The Forest City
33 Capítulo 33 - "Animada"
Notas iniciais
Depois de “fazer as pazes” com Daniel, voltei para casa, antes que meu pai pirasse de vez. Ele já estava na porta, me esperando e batucando o a maçaneta enquanto tirava paciência de seu âmago.
– Desculpe, pai — pedi com um olhar suplicante — Yukina e eu fomos correr.
– Desde quando você pratica esportes? — ele perguntou totalmente desconfiado.
Suspirei e murmurei que deixaria de ser uma sedentária, fazendo-o gargalhar e me puxar para dentro de casa.
– Amanhã teremos neve — ele anunciou enquanto tirava o prato de lasanha do microondas.
– Traz lembranças — eu disse encarando a lâmpada no teto.
Ele depositou o prato na minha frente e esperou que eu terminasse de comê-lo.
A porta se abriu e o vento gelado invadiu a casa.
– Raios, eu odeio inverno! — Coraline gritou enquanto tentava fechar a porta sem fazer tanto barulho devido ao vento.
Levantei a cabeça e segurei uma gargalhada. Ali estava a irmã da Rainha de Gelo, dizendo que odiava inverno.
Coraline me fuzilou com o olhar por saber exatamente do que eu estava rindo e abriu a geladeira para procurar seu tão amado suco de tangerina.
– Onde esteve durante o dia todo? — ela perguntou bebendo da caixinha.
– Selene agora pratica esportes — meu pai disse anda achando graça daquilo.
Minha tia semicerrou os olhos e depositou a caixinha de suco no balcão com força.
– Que ótimo, correrei com você também — ela sorriu sombriamente.
Algo me dizia que o conceito de “correr” dela era totalmente diferente do meu.
– Ah — murmurei enquanto levava o prato na pia e o enxaguava — legal, estou indo dormir, beijo.
Depositei um beijo na bochecha do meu pai, que estava com os cotovelos cheios de espuma e sabão em pó e abracei Coraline antes de subir a escada e tomar um banho.
Lembrei de como fora o meu dia e repassei tudo em minha mente como um filme. Já estava me arrependendo de ter dito aquelas coisas para Daniel. A vergonha que não senti ao dizer para ele me conquistar me dominou naquele momento e minhas bochechas queimaram como nunca.
Suspirei e terminei de me banhar, para logo depois eu me jogar na cama. Me revirei diversas vezes até encontrar uma posição confortável e continuar a divagar.
Não fazia ideia de porque Daniel tinha ficado tão bolado com o que eu dissera. Adormeci tentando adivinhar, e devo dizer que foram tentativas frustradas. Era impossível para mim acreditar que ele retribuía meus sentimentos, então simplesmente descartei a ideia e o sono me venceu.
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Ultimo dia de aula. Era aquela a definição do dia. As férias de inverno estavam debaixo do meu nariz e a sensação era… maravilhosa. Até eu me lembrar dos planos de Seth e Coraline de me treinar durante as férias toda. Na neve.
Bufei e me sentei na cadeira, aguardando a professora que parecia estar fazendo cosplay de Lolita gótica começar a falar. Qual era a daquela roupa preta cheia de babados?
Yukina se senta ao meu lado com um desânimo anormal, considerando que… Bem, que ela é ela.
– O que aconteceu? — perguntei apoiando minha cabeça na mão direita e fazendo contorcionismo no pescoço para enxergá-la.
– Nada — ela respondeu e forçou um sorriso.
Franzi o cenho e resolvi deixar para lá. Se ela não queria se manifestar, provavelmente era algo que ela podia resolver. Se não pudesse, eu estaria ali e Yukina sabia daquilo. Não iria me intrometer.
– Aula livre — a Lolita que deveria ser uma professora anunciou — ultimo dia.
A sala desatou a conversar. Não que as pessoas já não estivessem conversando antes. A fala da professora simplesmente fez com que o botão “aumentar volume” fosse pressionado.
Incrivelmente, Yukina não tagarelou. Ela tentou puxar algum assunto mas tudo parecia se perder no ar. Revirei os olhos.
– Desembucha — eu disse batendo na mesa e me virando para encará-la direito.
Yukina pulou, como se eu tivesse interrompido seus pensamentos. O que provavelmente era o caso. Pensou um pouco e mais um pouco, até por fim suspirar e abrir a boca para dizer.
– Amanhã é meu aniversário e Daniel não me deixa fazer festa lá em casa — ela resmungou e cruzou os braços.
– Só isso? — perguntei gesticulando para que ela continuasse se tivesse mais coisa.
– Como assim “só isso”? É um aniversário importante para mim! — ela disse exasperada.
– Devo perguntar quantos anos? — perguntei arqueando a sobrancelha.
Ela sorriu e jogou a cabeça para trás, numa gargalhada mais do que sonora. Certo. Aquilo era um “não”.
– Que tipo de pessoas você pensa em convidar? — perguntei semicerrando os olhos.
– Bom… alguns amigos da Cidade Floresta e amigos humanos — ela murmurou e começou a contar nos dedos.
Suspirei. Aquilo seria uma zona.
– Você não pode misturar as coisas — eu disse me aproximando dela — não tem como uma festa para humanos ser divertida para imortais e vice e versa.
– Você acha? — ela perguntou desconfiada e desapontada.
– Tenho certeza de que seria um caos — resmunguei imaginando a cena.
– Ah — ela murmurou — droga.
– Se você organizar essa festa de forma que atenda a só um tipo de convidado, tenho certeza de que Daniel vai reconsiderar — eu tentei tranquilizá-la.
– E se ele não reconsiderar? — ela cruzou os braços.
– Farei o que você está pensando em pedir e cederei minha casa — respondi e comecei a rabiscar o caderno.
– Você faria isso? — ela começou a saltitar na cadeira — Sel?!
– Se, e somente SE a festa for para humanos — eu sussurrei erguendo o dedo indicador para dar ênfase — meu pai piraria se soubesse que estou me relacionando com o outro lado.
– Certo! — ela gritou chamando a atenção dos outros alunos e me abraçou apertado.
– Eu preciso de oxigênio — resmunguei fazendo-a me soltar.
– Você poderia ficar responsável pela playlist de músicas? — ela perguntou ignorando minha falta de ar.
– Certo, certo — resmunguei e voltei a terminar meus rabiscos.
– Então comece já — ela cruzou os braços — a festa é amanhã e quero tudo perfeito.
Deixei o lápis cair.
– O quê?! — perguntei em um tom de voz alto demais.
A sala se virou para me encarar e eu me encolhi. Daniel arqueou uma sobrancelha do seu lugar, mas provavelmente já sabia o que estava se passando. Semicerrei meus olhos para ele, em sinal de que ele deveria deixar de ser xereta e ele simplesmente sorriu. Meu interior virou uma verdadeira bagunça, mas ignorei. Revirei os olhos e me perguntei onde estaria Seth para me acalmar naquele momento.
– Meu aniversário é amanhã e eu não quero a festa em outro dia — ela explicou batendo na mesa de leve a cada palavra.
A cada ordem, melhor dizendo.
– Certo — resmunguei e arranquei a folha de rabiscos, deixando-a de lado na mesa e comecei a pensar em músicas para a festa — vai ter tema?
Os olhos de Yukina brilharam com a pergunta e imediatamente me arrependi de tê-la feito.
– Boa ideia! — ela apertou meu braço numa animação impossível de se conter — o que sugere?
Suspirei e pensei enquanto batucava a mesa com o lápis.
– Bom, considerando que EU SEI que você vai chamar alguém que não é humano além de Daniel, Seth, provavelmente Liam e eu… — comecei a encarando com um olhar acusador — coloque um tema de fantasia, sei lá. Sendo assim, se coisas estranhas acontecerem não vai dar tanto na cara e ninguém vai começar a se questionar.
– Você nasceu pra ser minha amiga — ela resmungou ainda saltitando na cadeira.
– Apague esse fogo na bunda — resmunguei de volta e voltei à minha lista de músicas.
– Que cor eu faço a decoração? — ela divagou.
– Temos a tarde toda para resolver isso — tentei me livrar.
Iria para casa assim que saísse da escola. Só assim eu me safaria de escolher decoração. Digamos que eu não era expert nessas coisas.
– Você vai tentar fugir — ela acusou fazendo beicinho.
Congelei na cadeira e pensei em métodos de negar.
– Cores — ela exigiu e cruzou os braços, com a cabeça levemente inclinada para o lado.
– Certo — murmurei — que tal vermelho e preto?
Pensei que ela fosse protestar e fazer careta, dizendo o quão cafona era aquilo, mas ela aprovou.
– Ei, ei — chamei — você vai aceitar tudo o que eu disser??
– Claro — ela disse como se fosse óbvio — estamos fazendo isso juntas, não estamos?
Um sentimento de culpa avassalador me atingiu e com os olhos arregalados, assenti. Voltei à minha lista de músicas enquanto Yukina listava suas próprias escolhas na ultima folha de seu caderno e falava sozinha sobre que vestido usar. Suspirei.
Tinha uma festa de aniversário inteirinha para organizar em menos de um dia, para uma feiticeira-gato com suspeitos anos de idade.
E com certeza tinha que me preparar mentalmente para os imprevistos que os penetras dessa festa causariam. Algo me dizia que seriam muitos.
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