The Great Serpent
2 Capítulo 2
Alexander Levinne voava, costurando o trânsito como um experiente piloto de corrida faria. Ele, porém, não era um piloto e muito menos experiente, mas estava com pressa. Tanta, que nem ao menos se importava em estar a 100 km/h em uma rua cujo limite permitido era 60 km/h. Se algum policial o pegasse ele certamente estaria em maus lençóis.
Ele riu imaginando como seria caso o parassem por excesso de velocidade e descobrissem que ele também era um policial, porém, de uma divisão diferente. "Estou atrasado para uma reunião e minha chefe vai me matar se eu chegar um minuto mais tarde." Será que essa explicação justificaria seu ato? Não, provavelmente não. Talvez, os outros policiais até rissem dele antes de multá-lo. Nesse caso, era melhor tomar o máximo de cuidado para não ser pego.
Com 27 anos, 5 e meio de polícia, Alexander Levinne possuía um currículo invejável para muitos de seus colegas, até mesmo alguns mais velhos que ele. Tendo se destacado desde o seu primeiro dia devido ao seu talento para investigações, ele superou todos seus concorrentes na entrevista de emprego sendo pinçado pessoalmente por Samantha Morrison para integrar sua equipe.
"Um jovem com um futuro muito promissor. Se continuar a se esforçar, poderá construir uma bela carreira aqui."
Até naqueles dias ele ainda se lembrava do que ela lhe falara em seu primeiro dia de trabalho. Se havia algo no qual Samantha era boa era escolher os melhores para sua equipe.
Alexander observou a chuva que caía no parabrisa, distraído pelas lembranças de seus primeiros dias como agente. Aquela era a primeira vez que chovia naquela semana e ele não viu aquilo como um bom sinal. Era sexta, um dia que ele provavelmente estaria de folga caso Samantha não tivesse resolvido convocar uma reunião para aquela manhã. Como se não bastasse ter que trabalhar naquela sexta, o dia ainda estava frio e chuvoso. Não que ele detestasse dias chuvosos, apenas não estava gostando daquele dia em específico.
Tirando as mãos por alguns instantes do volante, ele às friccionou rapidamente e diminuiu a potência do ar condicionado, pois estava começando a sentir frio. Foi então que seu olhar recaiu sobre as horas exibidas no painel do carro e ele arregalou os olhos ao constatar o horário.
9:10
Imediatamente um arrepio desceu por sua espinha. Ele estava 10 minutos atrasado. Por deus, Samantha o fuzilaria! Maldita a hora em que ele decidira esquecer de colocar o despertador para tocar.
Acelerando, Alexander fechou alguns carros recebendo reclamações e buzinas em troca, mas não se importou com aquilo. Ele tinha que chegar o mais depressa o possível no departamento de polícia. Algum tempo depois, arriscando mais uma olhada no relógio, Levinne engoliu em seco ao ver que os números haviam mudado.
9:17
Para o seu desespero, os minutos pareciam passar mais rápido do que o normal, como se zombassem de si por estar mais que atrasado para a reunião.
Nervoso, ele se preparou para pisar mais fundo no acelerador, mas logo foi obrigado a mudar de idéia ao virar uma esquina e se deparar com um pequeno engarrafamento. Ele freou abruptamente, quase se chocando com o carro da frente.
Mas que infernos..!
Erguendo o pescoço de modo a tentar enxergar o motivo do tráfego estar parado, logo pôde ver que um grave acidente acontecera mais a frente. Um carro provavelmente perdera o controle e batera em um café. O carro ainda estava ali — atravessado no lugar onde havia sido a entrada para o estabelecimento — e várias pessoas cercavam o local em meio a destroços e à poeira. Ele viu dois carros de polícia e uma ambulância estacionados próximo ao acidente, mas não conseguiu distinguir mais que isso.
Batendo os dedos no volante, Levinne suspirou e passou a mão pelo cabelo tentando se acalmar, apesar de não conseguir nem um pouco. Ele estava 25 minutos atrasado. Certamente teria que aguentar Samantha e Alicia dando-lhe uma bronca quando chegasse, isso se ele conseguisse chegar.
Olhando mais uma vez para o acidente, ele procurou por indícios de que o tráfego seria logo liberado, mas não encontrou nenhum. Todos os policiais pareciam concentrados demais no que acontecera para se lembrarem das outras pessoas que esperavam em seus carros a rua ser aberta.
Para a ironia do destino, seu celular começou a tocar no exato momento.
— É o Alex, o que foi..? — começou a dizer ao aceitar a chamada, sem se dar o trabalho de ver quem era. Ele estava certo de que era Alicia ligando para perguntar sobre o seu paradeiro e o motivo dele ter se atrasado para a reunião.
— Posso saber onde você está, Levinne?
A voz que ele ouviu o fez gelar.
Não era a suave e calma, típica de Alicia, e sim irritada e firme. Ah ele conhecia aquela voz. Conhecia muito bem. A escutava todos os dias. Normalmente ela passava ordens para ele e discorria sobre os casos. Às vezes — nos últimos dias isto se tornara mais raro — o parabenizava. Outras, repreendia-o, como estava fazendo naquele momento. E quando ela fazia isso, ele sabia que estava encrencado. Principalmente quando ela o chamava por seu sobrenome.
Merda! Pensou.
— Samy, a que devo sua bela ligação? — ele pigarreou adotando um tom sedutor e cauteloso, procurando amansar a fera antes que ela começasse a gritar com ele. Infelizmente, a sorte parecia não estar ao seu lado naquela manhã.
— Não pense que jogar o seu charme para cima de mim irá adiantar, Alexander Levinne! Eu o conheço muito bem e sabe que sou imune às suas táticas baratas!!
Ele pôde ouvir risadas ao fundo, provavelmente do resto da equipe que escutava a conversa. Ele conhecia Samantha e sabia que ela o colocara no viva voz. Ele suspirou.
— Bem, eu tentei. — respondeu, escutando mais risadas que logo foram caladas pela chefe. Ele sorriu.
— Espero, para o seu bem, que você tenha uma boa desculpa para ainda não estar aqui conosco, Levinne. — ele escutou a voz de Stephen dizer. Diferente de Sam, ele parecia se divertir com aquilo. A ruína dele sempre divertia o amigo. Maldito.
— E tenho. — respondeu Alexander mais animado. Quem diria que aquele acidente viria a calhar? — Estou preso em um engarrafamento no encontro da Charing Cross com a Great Newport. Aparentemente um carro perdeu o controle e atravessou um café. Pelo que posso ver daqui ele fez um belo estrago.
Alguns segundos de silêncio se fizeram do outro lado da linha e Alexander começou a achar que talvez Samantha não acreditasse nele.
— Não acredito que está nesse engarrafamento... — ele a escutou dizer por fim, suspirando — Acabamos de ser avisados sobre ele. Um carro perdeu sim o controle e atravessou o café. O motorista teve um ataque enquanto dirigia e acabou atropelando algumas pessoas que se encontravam no estabelecimento. Ele morreu antes do carro bater, mas "fez um belo estrago".
Foi a vez de Alexander permanecer alguns segundos em silêncio.
— Quantos feridos? — ele perguntou após um tempo.
— Doze. Já foram encaminhados para os hospitais. E por enquanto sete mortos. — Samatha acrescentou sabendo que ele perguntaria em seguida.
Alexander suspirou.
— Está uma bagunça aqui, Sam. Creio que vou demorar. — ele falou após processar a informação por alguns segundos, enquanto voltava a observar os policiais e pessoas que rodeavam o acidente, entre elas alguns repórteres. A mídia, como sempre, brotava onde quer que surgisse uma tragédia. Abutres em busca de uma carcaça, era o que eram.
— Para a sua sorte, Ben está aí, vou pedir para ele abrir a rua para você. Precisamos de você aqui, Alexander.
Não mais brava com ele, Alex pôde notar um tom cansado se destacar na voz da chefe. Aquela semana havia exigido muito deles. O que todos mais queriam era uma folga, nem que fossem apenas algumas horas. Porém tinham que concluir alguns casos, por isso a reunião marcada em plena manhã de sexta.
— Ok, sem mais demoras. Eu prometo. — ele respondeu.
— Apenas chegue logo.
— Yes, mam. — ele falou e Samantha encerrou a ligação.
Alexander suspirou e ligou o som do carro. Ele não sabia o quanto Ben iria demorar para liberar a passagem para ele, então não havia nada mais a fazer a não ser esperar. Quase que imediatamente o pequeno espaço foi preenchido pela música, uma de suas favoritas. Ele sorriu enquanto a melodia se fundia ao som dos limpadores de vidro trabalhando e da chuva que cada vez mais aumentava.
I said, that's life and as funny as it may seem
Some people get their kicks
Stompin' on a dream
Era uma manhã fria e chuvosa, um dia ruim para um acidente acontecer. A chuva logo lavaria a rua, levando embora os restos menores dos destroços e o sangue e a poeira que manchavam o asfalto. Além disso, ela molhava os policiais, os feridos, os repórteres, os mortos e os curiosos, mas nenhum deles parecia realmente se importar, afinal suas prioridades eram outras. Bem, a não ser pelos mortos. Estes já não possuíam mais com o que se preocupar.
Isso fez Alexander se lembrar de um caso antigo, um dos primeiros seus.
Era um dia semelhante a aquele; chovia e fazia frio. Um corpo fora encontrado às margens do Tâmisa com marcas de abuso e agressão. Quem o jogara esperava que o rio e a chuva apagassem os rastros, o que muitas vezes acontecia. A exposição à água, principalmente se fosse longa, dificultava o trabalho dos legistas, mas não foi o caso. Para o azar do assassino, eles conseguiram retirar evidências o suficiente para identificá-lo.
No fim, descobriram que era um caso comum de violência conjugal. A mulher apanhava do marido que um certo dia exagerou e a acabou matando. Talvez por não saber o que fazer com o corpo, ou por não se importar, ele o jogou no rio esperando que a natureza fizesse seu papel e desaparecesse com a evidência. O seu erro fatal foi se esquecer que a natureza não se curva perante o homem. Eles encontraram o corpo com o DNA do assassino e ele foi julgado e preso.
Foi um caso simples, sem muito mistério, perseguições, serial killers, ou seja, nada que um novato esperaria encontrar ao trabalhar para a polícia.
Alexander riu ao se lembrar de como ele costumava ser na juventude. Ele era ingênuo na época. Queria a emoção, a glória de colocar atrás das grades algum notório assassino, mas ele não sabia ainda que crimes assim não eram algo digno de se vangloriar. Bem, de qualquer forma, algum tempo depois ele se deparou com o que tanto queria, mas o final não foi nem um pouco como esperava. Ele se esqueceu que haveria a sensação de impotência, esqueceu-se da morte, do desespero. Porém, mais que isso, ele se esqueceu do principal: de como um erro, por mais insignificante que possa parecer de início, pode ser fatal.
Foi nesse dia que Alexander aprendeu a lição, e ele a aprendeu da pior forma possível.
— Ei, Levinne! — O homem piscou, emergindo de seus devaneios com um susto ao escutar a voz abafada de alguém chamá-lo enquanto uma mão batia levemente em seu vidro.
Virando-se ele encontrou com uma feição amiga e isso o fez relaxar.
— Ben! — falou abaixando o vidro para cumprimentar o mais velho.
O policial sorriu, inclinando seu guarda chuva para frente de modo que não chovesse dentro do carro de Alexander. Era um belo carro — um RX 350 grafite — e ele tinha certeza de que o dono não gostaria de molhá-lo.
— Como vai, garoto?
— Estou bem e você? Faz tempo que não nos encontramos. E Bianca?
Ele aproveitou para analisar Ben, vendo que o homem não mudara muito — continuava meio calvo, com seu bigode farto e as mesmas covas no queixo que apareciam quando sorria. A única coisa de diferente era que ele ganhara peso.
Deveriam ser os bolos, concluiu Levinne sorrindo. A esposa de Ben, Bianca Stuart, sabia como fazer bolos deliciosos. Ele mesmo chegara a prová-los uma vez quando o policial convidara Samantha e toda a sua equipe para tomar chá em sua casa. Portanto ele não o culpava. Se Alexander tivesse um esposa que soubesse cozinhar como a Sra. Stuart sabia, ele também teria dificuldade em manter seu físico.
— Eu e Bianca estamos bem. Ela sempre pergunta quando irei convidá-los novamente para nos visitar. Cheguei a falar com a Sam, mas ela adiou o convite. Parece que vocês estão bem ocupados esses dias!
Alexander riu.
— Muitos casos a resolver. Mas assim que esse período terminar marcamos de visitá-lo. Sinto falta dos bolos de Bianca. Eles são os melhores de toda Londres!
— Eu quem o diga! — falou Ben enquanto depositava brevemente a mão sobre a barriga. Os dois homens gargalharam.
O policial mais velho parou de rir gradualmente e então balançou a cabeça em um suspiro.
— Foi realmente uma tragédia o que aconteceu aqui... — murmurou adotando uma expressão de tristeza. — Sabe...tinham muitas famílias e jovens.
Alexander desfez seu sorriso.
— É... Eu soube. — ele falou sem saber o que dizer.
Alguns segundos de silêncio se seguiram nos quais Ben parecia rezar para as famílias e os que haviam perdidos as suas vidas no acidente enquanto Alexander o fitava sem saber o que fazer, achando aquela situação desconfortável.
Para o alívio dele, porém, o policial mais velho logo voltou a encará-lo sorrindo.
— Bem, foi bom encontrá-lo, mas acho que é melhor você ir antes que Sam venha pessoalmente buscá-lo. Já liberamos a passagem. Pode vir, Alex. — ele indicou para que Levinne passasse.
Manobrando, Alexander desviou dos demais carros e passou pelo bloqueio, antes agradecendo Ben e desejando-lhe um bom dia.
Enquanto passava, seu olhar foi atraído para o lado e ele pôde ver com mais detalhes o que havia acontecido. O café sofrera danos irreparáveis; parte de sua estrutura caíra e sua entrada era apenas uma massa disforme de madeira com metal e vidro da qual se projetava um Mini Cooper preto totalmente amassado. Os vidros deste estavam todos quebrados e a porta do motorista se dobrava para dentro em um ângulo estranho — o motorista não se encontrava à vista, portanto, já deveria ter sido retirado do veículo. Rodeando o estabelecimento, pedaços do café e do carro — provavelmente arremessados durante a colisão — jaziam espalhados tomando conta da calçada e de metade da rua.
Ainda havia alguns feridos sendo atendidos em um canto onde a ambulância estava estacionada, mas a maioria, pelo menos os em estado mais grave, já havia sido levada do local. Os únicos que restavam em meio ao caos eram os falecidos. Estes estavam sendo retirados de um por um, seus corpos cobertos por panos para que ninguém fosse obrigado a vê-los. Mesmo assim, Alexander pôde vislumbrar o corpo de uma garotinha sendo retirado debaixo de uma pilastra pelos socorristas.
— Realmente, foi uma tragédia. — ele murmurou para si enquanto desviava o olhar da cena e deixava o bloqueio para trás, ganhando velocidade.
...
Fale com o autor