The Fired Prophecy
9 Sendo irritante
Notas iniciais
P.O.V. Lira
Acordo calmamente, confusa. Não tive sonhos essa noite. Sento e bocejo. Olho para o lado, Zorah não está na cama. Olho para a janela; está chovendo.
E frio, penso.
Deito de novo e puxo as cobertas para a altura da boca, me encolhendo num casulo quentinho. Fecho os olhos, na esperança de dormir novamente.
Não consigo, obviamente, porque Zorah sai do banheiro num estardalhaço de gritos e batidas de porta.
–Acorda! Acorda, sua preguiça em pessoa!
–CALA A BOCA!
–Deixa de frescura, Luz do Dia! Levanta dessa cama!
–Não me chame de Luz do Dia, Cabeça de Prata! – digo rabugenta.
–Então não me chame de Cabeça de Prata! – ela responde, sorrindo.
Eu paro e sorrio:
–Você sabe que isso não vai acontecer.
Rimos e jogo as pernas para fora da cama. Dormi de calças essa noite para não morrer de hipotermia. Esfriou muito rápido. Ontem estava uma temperatura agradável, porém estranhamente quente para um fim de novembro. Mas esfriou demais.
Estremeço e noto que Zorah também sentiu com força o frio. Estava usando as mesmas botas que usou ontem, calças jeans, uma blusa azul clara que parece ser de mangas compridas, mas não posso dizer, pois está usando aquele casaco de couro que tanto adora.
Corro para o armário, pego as minhas roupas e disparo para o banheiro. Escovo os dentes, tomo uma ducha quente e me visto.
Assim que saio do banheiro, vejo que Zorah está no mesmo lugar que a deixei, olhando para o nada. Dou uma risadinha e vou para frente do espelho: uma camisa vermelha por baixo de um casaco de lã branco, uma calça jeans preta e botas UGG cor de caramelo. Ótimo.
Estalo os dedos na frente dos olhos de Zorah para ela acordar e pego minha mochila, enquanto Zorah levanta pesadamente e faz o mesmo.
O dia passa devagar, mas minha hiperatividade nunca descansa, então não paro quieta um segundo.
Na hora do almoço, Zorah não para de olhar por cima do ombro enquanto come a gororoba azul.
Engulo a gororoba verde com uma careta. Ela tem pedacinhos verde-claros dentro, o que me faz pensar que é aquela bênção que sai do nosso nariz quando ele escorre e os pedacinhos são o que pessoas desagradáveis cutucam.
–Eca – digo em voz alta.
Zorah estremece, voltando ao mundo.
–Você parece distante hoje... – afirmo – Digo bem distante.
Ela acena a cabeça e continua mexendo a “comida”.
–Zorah? – chamo, agora preocupada.
Ela não responde. Paro e penso. Então uma ideia me vem à cabeça e deixo escapar um sorrisinho.
Encho uma colher com a gororoba verde e levanto os olhos para Zorah. Ergo a colher até a boca, mas paro. Fico cinco segundos nessa posição, entro em ação e PLAFT. Zorah tem uma mancha verde em sua cara.
Ela arqueja e arqueia os braços, em choque. Ela olha para mim mortalmente:
–Você não fez isso... – ela sussurra.
Encho outra colher, mas ponho essa na boca, sobrancelhas erguidas e um sorriso, orgulhosa, admito.
Ela se levanta e eu largo a colher, de olhos arregalados. Sou corajosa, mas morro de medo de uma Zorah furiosa. Quem não morre?
Levanto e recuo devagar, como se estivesse presa numa jaula com um tigre. Não é uma situação muito diferente. Continuo recuando até que o tigre – digo, Zorah – avança. Corro refeitório abaixo, fugindo desesperadamente. Não sei o que ela pretende fazer comigo quando me alcançar – o que vai acontecer, Zorah é mais rápida do que eu.
Chego à porta e ela ainda está correndo. Não hesito e a empurro, continuando a correr, sempre olhando para trás. Desvio das pessoas nos corredores com agilidade, com movimentos engraçados, graças ao basquete. Não posso dizer o mesmo da fera atrás de mim. Zorah tenta desviar das pessoas, mas não consegue e esbarra em todos, criando uma onda de exclamações e xingamentos, mas acho que não sabem exatamente que somos nós. É uma escola de desajustados e delinquentes, sempre tem esse tipo de correria.
Viro nas curvas, desvio de pessoas e portas abrindo, corro escadas abaixo, sempre com um objetivo: fugir.
Chego aos meus “domínios”: o ginásio. Empurro as portas com força e corro até o meio da quadra. Só percebo a presença do professor quando me apoio em meus joelhos, ofegante.
–Goldberg? – ele chama.
–Sim, professor? – respondo, com a respiração pesada. Sinto duas gotas de suor escorrerem: uma na testa e outra pela têmpora.
–Ahn... – ele olha em volta – Do que está... correndo?
Não respondo, porque as portas se abrem abruptamente e Zorah, ainda com vestígios de verde no rosto, surge. O treinador olha, confuso, para a garota.
Faço um movimento com a mão gesticulando “Disso...”.
–Você me paga, Goldberg! – ela exclama e dispara na minha direção.
Eu não fujo, estamos num lugar vazio e espaçoso, acho que posso tentar contê-la.
A visão de Zorah é tão bizarra que o professor recua três passos, olhando dela para mim.
Eu me endireito, ainda ofegante, e espero ela chegar até mim. Quando isso finalmente acontece, ela me derruba. Um gemido escapa dos meus lábios antes que eu possa contê-lo, seguido por um riso rouco. Não pude evitar, era uma situação engraçada.
Zorah sai de cima de mim e se levanta, me encarando no chão, franzindo as sobrancelhas.
–Do que você está rindo? – ela pergunta, com as mãos na cintura – Era para você estar com dor.
–Ah, Cabeça de Prata, eu estou com dor. Um alce ficaria com dor.
O professor soltou uma risadinha. Nós olhamos para ele: eu com um sorriso e Zorah séria, com uma sobrancelha erguida.
Gosto desse professor. Apesar de sua aparência séria, ele parece ter a mentalidade de um adolescente.
Tem cabelos pretos, sempre ocultos por um boné com o símbolo do colégio. Parece ter uns quarenta e poucos anos. Usa o mesmo estilo de roupa o ano inteiro: calças e casaco da escola, sobre uma camisa sempre diferente. Tênis de corrida e apito no pescoço. Enfim, típico professor de Educação Física/treinador em geral numa escola de pessoas problemáticas.
Eu sento com outro gemido, o que faz Zorah sorrir. Nenhuma de nós estava espantada pelo fato do professor não ter me ajudado. Ele já treinou times piores.
–Sabe, Pearl... – ele cruza os braços – Já pensou em jogar futebol?
Os ombros dela caem e ela diz:
–Não sou muito de esportes...
Ele olha para mim, em busca de confirmação. Aceno a cabeça.
–Ahn, OK, se vocês já terminaram, o sinal já vai tocar – nesse segundo, ele toca – Vão, não querem se atrasar.
Zorah me ajuda a levantar e eu dou uma risadinha com a situação. Eu que, geralmente, a ajudo a levantar, simplesmente porque ela tem muita preguiça. Andamos em direção à porta, não muito preocupadas em chegar atrasadas.
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