Oliver sempre quis ser palhaço, ele diz até que já usava maquiagem dentro da barriga da mãe. Mas sabe como é, o mundo é de quem quer dinheiro e não de quem quer ser feliz. Palhaço ganha muito pouco. Depois de anos trabalhando em um banco internacional, ele surgiu aqui no circo.

Não tinha nada, nada além de uma mala velha e surrada, com roupas tão velhas quanto. Tive que comprar novas, gastei uma bela grana, era como um filho só que mais velho que eu. Na verdade era como um cão que eu adotara. Sabia muito pouco de sua história, sabia aquilo que acabei de te contar, mas quando a gente gosta de alguém de verdade, isso acaba sendo completamente irrelevante.

Ele era muito bom no que fazia, as crianças o amavam e ele as amava também, mas amava ainda mais a Olívia, ah a Olivia, uma colombina linda. A mulher mais linda que este circo já viu.
Todos nós vimos o amor dos dois florescer, até dar frutos.

Um dia Olivia correu para mim, chorando. Ela estava grávida e não sabia o que fazer. É, eu sou um coração mole mesmo e deixei o bebe crescer por esses picadeiros. Oliver era um ótimo pai, nunca deixou faltar nada nem a Olivia, nem a criança. Ele pegou todas as suas economias e comprou um trailer onde os três pudessem morar.

Mas a vida foi cruel e a família de Olivia conseguiu pegar a guarda do menino alegando que ele corria perigo aqui, que ele poderia se machucar durante uma apresentação ou poderia ser ferido por algum animal. Nem preciso dizer que as coisas ficaram pesadas e tristes por aqui.

O pobre coração de Oliver foi ficando negro, frio a cada dia que ele passava longe do menino. Isso afastou os dois. Mesmo sendo uma palhaça, Olivia gostava mesmo de ser ajudante dos mágicos. Sua graça era ser acorrentada, trancada, serrada ao meio, jogada na água, tirar coelhos da cartola; essas coisas divertidas que os mágicos fazem. Ela começou ajudando um velho mágico que ficava aqui conosco, mas ele logo partiu. Ai foi que surgiu o Juan.

Juan era um mágico meio porto-riquenho, meio espanhol, bonitão e muito boa pinta. As meninas lotavam a platéia de picadeiro quando tinha alguma apresentação dele. Elas eram loucas por ele, e ele louco pela Olivia. Os ensaios deles começaram a ficar cada vez mais longos, iam noite adentro e Oliver, hum, este ficava furioso mas nada fazia. Deitava na sua cama e praguejava esperando por ela.

Um dia encontrei Olivia dormindo com os tigres, ela disse que brigara feio com Oliver e decidiu dormir com os animais. Ela sempre teve uma afeição por eles, mais especificamente com um tigre, o mais novo deles, tinha apenas dois anos de idade. Enfim, um dia Oliver enfiou na cabeça a idéia de que a Olivia estava traindo-o com Juan. Ele até veio falar comigo, pedir uma opinião e eu lhe disse que estava variando das idéias. Mas não o convenci.

Oliver simplesmente desapareceu naquela tarde, só torcia para que ele não aparecesse bêbado; crianças, mães e bebida nunca deram certo juntas. Perguntei para Olivia três vezes, mas ela não tinha o visto também.

A noite já começara e nada do Oliver aparecer. O circo estava bombando como sempre, todo iluminado e cheio de gente para todos os lados. Nos picadeiros secundários tínhamos as nossas contorcionistas e nossos animais se apresentando e no central estava para começar a apresentação de Juan e Olivia. Ela estava deslumbrando mesmo com aquele semblante triste.

Juro que não vi o que aconteceu, as pessoas corriam, corriam gritando, estavam morrendo de medo. Eu girava e girava como um louco tentando entender o que ocorria, cheguei a pensar que um leão tinha se soltado e corrido em direção a platéia. Mas ai eu vi... A lona principal em chamas. Para um circense é como ver a si pegando fogo. Chamei os bombeiros, mas quando eles chegaram, já estava tudo no chão.

Olivia e Juan estavam mortos.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.