Notas iniciais
Bem, demorei mas postei ^^ é meio grandinho porque é um projeto de livro... Boa Leitura para vocês!
Capítulo também disponível em http://thegwaedcode.forumeiros.com/t47-capitulo-1-noite-de-luzes#51 , acessem o RPG Fórum baseado no livro.


–Bom dia! – saúdo, adentrando a cozinha.

–Bom dia – responderam os três ali presentes em um uníssono quase perfeito.

Como rotineiramente, meu irmão já estava a mesa, se deliciando com o café da manhã que minha mãe preparara.Sentei-me ao seu lado, e como sempre, baguncei seus cabelos negros. Seus olhos castanhos brilharam e ele sorriu.

–Vai me deixar na escola hoje, manão? – perguntou, enquanto saboreava uma colher de cereais e aveia.

–Termine de comer antes de falar – repreendeu minha mãe, sem nem mesmo olhar para meu irmão.

–Sinto muito... Que falta de educação a minha. – desculpou-se. Seurosto, antes pálido, estava agora completamente vermelho.

Eu sorri. Minha mãe beijou sua cabeça, em seguida colocando mais frutas vermelhas eu sua tigela. Logo coloca um copo de suco de abacaxi e uma tigela de mingau de aveia para mim.

–Vitaminas e proteínas, nunca são demais!

–Mas mãe! Eu já estava...

–Hoje não dá — interrompi. — não posso te levar, combinei de passarno Vini para irmos juntos.

–Aah... — meu irmão parecia decepcionado, passando a encarar seu café da manha que, aparentemente, perdera a graça — Eu entendo. Amanha quem sabe!

Minha mãe me fuzilou com o olhar.Como uma mulher de 1,60 e cabelos curtos, ela parecia uma boa dona de casa. Mas atrás daqueles olhos verdes, ela escondia uma determinação efúria inigualáveis.

Meu pai, que até agora havia permanecido interessado em seu jornal,colocou a xícara, que sustentava com a outra mão, na mesa e encarouminha mãe.Ela bufou e voltou a organizar os pratos em suas respectivas prateleiras.

–Nicolas, você e o Vinicius vão precisar de carona? — perguntou meu pai, com sua voz desprovida de emoção e seus olhos negros concentradosem meu rosto, analisando cada um das minhas expressões faciais.

Como advogado, meu pai sempre foi o melhor, mas sua mania de fuzilar todos com o olhar sem jamais desviar, e nunca perder a paciência, me deixava sempre com uma pontada de inveja. Eu, particularmente, poderia me utilizar desse tipo de habilidades inúmeras vezes por sinal.

–Não pai, hoje vamos de ônibus. Temos um trabalho de sociologia para fazer... — busco em minha mente as palavras exatas que a professora usou — "um projeto para entender o que as classes sociais menos favorecidas passam" — digo imitando a voz da professora — ou algo assim.

–Aah meu bebe, inteligente, bonito e humilde... — diz minha mãe, com uma dose de orgulho em cada palavra.

Alec segura ao máximo a risada, e até meu pai apenas sorri.

–Não é para tanto, não é? Além do mais...

–De qualquer forma, — interrompe meu pai — Alec pegue seu material, vou te levar ao colégio.

Vejo meu irmão menor assentir e pegar sua mochila, que até agora permanecera largada no chão.

–Mas já vai pai? Ainda é cedo... — olho para meu relógio e fico perplexo ao notar que já são 7h15min.Bebo o suco em um único gole, levanto-me, beijo meu irmão, minha mãe e aceno para meu pai.-Tchau! Amo vocês! — pego minha mochila e corro para a porta dos fundos, ainda em tempo de escutar minha mãe gritando:

–Também te amamos querido!

***

–Nick! — cumprimenta-me Vini, a três metros de distancia — Onde você se meteu? Eu já estava indo para escola sem você...

– Bom dia para você também — desdenhei. — Relaxa cara... Vamos indo?

–Claro! -diz, já acompanhando meus passos — Fala sério, ir de ônibus é coisa de gente pobre. E feia. — Vini revira os olhos azuis e faz barulho de vomito, colocando o dedo na boca. Não pude deixar de rir.

–Bem, você quer ir logo e pegar um ônibus vazio ou ficar ai tagarelando e ir no teto de tão cheio?

–Tudo bem, você ganhou, não vou mais discutir. Não temos outra opção mesmo... — ele levanta as mãos em um sinal de rendição e sorri. O mesmo sorriso debochado de sempre — Então... Como foi o final desemana?

–Ótimo — falo. Não devíamos estar tão longe da parada de ônibus agora- Principalmente depois daquela festa não é...

–É verdade! Não nos falamos depois da festa na sexta. — pigarreando, continua — Foi legal, mas não acho que tenha sido tão bom assim.

–Ah, claro. Nenhuma festa jamais vai superar a sua de 16 anos não é mesmo? — pergunto, desdenhosamente. Esse era o Vini e seu egocentrismo, ao qual eu já estava até acostumado.

–Sem duvidas. — concorda, sinicamente — Diga, depois da minha festa no mês passado, você foi a alguma melhor?

–Talvez... Bem na hora — quando estávamos próximos a parada, era possível enxergar nosso ônibus da esquina, o que fora realmente muita sorte.

Ou, como logo descobrimos, nem tanta assim.A lotação do automóvel, se não estivesse no valor máximo, sem duvida alguma estaria bem próxima do mesmo.

Depois de certo esforço,empurrando pessoas para o lado, derrubando a sacola de compras de um senhor idoso, conseguimos nos encaixar lá dentro.

– Então Vini, por que você não atendeu as minhas ligações nessedomingo?-pergunto.

–Você não soube? -Vini mostrava clara incredulidade com a minha falta de conhecimento — Meu pai. Ele pegou meu celular. O coroa deu um show... Ai, ai... — Vini sorri, tristemente.

–O que foi desta vez? — não era preciso ser intimo do Vini parasaber que ele e seu pai não se davam muito bem. Na verdade um não suporta o outro.

– Bem, parece que ultrapassei 500 reais na conta do telefone e,segundo ele, isso é irresponsabilidade e bla bla bla...

–Então seu celular foi raptado pelas garras das trevas? — Brinquei.

– É o que parece, não é? Mas, falando sério, o que são 500 reais?

Balancei a cabeça, concordando.O resto de nosso trajeto foi silencioso e , quando, finalmente descemos do ônibus todo aquele desconforto foi embora com ele, e tudoficara mais radiante ainda após avistar Rafaela entrando no colégio,logo atrás de nos.

–Bom dia garotos — falou, quando nos aproximamos.-Bom dia Rafa — digo, beijando seu rosto.

–Bom dia Rafa, a mais bela e mais sensual de todo o colégio — diz Vini, se aproximando para repetir meu gesto, mas ela o impede de se aproximar com suas mãos, e ele se afasta com um pulo para trás — Ah,qual o problema? Não quer que os outros saibam que vou te levar aminha humilde residência e esta noite terei seu corpo nu só pra mim?

–Vini! Andou se drogando? — brincou Rafaela

–Na verdade, não — diz Vini, se aproximando como se fosse devora-laviva, lambendo os lábios, e jogando a franja castanho escura para o lado.Como já era previsto, Rafa deu alguns tapas nada leves nos seus braços, seguidos de um grave "ai!" dele.- Tapa de amor não dói benzinho.

A expressão de Rafaela dizia "Vou espancar esse garoto" mas, para sorte única e exclusivamente do Vini, ela foi chamada por umas garotas do outro lado do pátio. Sem demora foi até elas, acenando para nós enquanto se afastava.

–Dessa vez ela se irritou mesmo — começo, seguindo meu caminho até a sala de aula acompanhado do Vini — Ia rolar morte no recinto — e começo a rir, e ele logo acompanha minhas risadas

–Mas é serio, algum dia aquela garota será minha — disse, retornando a seu tom egocêntrico habitual

–Estou ansioso pra esse dia — desdenho, entrando na sala.

– Sério... Como você já conseguiu ter aquele avião só pra você?

Suspirei. Lá vinha ele de novo com o velho papo de sempre.

– Já disse, o que eu tive com a Rafaela é passado... — virei meu rosto para encara-lo e logo acrescentei — quem vive de passado e museu viu...

–Pode falar o que quiser, mas se eu fosse você, nunca teria terminado...

Já entrando na sala de aula, nos aproximávamos do nosso lugar de costume, nos arredores da terceira fileira, quando me deparo com duas garotas saídas da Zumbilândia sentadas nos lugares que geralmente ocupamos.

–Garibalda e Fulanilda, o que fazem nos nossos lugares?

Elas nos encaram, com o clássico medo, mas, ao contrario do que eu pensava, elas mantiveram os olhares fixos nos nossos, e não os desviaram.

–N-Nossos no-omes não são esses... — comenta uma das garotas, com a voz tremula.

Elas ignoraram a pergunta e continuaram conversando, como estavamquando chegamos.

–Quem vocês pensam que...

Notando que Vini estava prestes a estourar, e isso nunca era bom sinal, intervenho:

–Com licença garotas, mas vocês estão em nossos lugares.

Uma delas se virou, hesitante. Uma de suas mãos segurava com força sua bolsa, sinal de nervosismo, talvez até medo.

–Q-que eu saiba o s-segundo ano na-não tem lugar marcado — respondeu, desafiando-me.

Mas sua gagueira repentina não ajudava nem um pouco na autoridade que pretendia impor.

–Nós sempre sentamos aqui. E vocês sempre lá na frente. — apontei para onde geralmente os nerds sentam — Por que mudar?

– Por que não queremos se-sentar lá na frente hoje — disse a outra.

– Vocês não tem querer... — começou Vini novamente — Voltem para seu lugarzinho medíocre e comportem-se, como boas nerds devem ser.

–Ah, temos sim — a primeira se levantou, olhando Vini diretamente nos olhos.O que foi um erro, já que esse garoto era como um cachorro: se você encarar por muito tempo, ele avança. E não seria no bom sentido.

–Veremos — diz Vini, trincando os dentes.Ele caminha até a cadeira que geralmente era dele, tira a bolsa laranja da garota, jogando-a no chão, e coloca a dele.

–Quem você acha que é? – reclama a garota, ao pegar a bolsa caída no chão.

–Qualquer coisa melhor que você — tirou a outra bolsa — mas isso não é algo realmente difícil de ser — puxou a minha e jogou onde estava a outra — mas duvido que algum dia você consiga ser melhor que eu. E é melhor repensar antes de se meter conosco, suas nerds de merda.

A garota da bolsa laranja forçou um sorriso, parecendo aterrorizada, e diz:

–Isso não vai ficar assim – diz, e se afastam, voltando aos seus costumeiros lugares.

Mal viraram as costas, e Vini começa a rir descontroladamente.

–Qual é, Vini? Coitadas das garotas. Que custava mudar de lugar um diazinho só?

–Coitadas o caramba — riu mais um pouco, tentando se controlar — Se as deixássemos ali, seria o mesmo que ceder parte do nosso poder,nosso controle. E isso que você quer Nicolas?

–Não, jamais. Você viu a cara dela? — caí na gargalhada, e Vini também.

Parte de mim sabia que aquilo que fizemos a pouco era errado,já a outra, só queria ter gravado a cena para postar no You Tube.

–Agora, se me der licença... — Vini caminhou ate o outro lado da sala, se aproximando de um grupinho de garotas populares, assim como nós, que conversavam animadamente — E ai gatinhas? – acena, chamando a atenção delas.

Sabendo que ele não sairia de perto delas nem tão cedo, saio corredora fora, a caminho da sala do primeiro ano.

***

Confesso que não me surpreendi com a primeira coisa que vi ao entrar.

La estava Cassandra, sentada em cima da mesa do professor com aspernas cruzadas. Como tipicamente, usava a T-shirt do uniforme com um nó que a deixava suspensa, muitos centímetros acima do que o colégio jamais permitiria.

Conversava com dois garotos — o primeiro um loiro de dreadlooks, e o outro, um moreno de cabelos arrepiados.

Cassandra lançou-me um estranho olhar de culpa, mas o disfarçou rapidamente com um sorriso sedutor.Os garotos traçaram o caminho que Cassandra fizera com os olhos, dando de cara comigo.

Quando perceberam, bufaram e murmuraram uma despedida desanimada para minha namorada e, em seguida, caminharam comos ombros curvados para o fundo da sala.

–Bom dia — digo, aproximando-me e dando-lhe um rápido, porém,apaixonado beijo.

–Como vai amor? — pergunta Cassandra, me abraçando.

–Tudo ótimo. E você? — ela deu de ombros e murmurou algo como um "eu também," descendo da mesa e dirigindo-se a sua cadeira. — Já voltou afalar com a Rafaela?

Ela revirou os olhos, jogando-se em seu lugar e empurrando a mochila pink para baixo. Ela abriu seu caderno — onde não havia uma anotação sequer das aulas, e sim fotos – em seguida levantando os olhos,fixando-os nos meus.

–Não — falou distraidamente.

–Ah... Ao menos tentou falar?

–Não — respondeu no mesmo tom.

–Tente. Faça uma forcinha. Vocês eram tão unidas — suspiro,procurando a coisa certa à dizer — Uma amizade assim, que durou anos,não pode acabar desse jeito. — ela parecia não prestar atenção no que eu falava.

Seus olhos passeavam pela sala, parando por um momento em um dos garotos que ela estivera conversando a pouco. Ignorei.

–Principalmente por uma briguinha a toa de alguns dias.

–Duas semanas — reclamou, voltando a olhar para mim. — E ela também não veio falar comigo por que não quis.

–Aliás, por que vocês brigaram mesmo?

Ela hesita em responder, e quando finalmente abre a boca,provavelmente para explicar, o sinal toca.

–Salva pelo gongo mocinha — digo, decepcionado. Beijo-a e me afasto -nos vemos no intervalo.

–Até lá — responde ao mesmo tempo que deixo o recinto, sendo praticamente atropelado pela multidão de alunos que adentravam a sala,seguidos do professor.

***

–Psiu, Nicolas — chamou-me uma voz familiar as minhas costas. Viro-me, a fim de ver o dono da voz, e me deparo com Vinicius correndo em minha direção. — Para onde você vai?

–Ahn... Talvez para a aula? – pergunto, de maneira retórica. — E você também.

–Não, não vou, não agora – disse, tranquilamente. — E você... — ele agarrou meu pulso — vem comigo.

–Vini, agora não...

Mas já era tarde. Antes que pudesse questionar o garoto, ou dizer simplesmente não, ele corria desesperadamente pelos corredores, me puxando com ele.

–Meu braço! — protestei, tentando acompanhar os passos do meu amigo.

Ele me ignorou e continuou caminho pelos corredores, chegando ao banheiro masculino. Vini empurrou a porta e o cheiro de desinfetante de limão preencheu meu nariz.

Ele empurra as portas de todos os boxes violentamente, fazendo um barulho desnecessário. Mas, aparentemente, ele não se importava que alguém nos pegasse fora da sala. Ele estava totalmente concentrado no que fazia e, quando chegou ao ultimo Box, ele sorriu e empurrou.

Atrás da última porta, ouvi um sonoro "ai".

–Só um minuto... — disse, adentrando e saindo rapidamente com um garoto do nono ano, segurando-o pela gola de sua camisa. -Vamos, diga a meu amigo o que eu fiquei sabendo.

–Me solta seu bobo! — debateu-se o garoto nas mãos de Vini — Preciso voltar para minha sala!

Vini nada disse, apenas aproximou a cabeça do menino ao vaso sanitário. Os olhos da criança encheram-se de medo, perceptível por trás das lentes de seus óculos fundo de garrafa.

–Tudo bem! — concordou. Vini abriu um sorriso vitorioso enquanto jogava o pobre coitado no chão. — Mas não entendo qual a relação disso com vocês...

–Apenas diga. — mandou Vini, decidido, mas logo em seguida, bufou e deu um tapa na cabeça do garoto. — Deixe que eu falo então. -dirigindo-se a mim, ele continuou. — Nicolas, sabe aquela boate nova que abriu no mês passado?

–Aquela em que fomos barrados por não ter idade suficiente? -perguntei, lembrando-me da cena vergonhosa na entrada da boate. — Sim,lembro. O que tem ela?

–Bem... Esse fedelho aqui. — Vini deu outro tapa no garoto e sorriu, mas voltou a expressão séria ao ver meu olhar de reprovação. – A prima dele do terceiro ano, a Valesca, esta fazendo 18 anos e adivinha onde será a festa? — ele fez uma pausa dramática, na intenção de dar um tomde suspense mas logo anunciou -Na Haeven Night!

–Ótimo, — falei, distraído. — Mas o que eu e esse garoto temos com isso?

–Tsc, tsc, tsc... Você não entende mesmo? Esse garoto pode nos pôr para dentro. — ele volta sua atenção para o pequeno menino e o fuzilacom um simples olhar, o que pelo visto foi suficiente. Assustado, o garoto balançou a cabeça em aprovação.

–Ah... É isso? Bem, então para que torturar o pobre coitado?

Vini sorriu, malicioso.

–Por que é divertido. — ele estendeu as mãos para o menino, que lhe entregou dois envelopes vermelho sangue. -Pode ir agora.

Sem demora, o coitado pôs-se de pé e correu desesperadamente para fora do box, cruzando a porta do banheiro em instantes.

–Ótimo, você acaba de traumatizar uma jovem mente. Posso ir agora?

–Agora pode. — ele estendeu a mão, entregando-me um dos convites. -Hoje, nove horas, na frente da sua casa ou a minha mesmo?

–O que? – pergunto, incrédulo. — Hoje à noite? Você é louco! Meus pais nunca deixariam.

–Eles não precisam saber...

–Claro que precisam! — levantei minha voz, talvez até mais que o necessário.

Eu já estava para sair de lá, com a cabeça fervendo, quando ele pousou seu braço a minha frente, pressionando a porta e bloqueando a passagem.

–Qual foi a ultima vez que você se divertiu de verdade? — perguntou. Para minha surpresa sua voz era desprovida de sarcasmo ou malícia. -Só uma vez você não que fazer algo proibido e prazeroso?

Eu deveria ter gritado com ele, dizer que parasse de ser tão infantil. Mas, no lugar disso, suspirei e peguei o envelope de suas mãos.

–Nove, na sua casa, e é bom que essa noite seja boa.

Saí do banheiro, deixando Vinicius para trás com um sorriso triunfante.

***

–Tudo bem. — menti, olhando pela enésima vez para meu relógio depulso que marcava nove e quarenta e cinco. Apenas alguns segundos amais desde que eu olhara pela ultima vez — uma hora, e nós vazamos.

Vini apenas sorriu, sagaz.

–Relaxe cara, — fala tranquilamente, tentando me acalmar — no máximo onze sairemos daqui...

Algo em sua voz me dizia que a noite seria longa, muito longa.

Revirei os olhos, em seguida fixando-os em minha camisa polo preta,observando cada centímetro a fim de verificar se havia alguma mancha ou algo indesejado que poderia prejudicar minha imagem.Como tudo estava o.k. -graças a Deus — passei a conferir meus jeans cinza claro, parando em meus sapatos também pretos.

Talvez não fosse uma combinação de muito peso, mas preto é sempre preto. E desde que o mundo existe, preto cai bem com tudo, principalmente em contraste a meus cabelos negros e minha pele cor de neve.

Enquanto eu estava com roupas simples, Vini estava impecável. Trajava uma camiseta preta estrategicamente rasgada, por cima dela um colete cinza escuro. Suas botas de couro preto entravam em contraste com seu jeans azul. Os cabelos castanhos — que geralmente estavam para frente,caindo sob os olhos — foram penteados para trás, fazendo com que seus olhos verdes ganhassem destaque.

–Vamos, nossa vez — chama Vinicius, apontando para o segurança malencarado que estava a porta da Night Haeven.

–Seus convites, por favor. — exigiu, assim que nos aproximamos.

–Mas é claro – fala, sem tirar seu costureiro sorriso convencido do rosto.

Entregamos os envelopes vermelhos e, segundos depois de verificar o conteúdo dos envelopes, o segurança retirou a corda de veludo e sorriu para nós

–Bem vindos, aproveitem a festa.

– Acredite — diz Vini, com uma pitada de presunção — Vamos aproveitar.

Lembro-me de ver a cara de desgosto do segurança, e o costumeiro sorriso vitorioso de Vini antes de ser cegado pelo show de luzes brilhantes que vinham de dentro da boate.

Do mesmo modo, sem que meus olhos pudessem se acostumar a variedadede cores, uma batida invadiu meus ouvidos. Entrando em harmonia com a melodia, meu corpo movimenta-se no ritmo.

A Night Haeven era realmenteum mundo diferente. Um jogo de luzes estava acima da mesa do DJ no final do grande salão,onde o piso parecia ser feito de vidro, decorado com grandes pilastras pretas de aço que eram separadas em um intervalo realmente grande.

Olhei para Vini, que parecia excitado com tudo aquilo: seu sorriso radiante dizia tudo. Eu sentia que ele mal se aguentava para tomar algo e achar uma garota para cravar seus dentinhos de pitbull, como sefosse um osso, uma nova conquista.

Todos no salão dançavam. Inclusive, não demoro a notar, Vini, que acabara de cochichar algo em meu ouvido e caminhou, mexendo-se de acordo com a música, até o barman que servia bebidas de diversos tamanhos e cores. Algumas decoradas com frutas, outras em chamas, mas todas muito bem apresentáveis.

Meu amigo apoiou-se no balcão de mármore negro e deu uma sacada no lugar.

–Eu já vi uma...- Cochichou em meu ouvido.

–O que?- gritei.

Pouco escutava da voz dele, já que musica nos superava.Ele apenas revirou os olhos e pôs-se a andar para a pista de dança.Antes que eu pudesse acompanhar seus passos, ele faz um sinal com a mão para que eu ficasse. Entendendo o recado, permaneci em meu lugar enquanto via Vini sumir em meio a grande multidão.

Talvez eu devesse relaxar. Eu estava parecendo um senhor idoso assim. Mas essa era a primeira vez que eu saía escondido de casa em uma segunda-feira. E isso estava me deixando... Não sei ao certo como. Talvez perturbado.

Meus pensamentos foram interrompidos pelo volume da musica, que repentinamente aumenta. Agora o DJ tocava "on the floor." Assim que Pitbull começou com seu vocal, todos acompanharam, errando e atropelando palavras em um coro muito desafinado e animado.

O cheiro de álcool, que antes pudera ser disfarçado dentre os outros aromas,agora era evidente no ambiente. Torci o nariz. Uma coisa de que nunca gostei foi beber.Eu estava totalmente entretido com a música quando uma garota de longos cabelos dourados, trajando um mini vestido preto com um enorme decote, passou por mim, roçando em meu peito.

–Por que tão sério? — pergunta, piscando para mim.O cheiro de vodka que emanava de suas palavras era nauseante.

Ela joga-se para frente e, antes que conseguisse me beijar, viro meu rosto para o lado, fazendo com que ela fosse de encontro com minha bochecha. A garota se afastou confusa, talvez tonta, voltando pelo mesmo lugar obscuro de onde viera.

Aquela cena cômica foi o suficiente para animar minha noite. Contenho uma gargalhada que se formava em minha garganta, e começo a andar.

Tudo o que queria era dar uma volta, dançar, não sei... Esvaziar amente da família, da escola e até da Cassandra.Meu corpo movia-se com ritmo e habilidade enquanto eu cruzava a pistade dança. Joguei as mãos para o alto, assim como todos, quandoJennifer Lopes cantou "Tonight we gonna keep on the floor"

Caindo na gargalhada ao ver um cara vomitando, pelo excesso de álcool em uma noite, e algumas garotas de minissaia rebolando e descendo até o chão, se achando muito lindas e sensuais.As luzes coloridas iluminavam rostos suados em um tom de Verde neon,amarelo, vermelho, lilás e roxo.

Atravessei o salão, de uma ponta a outra, reconhecendo meus colegas de escola que, passando por mim, acenavam e me cumprimentavam. Tudo era incrível. O lugar simplesmente perfeito e o DJ realmente muitobom, não eram possíveis ficar parado com as mixagens de sua playlist.

Então, quando menos espero, minha noite ilumina-se como o reflexo dosraios de sol no orvalho matinal.Cassandra estava sentada em um sofá de veludo vermelho.

Vestia umshort jeans um pouco curto demais e uma blusa preta de alças. Seucabelo escuro estava preso para trás em um elaborado rabo de cavalo.Pingos de suor escorriam pelo seu rosto, como em quem tivesse dançadoa noite toda.

Tentei me aproximar, mas ao meu redor, alguns veteranos do terceiro ano dançavam como se o mundo fosse acabar, me deixando impossibilitado de ir até ela pelo caminho mais óbvio.

Achei que seria injusto atrapalhar a alegria alheia, então tracei mentalmente uma rota para chegar até minha namorada que nãoatrapalhasse os outros como se ela estivesse a quilômetros de distancia, não a apenas uns 10 metros como era na verdade.

Não consigo conter minha alegria quando finalmente acho por onde me encaixar, aos poucos me aproximo, chegando de um modo a ter visão primeiramente das suas costas. Ela era o que faria minha noite perfeita.

Estar aqui era muito bom, mas com ela seria mais ainda.Sorri quando ela acenou na minha direção. Eu devia estar muito abobalhado, pois um garoto esbarrou em mim, me fazendo tropeçar e cair. O cara de cabelos loiros espetados sentou ao lado de Cassandra, dando-lhe um drink em tom amarelado.

Ela sorri e coloca a bebida de lado. Parecia hipnotizada pelo rapaz,e ele por ela. Eu estava prestes a me levantar quando, em instantes,meu mundo caiu de vez.

Minha namorada deslizava a sua mão pela perna do cara suavemente, eele começa a beijar seu pescoço com ferocidade. Ela sussurrou algo em seu ouvido, e ele sorriu.Isso não podia estar acontecendo. Deveria haver uma explicação para isso.Eu deveria ir até lá e falar com ela, como um namorado de verdade faria.

Decidido, começo a andar na direção dos dois, e então minhas esperanças são despedaçadas. Eles agora trocavam um beijo de língua muito mais íntimo que o normal – talvez até mais que o permitido em público.Afasto-me dali, dando as costas para aquela cena deprimente.

Tento organizar as ideias em minha mente, mas agora estava tudo decabeça pra baixo.A musica que, antes envolvente, agora era repugnante. As luzescoloridas que deram ao ambiente um colorido mágico, irritavam meus olhos.Passei trombando por vários dos estudantes, que gritavam coisas não muito agradáveis para mim.

Minha noite havia sido arruinada, e tudo o que eu mais queria era sair daquele lugar e cair em minha cama. Dormir para nunca mais acordar.

–Ai! — gritou um garoto, ao esbarrar comigo.

Cambaleei para trás ao trombar de cara com alguém que caminhava na direção oposta aquela que eu seguia.

–Olha por onde anda idiota! — Vini agarrara a gola de minha camisa,pronto para desferir um soco. Ele pisca algumas vezes, recuperando o foco, só então me reconhecendo — Nick? Você esta péssimo.

Ele me coloca no chão, largando minha camisa.

–Eu sei — respondi, sem animação — Vou embora. Estava te procurando para avisar.

Ele pareceu chocado com o que eu disse.

–Como assim? Vai perder toda a festa, e além do mais... Espera, o que houve? Não está se divertindo? — sua voz assumiu um tom preocupado nada comum para meu amigo.

–Não estou me importando com isso — interrompi, grosseiramente. Mas,o que eu estava fazendo? Vini era meu melhor amigo, e ser estúpido com ele por algo que outra pessoa fez não me parecia correto — Sinto muito- me desculpei rapidamente.

–Tudo bem... — ele coloca a mão em meu ombro e seus olhos brilham emum tom gentil e amigável — Pode me contar o que aconteceu?

–Cassandra. Eu a peguei dando um beijo muito intimo em um cara do terceiro ano — as palavras pareceram cortar minha garganta.

Eu não acreditava realmente que tudo aquilo havia acontecido até ouvir os fatos constatados por minha própria voz.Vini pareceu confuso, até um pouco incrédulo, mas logo seu ombro seenrijeceu e seus punhos estavam cerrados, como que pronto para dar um soco em alguém.

–O que você quer fazer? — seu tom demonstrava calmo, mas por dentro,era perceptível que uma chama de ódio crepitava com toda sua força.

–Nada — respondi, simplesmente — E você não vai fazer nada também –interrompo, antes que ele pudesse protestar — olhe, deixe para lá. Eu já sabia que algo estava estranho com aquela garota. E sinceramente,eu não me importo — torci para que o Vini acreditasse em minhamentira.

Ele demorou um pouco até suavizar sua expressão facial e relaxar os ombros.

–Nick, essa garota não presta. Vaca maldita.

–Exatamente. Vale sofrer por alguém que não sofreria por você? -pisquei com força, procurando coragem e determinação suficientes emmim para fingir que tudo esta bem — Só quero ir para casa. Minha cabeça está doendo um pouco...

–Tudo bem, podemos sair dessa boate — concordou ele, para minha surpresa.Eu agradeci silenciosamente, mas, parecia ser cedo demais para isso.Meu amigo puxou meu braço quando caminhei em direção à saída, e cravou seu costumeiro olhar cínico em mim.-Eu disse que poderíamos sair daqui, não ir para casa. — eu estava prestes a protestar, dizer um sonoro não, mas algo em mim realmente não queria ir para casa lamentar pela traição de minha namorada.

Me surpreendo comigo mesmo, já que apenas balancei a cabeça e em um tom casual, disse:

–Onde você quer ir?

Vini sorriu, vitorioso. O verde em seus olhos dançava com a alegria que lhes fora concebida com a ideia de que a noite não acabaria nem tão cedo.

–Espere na entrada. — disse ele sorridente e, mais uma vez, correu para dentro da multidão.

***

–Até que em fim! — exclamei ao ver Vini sair da boate.

Ele passou os olhos pela praça do outro lado da rua e, quando me encontrou sentado em um dos bancos de aço, sorriu e caminhou até mim.Com ele vinham mais três garotos, um pouco mais altos e robustos.

De longe não era possível reconhecer seus rostos, mas era perceptível acor neon de seus cabelos.O primeiro usava um moicano com as pontas pintadas de verde limão; o outro dreadlooks vermelho cereja; e o terceiro tinha cabelos compridos em um tom de laranja berrante.

Os três trajavam camisas flanela e jeans surrados e rasgados. Vini pula o canteiro de flores e se joga no banco ao meu lado.

–Pronto para ir? — pergunta, ainda com um sorriso que ia de uma bochecha a outra — Ah, alias esses são Higor, — ele apontou com o queixo para o garoto de dreads vermelhos — Nathan — o garoto de cabelos laranja balançou a cabeça em saudação, então repito o gesto -e Derek — Derek, o garoto de moicano, sorriu e lançou-me uma piscadela- Eles são do terceiro ano de uma das filiais do nosso colégio.

–Ah, sim, claro. — disse sarcasticamente — Quando você perguntou se eu estava pronto, quis dizer pronto para o que, exatamente?

–Digamos apenas que você tem de ficar esperto...

Eu estava prestes a pedir alguma explicação mais clara, algo que realmente me dissesse o que estava planejado para essa noite, mas dei de ombros.Eu realmente precisava me desligar das regras por um momento que fosse. Jogar tudo para cima e esquecer-me do mundo.

Esquecer. Sim isso era tudo o que eu queria fazer agora.Dei de ombros e balancei a cabeça, levantando do banco.Vini abriu um sorriso radiante e nós cinco, guiados por Higor,caminhamos até um pequeno beco escuro e mal cheiroso.

–Fiquem aqui — disse o garoto de cabelos verde limão, entrando em meio à escuridão.Sem muito demorar, dois pontos de luz surgiram na escuridão do beco.

Pisquei algumas vezes, para me acostumar a claridade repentina, e segui a linha que a luz traçava nas sombras, até perceber que a iluminação vinha de uma velha caminhonete verde musgo.

Pelo ronco moribundo do motor, ficava claro que o veiculo não recebia manutenção há no alguns anos mínimo anos.Arqueei as sobrancelhas quando o carro desceu da calçada, parando na rua, e Vini abriu sua porta dianteira.

–Entre — ordenou.

Algo em seu tom deixava claro de que o que quer que fossemos fazer essa noite, um pequeno passeio na velha caminhonete seria necessário.

Sem nem mesmo discutir, entrei no carro e me acomodei no estofado,seguido de Vini que bateu a porta com força, causando um barulho estrondoso.O interior do veículo parecia ainda mais antigo e desgastado do que sua lataria.

Um estranho odor de refrigerante de laranja e salgadinhos de queijo preenchia a cabine, o ar condicionado lançava lufadas devento quente, me deixando sem fôlego.Senti a caminhonete balançar e olhei pelo espelho retrovisor. Os outros dois garotos acabaram de pular na caçamba.

–Está tudo aí? — perguntou Higor, para os outros dois. Depois de revirar umas grandes sacolas plásticas escuras, Derek sorriu, colocando a língua para fora.

–Sim — disse ele — Tudo aqui, podemos ir.

Assim que Derek voltou a sentar, o carro arrancou com toda velocidade pelas ruas escuras da cidade.

As ruas em Toronto estão organizadas em um sistema de gradeamento bem organizado, que impedia que muitos acidentes ocorressem,principalmente em épocas de inverno. Como estávamos fora das avenidas principais do centro da cidade, as ruas possuíam de duas à três faixas por sentido.

Por ser noite, a movimentação nas ruas era mínima. Talvez por isso acaminhonete não chamasse tanta atenção quanto deveria chamar a luz do dia.

–Ainda não entendi — disse inquieto.

Vini voltou-se para mim, com o olhar paciente e calmo, o que era totalmente estranho para ele.

–Onde estamos indo?

Higor deu um meio sorriso e, soltando uma das mãos do volante, deu tapinhas no meu ombro.

–Vamos nos vingar. — disse, simplesmente, como se esclarecesse todas as dúvidas do universo.

Foi então que caiu a ficha. Estaríamos eu e Vini metidos em guerra de gangues?Enquanto a caminhonete cruzava as ruas, observando os pedestres que caminhavam calmamente, não consigo deixar de imaginá-los ali, caindo no chão.

Vini e eu usando armas de fogo, matando alguém, sendo pegos,presos.Minha vida acabaria.Seriamos detidos, meus pais me expulsariam de casa, provavelmente iríamos morar em algum tipo de organização para jovens delinquentes.

Eu não poderia deixar isso acontecer.Apertei nervosamente o banco estofado do veiculo, exalando um estranho e repugnante odor de mofo.O pânico devia estar estampado em meu olhar, já que, quando meus olhos encontraram os de Vini, ele caiu em uma longa e debochada gargalhada.

–Relaxa — ele tentou me acalmar, mas como não viu resultado, revirouos olhos — Sabe nosso professor de físico-química?

Balancei a cabeça, confirmando. Era impossível esquecer-se do baixinho e pálido senhor Broonks, dos seus olhos malvados e fulminantes procurando por algum motivo para suspender a turma inteira, além de distribuir zero para todos.

–Sim — respondi — O que tem ele?

–Nada de mais, só que hoje vamos dar o troco por ele ter posto metade dos alunos da escola na recuperação.

–Entendi... — Vini pegou do bolso o celular e começou a digitar rapidamente, provavelmente uma mensagem de texto — Mas — meu amigo suspirou novamente e levantou o rosto para me encarar, porém, sem parar de digitar — O que os outros caras tem a ver com isso?

–O senhor bigodes é professor na nossa unidade também — respondeu Nathan, que permanecera calado até o momento – E ele fez a mesma coisa conosco. Mas isso não vai ficar assim por muito tempo — sua voz foi substituída por risadinhas tenebrosas dos quatro garotos ecoando peloveículo.

Eu estava prestes a perguntar o que exatamente estava planejado paraa tal vingança, quando, com um repentino solavanco do carro, soulançado para frente. De uma vez só a caminhonete para, com uma das rodas acima do meio fio.

Prova mais que absoluta de que Higor é um ótimo motorista. Agora eu entendia de onde surgiram tantos amassados e arranhões na lataria.

–Chegamos — disse o melhor motorista da nossa geração, desafivelando o cinto de segurança — Vamos.

Sem demora, Vini repetiu o gesto de Higor e me empurrou, impaciente,para que eu andasse depressa.Em poucos segundos estávamos os cinco em frente ao gramado de uma casa, devo admitir, grande e vistosa.

Para quem ganha salário de professor, o senhor bigodes realmente vivia bem.

–Bom — comecei — Já estamos aqui... Posso saber agora como será essa tal vingança?

Nenhum deles respondeu. Apenas me encararam incrédulos, até que Derek e Nathan abriram as grandes sacolas plásticas, retirando o nó que as prendia.

Higor se aproximou e retirou da sacola três pés de cabra, jogando-ospara Vini e os outros dois garotos; de lá também pegou duas latas detinta spray, entregando-as a mim; várias caixas de ovos; dúzias derolos de papel higiênico e um bastão de baseball.

–Quebrem e sujem tudo o que puderem — fazendo uma pausa para umsuspiro, ele continuou – E, por favor, não sejam pegos pela policia. E se forem, vocês já sabem a velha história...

Todos concordaram com a cabeça e moveram-se de acordo com o combinado.Com um movimento rápido do taco de baseball que Higor empunhava, a caixa de correio voara para o outro lado do jardim.

Não demorou muito até ouvir as risadas insanas de Nathan, enquanto ele despedaçava as janelas com o pé de cabra.Vini e Derek lambuzam a entrada da casa do senhor Brooks com uma chuva de ovos seguida por papel higiênico nas arvores e no jardim.

Higor destruía tudo o que encontrava pela frente. Desde uma pequena casa de pássaros artesanal, a um mini-chafariz que, quando atingido,jorrou água em todas as direções.Ouvi um barulho de motor e viro-me bem a tempo de ver a velha caminhonete subir pela grama do jardim, destruindo o canteiro de flores e os arbustos metricamente podados.

Tudo estava uma loucura. Um verdadeiro pandemônio estava acontecendo e eu só conseguia ficar parado observando, horrorizado com a cena.Tentei mover os músculos das minhas pernas para correr dali, mas não adiantava, era como se eu estivesse colado ao chão.

Estava horrorizado com o que acontecia ali.Principalmente com a forma que os garotos se divertiam com tudo aquilo.Observo ao redor, desesperado, tentando procurar por alguma alma viva passando pela rua que pudesse me ajudar, mas não se via uma única pessoa em um raio de 500 metros.

Procurei por janelas abertas nas casas próximas e vizinhos assistindo, horrorizados com tudo aquilo, mas só o que eu conseguiaver era a escuridão da noite preenchendo minha visão.Os únicos pontos de luz próximos eram alguns postes elétricos emanando raios amarelados moribundos e trêmulos.

Era impossível ninguém estar escutando o barulho produzido pelas risadas insanas, as janelas sendo destruídas e o ronco da velha caminhonete.E então, sem me surpreender, um raio de luz emergiu do segundo andar,e pude avistar um vulto próximo à janela.

A sombra segurava algo, talvez uma arma.Um arrepio gélido percorreu meu corpo, deixando os pelos da minha nuca eriçados.A persiana foi aberta lentamente, até que pude avistar com clareza um grosso bigode acinzentado em um rosto pálido, pertencente a um homemcom o olhar que demonstrava puro ódio.

Era o senhor Brooks, segurandoem mãos um telefone.Mas o que ele estaria fazendo com o telefone na mão? Aparente ele tirou o aparelho do ouvindo ao escutar a baderna em frente a sua casa,o desligando em seguida.Seus lábios se contraíram em um sorriso fino e maldoso.

Será que ele...Meus pensamentos foram interrompidos pelo barulho de sirenes zunindo ao final do quarteirão.

–Droga! A policia! — anunciou Derek, incrédulo.-Vamos logo, entrem no carro. Vamos, vamos!

Os outros dois garotos obedeceram, pulando na caçamba da caminhonete.Vini largou o pé de cabra, que ao atingir o chão, causou um barulho ensurdecedor. Seus olhos expressavam puro medo e pânico. Ele começou acorrer em direção ao veículo, parando bruscamente e olhou para trás,procurando por algo.

Seus olhos encontraram os meus. Duas janelas de pura preocupação. Nãosaberia definir se era por ele ou se era comigo – talvez fosse pelos dois.

–Nick! – chama, o desespero em sua voz deixando evidente o que se passava por sua cabeça — Vamos logo!

Eu estava em choque, não conseguia acreditar no que eu me meti. Era surreal como a situação havia saído do controle.

–Nick! — chama novamente, já caminhando em minha direção.

Como se, pela primeira vez na noite meu cérebro registrasse a voz de Vini chamando por mim, meus pés começaram a se mover em direção a caminhonete.

Mas já era tarde. Os garotos arrancaram a toda velocidade,atropelando a cerca e fugindo pelos fundos, deixando-nos para trás na hora em que duas viaturas da policia nos encurralaram pelo gramado que antes era verde e reluzente.

Notas finais
É isso ^^ provavelmente o capítulo dois vai demorar por causa da minha semana de provas mas postarei o mais breve possível! Tanks For Ready *u*