The Forest City

11 Capítulo 11 - Vencida


Acordei com um peso em cima de mim. Tentei virar o corpo numa posição mais confortável pois o sol lá fora ainda estava fraco. Tudo o que consegui foi me mover alguns milímetros e abri os olhos devagar e irritada.

– Como você é gorda — resmunguei empurrando Yukina que caiu no chão em gargalhadas.

Qual era a graça em ser chamada de gorda e ser empurrada? Franzi o cenho e vi que ela não exatamente caíra no chão frio e duro de madeira. Havia um futton confortável ali.

– Você fala enquanto dorme — ela cantarolou como se eu tivesse dito algo que não deveria.

Respirei fundo, decidida a não ser curiosa quanto aquilo. Umedeci os lábios como sempre faço quando tento encontrar paciência ou estou focada em alguma coisa e arrumei a franja.

– A propósito, sua irmã passou aqui mais cedo e deixou isso — disse ela me entregando uma caixinha embrulhada cuidadosamente.

Arqueei uma sobrancelha em ar questionador. Ela deu de ombros, não sabia o que era. Desconfiada, peguei a caixa com o menor contato físico possível e desfiz o laço laranjado e chamativo.

Dentro, havia uma pequena lanterna em forma de pingente num colar. A mini-lanterna realmente pegava: um faxo de luz fino e comprido surgia quando eu apertava o botão. Era parecido com um laser, mas a luz era branca. Franzi o cenho.

– Talvez você venha a precisar algum dia — Yukina deu de ombros mais uma vez — nunca se sabe.

– Ou talvez eu tenha uma irmã com sérios problemas mentais — revirei os olhos e coloquei o colar.

Levantei-me e fiz minha higiene, sendo arrastada escada abaixo por Yukina. Ela estava faminta e eu devia confessar que sentia o mesmo.

O cheiro dessa vez não era de bacon com ovos. Nada de bacon. Na bancada lustrosa se encontravam pilhas e pilhas de panquecas de diversos sabores. Não pude evitar de abrir a boca indignada. A essa altura do campeonato, eu não devia estar surpresa. Revirei os olhos e sério, andava fazendo tanto isso que a qualquer momento eles iriam permanecer revirados.

Yukina pulou e bateu palmas. Ouvi ela mencionar algo sobre como ela amava as com cobertura de morango. Me sentei na mesa e esperei até Daniel voltar da despensa e dizer que o café estava pronto. Seth surgiu rapidamente e ocupou a cadeira ao meu lado, me dando um "bom dia" acompanhado com uma piscadela.

O café foi tranquilo. Você até poderia dizer que todos ali eram humanos se não fosse o fato de que todos eles tinham uma fome nada humana. E lá estava eu novamente pensando naquilo. Curiosa em relação aquilo.

Frustrada com isso, finquei o garfo num pedaço de panqueca que restou enquanto eu ajudava Daniel a limpar a cozinha. Ele franziu o cenho e tirou os objetos pontudos da minha frente.

– Qual é o problema, Selene? — ele me perguntou baixo para que só eu pudesse ouvir.

Mas será que os outros não podiam ouvir também? Mesmo ele estando falando baixo? "Se acalme Selene! Não fique paranóica!", ordenei a mim mesma.

– Nada — grunhi terminando de limpar a mesa.

Ele puxou meu braço e me fez olhar para ele. Sua voz que geralmente era desprovida de qualquer emoção que não fosse tédio, agora estava séria e preocupada.

– Pode me contar qualquer coisa — ele disse num tom carinhoso.

– Está tudo bem — respondi me desvencilhando dele — não tem nada pra eu contar.

– Selene, está passando Anjos da Noite! — chamou Yukina — tem uma Selene no filme também!

É claro que tinha e eu já sabia disso. Era meu filme favorito.

– Sério, está tudo bem — me dirigi a Daniel — só estou frustrada.

Joguei o pano de prato que estava comigo em sua direção e ele o pegou no ar por reflexo, mas estava aturdido. Fui correndo para a sala e encontrei Yukina com seu futton e com uma baciada de pipoca doce.

Ela só podia estar usando da mais negra magia pra me fazer ficar próxima dela.

– É meu filme preferido, obrigada por chamar — eu disse baixinho enquanto me sentava no futton e roubava um pedaço de açúcar derretido.

– E seu tipo de pipoca favorito — ela piscou.

Não perguntei como ela soube. Talvez eu não gostasse da resposta ou simplesmente estivesse me acostumando à ter perguntas não respondidas.

Quando tentei mudar para uma posição mais confortável, me sobressaltei ao constatar que Seth estava ao meu lado. Tão perto, me olhando com um sorriso debochado e com as mãos atras da cabeça. Bufei.

– Nunca mais faça isso — resmunguei cruzando os braços.

– Ou o quê? — ele perguntou e um calafrio passou por mim.

– Ou nada. Só não faça isso — respondi olhando irritada para ele.

Ele riu baixinho e criando coragem, o empurrei para o que deveria ser "longe". Mas praticamente não saiu do lugar. Ele teria voltado para a posição de onde o tirei (ou pra mais perto), se Daniel não aparecesse na sala e estivesse encostado no batente da porta, observando com atenção. Ele parecia um guarda-costas. Quase ri desse meu pensamento.

– Você é bem fraca pra uma elfa — ouvi Seth resmungar decepcionado e congelei feito uma estátua.

Ou melhor, congelei como se minha mãe estivesse ali.

Daniel desencostou do batende da porta e cerrou os dentes. Yukina deu um tapa na cabeça de Seth e deu um sorriso fraco como se dissesse "ops, desculpem pela bobagem que ele acabou de dizer, pessoal". Tudo isso definitivamente provava que o que Seth acabara de dizer era verdade. Ou quase isso. Absurdo! Rangi os dentes. Cutuquei um fiapo da minha calça jeans rasgada no joelho e acabei enlarguecendo ainda mais o buraco. Assim como minha paciência e resistência pra toda aquela coisa de magia acabara de ir pro limbo.

– Imbecil — rosnei e fui para o... "meu" quarto.