The Game

21 Parte 1 - Capítulo 20 - Confronto


–Hélcias, por favor... Hélcias... – Após ter ficado alguns instantes paralisado pela cena do amigo deixando a loja, sem saber ao certo como reagir, Héber decidiu ir atrás de Hélcias – Por favor, espera um pouco, vamos conversar...

–Não temos o que conversar – Hélcias respondeu, com uma frieza que ele próprio não sabia de onde vinha – Apenas me deixe em paz...

–Não, eu não vou – Correndo, Héber finalmente alcançou Hélcias, colocando-se de imediato na frente do jovem de camiseta branca e calças jeans. Abrindo os braços, Héber bloqueou a calçada – Eu não vou te deixa em paz até você conversar comigo.

Hélcias ficou alguns segundos parado, sem saber o que fazer diante daquela situação. Sua expressão, um misto de seriedade, melancolia e raiva, encontrara com a de Héber, um misto de preocupação, medo e insegurança. Segurando forte na alça da mochila que carregava em sua mão, Hélcias deu um passo firme para frente, o que fez Héber recuar meio passo para trás. Irritado, Hélcias desviou o olhar.

–Você está com medo... – Ele disse, um sussurro para si – Saia da minha frente, Héber – Adicionou, agora em alto e bom som.

–Ou o que? – O jovem de bermuda marrom e camiseta vermelha perguntou. Héber estava assustado, mas ainda firme. Apesar do recuo, continuava com os braços abertos na frente de Hélcias – Vai forçar a passagem?

–É o que você pensa de mim? – Hélcias cerrou o punho. Ao que parece, a frase também afetou a Héber, que pareceu confuso por um momento – Eu já disse que não temos o que conversar, então pare de me importunar – Ele adicionou, fazendo menção de contornar Héber pela rua.

–E eu já disse que temos – Héber deu um passo para o lado, mantendo o bloqueio. Hélcias, então, tentou pelo outro lado, mas foi novamente barrado – Pare de ser teimoso, eu só quero conversar com você um pouco!

–E o que isso vai mudar? – Hélcias gritou, farto daquela dança que os dois estavam fazendo na rua – Eu posso ver. Nos seus olhos, nos do Esídio. Vocês estão com medo. Com medo de mim! – Ele cerrou os dentes. Os olhos lacrimejando de leve – Nenhuma conversa vai mudar isso, então só me deixe em paz!

–É o que você pensa de mim? – Gritou Héber – É, eu estou com medo. Mas quem não estaria? Mas mesmo assim, isso não quer dizer nada. Não é porque eu tenha medo que eu não me importo com você. Hélcias, eu só quero falar com você... – Héber abaixou os braços – Por favor... Como seu amigo, eu peço: converse comigo um pouco!

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–Você está estranhamente séria agora – Jewel se quer se preocupou em olhar para traz. A voz da misteriosa garota de vestido negro lhe era já bastante familiar – O que está vendo?

–Desespero – Ambas as garotas estavam em um ponto de ônibus, rua abaixo de onde a discussão entre Hélcias e Héber ocorria – Aquele garoto, Hélcias. Eu não sei o que houve, mas ele tomou algum golpe emocional forte agora. Seu coração está se fechando e se ele seguir nesse ritmo não vai demorar até ele se isolar emocionalmente.

–Sem brincadeiras comigo, sem piadas ou gozações... – A morena se aproximou, ficando agora lado a lado com Jewel – O que tudo isso significa? E, acima de tudo, atrapalha a possibilidade dele ser o próximo vencedor?

–Se estar vivo for um pré-requisito, então pode ser uma situação problemática – A ruiva respondeu, um sorriso sarcástico surgindo em seu rosto – Antes eu já podia ver nele uma personalidade bastante frágil, do tipo que está a ponto de quebrar. Se ele seguir nessa direção, não há dúvida: ele vai tirar a própria vida mais cedo ou mais tarde.

–Se isto for verdade, então estamos perdendo nosso tempo – A morena afirmou, impassível – Eu espero que você não tenha esquecido: a pessoa que procuramos deve ter um apego à vida maior do que qualquer outra emoção. Alguém assim tão frágil não tem qualquer chance...

–Ok, primeiro, você se interessou por ele primeiro, e agora está falando isso? – Jewel apontou. Os braços cruzados – E segundo, que tal parar um pouco de pensar na competição e perceber que tem um garoto sofrendo na sua frente? Isso não te afeta em nada? – “Logo a você?” Jewel pensou, sem dizer.

–Quem quiser viver, que viva. Quem não quiser, que não viva – A morena respondeu, ainda sem demonstrar qualquer emoção – Não pedimos para nascer e se a pessoa acredita que sua vida não vale a pena então ela provavelmente está certa. Este mundo é composto basicamente por dor e sofrimento. Se se está cansado disto, nada mais justo do que se permitir sair daqui. Contudo... Nossa situação exige que encontremos alguém que seja o exato oposto disto. Se o que você diz for verdade, então eu me enganei e seguir este garoto é pura perda de tempo.

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–Como meu amigo...? – Hélcias abaixou a cabeça, sem conseguir conter um leve sorriso que nem ele próprio sabia dizer o que significava – Ora vamos... Nós nos conhecemos há o que, alguns dias no máximo? – Hélcias ergueu a cabeça, seu olhar agora sério encontrando com o olhar confuso de Héber – Eu já estou cansado disso... Saia de uma vez da minha frente!

Irritado, Hélcias pousou a mão no ombro de Héber, empurrando-o para o lado com força. Iria forçar sua passagem, se fosse necessário. Qualquer coisa para sair logo dali. Ao passar pelo jovem, porém, Héber o agarrou pelo pulso, forçando-o a virar-se. “Hélcias...” Héber pensou, conforme esperou seus olhos encontrarem com o de Hélcias. “Se esta é a sua resposta... Então você não me deixa outra saída!”

A distância foi criada de forma quase instantânea. Em menos de um piscar de olhos, Hélcias se viu mais uma vez naquele mundo branco, homogêneo, sem teto ou chão. A sua frente, o pilar de mármore tinha em um de seus cantos um deck. Pelo shield, Hélcias reconheceu como sendo seu deck de Vanguard, fato confirmado por uma de suas cartas estar virada para baixo no centro da mesa, certamente seu First Vanguard. Surpreso, olhou mais adiante, vendo do outro lado da arena a figura de Héber.

–Desculpe por isso, Hélcias – Héber gritou, sério – Mas pelo menos daqui você não pode fugir!

–Oh, é mesmo? – Hélcias perguntou, em tom de desafio, claramente irritado – Vamos ver então. Eu desis...

–Não faça isso! – Gritou Héber, interrompendo a fala de Hélcias a tempo – Para este jogo, Hélcias, nós estamos apostando a quantia máxima: três pedras! – Os olhos de Hélcias se arregalaram de surpresa, o que fez Héber dar um leve sorrisinho – Isso mesmo. Você tem apenas cinco pedras. Se desistir agora, ficará com duas. Acha que vai conseguir se virar sozinho apenas com isso, Hélcias?

–E se eu achar? – Por um momento, houve um silêncio tenso no ar. Todo o plano de Héber se embasava na noção de que Hélcias não estaria tão cego de raiva que preferisse ficar uma situação tão desvantajosa a seguir com um jogo. Se esta premissa estivesse errada... – Mas que droga! Que seja, então – Hélcias comentou, soltando um suspiro de resignação – Se é assim, eu só preciso te vencer, não é? – Disse, comprando cinco cartas do topo de seu deck – Vamos, se apronte logo. Quanto antes eu puder começar, antes nós saímos daqui!

–Não pense que vai ser assim tão fácil – Héber comentou, após um baixo suspiro de alívio. Comprou suas cartas e, uma vez feito o mulling, estavam ambos prontos – Stand Up – “Hélcias... Eu vou ter uma conversa com você, você querendo ou não!” – Star Vader Unicorn!

–Link Joker?! – Esperando o habitual Kagero de Héber, o novo clã foi uma grande surpresa para Hélcias, que, apesar disso, procurou não se preocupar tanto – Bom, que seja... Stand Up, Wingal Brave!

Na frente de ambos os jogadores, seu primeiro vanguard apareceu. Ambos seres caninos, à frente de Hélcias surgiu um cachorro de pelo azulado, com duas enormes asas de morcego no lugar das orelhas, usando um cachecol e portando uma pequena adaga na boca. A criatura de Héber, por sua vez, ainda que também aparentando ser algum tipo de cão, tinha o corpo inteiro revestido por uma brilhante armadura de metal, com o único traço distintivo sendo um enorme chifre vermelho que lhe saia da testa.

–Por que você está tão irritado, Hélcias? – Héber gritou, conforme Hélcias comprava sua carta.

–Você me arrastou pra outra dimensão quando eu explicitamente disse que não queria conversar, não acha que é um bom motivo? – Respondeu Hélcias, irônico – Ride, Maron. Wingal Brave move pra trás e é turn end.

Na frente de Hélcias, o canídeo pareceu dar um leve pulo para trás. Em seu lugar, emergiu um ser de feições andrógenas. De aparência humana, com curtos cabelos loiros, a nova Unit usava uma espécie de veste azul e branca longa. Debaixo de um dos braços, carregava consigo um livro de aparência futurista e na cabeça pousava um estranho chapéu azul com uma tira branca na parte frontal.

–Ora vamos, você sabe que eu não estou falando de agora – Héber retrucou, comprando uma carta – Eu só queria conversar um pouco, mas você insiste em me afastar! Eu só estou tentando agir como seu amigo, então...

–Meu amigo? – Hélcias gritou, em tom de desdenho – Como se eu fosse acreditar que alguém que ficou sabendo o que eu fiz poderia ser meu amigo! Eu disse, não disse? Eu posso ver. Você, o Esídio, estão com medo de mim! Não tem como...

–Eu descobri que você matou uma pessoa, não pode me dar um desconto?! – Um novo silêncio se instaurou, conforme Héber desviou o olhar de Hélcias para a carta que comprou – Ride, Star-Vader, Neon. Unicorn boosta. Neon, ataque!

A frente de Héber, a criatura que surgira tinha a aparência de um robô humanoide, de armadura imponente. As largas ombreiras e um peito protuberante quase não combinavam com a figura esguia, que levava um estranho anel negro em ambos os pulsos e calcanhares. Finalmente, um enorme par de chifres na cabeça completava o traje branco com detalhes em vermelho e preto. Logo que surgiu no campo, tanto ele quanto a figura canídea partiram em direção ao Vanguard de Hélcias.

–No guard – Hélcias declarou.

–Drive check. Meteor Liger, critical trigger! Todos os efeitos no Neon – Ambas as units de Héber desferiram um golpe contra Maron, cujo grito de dor ecoou pelo espaço branco. Hélcias fez a checagem de dano, não tirando qualquer trigger – Encerro meu Turno. Olha Hélcias, desculpa falar aquilo. Mas você não pode esperar que alguém não fique chocado com algo assim!

–Ah, eu sei muito bem disso – Hélcias comprou sua carta – E é exatamente por saber disso que eu falei pra você me deixar em paz!

–Eu não vou te deixar em paz até você conversar comigo direito! Mesmo que eu tenha ficado chocado, isso não significa que eu...

–Não temos nada para conversar! Pela enésima vez, eu não quero falar nada! Acha que é fácil pra mim? Falar sobre esse assunto? – Em meio à expressão de raiva, algumas poucas lágrimas pareciam se formar no rosto de Hélcias – Seja lá o que você tenha achado na net já é informação o bastante! Você não precisa saber mais e nem eu preciso contar!

–Hélcias, por favor, eu, o Esídio, nós só queremos entender... Entender o que aconteceu... – O tom de Héber era o de uma quase súplica – Eu entendo que você deve ter passado por muita coisa, mas...

–Entende?! – Gritou Hélcias, enraivecido – Você sabe o que é passar dois anos completamente isolado porque as pessoas tem medo de se aproximar de você? Sabe o que é entrar na escola e ter até os professores te olhando torto? Sabe o que é ver as únicas amizades que você já fez se afastando mais e mais, tudo isso por terem medo? – Uma pequena lágrima rolou pelo rosto de Hélcias – E mais importante, você faz a mínima ideia... Só a mínima... De como é viver sabendo que tirou a vida de alguém?!

–Bom, não, mas...

–Então não fale como se entendesse! Você não entende! Nem você... E nem ninguém... – Havia um tom levemente melancólico em sua voz – Chega dessa conversa. É o meu turno agora. Ride, Blaster Blade!

Um pilar de luz envolveu Maron. Em seu lugar, o que surgiu foi um imponente cavaleiro. Com uma armadura de designe futurista, branca com detalhes azuis, a unit de aparência humana empunhava uma enorme espada de lâmina branca. Logo que entrou em campo, Hélcias ativou seu efeito. Virando duas cartas de sua Damage Zone, ele viu Blaster Blade erguer sua espada. Desta, um luminoso raio azul saiu. Descrevendo uma parábola no ar, o raio acertou em cheio o Unicorn de Héber. A unit fora retirada.

–Tudo bem, você tem razão! – Gritou Héber, conforme colocava a carta retirada em sua drop zone – Eu não entendo. Não tenho nem ideia do que você passou ou do quanto sofreu. Mas eu quero entender! Quero entender o que aconteceu e porque aconteceu.

–Por quê? De que isso importa pra você?

–É por que... Por que... – Héber ficou em silêncio por alguns segundos, sem saber bem o que dizer – Nós já conversamos... Hélcias, eu conheço você. Não no sentido de saber cada detalhe da sua vida, mas no sentido de entender a sua personalidade, de ver o tipo de pessoa que você é. Então, quando o Esídio me mostrou o que ele descobriu... Quando eu fiquei sabendo o que você fez... Deve haver algum motivo, certo? Você não é o tipo de pessoa que faria uma coisa assim a não ser que tivesse um bom motivo!

–Então, você quer uma explicação, é isso? – Héber meneou um sim com a cabeça, tenso – Tsc... E de que isso importa? – Gritou Hélcias – Não importa a desculpa que eu tenha para dar, o fato de eu ter tirado uma vida não vai mudar! Então pra que falar sobre isso? Wingal Brave boosta, Blaster Blade ataca o seu Vanguard!

–No guard! – Héber observou o cavaleiro de armadura branca correr na direção de seu robô. Hélcias fez a checagem de trigger, tirando um heal. A checagem de dano de Héber não trouxe nada, deixando assim os danos equiparados – Não é assim que funciona Hélcias! – Ele gritou, colocando a carta em sua Damage Zone – Motivos importam. Se você teve um bom motivo para fazer aquilo, então...

–E quem é você para julgar? – Gritou Hélcias – Mesmo que eu te conte o que aconteceu, mesmo que eu diga o que passei, quem é você para dizer se o motivo que eu tive para tirar a vida de outra pessoa foi justo ou não?! – Fez uma breve pausa, esperando uma resposta que não veio – Motivos não importam, resultados sim. Efeito do Wingal Brave, mando ele para a soul e adiciono outro Blaster Blade para a mão. Turn End.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.