Às 20:00, em seu escritório iluminado pela luz da lua e de algumas lâmpadas acesas estrategicamente, Jill ouve a porta sendo batida compassadamente, enquanto preparava a mente para mais uma coluna na área policial – no jornal Telegraph. Quando abre a porta, a visão a surpreende, pois quem está a sua frente é o grande empresário Oliver Fitzgerald! Sem nenhum assessor ou coisa do tipo, simplesmente ele, vestido com terno de tweed, camisa branca muito bem passada, calças bege, cabelos penteados para trás e barba por fazer. – Ora, senhor Fitzgerald, que surpresa... em que posso ser útil? – Ele vai adentrando o rústico recinto como se fosse um amigo próximo, embora os dois soubessem que estava longe de ser. – Preciso de sua ajuda, senhorita Hudson. É sabida sua experiência no jornalismo investigativo e... – Jill deixou escapar um suspiro de frustração. – É sabida minha experiência? Apenas minha mãe e tia leem a coluna policial do Telegraph... – Ela foi interrompida por um pigarro do senhor Fitzgerald, ele parecia mesmo desesperado – Se não se importa, é urgente.

A jovem mulher murmurou um pedido de desculpas e ele, aparentemente aceitando, senta-se confortavelmente no sofá. – Então diga, senhor, o que é tão urgente? – Jill sentou-se à frente de seu visitante e mostrou-se interessada em tudo que ele dispusesse-se a relatar. – Era 23:00 do sábado, eu estava em meu escritório, quando ouvi um ruído que vinha da cozinha, creio, e mais que depressa fui verificar. E o que vi foi... – Oliver apanhou um lenço de linho de seu bolso interno e enxugou o rosto, uma expressão de pavor estava estampada em sua face. – O que viu, senhor Fitzgerald? – Ele virou seu olhar para ela, o homem suava frio – Quer que lhe traga algo para beber? – Como ela estava de pé, pois havia levantado-se devido a preocupação com o empresário, o mesmo rapidamente a toma pelos braços e a faz sentar-se novamente; Isso a fez franzir o cenho, porém não disse nada e aguardou até que ele recompusesse-se. – O que vi, senhorita Hudson, foi eu mesmo. Meu rosto, minhas roupas e meu criado e amigo ao chão junto a uma poça de sangue. – Oliver praticamente gritava. Ele, homem contido, extremamente profissional e calculista, agora tomado por uma emoção que desconhecia, ou que evitava demonstrar.

Terminado o relato, Jill não pensou duas vezes e, claramente abalada e muito bem intencionada, abraçou-o de lado, deixando que ele encontrasse ali seu conforto, se assim desejasse. À princípio ele até cerrou os olhos e permitiu-se aconchegar-se nela, mas depois afastou-se rapidamente sem sequer ver o espanto nos olhos da jovem mulher. – Bem, senhorita Hudson, agradeço a atenção. Sabe onde é minha casa e empresa. Peço licença e desejo uma boa noite. – Ele possuía aquela educação mecânica que Jill detestava nas pessoas, principalmente nos ricaços e famosos que diariamente estampavam as primeiras páginas de jornais e revistas. Ela dava graças a Deus todas as manhãs por não ser este tipo de gente, não que ela seja uma moça irremediavelmente pobre, muito menos uma santa, mas tudo o que ela fazia era por amor e devoção, realmente importava-se com os outros.

No dia seguinte de uma noite bem mal dormida, Jill Hudson recolhe seu material de pesquisa e vai a Scotland Yard afim de consultar seu velho amigo Greg Lestrade quanto ao ocorrido que lhe foi relatado na noite anterior. Uma confusão estabelecia-se no local, e tudo por causa de um único homem. – Já lhe disse, George, você não está se esforçando. Por que nunca me ouve? – Suspirando pela terceira vez desde que isso começou, Lestrade retruca – Greg, meu nome é Greg. – E o misterioso causador de problemas replica – Ninguém disse que não era. Parece que você tem visitas. – O detetive-inspetor olha para trás e realmente está alguém em posição de espera, observando tudo ao seu redor até que seus olhos pousam e são fixados na dupla de homens discutindo; aproximando-se da dita dupla, fazendo um comentário do tipo que amigos fazem. – Acho que você devia descansar, Lestrade. Está cada vez mais parecido com seu tio Augustus. – Então ele envolveu a jovem num abraço apertado, já que há tempos não se viam; Jill pôde ver melhor o homem com quem Greg estava discutindo, entretanto, depois de poucos segundos, abaixou os olhos, não querendo distrair-se. Em seguida, eles se desenrolaram-se e ela pôde então expor a razão de sua visita, mas antes, ela foi apresentada ao rapaz elegante e aparentemente cheio de si que encontrara ao chegar. Sherlock Holmes é seu nome, detetive consultor, o único, segundo ele. Enquanto a senhorita Hudson falava, o tal detetive prestava bastante atenção e ao terminar de ouvir, ele fez questão de apresentar seu parecer. – É um caso comum de esquizofrenia. Seu amigo sofre de esquizofrenia. – Todos no local ficaram boquiabertos, até Lestrade que já estava familiarizado com a rapidez com que funciona a mente de Holmes e o que o próprio Holmes queria era impressionar a recém conhecida mulher com seu poder de dedução elevado. No entanto, tudo o que a jornalista fez foi apertar a mão dele e agradecê-lo; nenhum questionamento ou contestação... Se alguém o perguntasse, ele podia responder na maior sinceridade que aquilo o decepcionou um pouco, mas isto foi demonstrado? Claramente, não.

O detetive saiu da Yard e deparou-se com a tal moça. – Senhor Holmes, me assustou! – Exclamou ela depois de acender um cigarro e quase afogar-se e, depois de acalmar-se, fez questão de esclarecer um ponto – À propósito, ele não é meu amigo. Ontem foi a primeira vez que nos falamos. Teu diagnóstico foi preciso demais, o senhor já o havia visto? O conhece? – Sherlock, num gesto brusco, retirou o cigarro das mãos de senhorita Hudson e o atirou na rua, dizendo que isso ainda ia matá-la. Após o ‘show’, ele a respondeu – Não me importa se ele é ou não amigo da senhorita. O fato é que, se ele alegou ter visto ele mesmo matando o velho, a mim está claro que o homem é esquizofrênico ou exagerou na bebida. – Isso a fez rir como há tempos não ria e, surpreendentemente, Holmes riu também! Por um brevíssimo instante, ainda assim, riu. Jill Hudson voltava para casa, já era noite e fazia calor. Ao abrir a porta e acender as luzes, a moça pôde compreender melhor o sentido da expressão ‘o que os olhos não veem, o coração não sente’ pois, sentado numa das cadeiras de sua mesa de jantar estava o empresário que lhe procurou, e não parecia contente. – Por Deus, senhor Fitzgerald, não me lembro de ter-lhe dado uma cópia de minha chave! – Ignorando a indignação de sua anfitriã, ele chega mais perto dela, com ar ameaçador, levando uma mão ao ombro dela – Permita-me avisá-la, senhorita Hudson, que não tolerarei que um jovem impertinente, que nem ao menos conhece-me, tenha a audácia de alegar que sofro de o que quer que seja. Tampouco a conheço, mas posso confiar em teu bom senso? Ou eu juro... alguém que ama pagará caro. – A essa altura, sua mão já envolvia o pescoço dela como uma cobra aperta sua presa. As palavras perderam-se na garganta, o sangue reteve-se nas veias, tamanho foi o medo que lhe fora proporcionado e, ainda viu os lábios do empresário desenharem um pequeno mas odioso sorriso, divertindo-se ao ver a reação da jornalista. Não aguentando mais a covardia de Oliver, numa coragem repentina, ela bradou – Saia já de minha casa, Fitzgerald, ou chamarei a polícia. – Seu riso não desaparecera, pelo contrário, alargou-se. Afirmou não temer a polícia e quem deveria seria ela, entretanto, concordou ir embora, porém, o alerta permanecia.

Passado o susto daquela noite, dois dias depois, Jill sentiu uma necessidade de estar com alguém, esquecer a solidão e frieza de sua casa onde já nem era segura. Sabia perfeitamente onde ir: Rua Baker! Lá onde sua tia administrava os apartamentos, se ela a aceitasse, ficaria tão aliviada...

Naquela manhã, a jovem começou a fazer as malas, bom, pouca coisa, botou tudo no porta-malas de seu modesto carro e partiu para uma ‘quem sabe’ nova vida. O trajeto até fora curto, não era muito longe sua casa. Bateu à porta e aquele rosto tão familiar e reconfortante surgiu, sorridente como de costume, levando a mais nova às lágrimas. – Querida, há quanto tempo... – A saudou calorosamente, atirando-se a ela, também com os olhos marejados. – Entre, vamos tomar um chá, acabei de fazer. – De bom grado ela aceitou, e as duas conversaram banalidades, mas não foi mencionada a razão principal pela qual Jill estava lá e, nem seria, a última coisa que a moça queria era preocupar sua tia.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.