The Four Kingdoms
29 Capítulo 28 - Somos traidores.
Notas iniciais
Eu não fazia a mínima ideia de como agir.
Travis estava chorando. Ele nem olhava para o meu rosto, apenas estava com o corpo morto de Helena em seus braços. Scarlett me olhava com um olhar repreensivo, como se eu tivesse feito o maior erro de toda a minha vida. Matt me olhava como se eu fosse um demônio em um corpo mortal, o que era certo. Pela a primeira vez na vida, ele estava um olhar de reprovação para mim, e também com nojo.
Eu me virei para trás, vendo novos rostos. Aaron estava usando uma apenas uma calça, e se apoiava em Roux, com um olhar repreensivo em seu rosto. Ele também parecia não acreditar no que tinha acontecido. Ninguém parecia acreditar naquilo.
Roux tinha o mesmo olhar que os outros. Repreensão, ódio e tristeza. Frustração também definia. Tão frustrada quanto um cientista ficava quando via a sua criação falhar miseravelmente.
Stephen e Blair estavam próximos de Roux e Aaron. Stephen era o único que não tinha nenhuma emoção negativa ali. Ele dava um sorriso largo, e estranhamente, feliz, como se adorasse ver aquilo. Aquele estúpido parecia ter adorado aquela cena tanto quanto uma criança adorava ganhar doces. Blair parecia frustrada, exatamente como Roux. Talvez porque a minha querida e amada mãe achasse que eu era uma pessoa que preste. Eu preciso admitir, foi a única coisa boa naquele momento. A frustração em Blair me fazia me sentir menos pior.
Bennett estava um pouco mais afastado de Stephen. Pela a primeira vez na vida, eu vi uma tristeza em seus olhos. Mas, ele nem olhava para mim. Parecia nem se importar com o fato de que eu fiz isso.
— Sua monstra! — Travis gritava entre o choro. Sua voz grossa estava bem rouca. — Você matou Helena!
Eu tentava não chorar e nem correr para longe.
— E-Eu sinto muito, eu só...
— Você a matou. — dizia Travis entre os dentes, com as lágrimas ainda caindo.
Fuja, fuja, fuja, eu pensava.
— Hector foi muito rápido, e-eu queria acertá-lo e...
— Você matou Helena. — disse Matt. — Era um plano, não? Você estava escondendo tudo durante esse tempo todo. Você fingiu o tempo todo que não estava no lado de Hector só porque queria matar Helena.
De todas as besteiras que Matthew já falou, essa conseguiu superar o nível de idiotice.
Mas as pessoas acreditavam.
— Faz sentido. — disse Scarlett. — Sam é quem se aliou a Hector na tentativa de derrubar o governo. Matar Helena era apenas uma parte do plano, não? Você achava que iríamos te perdoar.
— Vocês estão loucos? — disse. — Hector roubou a minha memória! Vocês não têm a mínima de ideia do quanto que isso ainda continua sendo doloroso pra mim? — algumas lágrimas caiam dos meus olhos, mas eu só demonstrava raiva. — Por que diabos eu iria trabalhar para um vampiro nojento e derrubar essa merda de governo? Se eu quisesse, eu mataria todos vocês agora e destruiria todo aquele governo americano em um piscar de olhos. E eu não preciso de ninguém pra me ajudar a fazer algo assim.
— Então você mataria todos nós, não é, Watters? — Matthew perguntou. — Você acabou de falar isso.
A raiva me consumia por inteiro. A tristeza também.
— Até você, Matthew? — perguntei. — De todas as merdas que você falou, essa se superou, não acha?
— Então você não nega? — ele perguntou. — Você não nega que mataria todos nós?
— Eu iria... — eu falhei. Eu não mataria Matthew. As lágrimas continuavam descendo. — Qual o seu problema, Summers?! Eu pensei que gostasse de mim!
— Eu sou um idiota. — ele dizia. — Eu só consigo ver isso agora. Você sempre tenta se parecer como se fosse a vítima da situação, quando na verdade você não é. Quando você vai perceber que só sabe deixar um rastro de destruição por onde passa, Watters? Você só sabe matar. Por que não se mata e termina logo com toda essa merda? — deu uma pausa. — Eu sinto nojo de você.
Eu queria não chorar, mas era algo impossível. As lágrimas já caiam do meu rosto e a única alternativa que eu tive foi de abaixar a minha cabeça, evitando de olhar nos rostos de todos ali. Por que eu não corria? Ainda estava paralisada demais para fazer algo. Além do mais, eu não tinha mais para onde fugir.
— Vocês querem saber de algo? — Bennett perguntou. — Eu que sou o aliado de Hector Kitter. Eu que quero derrubar o governo americano, não Sam. — deu uma pausa. — Sinceramente, Matthew Summers, você é tão ridículo que me enoja. Hector jamais faria parcerias com mortais como Sam Watters. Ela apenas odeia vocês, do mesmo jeito que odeia Hector.
— Sam Watters e Bennett Moore. — disse Roux, irritada. — Vocês dois acabaram de cometer traição ao governo. Eu lhes dou apenas um minuto para fugir o mais longe possível, porque iremos caçá-los. — deu uma curta pausa. — Sessenta segundos. Fujam, traidores.
Bennett correu em minha direção, puxou o meu pulso e saiu correndo. Eu não tive nenhuma escolha que não fosse segui-lo, mesmo que o meu corpo não pudesse fazer aquilo. Ele corria rápido, e por mais que eu também fosse rápida, eu não conseguia ser naquela hora. Eu queria correr para longe, mas não era algo possível.
Faltavam trinta segundos. Estávamos no meio de uma área destruída, exceto pelo o fato de que a antiga caminhonete de Bennett ainda estava ali, intacta. Ele abriu a porta da caminhonete, e de uma maneira totalmente desesperada, praticamente me jogou ali dentro. Ele foi para o banco do motorista, pôs a chave e começou a acelerar.
Cinco segundos. Um helicóptero vinha voando no céu. Era um helicóptero americano. Bennett conseguiu tomar no controle do carro e começou a dirigir, em alta velocidade. No helicóptero, uma porta estava aberta e desciam a escada, para socorrer os outros que ainda estavam ali. Eu vi o rosto do Sr. Webb.
Quando não nos faltava nenhum segundo, Bennett diria com muita velocidade, entre corpos de soldados e áreas destruídas. O cheiro de fumaça estava no ar. Aquilo parecia uma cena de filme pós-apocalíptico, o que me deixava mais triste ainda.
— E no final sempre é assim. — dizia Bennett. — Eu e você na caminhonete fugindo de algo.
— Eu não tenho mais catorze anos. — disse, agora sem chorar ou demonstrar qualquer emoção. — As coisas naquela época eram bem diferentes.
— Sim, eu sei. — disse Bennett. — As coisas mudaram muito.
— Por que está fugindo comigo? — perguntei. — Ou vai me levar para Hector de novo? — A expressão de Bennett mudou. Eu comecei a juntar os fatos. — Espere... Você odeia Hector.
— Eu menti. — disse Bennett. — Ou você acha que eu iria deixar aquele pirralho agir que nem um idiota e praticamente te fuzilar com palavras? Eu precisava fazer algo.
— Não fale assim dele. — disse.
Bennett revirou os olhos.
— É incrível o fato de que você só sente atração por idiotas. — resmungava.
— Como você? Ah, espere, eu nunca senti nada por você. — retruquei.
— Você só transou comigo para depois roubar o meu dinheiro. — ele disse. — Nunca tivemos nada.
— Finalmente você consegue enxergar isso. — disse. — E por que você não quer me matar agora? Eu matei a sua namorada.
Ele demorou um pouco para responder.
— Eu vi. — disse Bennett. — Eu só... — deu uma pausa. — Eu não quero falar sobre isso.
Depois dessa, eu não queria falar mais com Bennett. Uma sensação totalmente desagradável de nostalgia crescia no meu peito, me fazendo sentir como se tivesse catorze anos de novo. Eu ainda não sabia se aquilo era tão ruim quanto eu imaginava. Foi apenas a época que eu ainda dependia de Big J e vivia fazendo inúmeros serviços que ele me mandava pelo o país. Foi assim que eu me metia em grandes problemas. Eu conheci Bennett naquela época. As coisas eram menos piores, mas ainda era um ano ruim da minha vida.
Mas esse ano está se superando no sentido de ser ruim. Estava mais do que ruim. As coisas iam mais errado do que o normal. Tinha uma guerra acontecendo. Eu criei uma guerra. Era incrível que a cada ano que se passava, as coisas só conseguiam piorar.
E agora, que eu matei Helena, eu não acho que vá passar deste mês. Na verdade, eu sinto a impressão que estou vivendo a última semana da minha vida. Poderia soar de uma maneira totalmente dramática ou ridícula, como se eu fosse mais uma daquelas garotas que faziam drama por nada. Mas, pela a primeira vez, eu sentia como se não pudesse fugir ou fingir mais. Eu finalmente tinha me metido com algo muito perigoso.
The Owners, os Vampiros e o Governo Americano. Isso é puro suicídio.
Eu não poderia chorar. Jeff morreu. Helena morreu. Todos por minha causa. Parecia que alguma coisa dentro de mim sempre fazia que as pessoas que eu conhecesse acabassem morrendo. Ou eu as matava, ou alguma ação muito errada que eu fazia acabava interferindo na vida delas, causando a sua morte. Eu me sentia como se fosse um anjo da morte, já que em todo o lugar que eu passava, eu sempre deixava a droga de um rastro de destruição.
E isso dói até em mim.
Eu senti uma sensação de queimação na minha mão esquerda, como se eu estivesse em contato direto com o fogo. Eu movi a minha mão até o campo da minha visão, percebendo que isso não era só uma impressão minha. Palavras se formavam na palma da minha mão, como se alguém estivesse com uma faca bem afiada e escrevendo. Eu via a frase se formando lentamente, e a cada palavra, a dor ficava maior.
Quando parou de doer, as palavras também pararam de se formar. A sensação de queimação havia ido embora, e eu conseguia ver uma frase completa feita na minha mão.
Você. Sozinha. Bondi Beach. Fim.
– Kitter.
Eu olhei para Bennett, que estava dirigindo praticamente sem nenhuma direção, como se fugisse de algo. Ele nem pareceu perceber o estranho acontecimento na minha mão esquerda.
— Bennett. — disse.
— O quê? — perguntou.
— Dirija para Bondi Beach. — disse. — Rápido.
— Bondi Beach? — ele perguntou. — Eu não acho que possamos nos esconder em uma praia, sabe?
— Hector me mandou uma mensagem. — mostrei a palma da minha mão para Bennett. — Eu preciso terminar com isso.
Bennett leu a mensagem sem demora.
— Não! — disse. — Não, Sam, você vai morrer. Ninguém sabe do que Hector é capaz.
— Bennett, por favor... — eu pedia.
Ele revirou os olhos.
— Ok, sua vida, suas escolhas. — disse, mudando a direção do carro. — Mas eu acho que dirigir para a maior praia da cidade no meio de um caos não é algo muito fácil.
Ele aumentou a velocidade do carro, ignorando todas as regras de trânsito possíveis. Eu olhava pela a janela, e estava praticamente tudo destruído. Bennett entrou em uma rua, e agora eu conseguia ver alguma presença humana — nas últimas ruas só tinham cadáveres e explosões —, mesmo que pareça bem sofrida. Algumas casas estavam pegando fogo. Outras pareciam intactas, mas as pessoas pegavam seus pertences e colocavam em seus carros, tentando fugir para longe. Várias viaturas da polícia estavam estacionadas nas ruas, com alguns policiais “tentando” manter a calma. Era em vão. Isso sempre fazia as pessoas ficarem cada vez mais nervosas.
E tudo aquilo era a minha culpa.
Se eu não tivesse matado o General Rodriguez, provavelmente estaria em uma situação bem diferente. Os The Owners jamais teriam ganho muita força sem provas sobre os dominadores, e provavelmente seriam esquecidos como apenas mais um grupo de paranoicos. A mãe do Matt não teria morrido. Matt não teria perdido a sua mão. Jeff jamais teria morrido, e provavelmente, nós estaríamos juntos. Eu não teria matado Helena. Hector não teria ganho tanta força como tem agora. A Área 51 jamais teria sido destruída. Seria uma história bem mais diferente e talvez um pouco menos triste.
Talvez o meu maior erro fosse o meu nascimento. Eu não seria uma dominadora de água e o mundo não iria parecer que gira ao meu redor caso eu não existisse. Eu não teria matado a minha família, e o meu irmão ainda estaria vivo, sem ter se transformado em mais um daqueles vampiros nojentos. Nada disso teria acontecido. Não teria guerra. Estaria tudo como sempre fora.
Eu precisava acabar com Hector, ao menos eu tinha que fazer alguma coisa boa nessa vida. Um milhão de erros, eu acho que está na hora de ao menos ter um acerto.
— Eu acho que a lei não vai gostar muito disso. — dizia Bennett. — Mas eu preciso bancar uma de GTA e fazer umas manobras aqui.
A rua estava lotada de pessoas em pânico, policiais, viaturas e carros. Bennett dirigia com toda aquela velocidade, passando por todo mundo e buzinando. Seria uma coisa engraçada se eu não estivesse tão para baixo.
Não demorou muito tempo para que eu chegasse para Bondi Beach. Foi só uns quinze minutos. Pela a primeira vez na vida, aquele lugar estava vazio.
Era como se a morte batesse na minha porta durante anos e eu finalmente resolvesse abrir. Não importa o quanto eu queira isso, ainda não estava preparada.
— Vá. — disse Bennett.
— Quando eu morrer... — dizia. — Ninguém vai se lembrar, ok? Faça com que ninguém se lembre de mim.
— Por quê? — perguntou Bennett. — A maioria dos mortais costumam a querer o contrário.
— Você sabe muito bem que eu nunca fui da maioria. — disse. — Eu sou uma dominadora, assassina, loba e ainda não sei o que significa uma fração. Isso não é muito comum.
Ele revirou os olhos.
— Isso é por acaso alguma forma que você encontrou de aliviar essa culpa? — perguntou.
— Eu não sinto culpa.
— Você matou Helena. — disse Bennett. — Ela era uma dominadora muito importante. Talvez você esteja se culpando por isso.
— Ela era sua namorada. — disse. — Era pra você me querer morta.
Ele suspirou.
— Eu já estou morto, Sam. — dizia Bennett. — Eu não posso reclamar da morte. Eu sou a morte. — deu uma pausa. — Mas você ainda está viva. Ainda tem todo o direito de agir como uma idiota sobre a morte.
— Todos morrem. — disse. — Eu acho que isso já se tornou tão comum que nem me importo mais.
— Você faz ideia de quantas pessoas que eu conhecia e amava morreram? — perguntou Bennett.
— Você faz ideia de quantas pessoas inocentes e que eu gostava tive que matar? — retruquei. — Quem será o próximo agora? Matthew? Eu não quero correr mais esse risco.
— Aquele pirralho se virou contra você na primeira oportunidade. — disse Bennett.
— Ele perdeu a mão e perdeu a mãe por minha causa. — disse. — A morte de Helena foi apenas algo que o fez acordar sobre mim. Ele demorou demais para perceber isso.
— Nenhum deles realmente conhecia Helena. — disse Bennett. — Travis só queria transar com ela, e vivia usando toda aquela desculpa ridícula de paixão. Matthew era um falso. Nenhum deles tem o direito de estarem tristes com a morte dela.
— Você... — disse. — Você ama Helena.
— Sim, eu ainda amo Helena. De verdade. — disse Bennett. — E agora, olhe para o que aconteceu. Ela morreu. Como todos.
— Eu a matei! — eu aumentei o meu tom de voz. — Não custa você sentir um pouco de raiva de mim agora?
— Eu não posso. — ele dizia, com um olhar um pouco para baixo. — Saia do carro. Se quer se suicidar matando Hector, ficar discutindo comigo aqui não vai te ajudar muito. — deu uma curta pausa. — Vá.
Eu abri a porta da caminhonete.
— Eu sinto muito. — disse. — Por Helena.
— Está tudo bem. — disse Bennett. — Eu sou imortal. É normal isso acontecer.
— Eu o vejo no inferno, Bennett Moore. — disse. — Quando o governo americano te matar, eu tenho certeza que você estará lá.
De alguma maneira, eu tinha conseguido tirar um sorriso de Bennett.
— Eu não vou demorar muito para morrer. — disse Bennett, ainda sorrindo. — Nos vemos no inferno.
Eu saí do carro, fechando a porta.
— Helena vai estar no paraíso. — disse. — É melhor você aceitar Jesus antes que o governo te mate.
— É tarde demais. Eu vou pro inferno de qualquer jeito. — ele falou.
— Nos vemos lá.
— Eu te amo, Sam Watters. — disse Bennett.
— Você sabe muito bem que eu não me dou bem com amor. — disse.
— Nem eu. — disse Bennett.
Aquela foi a minha última conversa com Bennett Moore.
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