The Hand Of Sorrow
3 Capítulo 3 - Sentimentos confusos
Eu não sabia dizer se tinha acabado de acordar, ou se já estava assim antes. Nunca tinha visto o céu a noite, por isso não sei por quanto tempo fiquei olhando a lua pálida e fina acima de mim. As estrelas piscavam, inocentes e alheias a tudo o que acontecia abaixo delas. Elas pareciam me observar, assim como aquelas pessoas na sala branca... As pessoas cujo sangue agora manchava meu corpo.
Havia feito o que a voz mandara, destruira aquelas pessoas. As que queriam me controlar, e as que queriam me matar. Sem piedade, sem ressentimento, sem sentimento. Nada sobrara.Mas por que? Por que aquela voz queria que eu os matasse, por que eu a obedeci, e ainda a deixei controlar meu corpo para destruir os soldados?Eu não suportava mais o olhar frio das estrelas.Me levantei com tanta facilidade quanto antes. Nenhuma bala, nenhuma faca, nenhum animal foi capaz de me fazer um único arranhão. Olhei a volta, mas as árvores eram exatamente iguais, confusas e escuras. Não sabia onde estava. E aqueles que sabiam estavam mortos. Fui em frente. Eu caminhei sem parar uma única vez, meu corpo não se cansava, e se meus cálculos estavam corretos (eles sempre estavam), já havia passado quase dois quilômetros em linha reta.Então as árvores a minha volta começaram a rarear, dando lugar a uma vegetação pequena e um extenso tapete de grama. O vento frio soprava livremente, fazendo várias folhas voarem. Mas eu não sentia frio.Eu só sentia uma coisa estranha dentro de mim, mas eu não fazia idéia do que podia ser.Luzes piscavam a frente, e conforme ia me aproximando, ficou claro que era uma cidade. A placa acima de mim dizia \"Bem vindos a South Side!\". Nunca tinha visto nenhuma cidade, mas eu já sabia o que esperar ao vê-la. Devia ser outra informação implantada. As ruas estavam vazias, e poucas lojas estavam abertas. As luzes que eu vira eram quase todas de postes, mas havia lugares abertos com letreiros de neon brilhantes e chamativos e várias pessoas me encarando com expressões que reconheci de imediato. Ganância, egoísmo, maldade. Fiquei longe delas.Não sabia para onde estava indo, só queria continuar indo em frente. Não sabia o que mais poderia fazer. Mas eu parei.Senti que o vazio dentro de mim ficou mais fundo. Eu era só uma arma.E armas não fogem. Armas obedecem aqueles que as possuem. Armas matam pessoas e depois voltam a matar. Armas não tem sentimentos.Ou não mostram.Eu fiquei olhando para o chão sujo, tentando entender o que acontecia. E ouvi os passos. Um grupo de pessoas chegava perto.Seus passos eram pesados e desajeitados. Um deles andava a frente dos outros cinco, e eles carregavam coisas que faziam um som agudo quando se tocavam. Garrafas de vidro. Ergui os olhos para eles. Usavam roupas estranhas, surradas e em alguns lugares rasgadas, e pareciam embriagados.Eles vinham na minha direção.- Olha só o que nós temos aqui! — gritou o homem que liderava o grupo. Ele não era grande ou ameaçador como seus companheiros, mas agia como se fosse. — Se perdeu da sua mãe, garoto?Os homens deram risadas débeis com o comentário.- Não. — respondi. Os homens pararam de rir e o líder me encarou confuso. Não entendi por que.- Então o que está fazendo na nossa área? — ele tentava parecer ameaçador, talvez isso funcionasse com as pessoas que ele encontrava.- Eu não sei.- Tá bancando o engraçadinho comigo, pivete? — ele estava se irritando, e deu mais alguns passos na minha direção sozinho. Por que ele estava ficando irritado? Eu não o provoquei.- Não. — pareceu uma resposta muito vaga. — Eu deveria?O homem rosnou irritado. Seu rosto ficou vermelho. Seus punhos se fecharam, e um deles foi na direção do meu rosto.AMEAÇA DETECTADAAlgo em mim me forçou a erguer o braço sobre o peito do homem. Ele parou, com o punho ainda levantado e imóvel no ar. Os outros olhavam horrorizados para nós dois, sem coragem para se mover. Abaixei os olhos.Meu braço estava coberto por sangue escuro, que escorria pelo cotovelo e pingava no chão. Mas minha mão tinha parado a vinte centímetros dele. Alguma coisa se projetava da parte de cima do meu pulso, como se sempre estivesse lá. Apesar do sangue em toda a sua extensão, era fácil ver que se tratava de uma lâmina comprida e metálica. Atravessada no peito daquela pessoa, até a ponta afiada passar por suas costas.Eu senti o vazio afundar, tomar conta de mim, dominar cada parte do meu ser que podia. A lâmina entrou para dentro do meu braço e se ajustou como se sempre estivesse lá. Não havia ferimento. O corpo tombou aos meus pés, criando uma grande poça escura no chão. Olhei para os homens apavorados, que começaram a dar passos vacilantes para trás.- Por favor... — ergui a mão para eles, mas os homens entraram em pânico e correram para longe. Fiquei vendo-os correr até sumirem na noite. — Não fujam...Não tenham medo de mim...
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