The Great Serpent
1 Capítulo 1
Quarenta e quatro
Quarenta e três
Quarenta e dois
Ela contava mentalmente, seus dedos batendo ritmados na superfície de madeira da mesa, enquanto observava o café onde se encontrava.
Ao seu redor, várias pessoas conversavam animadas: namorados em um encontro, amigos que há tempos não se viam, famílias; todos parecendo desfrutar da manhã apesar daquele dia ser um dia chuvoso.
Faye gostava da chuva. O arrepio que percorria seu corpo ao as gotas geladas tocarem sua pele, o aroma único, o som constante que a acalmava e a fazia ignorar as vozes inquietas em sua mente.
Ela daria tudo para calar aquelas vozes para sempre.
Respirando fundo, ela observou pela janela a garoa que caía e mordeu distraidamente um pedaço do seu cookie de baunilha, derrubando algumas migalhas em seu colo. Com um gesto rápido ela as limpou e voltou a erguer seu olhar, fixando-o no ambiente que a rodeava.
Aquele café era um bom lugar para passar a tarde. O ambiente era bonito e confortável, com poltronas no lugar de cadeiras e luminárias que mergulhavam o local em uma luz amarelada e convidativa. Cheirava a pão recém assado e café. Ela não gostava muito do sabor do café, achava amargo e forte, mas amava o cheiro. Fora isso, a comida dali era gostosa, as bebidas diferentes e, na opinião dela, eles serviam o melhor chocolate quente de toda Londres.
A única desvantagem do lugar era que estava sempre cheio e com crianças. Ela evitava locais assim. Não gostava nem um pouco de nenhum dos dois. Crianças eram barulhentas e desagradáveis e pessoas em excesso a deixavam ser ar. Talvez, ela fosse um pouco claustrofóbica, apesar de não se importar em ficar dentro de espaços pequenos. Talvez, o que ela tivesse não fosse claustrofobia, e sim aversão à pessoas.
De qualquer forma, era por não gostar de tumulto que Faye preferia andar sozinha. Bem, aparentemente sozinha, visto que ninguém a não ser ela podia vê-lo. O que era bom, já que certas pessoas se assustariam ao se deparar com olhos vermelhos. Ela mesma se assustou na primeira vez que o viu. Com o tempo, contudo, passou a acha-los diferentes e gostou. Afinal, eles chegavam a ser atraentes nele. Bem, tudo nele era atraente.
Ele sempre estava com ela, mas nem sempre esteve. Levou tempo, mas ela se acostumou com a sua presença constante e eles viraram amigos e então, mais que isso. Agora ela era capaz de confiar a sua vida a ele sem ao menos pensar duas vezes.
— Pare com isso. — Kieran falou colocando a mão sobre os dedos inquietos dela. Ele detestava quando ela recorria a seus impulsos ansiosos. Vasculhando a mente da garota, ele procurou por algo que explicasse seu comportamento, mas não encontrou.
Imediatamente ela parou de bater os dedos na madeira. Era um tique que adquirira e por isso muitas vezes o fazia sem perceber. Kieran não gostava daquilo.
— Pare de ser chato. — ela falou pegando sua caneca com chocolate quente e bebendo um gole. Ela suspirou apreciando o sabor. Como ela sentiria falta daquele chocolate quente...
Apenas de implicância, resolveu bater mais uma vez os dedos na mesa, mas parou ao ver o olhar que Kieran — ou Ky, como ela gostava de chamar — lhe lançou.
— Você precisa aprender a lidar com essa ansiedade. — ele falou. Ela suspirou. Ky vez ou outra dizia aquilo e ela sabia que ele estava certo. Antes, há vários anos, ela até chegara a frequentar um psicólogo, mas obviamente não dera certo. Agora, a única coisa que Faye fazia era ignorá-lo sempre que ele trazia o assunto à tona.
Ela tomou mais um gole e continuou a contagem.
Trinta
Vinte e nove
— Sabe que logo teremos que sair daqui. — ele falou decidido a continuar a importuná-la.
Ela revirou os olhos e o encarou. Ele sustentou o olhar. Faye tinha plena consciência de que o tempo deles ali estava acabando, porém, ainda restavam alguns segundos. Ela acabaria aquele chocolate naqueles segundos.
Vinte e seis
Vinte e cinco
Vinte e quatro
Vinte e três
— Faye. — Ky a chamou novamente, seu tom beirando o sério e a impaciência.
Ela assentiu bebericando mais alguns goles enquanto juntava o indicador ao polegar e erguia os demais dedos para cima em um gesto de que havia entendido. Um dos garçom a olhou e fez menção de se aproximar pensando que ela o estava chamando. Faye rapidamente o dispensou.
Vinte
Dezenove
— Você realmente é inacreditável. — Ky comentou em um tom irônico ao ver que ela não se preocupava nem um pouco com a própria segurança. Faye sorriu dando-lhe uma piscadela.
— Sabe o quanto irônico é você se preocupar com a minha vida? — ela retrucou ainda sorrindo. Quem quer que a visse provavelmente acharia que ela era uma louca falando sozinha. Felizmente, todos estavam concentrados demais em seus próprios mundinhos para notá-la.
— Não acho, afinal, sua vida me pertence. — ele rebateu com um sorriso ladino que lhe caía muito bem.
Faye sorriu. Contra aquilo não havia argumento. Kieran era ao mesmo tempo seu anjo e demônio. Mais demônio do que anjo, na verdade. Ele a protegia de perigos externos, mas seria ele quem levaria a sua alma quando chegasse a hora.
Ainda sorrindo, ela voltou a observar o restante das pessoas. Aquilo se tornara hábito com o tempo. Após tantos anos treinada em observar o seu redor, procurar por detalhes que poderiam passar despercebidos à primeira vista, era difícil parar. Às vezes ela notava certas coisas que preferia que tivessem passado batidas: um relacionamento infiel, ciúme entre amigos, um homem aparentemente bem sucedido, mas que possuía sérios problemas com drogas... Em resumo, ela muitas vezes conseguia enxergar o lado sórdido que as pessoas tanto lutavam para esconder.
Felizmente, não foi nada disso que lhe chamou a atenção naquele dia e sim um simples bebê que se encontrava em uma mesa próxima. Ele encarava a mesa dos dois com um olhar confuso, como se algo ali o incomodasse.
Ela riu. Ky voltou seu olhar para o bebê ao vê-la rir, mas quase no mesmo instante deu-lhe as costas decidindo ignorá-lo. Pegando a xícara de café que havia na mesa, ele bebeu o que restava do líquido em um gole.
Ele odiava humanos em geral — Faye sendo uma exceção — especialmente os que ainda não falavam e choravam por tudo.
Ela apenas o observou, sabendo que Kieran se sentia grato por serem raras as pessoas que eram mais perceptíveis e conseguiam notar sua presença, mesmo que não pudessem realmente vê-lo. Em geral estas eram bebês e crianças pequenas, o que facilitava, mas vez ou outra apareciam adultos com tal capacidade. Estes costumavam dar mais trabalho, mas nada que ele não pudesse resolver com seus "poderes de convencimento."
Uma vez ela perguntara a ele o que as pessoas sentiam quando olhavam em sua direção e Ky dissera que chegava a ser algo próximo de uma sensação de incômodo, como se algo faltasse ou estivesse errado no cenário.
"O cérebro detecta essa ausência e tenta preenchê-la, mas às vezes não é bem sucedido o que deixa a pessoa com essa sensação de que há algo estranho, faltando. "
Fazia sentido, ela pensou ao se lembrar da explicação que ele lhe dera. Afinal, seria muito bizarro caso alguém olhasse para Ky e enxergasse uma xícara de café flutuando no ar. De alguma forma, a mesma coisa que impedia que outros o enxergasse também alterava a percepção de tudo que o envolvia, pois o garçom que a atendera não parecia estranhar o fato da xícara de café agora estar vazia sendo que Faye bebia o chocolate quente e não tocara uma única vez na xícara. Bem, ou era isso, ou o garçom era desatento.
— Mais café? — ela perguntou para ele indicando a xícara vazia. Kieran negou apressando-a com o olhar.
Dez
Nove
— Pronto, terminei. Pode desfazer esta cara feia. — ela anunciou, voltando a depositar a caneca já vazia na mesa. Ky pareceu murmurar algo como "finalmente" e se levantou.
Sete
Seis
Faye se levantou em seguida, pegou sua carteira e retirou algumas notas sinalizando para o garçom e as deixando debaixo do pires da xícara de café de Ky. Ele encarou o gesto dela em confusão, a sobrancelha esquerda levemente arqueada. Ela achava engraçado quando ele fazia isso, pois Ky dificilmente era surpreendido por algo. Era bom saber que ela era capaz de evocar essa emoção nele.
Quatro
— Por que fez isso? — ele indagou — Sabe o que vai acontecer.
Três
— É errado sair sem pagar. — ela respondeu dando de ombros enquanto deixava o estabelecimento sendo seguida por Kieran.
Dois
— Um. — Faye sussurrou e seu olhar encontrou com o de seu companheiro.
Ky agiu em um piscar de olhos. Em um gesto rápido demais para humanos acompanharem, ele a puxou para o lado, em direção a si, e a virou protegendo-a com seu corpo. No mesmo instante, o som de freios ecoou alto seguido do som de uma forte batida.
Apesar de não estar com medo, Faye fechou os olhos por reflexo, escondendo o rosto no peito de Kieran que manteve os braços firmes ao seu redor. No instante seguinte, uma cacofonia de vidros se quebrando, mesas sendo destruídas e gritos de terror tomou conta do local enquanto pedaços do que um dia fora um dos cafés favoritos da garota voavam ao redor deles.
Tão rápido quanto veio, passou e tudo que restou foi apenas o caos pós-acidente. Um silêncio desconfortável reinava e o carro que avançara a calçada se encontrava atravessado na entrada do café em meio a destroços da fachada e de parte da estrutura. Não era possível ver o motorista. Uma poeira clara subira como uma névoa e através dela era-se possível enxergar pessoas caídas e mais destroços espalhados pela rua. Algumas pessoas se moviam, outras permaneciam imóveis. O choro de alguma criança cortou então o silêncio incômodo que se instalara e de pouco em pouco os sons retornaram.
— Você está bem? — Faye escutou Ky perguntar próximo ao seu ouvido, seu tom de voz denunciando preocupação.
Ela ergueu o olhar e encontrou com o familiar tom de carmin a fitando de volta. Ela assentiu.
— Já disse que não precisa se preocupar. Eu estava contando. — falou sorrindo no fim.
Ele a repreendeu com o olhar, mas esboçou um sorriso.
— Quando vai deixar de se arriscar?
Nunca. Ela pensou. Ele riu. Ela sabia que não precisava dizer aquilo em voz alta, afinal, ele lia seus pensamentos.
— Eu não poderia deixar de vir uma última vez antes do acidente acontecer... Sabe como eu amava aquele chocolate. — ela falou lamentando o fato de que teria que esperar alguns meses para prová-lo novamente.
Kieran revirou os olhos, já acostumado com as estranhas prioridades de Faye. De alguma forma, para ela, o chocolate quente parecia estar acima de sua própria segurança. Eles se soltaram então um do outro e passaram a observar o acidente.
— Foi mais feio do que eu esperava. — ela falou levemente impressionada com a cena que via ao seu redor. Faye sabia quando haveria uma morte, porém como ela aconteceria permanecia sempre um mistério.
Muitos adultos e crianças olhavam uns para os outros assustados e confusos, outras pessoas tinham sangue escorrendo pelos rostos e braços, uma delas em específico segurava a perna e gritava de dor enquanto era amparada por outras duas — provavelmente o osso havia se quebrado. Mas havia aquelas que jaziam no chão, parcialmente enterradas pelos destroços, estáticas. Entre essas, havia um bebê. O mesmo que encarara Faye e Ky no café, minutos antes do acidente acontecer.
Ela observou a cena imóvel e com uma expressão vazia, semelhante à que Kieran esboçava.
Não era porque ela não se importava. Faye não era uma psicopata. Não, ela deixava para Ky isso. Ela apenas não se surpreendia mais. Depois de um tempo vendo algo repetidas vezes você acaba se acostumando. Foi assim para ela.
Mortes, acidentes, desastres acompanharam-na por quase toda a sua vida. Ela sempre sabia quando algo de ruim iria acontecer. O ar mudava, um frio percorria sua espinha, as vozes surgiam. No início era terrível, ela se chocava com as cenas, mas com o tempo a surpresa deixou de atingí-la e tudo virou rotina; macabra e desagradável, mas ainda assim uma rotina.
— A chuva aumentou. — falou Ky olhando para o alto de onde as gotas gélidas caíam com mais força e o céu adquiria um tom mais sombrio de cinza combinando com a atmosfera do local.
Morrer em um dia chuvoso. Na opinião dela era melhor que morrer em um dia de sol.
Faye fechou os olhos brevemente e apreciou por alguns segundos o toque da água em seu rosto. A chuva a acalmava e a temperatura fria fazia seu corpo inteiro se arrepiar, despertando-a.
— When I woke up, the rain was pouring down... — ela cantou baixo, em um tom afinado, ao se lembrar da música — There were people standing all around...
— Não acha um pouco mórbido cantar essa música? — a voz dele chegou ao seus ouvidos. Mesmo de costas para Ky e com os olhos fechados, ela sabia que aquilo era uma falsa repreensão e que ele estava, na verdade, sorrindo.
Ninguém poderia culpá-los por terem um humor negro.
Faye abriu os olhos e riu, sua risada alegre demais para situação em que se encontravam. Poderia ser considerado falta de tato rir em uma ocasião como aquela, mas após vários anos ela chegara à conclusão que ninguém realmente se importava. Para os mortos não fazia diferença, eles já estavam mortos, para os vivos, estes poderiam se ofender e lhe lançar olhares reprovadores, mas nada mais além disso.
— Não acredito que está mesmo me repreendendo por isso, Ky. — ela falou.
Virando-se ela viu que ele a encarava com seu belo sorriso ladino. De certa forma eles combinavam com aquele cenário, percebeu, Kieran especialmente. Caos, morte e desolação eram a cara dele.
Sorrindo em retorno, Faye buscou seu celular em seu bolso e, discando rapidamente, levou-o ao ouvido. Por saber dos acidentes de antemão, ela pensava possuir certa responsabilidade de avisar as autoridades quando eles aconteciam— e mesmo que não fosse mesmo seu dever, ela gostava de pensar que sim. Faye esperou alguns toques e segundos depois uma mulher atendeu:
— 911, qual é a sua emergência?
Ela pôde ouvir ao fundo Ky assobiar a música que ela cantara minutos antes e constatou que ele estava se divertindo com tudo aquilo. Ele sempre se divertia em ocasiões como aquela. Um sorriso triste surgiu em seu rosto.
— Houve um acidente. Um carro bateu em um café. Há pessoas feridas e algumas mortas.
...
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