The Game
11 Parte 1 - Capítulo 10 - Encontros
Hélcias caminhava apreensivo. Assim o fazia desde o dia em que compreendera a situação em que realmente estava. Sair para a rua era expor-se e ele tinha plena consciência disso. Assim, caminhava com a cabeça baixa, olhando diretamente para o chão. A mente se concentrava em seu corpo, atenta a qualquer mínimo sinal de que algum outro jogador se aproximava. Em sua mala, carregava o que julgava uma quantia suficiente de diferentes decks para qualquer eventualidade. Mas é obvio que nenhuma dessas medidas o confortava por completo. Especialmente considerando o lugar para onde o jovem de camiseta branca e bermuda marrom se dirigia.
A loja de cartas Cards and Toys já era antiga na cidade, com uma longa história de ótimo comércio. Apesar disso, o fato de ser uma das primeiras lojas do gênero da cidade lhe dava proporções bastante modestas. Localizada no interior de uma galeria em uma travessa da avenida principal da cidade, o mais próximo do grande centro comercial que os fundadores conseguiram, a loja era composta basicamente de um balcão para exposições de boosters e caixas, uma parede tomada por uma considerável prateleira de vidro com os mais diversos colecionáveis, e duas mesas onde caberiam quatro pessoas cada, no máximo. Certamente nada comparável com as lojas mais recentes, como a própria Fighters. Ainda assim, ainda era um ponto de venda e troca importante, onde muitos jogadores de card games ainda iam quando precisavam de algo. E Hélcias precisava.
Caminhando pela rua, Hélcias recitou mentalmente a lista de cartas que precisava comprar. Apesar de ter ficado inicialmente satisfeito com os decks que montara, não demorou nem um dia completo para começar a duvidar das capacidades destes. Era assim: não conseguia se apegar a um único deck por muito tempo e normalmente modificava seus decks há quase toda semana. Apesar da situação excepcional, parece que este traço de sua personalidade não mudaria tão facilmente quanto ele – e seu bolso – gostaria.
Passara, assim, a semana pensando em quais cartas seriam úteis. Pediu ajuda de Alvim, usando algumas próteses que pudessem lhe dar uma ideia da consistência que o deck teria, bem como procurou testar as modificações possíveis em quase toda plataforma online que encontrou. Finalmente, sábado chegara e ele se sentia confiante quanto às quais cartas seriam necessárias. E por isso agora cruzava a avenida, se dirigindo para a loja com relativa pressa.
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Sentada numa mesa ao lado da enorme janela de vidro, a garota de longos cabelos negros observava o exterior. Levou a xícara até a boca, tomando um generoso gole do café que pedira. Olhava para o exterior com o olhar vazio. A sua frente, do outro lado da rua, ficava uma galeria bastante conhecida na cidade, cujo enfoque era dado para produtos importados dos mais variados, desde bijuterias indianas a bonecos da Disney e, obviamente, diversos produtos japoneses. O local ideal para a construção de uma loja de card games, ou assim parecia quando os fundadores da Cards and Toys o escolheram. A garota, contudo, não tinha qualquer interesse nos produtos ali vendidos.
–Ora ora, veja só quem eu encontrei – Olhando para o lado interno da loja, a garota, que usava um longo vestido negro, deu pela presença de outra pessoa. Uma garota também, provavelmente da mesma idade que ela. Tinha cabelos ruivos e curtos, passando-lhe pouco das orelhas. Um largo sorriso preenchia o rosto e os olhos verdes observavam aquela que tomava café – Como vai você?
A morena não teve pressa para responder. Desviando o olhar, tomou mais um gole de seu café, enquanto deixava os olhos vagarem pela rua do lado de fora, bastante cheia àquela altura do final de semana.
–Tem me seguido de novo, Jewel? – A voz gélida, como de costume.
–Que rude você – A ruiva respondeu, com uma falsa expressão de raiva. Usava uma camiseta branca que lhe realçava o corpo, bem como uma saia azul simples, que lhe ia até o meio das coxas – Isto foi apenas uma feliz coincidência, oras.
–Se eu fingir que acredito, você procura outra mesa, toma alguma coisa e desaparece? — A ríspida resposta veio rápido. O olhar ainda desviado. Obviamente a morena sentia-se irritada com a presença da nova garota.
–Não – A resposta veio em tom bem humorado. Puxando uma cadeira, Jewel sentou-se logo a frente da outra jovem. Virando o rosto, olhou para fora – O que nós estamos olhando? – Perguntou. O sorriso sincero estampado no rosto.
–Nada de especial – A morena respondeu. Conhecia a recém-chegada por tempo o bastante para entender que qualquer tentativa de ignorá-la seria inútil – Eu apenas quero checar uma suspeita – Ela acrescentou, dando mais um gole de seu café.
–Uma suspeita, é? – Comentou Jewel. O sorriso em seu rosto agora assumindo um ar zombeteiro – Alguém interessante, talvez?
–Duvido – A resposta seca veio de forma bastante clara – Não é ninguém particularmente especial – Completou. Novo gole, e agora a xícara ficava vazia – Mas eu tive uma aproximação indesejada com meu ultimo objeto, então planejo dar um tempo. Ele também não deve fazer qualquer movimento por mais algum tempo, então estou livre para procurar outros possíveis candidatos.
–Mantendo sua política de observação, não? – Comentou a ruiva. A cabeça estava virada para a janela, mas pelo canto dos olhos ela seguia observando as reações da morena – Talvez seja mesmo uma boa ideia observar mais... Corre o boato de que um vencedor deve surgir logo.
–Da ultima vez que esse boato surgiu o dito vencedor levou um ano e meio para ser declarado – A expressão da garota era de completo desinteresse – Pelo que vejo, ainda deve demorar para surgir alguém.
–É mesmo? – Pelo sorriso, era difícil de dizer se a ruiva levara aquelas palavras a sério ou não – Bom, acho que o tempo vai dizer quem tem razão – A expressão brincalhona assumiu um ar levemente mais sério. Um sorriso levemente melancólico – Embora... Eu realmente não me importaria da situação seguir assim mais um pouco...
–Não faz diferença. Agora ou depois. O que tiver de acontecer acontecerá. Desejar em vão por um ou outro é como tentar engolir água para não se afogar: um desperdício de energia que só levará à decepção – As palavras eram frias, sem qualquer emoção aparente, tal e qual a expressão da jovem que as pronunciava. Um silêncio desconfortável se instaurou no ar – Hum... – Ela murmurou, após algum tempo. O olhar perdido no exterior – Ele chegou.
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Hélcias virou à esquina. Com isso, entraria na rua da galeria. Mais alguns passo e estaria na loja. Arriscou-se a olhar pra frente, quase sorrindo com a boa sorte que foi chegar ali sem incidentes. Entretanto, logo ele parou. Um frio lhe percorreu a espinha. Os pelos se arrepiaram e ele sentiu o coração se acelerar com a adrenalina. Sentia-se ansioso, nervoso. Apontou o rosto diretamente para o chão. Havia outro jogador por perto.
O garoto fechou os punhos com força. Trincando os dentes, amaldiçoou-se por ser tão ingênuo. Por um momento, havia se esquecido de qual era a parte mais perigosa do trajeto: a própria região da loja. Obviamente, aquela região seria propícia a atrair outros jogadores como ele, que buscariam melhorar seus decks a fim de garantir a própria sobrevivência no Jogo. Hélcias sabia disso. Havia pensando nesse assunto toda a noite anterior. Pensou se deveria desistir. Ainda podia dar meia volta e se dirigir até a Fighters.
O único motivo para ter escolhido a Cards and Toys como ponto de visitação para o dia se devia ao fato dela ainda ter algumas cartas bastante específicas que ele precisava, coisa que descobriu após ligar para ao menos cinco lojas na semana anterior, entre as quais a própria Fighters. Contudo, estava em pleno final de semana. Era possível que alguém na Fighters, jogador ou não, tivesse as cartas que ele precisava. Claro, isto seria trocar o certo pelo duvidoso, mas ao menos ele estaria em um ambiente teoricamente mais seguro.
A estranha sensação o confundia. Não sabia dizer o que em seu corpo era fruto da aproximação de outro jogador e o que era fruto de algum tipo de ataque de ansiedade. Podia sentir as mãos suando frias. Os pelos arrepiados... Mas isso era por causa da aproximação de outro, não? Mas e o embrulhar de seu estômago? Isto era certamente fruto de seu nervosismo... Certo? Ela não sabia dizer. Nem sabia o que fazer. Seu instinto mais primitivo lhe dizia para correr, mas sua razão lhe dizia que o melhor a fazer era manter a cabeça baixa, seguir até a loja e comprar o que precisasse. Fosse como fosse, precisava decidir logo, antes que alguém nas ruas notasse o jovem pálido parado no meio da calçada.
–Quer fugir de novo?
Hélcias fechou os olhos, apertando-os firmemente. Sacudiu a cabeça, limpando qualquer pensamento impróprio. Já estava entrado em pânico, e por algo que nem havia acontecido ainda! Precisava se recompor. E, acima de tudo, precisava seguir em frente. Agora não apenas pelas cartas que precisa comprar, mas também para mostrar a si próprio que era capaz de seguir vivendo nestas condições. Não havia motivo para pânico. Tudo ia ficar bem. E, com esse pensamento em mente, o jovem seguiu em frente. Não importa quem estivesse lá, bastava não olhar ninguém nos olhos, era o que dizia para si a cada largo passo. Infelizmente, mais uma vez sua desatenção significou o esbarrar-se com outrem.
Apesar do encontro, nenhum dos dois caiu. Hélcias deu um ou dois passos para trás e instintivamente levantou a cabeça para pedir desculpas. A pessoa a sua frente era um jovem no final da adolescência, tal como Hélcias. Ele usava calças jeans e uma camiseta vermelha sem estampas. Nas costas, carregava uma mala negra. Olhando-o nos olhos por um segundo, Hélcias sentiu seu corpo congelar-se de medo. Havia esbarrado em Duo.
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–Então, qual dos dois é o garoto? – Jewel perguntou, olhando para o outro lado da rua. Um garoto de camiseta vermelha havia acabado de aparecer no campo de visão, mas foi logo surpreendido pela chegada de outro, vestindo uma camisa branca e bermuda jeans. Ambos agora estavam na frente do enorme vão central da galeria do outro lado da rua.
–O de camiseta vermelha – A morena respondeu, casualmente – Eu encontrei com ele há alguns dias – Completou. Conhecia bem sua interlocutora e sabia que se não falasse mais ela acabaria perguntando – Ele não parece ter nada de excepcional e tem uma resolução bem fraca, do tipo que só se fortalece em momentos de desespero. Mas já que não estou fazendo nada, decidi que valeria a pena ver se ele é capaz de mudar esta primeira impressão.
–Hum... – O murmuro da ruiva, que agora observava à morena, foi acompanhando por uma expressão de atenção, que logo se converteu em um sorriso brincalhão – Como eu pensava, eu realmente não consigo mesmo entender o que você fala – Ela voltou o olhar para fora, mais uma vez – Ser capaz de ver a resolução de cada um... De compreender até que ponto eles estão dispostos a ir para viver... No final eu... – A expressão assumiu um tom levemente melancólico – Realmente não consigo compreender esse tipo de poder...
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Hélcias queria desviar o olhar. Olhar para o chão. Fechar os olhos. Qualquer coisa. Infelizmente, ele sabia que era tarde demais. O estranho arrepio nas costas desapareceu, junto de alguns outros sintomas, que agora sim ficavam claros como frutos da aproximação de dois jogadores. Haviam se olhado nos olhos. Certamente seria levado a um campo. Poderia vencer? Com apenas três pedras, teria a chance de não terminar em coma após a partida? Vários pensamentos lhe cruzavam a mente. E então...
–Tenha mais cuidado quando andar por ai – Duo disse, irritado com o encontro – Ou pelo menos bata em algum poste ou coisa parecida – Ele completou, massageando de leve o ombro, onde a cabeça de Hélcias havia batido – Hey, não vai ao menos se desculpar?
–E-eh? – Hélcias estava estupefato. Nada acontecera. Não entrara em um campo. Será que Duo não trouxera nenhum deck consigo? Ou ele simplesmente não guardava mais rancor do que acontecera alguns dias antes? – D-Desculpe... – Ele disse, afinal. Por segurança, voltou a abaixar a cabeça. O acidente talvez tenha dado a Duo a primeira oportunidade, mas Hélcias certamente não planejava dar uma segunda, caso ele mudasse de ideia.
–Hunf, fala isso, mas já abaixa a cabeça de novo – Hélcias não sabia dizer se Duo estava irritado ou se ele apenas queria provoca-lo – O medo de acabar em um jogo é assim tão grande? – Duo perguntou, com um sorriso cínico. Hélcias não deu qualquer resposta – Eu imaginei... No final, não passa de um covarde assustado mesmo – Hélcias fechou os punhos. Aquela conversa o estava irritando, mas também estava assustado demais para fazer o que quer que fosse – Bom, não que precise se preocupar comigo. Eu não tenho nenhum interesse de causar uma retaliação daquela loja. Passar bem.
Sem mais palavras, foi Duo o primeiro a se mover. Ele se virou, fazendo menção de entrar na galeria. Neste momento, os olhos de Hélcias se arregalaram. Se por um momento ficara assustado demais mesmo para falar, agora sua razão ia voltando: se Duo planejava entrar naquela galeria, o mais provável era que ele estivesse se dirigindo para a Cards and Toys. Estaria precisando de alguma carta? Booster? Fosse como fosse, isso significava que Hélcias teria de aceitar a presença dele na loja?
Seu coração acelerou. Seria seguro ficar no mesmo ambiente que aquele sujeito, mesmo depois do que ele disse? Não seria mais sábio simplesmente esperar ele sair da galeria, e então ir até a loja? Sim. Isso parecia um bom plano. Certamente era mais seguro, no mínimo. Não era como se estivesse com pressa ou como se tivesse outros compromissos. Porém, enquanto pensava nisso, outro pensamento cruzou a mente de Hélcias, que fez seu coração disparar, ainda mais assustado.
–D-Duo! – Hélcias chamou, usando o pouco de coragem que tinha. Parando a alguns passos dele, Duo lançou um olhar para trás, como que perguntando o que era. Cuidadoso, Hélcias manteve o olhar no peito de Duo, evitando seus olhos – O que você... Veio fazer aqui?
–Ãh? – Duo virou-se por completo, encarando a Hélcias. A expressão parecia dizer que a resposta era obvia – O que mais eu faria aqui? Eu vim jogar, é claro. Lojas são sempre úteis para encontrar bons adversários.
–Como eu? – Hélcias perguntou. No final, o que temia era o certo. Ele fechou os punhos, dando alguns passos para frente, se aproximando de Duo – Adversários como eu, quando nos vimos na primeira vez? Está querendo... – “deixar alguém em coma?” Era o que ele queria perguntar, mas sabia que não podia. Não num espaço com aquele, onde havia várias outras pessoas por perto – Alguém com apenas uma pedra? – Perguntou, em um quase sussurro.
–E se for? – O tom de Hélcias, claramente desafiador, irritou bem mais do que surpreendeu a Duo – Vai fazer alguma coisa? Um covarde que nem consegue manter a cabeça erguida, vai fazer o que? – Hélcias ficou em silêncio – É, foi o que eu pensei. Agora...
–Isso não é certo, Duo – Hélcias se deixou falar. Não importa o quão assustado estivesse, dizia para si mesmo que não podia simplesmente ficar calado e deixar alguém arriscar a vida – Você... Você não tem o direito de jogar assim com as vidas das pessoas! – Hélcias fazia o possível para manter a voz baixar, tentando não chamar atenção.
–E quem é você para decidir isso? – A arrogância era clara no tom de Duo. Aquela conversa já o estava irritando para além do suportável – Se tem algum problema com o que acontece, fale com quem quer que tenha criado esse jogo. Eu só estou seguindo as regras.
–Qual é, um jumento pensaria numa desculpa melhor! – Com os punhos cerrados, a raiva que Hélcias sentia estava lentamente suplantando o medo. Indignação foi tudo o que aquela resposta cínica lhe fizera sentir – Não é como se fossemos obrigados a jogar. Se quer brincar com a vida das pessoas, tenha ao menos a decência de admitir o imbecil que é! – A voz já estava começando a se elevar, embora Hélcias tentasse se controlar.
–O que disse? – Duo deu um passo à frente. De imediato Hélcias se arrependeu de se deixar levar pela raiva. Ele certamente não estava em posição de fazer exigências, não importa o quanto discordasse das ações de Duo – Eu vou deixar uma coisa bem clara pra você. Você só está de pé ainda porque, como eu disse, eu não quero problemas mais do que já tenho. Mas toda paciência tem limites. Se ficar no meu caminho de novo, eu não vou hesitar mais, você me entendeu?
Hélcias não respondeu de imediato. Por um instante, amaldiçoou a si mesmo. Era só até ali que sua coragem podia chegar? Alguns xingamentos a uma distância segura? Ele próprio sentira o desespero que era ser levado para aquele mundo. Ele próprio ainda sentia uma ou outra dificuldade para dormir, lembrando as imagens das criaturas pairando sobre sua cabeça. E, mesmo assim, ele simplesmente acenaria com a cabeça e deixaria qualquer um que estivesse naquela loja correr o risco de ir parar numa cama de hospital? Era mesmo assim tão patético?
–Eu... Eu... – Com os punhos cerrados, Hélcias levantou a cabeça, olhando a Duo nos olhos. Uma mescla de medo e raiva se faz ia perceber em sua expressão – Não vou aceitar que você faça o que bem entender!
–Você... – A declaração deixou Duo de boca aberta. Entretanto, ele rapidamente recuperou a compostura, dando a Hélcias um largo sorriso de escárnio – Pois bem... Acho que não tem solução mesmo. Parece que vou ter que te mostrar o lugar de imbecis como você.
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