“Porque no fundo, você sabe que essa pequena mudança da sorte é um sinal das coisas que estão por vir”. A Menina que Roubava Livros.

Lizzie me apresentou Rebecca Lin, uma garota da Florida com olhos puxados e cabelos negros escorridos em um fofo corte Chanel, tipicamente asiático. Ao contrario de Lizzie que lixava as unhas em plena aula de como o marxismo influenciou o mundo e bocejava a cada vez que a senhora Nora comentava sobre o materialismo da América, Becca nem piscava, anotando cada palavra em dita com um frenesi invejável. Peguei minha bandeja, passando pelos lanches do refeitório com certa curiosidade.

–Não acha essas mini cenouras assustadoras?– Me assustei, quase derrubando a colher de batatas no molho branco.

–Ah, oi Daniel– falei ofegante- Você me assustou–.

–Desculpe-me– disse sorrindo, peguei-me fitando seus traços maravilhosamente simétricos e voltei-me para as comidas – Você parece bem melhor... Tem até cor nas bochechas–

–Mais algum comentário senhor observador?–

–Estou tentando estabelecer um dialogo aqui e você não está ajudando!–

–Me desculpe– balancei a cabeça-Estou um pouquinho mal humorada hoje...–

–Hoje?–

–Quem é que não está ajudando agora?– falei, arqueando a sobrancelha. Ele riu, pigarreando.

–Então... O que vai fazer hoje?–

–Acho que nada por enquanto–

–Eu consegui a coleção original dos DVD’s da Guerra nas Estrelas edição especial, obviamente nenhum dos meus amigos vai querer assistir comigo e a única que passou por minha cabeça que talvez gostaria seria você– eu sorri.

–Está me tomando por uma nerd viciada em ficções?–

–Se você coloca assim... –

–Eu não sabia que era um nerd Daniel White–

–Sei todas as falas de cor, posso até interpretar o Chewbacca se quiser– eu ri, esquecendo por hora o fato de que minha risada era extremamente estranha – E então?–

–Não posso, vou buscar meu pai no aeroporto–.

–Ah. Tudo bem. Bem... Até mais– ele suspirou e se afastou, deixando-me sozinha no pátio inteiramente perplexo.

–Você ficou louca?– disse Lizzie, ainda me encarando – Espero que tenha uma razão muita boa para... Você sabe!–

–Estava ouvindo minha conversa?– ela abriu os braços, gesticulando para todos os estudantes da American Indian High School.

–Todos estavam– bufei, revirando os olhos.

–Ainda assim, não tenho que ter um motivo pra dizer não a alguém. Já parou pra pensar nisso? Sou um ser independente... –

–Que não depende de nenhuma regra da sociedade para definir-me. Sim, você me diz isso todo santo dia– ela sorriu, me abraçando sufocantemente – Você precisa descansar um pouco... –

–Tenho muito que fazer antes disso– peguei minha bolsa e acenei, caminhando em direção ao estacionamento da escola. Percorri os olhos pela rua deserta e suspirei, sem qualquer sinal de ônibus por perto.

–Quer carona?– sorri, fechando os olhos, sabendo quem aguardava minha resposta.

–Você pode muito bem ser um psicopata maluco– Daniel gargalhou, revirando os olhos.

–E Eu estaria sendo educado assim, ao invés de soca-la no porta mala– ponderei, observando seu biquinho fofo – Vamos lá, eu prometo não te sequestrar– desfiz minha carranca e entrei no carro, ajeitando-me no banco surpreendentemente confortável.

–Me desculpe por ter te atropelado. Acho que... Não lhe dei uma boa impressão–

–Sua impressão foi a melhor, juro. Prepotente, arrogante, convencido... –

–Já entendi. O que quero dizer é que posso ser tudo isso, mas não é, em parte, quem eu sou– arqueei as sobrancelhas.

–Você tem que escrever isso, pode usar de novo algum dia– ele riu, quase tossindo hilariantemente – Tudo bem... Vou tentar ser mais... Social. O que quer saber?–

–Qual seu livro favorito?–

–Não vou cair nessa. Não vou lhe dizer para que faça cara de surpreso e falhe que é o seu preferido também–

–Você é surpreendentemente desconfiada! Céus... Meu preferido é Guerra e paz do Tolstoi– Arregalei os olhos, subitamente perplexa – O que? É o seu favorito também?– ele riu, desviando da estrada para encarar minha face – Por que está tão surpresa? Eu não sou tão idiota assim... –

–Não o acho idiota... Só um pouco... Não me culpe, eu tenho pistantrofobia*– sua gargalhada me fez rir, algo que quase nunca acontecia comigo.

–Chegamos– ele disse por fim, virando-se para mim com o típico sorriso malicioso – Te vejo amanha Romanov?–

–Com certeza, sou obrigada a ir pra escola–.

–Que sorte a minha– sorri, fechando a porta de seu carro e disparando para dentro de casa, dando tempo de respirar fundo antes que meu pai começasse.

–Quem é tal garoto?–

–Que tal garoto?–

–O que te trouce. Vi você saindo do carro vermelho, um LaFerrari não é?!–

–O nome dele é Daniel, ele mora a dois quarteirões daqui, você o conheceu primeiro no aniversario de Richard e... –

–Quantos anos ele tem?–

–Eu não sei pai, talvez dezessete?– ele franziu as sobrancelhas, pensando- Mais algum dado pra sua ficha? Foi você que me disse para fazer amigos–

–Meninas–

–Eu conheci uma garota chamada Rebecca, satisfeito?–

–Sim– ele sorriu, aliviado – Comprei telas novas e coloquei em seu quarto–.

–Obrigada– falei, tentando lhe dar o maior sorriso possível, me distraindo e pela primeira vez em semanas eu respirei fundo de verdade, suportando...

*Pistantrofobia: Que consiste no medo exagerado de confiar nas pessoas, devido a experiências negativas do passado.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.