The Forest City
44 Capítulo 44 - Eternizadas
Notas iniciais
– Ai — resmunguei mais uma vez quando Yukina apertou impossivelmente ainda mais o espartilho do meu vestido.
Agora, o motivo de ela ter escolhido um vestido com espartilhos… Talvez nem a própria saiba até hoje.
Claro que Yukina não havia dito mais nada sobre sua irmã aracnídea.
Mas ela havia me contado uma história sobre deuses, inspirada em elfos.
“Os Guardiões da Floresta mais antigos são conhecidos até mesmo no mundo humano. São os deuses primordiais, servidos pelos gregos, romanos, egípcios, japoneses, nórdicos e entre outras civilizações. As mitologias que você leu quando criança, Selene, todas elas tem um poço de verdade. Cada deus tem sua especialização. E cada raça tem seus próprios mitos em relação à esses deuses mais antigos e conhecidos.
Para as feiticeiras, esses deuses são apenas fontes de energia e poder emprestado. Elas não acreditam ou se prendem a um só.
Para as bruxas, estão conectados à toda forma de vida dos mundos. Nós servimos a um deus por toda a vida, e assumimos o risco de traí-lo para servir a outro. É como uma aliança formada.
Para os dragões, são bobagem. Mas dizem que se há alguém que sabe sobre a localização exata da forma física desses deuses ou os viu, são eles.
Mas para os elfos, é um enigma. Na mitologia grega, há diversas vezes em que um elfo aparece no mito e se relacionam com os deuses, mas hoje em dia a raça élfica se cala perante isso.
Todas as raças do mundo estão conectadas aos deuses, Selene. Acredita-se que é a raça mãe, que os anjos e demônios se relacionaram e essa raça surgiu antes da humanidade, e que eles criaram as outras raças. Os mais antigos, claro. Os mitos.
Claro que cada raça tem seu orgulho e nega ter tido um criador. Mas a verdade é que se há uma coisa em que as bruxas estão certas é: os deuses estão conectados à toda forma de vida humana ou não.
Sei que parece confuso eu lhe dizer isso depois de ter dito que os deuses são desprezados, mas é a verdade. Eles são desprezados porque alcançaram algo além da imortalidade, algo que é invejado pelos que são incapazes de chegar lá.
Há uma teoria de que não só nephilins conseguem alcançar a divindade. O fator que influencia isso não é a linhagem sanguínea provinda de anjos, e sim algo mais misterioso do que isso.”
Com tudo aquilo, eu buguei, minha mente deu um nó.
Eu sabia que Yukina queria que eu pensasse sobre o que ela havia dito e provavelmente, ela achava que se eu me esforçasse entenderia. Mas eu ESTAVA me esforçando e NÃO ESTAVA entendendo nada.
– Não fique no mundo da lua, Selene — Yukina disse fazendo beicinho e cruzando os braços — é um dos nossos grandes dias!
– Um dos? — perguntei arqueando a sobrancelha.
– Sim! Haverá mais uma oportunidade pra se vestir um vestidão desse, se é que me entende — ela disse e deu uma piscadela, alisando a saia gigante do meu vestido cinzento de tule.
Eu estava parecendo uma noiva cadáver muito bonita. Meus cabelos estavam brilhando com seus diferentes tons de loiro e soltos, e meus olhos bicolores estavam quase adoráveis considerando que não estavam sendo escondidos pela franja.
– Eu não sei se… É uma boa ideia usar um vestido tão… — comecei a dizer.
– Maravilhoso? — ela tentou completar animada.
– Exagerado — completei e torci o nariz.
Ela suspirou.
– Eu te garanto que a sala toda estará “exagerada” — ela disse para me confortar — foi o combinado!
Dei de ombros e cocei o ombro, atraindo a atenção de Yukina para o local.
Os olhos dela brilharam em um tom esverdeado maligno e eu apoiei o peso do meu corpo em outra perna, incomodada.
– O que foi? — perguntei sem conseguir me conter.
– Você tem alguma tatuagem, Selene? — ela perguntou com voz doce e pensativa.
Neguei com um aceno de cabeça, com medo de que se eu abrisse a boca dissesse algo que a incentivaria a fazer estupidez.
– Então está na hora de ter uma! — ela gritou animada e da gaveta do seu quarto lilás, tirou um pequeno livro com gravuras estranhas e o folheou.
Ela foi passando de folha em folha até parar em uma e a encarar pensativamente.
– O que acha disso? — Yukina perguntou e me mostrou o que tinha na folha.
Era uma página completa de desenhos da lua e dicas de como aproveitar as fases para fazer diversos feitiços.
– Eu vou tatuar feitiços no meu ombro? — perguntei cética.
– Não, tapada — ela respondeu num suspiro impaciente — olhe para a ultima lua.
Fiz o que ela pediu e me perdi numa lua cheia. Era hipnotizante. Como se ela crescesse e invadisse minha mente. Como se ela fosse a definição do que sou em um desenho e devesse ser parte de mim.
Eu podia ver diferentes imagens em movimento nos contornos daquela lua, como se cada cratera fosse algo diferente, imponente.
– Eu quero fazer essa — sussurrei sem me dar conta.
– Quer? — Yukina perguntou, sem conseguir esconder a surpresa.
– Sim, eu quero — respondi, dessa vez com certeza.
Ela me encarou, piscando os olhos pequenos e puxados, mas logo se recuperou do choque.
Murmurou algumas palavras e passou a mão no meu ombro. Arqueei a sobrancelha para lhe perguntar o que estava fazendo, mas uma dor equivalente ao sentimento de ter meu ombro sendo repartido ao meio me atingiu e tive de ser segurada por Yukina.
– No nosso mundo, tatuagens são presentes — ela explicou, me olhando de forma carinhosa — não é apenas um desenho.
Franzi o cenho sem entender e ela riu.
– O desenho é feito com magia, mas há algo mais por trás disso — ela explicou — algo que você tem que escolher com cuidado.
– O que você colocou em mim? — perguntei desconfiada, tentando soar desinteressada.
– Você é verdadeiramente influenciada pela lua, Selene, como se fosse um fragmento dela aqui na Terra — ela disse, me encarando séria — e agora, eu sou uma bruxa metade gato.
– E…? — perguntei impacientemente.
Ela sorriu.
– Gatos amam a lua tanto quanto lobos, sabia? — Yukina deu de ombros — sempre que chamar por mim, eu vou aparecer, vou ser invocada. É o feitiço que eu lancei na tatuagem, meu presente pra você.
Fitei a tatuagem, impressionada. Tinha ficado realmente muito bom no meu ombro, e parecia absorver a luz da lua que estava nascendo, pela janela do quarto. Além disso, agora tinha um valor sentimental. Era uma parte de Yukina comigo o tempo todo.
– Significa que estaremos sempre juntas — pensei em voz alta sem querer e logo corei.
Os olhos de Yukina brilharam em fendas esverdeadas e felizes.
– Sim — ela disse com voz embargada de emoção e me puxou pelo braço para fora do quarto com uma força incrível — agora vamos pro baile, Cinderela!
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