The Fênix
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Notas iniciais
The Fênix
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POV Nati
Luz e escuridão. Era essa a comparação que eu fazia da minha vida. Uma completa escuridão antes, e depois, a luz.
As agulhas eram o primeiro medo que eu enfrentava; o primeiro medo antes e o primeiro medo agora. Fazia duas semanas que eu entrei na paisagem do medo acompanhada de Tobias, mas, desde que entrei sozinha, os medos mudavam constantemente, menos esse. Eu sabia que isso era normal, era um medo que não podia ser superado, apenas enfrentado.
Depois dele, vinham os novos medos, mas Tobias, de alguma forma, sempre estava lá. Eu já não tinha medo dele, mas sim de sua rejeição, de pensar se ele teria asco de mim de alguma forma. Às vezes, quando nos beijávamos, eu o deixava livre; era um momento desconhecido, mas eu não tinha medo. Eu sentia medo da rejeição.
Ele não avançava muito e eu acabava sempre indo dormir no sofá. Eu só sabia que desde que comecei a passar as noites em seu apartamento meu sono melhorou, e para alguém que nunca tinha uma noite tranquila em toda sua vida, eu estava no céu.
Saí da sala. Já não havia mais terror, mas mesmo assim eu sempre ficava atordoada por saber que enfrentei aquilo tudo mais uma vez.
— Isso se torna um vício, sabia? — Disse Ray, que estava sempre me acompanhando em minhas visitas à paisagem do medo.
— Acho que há outras coisas a se viciar.
— Como o novato que você está treinando! — Ray havia adquirido um certo vício em observar meu novo iniciado.
— Ray, eu não te entendo. Uma hora diz que não quer sentir o que sente e depois muda de ideia.
— Sabe o que é? Meu pai. Ele sempre teve orgulho por eu ter seguido seus passos e sentiu mais orgulho quando eu adquiri este posto.
— Mas isso tudo não tem nada a ver. Se você estiver gostando de um novato ou uma novata, o que isso importa?
— Você sabe, eu sei, até o general sabe — você sabe que ele e o Amar, o comandante que foi viajar... Eles...
— Oh, bem, eu não os vi juntos, mas então? — insisti que ele me explicasse.
— Meu pai não é muito permissivo nesse ponto. Depois que ele soube do general, começou a reclamar de falhas na segurança, coisas bobas, simplesmente para justificar que ser diferente muda alguma coisa.
— Seu pai é um idiota se pensa assim. Mas enfim; parte de mim fica aliviada, pois achei que você... Sabe? Me olhasse de outra forma.
Ray deu uma gargalhada enorme.
— Não, não. Confesso que eu te odiei desde o início, mas isso foi porque eu tinha uma queda pelo prefeito. Eu sempre soube que mesmo ele estando sempre sozinho, o motivo não era sua opção sexual, tinha mais a ver com o luto. — ele parou, observando meu rosto — Esse luto pelo visto já se foi, não?
Ele me deu um cutucão.
— Digamos que estamos a caminho disso. Todavia, não quero que ele se esqueça da Tris; o amor que ele sente por ela não mudará. Se ele me der uma parte dele, qualquer que seja ela, eu já me sinto realizada.
— Que estranho... Enfim! Vamos, estou louco para treinar os novatos hoje, e veja se me deixa cuidar pessoalmente daquele em especial?
— Sim, eu deixo.
Fomos em direção ao centro de treinamento. Aquele foi um dos meus últimos dias bons, antes de tudo acontecer.
(***)
Eu não imaginava que seria pedida em casamento assim, dessa forma tão bela, e finalmente eu estaria completamente nos braços de Tobias.
Mas eu estava ali, em seus braços.
Tive muito por tão pouco tempo...
Fiquei diante de um impasse quando Tobias disse que estávamos sitiados pelos cientistas, os mesmos que me torturaram e mantiveram trancada minha vida inteira.
Mas eu não poderia arriscar perdê-lo, não podia arriscar uma guerra em que muitas vidas estariam perdidas.
Ao caminhar pelas ruas de Chicago, comecei a me lembrar de minha escuridão, a vida no laboratório, a época que eu era só mais um número.
Eu ainda sentia as mãos de Natali, a mulher que me criou em meio ao laboratório, alisando meu cabelo. Essa lembrança eu mantive por um bom tempo, pois era uma lembrança dos cuidados dela comigo.
Ela foi a única pessoa que me fez sentir humana até eu chegar a Chicago.
Fazia poucos dias que eu havia superado o medo de agulhas, pelo menos o suficiente para fazer alguns exames.
Cheguei a Caleb durante essa última semana...
Uma semana atrás
— Caleb?
— Natali, no que posso te ajudar?
— Eu não ando me sentindo bem e acho que deve ter algo de errado.
— Sempre há médicos a postos no Edifício Hancock que podem tratar de vocês da segurança.
— Não, eu prefiro aqui. Eu tenho medo de agulhas e não quero fazer escândalo, desmaiar ou algo desse tipo estando lá, em meio a meus colegas de trabalho.
— Entendo. Então vamos.
Sentei na cadeira de exames ainda sentindo medo, mas usei minha força de vontade e lutei contra ele. Foi uma vitória, mais uma coisa que ganhei em Chicago.
Hoje
A minha curta vida em Chicago valeu muito a pena, eu só não pude explicar a Tobias o porquê realmente de ele estar em minha paisagem do medo. E não tinha nada a ver com ele me mandar embora. Creio que mesmo antes de conhecê-lo ele já estava em minha paisagem, por mais que eu jamais fosse contar.
Antes de vir até Chicago, um dos últimos experimentos que fizeram em mim foi tortura mental. Eles colocavam o capacete em minha cabeça e me bombardeavam de imagens, porém, as últimas imagens eram de Tobias. Eu não sabia se os cientistas o conheciam ou se sabiam de algo; eles apenas me mostravam imagens dele e meu coração aos poucos ia ficando aflito. E por mais que fosse torturante, era a única parte de toda aquela tortura que eu achava que valia a pena, eu costumava imaginar que era minha recompensa.
Isso realmente mexeu comigo, e quando eu o vi e soube que ele se envolveu emocionalmente com Tris, fiquei obcecada por saber exatamente o que ele sentia por ela.
— Me diga: o que sente por ela?
Eu sabia a resposta, mas ouvi-lo falando era como se esmagasse minhas esperanças, eu estava prestes a desistir de tudo e voltar ao laboratório, mas depois a gente foi se apegando e tudo foi tão estranhamente natural...
Meus medos mudavam à medida que nos aproximávamos mais.
Rejeição, frustação, julgamento. Eu sempre tinha um medo voltado e referente a Tobias Eaton, eu ia me casar e carregar seu sobrenome, mas agora, agora eu voltaria a ser um número.
À medida que eu me aproximava dos limites da cidade — eu estava cansada, mas ia aguentar —, fiquei imaginando quanto tempo Tobias levaria para perceber o que eu estava prestes a fazer, se ele iria me alcançar e se conseguiria me segurar.
A sua imagem estava comigo e eu a levaria por onde fosse. Fui grata pelo pequeno momento que tive, eu poderia viver a vida inteira no laboratório e ninguém saber de minha existência, mas Tobias me deu a vida que eu nem almejava ter, me deu Christina, Ray, Zeke e todos aos quais me afeiçoei.
Cheguei próximo aos portões e observei de longe. Me escondi atrás de um dos muros de uma construção nova e observei a movimentação, eu sabia que a qualquer momento Tobias iria me procurar, então eu não teria muito tempo.
O lugar estava cheio de guardas, então eu teria que esperar. Eles eram os de mais alto escalão, usavam um uniforme preto e armas de grande porte, e foi então que lembrei que eu ainda estava com meu uniforme da segurança interna da cidade. O meu era verde escuro com colete preto que deixei no fosso, e ao colocar a mãos em minha cintura, constatei que a arma de choque ainda estava comigo, porém eu só teria uma chance. Nessa escuridão que o fim da tarde trazia, ou eles me segurariam e me entregariam a Tobias ou eu arriscava a levar um tiro, pois todos estavam em alerta.
Esperei algum tempo, um dos guardas entrou em uma cabine para atender um comunicador e o outro ficou ali, então andei abaixada até perto dele, cheguei por trás e soltei os fios da arma.
Dois condutores elétricos chegaram até a garganta do guarda, o desestabilizando e fazendo-o cair. Eu corri sem olhar para trás.
— Pare, senão eu atiro!
Não olhei para trás, eu simplesmente corri até chegar ao portão e então os tiros começaram. Se eu morresse também seria uma boa opção: os cientistas iriam embora e isso acabaria. De qualquer forma, eu não parei de correr.
Estava nas terras da Amizade e o guarda corria atrás de mim, ele parou de atirar, mas continuou correndo. Eu dei uma olhada para trás e ele se espantou, pois não me reconheceu no escuro. Claro que ficou confuso; uma mulher de uniforme da segurança, correndo sem parar e sendo perseguida... Quando olhei novamente, vi que ele apontava a arma para mim, e não erraria desta vez.
A luz forte de um carro brilhou atrás dele, estendendo aquele momento.
— Soldado, não atire.
Escutei a voz grossa e rouca que eu reconheceria em qualquer lugar
— Pelo amor de Deus, soldado! Eu dou um aviso de que minha namorada está sumida e você atira nela?!
— Eu... Eu não sabia.
Tobias me encarou e eu me virei de costas, voltando a correr.
Escutei o barulho do jipe voltando a andar e seria inútil minha fuga. Minha tentativa de me entregar aos cientistas seria e vão.
À minha frente, mais luzes se aproximavam; eram jipes e vans brancas. Eles frearam na minha frente, ao mesmo tempo em que Tobias freou atrás de mim, e eu estava no meio de dois carros com os faróis acesos.
— Nati, entre no carro agora.
— Não. Número Nove, eu sei que estava vindo para nós e estamos esperando.
Doutor Shay, o homem de meus pesadelos e medos. Eu reconheceria esse rosto e essa voz em qualquer lugar.
— O que o faz pensar que eu deixarei que a levem?
Tobias estava ao meu lado e segurou meu braço.
— O que pensa que estava fazendo? — Ele sussurrou em meu ouvido, mas pude sentir a raiva e preocupação em suas palavras.
— Salvando a cidade. — Olhei para Tobias, ele não estava com as roupas habituais que usava; estava como um soldado da Audácia, munido de armas, e segurava uma na mão direita enquanto a esquerda segurava firme meu braço.
— Isso não é salvar a cidade, é ser estúpida.
— Senhor Eaton, há tempos que não é um soldado, agora sei que é um representante dessa cidade e como tal, é responsável pelas vidas dentro dela.
— Temos muito potencial em uma guerra — Tobias falou friamente.
— Não duvido, mas como já mencionei, não sou um soldado e muito menos temos o potencial de armas que vocês têm. Porém, temos armas mais específicas.
— Tobias, me solta e deixe isso acabar. — Eu encarava seu braço e tentava ver seus olhos, mas ele não estava a fim de ceder, eu sabia disso.
— Ouça a Nove, ela não pertence a esta cidade. —A tranquilidade na voz do doutor era mais preocupante que a impetuosidade de Tobias.
— Você nos deu vinte e quatro horas, eu quero ter esse tempo com ela. — Eu senti a dor por trás das últimas palavras de Tobias.
— Não posso me dar ao luxo, sendo que a Nove está aqui, se entregando. Você pode persuadi-la e aí travar uma guerra. Eu não quero arriscar perder as vidas de meus cientistas, cada um deles é importante e creio que vai pensar muito bem. Olhe em volta: você tem uma infinidade de suprimentos aqui; plantações e fazendas. Isso serve para alimentar a sua cidade, Senhor Eaton. Uma palavra minha e pulverizamos um soro que acaba com tudo isso e a sua cidade terá fome.
— Plantamos de novo!
— Não se eu apagar a memória de vocês. Sem saber por onde começar, vocês matarão uns aos outros até que comecem a refazer algo.
— Tobias, escute-o. — Minhas lágrimas começaram a fluir, Tobias segurava meu braço mais forte.
— Não posso, não vou deixar que eles te levem de novo. — Ele falava agora para mim, era um tom de súplica.
— Deixe-a ir, Eaton, é o melhor. A cidade nossas armas podem não matar, mas elas farão um estrago em seu pequeno paraíso.
Meu coração acelerou. O medo de tudo... O medo de perder Tobias, de acabar com o que ele lutou para conseguir. Ele perdeu Tris para ter hoje essa cidade, ela morreu por isso e eu não posso estragar. “Reaja”, foi o que Tobias me ensinou. Meu medo. Eu tenho que reagir, ele não vai me perdoar nunca por abandoná-lo, mas é preciso.
Dei uma joelhada nele com força suficiente para soltar meu braço. Como não adiantou, dei um soco em seu rosto, as lágrimas estavam embaçando meus olhos; eu estava batendo no homem que eu amava.
Para me soltar de vez, saquei minha arma de choque, cravei em seu pescoço e saí correndo. Os soldados iam atirar nos cientistas e isso poderia ficar feio, mas vi o momento que, mesmo deitado no chão, Tobias fez um gesto com os braços e anulou o ataque.
Um dos cientistas me segurou.
— Não precisa, eu vou sozinha.
O Dr. Say fez um gesto com a cabeça, confirmando, e eu entrei sem pestanejar dentro da van.
— Você fez a coisa certa Nove, sempre soube que faria.
Olhei firme em seus olhos e cuspi em seu rosto.
— Você não sabe de nada o que é certo.
As portas da van se fecharam e eu desabei em lágrimas, minha pequena vida perfeita havia acabado e eu voltaria a ser o que sempre fui: um clone, um número, uma experiência.
(***)
A sala era branca e eu estava sentada em uma cadeira de frente para uma mesa. O espelho à minha frente mostrava que eu estava sendo observada.
Era uma sala de interrogatório. Lembrei-me de quando cheguei à cidade de Chicago e sempre fui observada, mas eu sabia que desconfiariam de mim de início e estava preparada. Porém, mesmo vivendo minha vida toda aqui dentro deste laboratório, eu não poderia imaginar o que me aguardava daqui para frente.
Eu poderia pegar a cadeira, virá-la e tentar me matar de alguma forma com os pés dela, mas seria em vão, eles entrariam pela porta e impediriam antes mesmo de eu me ferir gravemente.
Quando eu estava entediada o bastante, a porta se abriu. Meu coração saltou como se estivesse diante de um fantasma, e estava.
— Natali. — falei, ela estava ali, em minha frente, viva — Mas...
— Olá, Nove. Ou devo chamá-la de Nati? Confesso que fiquei impressionada quando você adotou meu nome.
— Você não estava morta?
— Você deveria acreditar nisso querida, me desculpe, mas foi preciso.
— Foi preciso?
— Bem, acho que agora nós podemos ser francas. Eu realmente gosto de você, Nove. Aliás, eu praticamente te criei, mas tenho uma função acima de meus sentimentos e eu tinha de cumpri-la.
— Você me ajudou a ver tudo e...
— Você precisava acreditar em um sacrifício por você, para poder acreditar no sacrifício da Tris.
— Eles sabiam que ela estava morta?
— Sim, foi lamentável isso. E por isso precisávamos de você forte, destemida e ninguém é assim vivendo apenas em um laboratório, então tínhamos que te dar um objetivo: Tris, eu e enfim... Tobias.
— Isso é ridículo! Eu posso muito bem arrumar uma forma de me matar e sabe disso, pois foi você mesma que me incentivou a usar esta chantagem, pelo que eu me lembre.
Ela sorria. Eu me lembrava de Natali sempre doce e gentil, ela me contava tudo e na verdade, estava me manipulando.
— Não vai, creio que não. Por meus estudos de seu psicológico, sei exatamente tudo que você pode vir a fazer e sempre estive certa.
Ela jogou uma pasta em cima da mesa.
— O que é isso?
— São as cópias de seus últimos exames. Você não se sentia bem e então foi ao médico fora da segurança, sendo sempre previsível. Isso só me facilitou o acesso, visto que a Audácia tem intensificado a segurança de seus dados, mas o hospital é território neutro e seus registros são mais vulneráveis.
— Você invadiu meus exames? Vocês estavam me observando?
— Cada passo. Eu achei que esse resultado iria demorar um pouco, mas felizmente, seus hormônios e os de Tobias estavam precisando de alívio.
— Tobias?
Antes de tentar entender o que ela estava dizendo, abri a pasta e observei vários exames. Eu estava com uma leve anemia, o que explicava minhas tonturas, mas quando cheguei a um dos exames, minha boca se abriu. Eu estava...
— Grávida...
— Sim, isso, Nove. Você completou o que foi fazer na cidade.
— Como assim?
Foi nesse momento que tudo começou a fazer sentido: a morte de Natali foi uma farsa para me dar um impulso para lutar, eles não me revelaram a morte de Tris e deixaram com que eu ouvisse sobre ter que fazer mais clones. Tudo era uma encenação, por isso ninguém foi de imediato atrás de mim, por isso eles queriam que eu engravidasse, mas porque lá?
Tobias era a resposta. Lembrei-me das sessões nos vídeos e as imagens dele sempre sendo repetidas. Eles estavam me fazendo gostar dele antes de conhecê-lo, induzindo a não temê-lo. Meu medo de Tobias era uma consequência por sua forma de agir, mas sempre foi temor de rejeição.
— Por quê?
— Não é óbvio? Tris, a original, morreu, então só poderíamos ter uma prole de você.
— Não isso, porque Tobias?
Ela sorriu e depois se levantou e começou a andar de um lado a outro. Sua predisposição a ele era evidente, mas havia outro fato, Tobias pode não ser Divergente, porém carrega o gene e, além disso, mesmo sendo um GD, ele consegue manipular simulações. Ele carrega a carga e isso o faz único, ele consegue desenvolver todas as características de um audacioso, altruísta, erudito e por aí vai. Verdadeiro e gentil é mais difícil, porém ele é perfeito para ser um progenitor.
— Mas existem formas de fazer isso sem ter que brincar com sentimentos.
— Não leve para o pessoal Nove, pense bem, as fecundações in vitro são mais arriscadas e geralmente perdemos muito material genético bom. Já uma fecundação natural, a natureza se encarrega de escolher o mais perfeito, sabe disso, o esperma mais forte prevalece, então temos uma fecundação com menos chance de falhar do que uma in vitro, e o melhor é que podemos estudá-la mais ainda.
O embrulho em meu estômago subia e eu sabia que nada tinha a ver com a gravidez; era nojo, repulsa por tudo isso que ela me falava.
— Você me enoja.
— Olha aqui; eu fiz tudo isso para seu bem.
Por um momento ela parecia a Natali que eu sempre achei que fosse.
— Como assim, por mim?
— Você viveu e eu sei que valeu a pena cada minuto. Eu te observei; você foi feliz, mas você não pertence àquele lugar.
Fiquei ali, ouvindo ao que ela me dizia. Ela tinha razão, eu fui feliz e eu não pertencia àquele lugar, mas não foi justo com Tobias.
Segurei em meu ventre. Eu ia colocar no mundo um pedaço meu e dele para quê? Para se tornar uma cobaia!
Respirei fundo, eu tinha que fazer algo a respeito, Tobias tinha que saber disso. Meus exames estavam lá na cidade, de alguma forma ele iria saber e então viria atrás de mim, mas eu não posso permitir isso, não posso permitir que ele se mate ou leve mais vidas sabendo que ele vai falhar.
— Sabe que eu repudio essa vida. Sabe que eu posso pôr fim em minha vida e na deste bebê sem dó. Sabe, pelo simples fato de eu poder não querer que façam com ele o que fizeram comigo.
— Veja bem, Nove, você sempre foi bem cuidada, bem alimentada, não vejo como isso não seja bom.
— Mas eu posso e sabe disso, vejo em seus olhos que tem medo que eu faça. Ainda mais porque os hormônios na gravidez fazem a mulher agir diferente.
Sorri. Ela estava ficando com medo.
— Creio que seus estudos não levaram em conta nada disso, coitada. Acho que alguém vai levar uma bronca dos cientistas, mas eu posso negociar e assim, posso não pôr fim à minha vida.
— Você pode ser controlada.
— Mas sabe que uma hora podem se descuidar... Um bisturi próximo demais a mim, uma agulha, um lençol... Sabe que tudo pode virar uma arma nas mãos de quem realmente quer se matar. E agora eu não vou sozinha, levo este bebê comigo, a não ser que negociemos.
— O que você quer?
— Tobias. Eu quero a garantia de que ele vai sobreviver.
— Acho que podemos lhe dar isso.
— Não é só isso. Ele não vai ficar quieto e você sabe disso, ele virá e, se souber do bebê, pior ainda. Isso vai ficar feio e sei que ele pode morrer, a não ser que se esqueça de mim, do que vivemos, desse tempo que passei na cidade.
— Isso é impossível.
— Não é. Eu sou inteligente, esqueceu? Eu sei que os estudos com os soros do esquecimento foram avançados, sei que ele pode conter um transmissor e você pode escolher que memórias retirar. Solte-o na cidade, apague da minha chegada até minha partida, isso não vai mudar muita coisa na vida deles.
— Você tem certeza disso?
— Sim, eu tenho. Ele não pode sofrer mais uma perda e ficar lutando em vão.
— Bem, vamos ver em que pé as pesquisas estão e se podemos fazer isso.
— Quero sua garantia.
— Sim, eu te dou a minha garantia.
Então seria assim: Cristina Zeke, Caleb, Ray, George e Tobias serão apenas lembranças em minha mente. Eu não existirei na memória deles e isso é o melhor, ninguém vai perder nada, pois eu nem sei quem sou. Um clone? Um número? Ou uma experiência?
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