum problema quando era pequena?-a olho, sentindo minha visão ficar escura e meus ossos se estendendo levemente — Eu puxei o cabelo dela forte de mais quando era bebê, quebrei alguma coisa... Chorava de mais? Por que ela me odeia e nunca me apoia?
-Alice... Respira. -ela se aproxima, parecendo um pouco assustada — Suas veias... A porta...
-Fodam-se minhas veias! -aumento o tom de voz, sentindo o sangue pulsar em meus ouvidos — Eu só quero respostas. O que falta pra eu ser a filha perfeita? Por que juro que já tentei de tudo. Eu cansei! Olha a raiva que ela tem... Eu sei que não é tudo minha culpa. Eu sei que ela é estressada, mas precisava descontar em mim? -sinto as lágrimas quentes escorrerem por minha bochecha. Minha pele estava gelada. -Eu... Achei que ela ia ficar feliz em me ver... -cruzo os braços, fazendo as unhas perfurarem meus braços. Me encolho um pouco -Eu quase morri... E ela nem foi me ver... Nunca ligou, nem pareceu se importar. Pensei que ela ia ficar feliz em me ver feliz pela primeira vez, com alguém pelo menos gosta de mim. Mas ela o julgou e... Me mandou embora. O que eu fiz pra ela, Melody?
-Ali... -Melody acaricia o canto da minha bochecha- Por favor, fica calma... Ela não pode te ver assim. -ela suspira- Por favor...
-Ela não pode me matar... -limpo as lágrimas. Olho para minhas mãos e vejo que na verdade, estava chorando sangue. -Ela... Nunca iria conseguir. Anthony me explicou isso. Apenas caçadores de demônios tem armas contra demônios. Ela não é um deles.
-Ela não vai querer te matar, sua idiota! -Melody se afasta, colocando as mãos sobre o rosto- Ela não pode saber que isso aconteceu com você.
-Ela não vai saber. Eu vou embora. -falo com a voz mais seca do que realmente queria. Melody não tinha culpa disso. Respiro fundo, pegando uma mochila em cima da mesa — Não queria deixar você sozinha aqui... Mas você tem o Oliver, pode ficar na casa dele, acho. Eu não vou conseguir passar mais um dia aqui com ela me julgando por estar com o Harry, julgando ele e falando que sou criança de mais pra ter um relacionamento sério.
-Ela só não quer que você cometa o mesmo erro que ela cometeu. -Melody estava chorando- Você realmente não sabe? Ela não te odeia. Nunca te odiou. Ela é assim com você porque não sabe mais como demonstrar amor por alguém! Ela sabe o que eu sou... -ela sussurra- Ela sabe de tudo isso.
Deixo a mochila cair no chão, espalhando um monte de desenhos que estavam ali, junto com pastas, um chiclete e se não me engano algumas pulseiras. Meu coração acelera e olho pra Melody, respirando com dificuldade. Pude sentir minhas bochechas voltando ao normal, deixando apenas os caninos a amostra, e as unhas diminuindo.
-Como... Como assim ela sabe? -sussurro, tremendo.
-Eu não podia te contar isso. -ela nega com a cabeça- Ela não pode saber que você é assim agora... Ela não pode saber que você sabe de tudo isso. Você não faz ideia de como ela entrou em desespero quando soube que você foi ataca por um animal. Ela podia jurar que era um demônio. Ela disse que sentiu logo depois que você saiu de casa. Mas eu menti... E disse que foi apenas um urso.
-Como ela sabe de tudo isso? -repito a pergunta e sento na ponta da cama, colocando a cabeça entre as mãos, tentando parar de chorar. Minha cabeça latejava e eu não conseguia mais raciocinar.
-Eu... -ela senta do meu lado — Eu não podia estar te contando isso. -ela suspira. -Nosso pai... Ele é um de nós, um demônio. Eles se separaram por isso. Mas logo depois que se separaram eles dormiram juntos de novo. E ela ficou grávida. De você. -Melody morde o canto do lábio. -Ele quis se separar... Porque sabia que ia acabar machucando ela, e ele não queria isso. Ele ainda a ama. Eu sei que você odiava, odeia ele por querer se separar dela e de você, mas ele tinha um motivo. -ela coloca uma mecha do meu cabelo atrás de minha orelha.
-Quer dizer que eu... Todo esse tempo... Eles... Eu... -respiro fundo — Eu pensei que... Então quer dizer que eu sou quase diretamente assim? -eu a olho, me encolhendo. -Que uma hora ou outra isso ia acontecer comigo? Tony disse que quando a linhagem é direta, e que o sangue demoníaco está no DNA, o bebê tem mais chance de ser um demônio sem ser atacado... Eu... Eu estou confusa...
-Não precisa tentar entender. Você vai ver que Harry vai estar normal, porque ele sabe de tudo isso. -ela suspira — Não tente entender tudo agora, como tempo tudo será explicado. -ela sorri de canto — Harry pode te ajudar a matar a curiosidade, ele é melhor explicando do que eu. E... Ela não te odeia, Ali. Ela te ama. Só tem medo de demonstrar... E de te perder.
Sem saber mais o que fazer, abraço Melody e começo a tremer. Todos esses anos eu achei que ela me odiava e comecei a odiá-la também. Por nada. Eu também não sabia me expressar, não podia culpar minha mãe por isso. May era uma pessoa boa, só precisava de uma chance para provar isso.
-Eu... Eu quero ir pra casa. -sussurro. -Não quero pensar nisso agora.
Eu precisava de Harry. Precisava do abraço dele, do jeito que ele mexia em meu cabelo para me acalmar. Eu me sentia tranquila perto dele, e ele talvez soubesse responder as milhares de perguntas que se acumulavam em minha mente. Não que Melody não estivesse ajudando, na verdade ela já tinha me acalmado pra caramba. Mas... Eu precisava esquecer disso. E apenas ele poderia me ajudar.
-Okay... -ela sorri um pouquinho mais — Só vai levar isso? Se quiser eu levo mais coisas depois...
-A maioria das coisas já está lá. Vou levar tudo agora. Me ajuda a arrumar? -sorrio de canto, limpando algumas lágrimas que ainda estavam em meus olhos.
-Sim. -ela levanta e pega uma mochila. -Antes de sair... Vai lá e dá um tchau pra mãe, okay?
Faço que sim com a cabeça e vou tomar um banho rápido.
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