The Fire
3 Capítulo 2 - Morto
Notas iniciais
– Ryan... Acorda... – Sussurrou Tyler enquanto bocejava e se sentava na cama dele. – Já tá na hora do treinamento.
– Hm... – Reclamei morrendo de sono. Treinar praticamente todos os dias e quase dez horas cansa. – Deixa esse ser aqui dormir...
– Sabe que não pode ruivo. – Sorriu de leve e pegou a espada, já saindo do quarto.
Atualmente, era raro ver Tyler sorrir de verdade. Não que ele já sorria muito antes, muito pelo contrário, ele nunca foi de sorrir. Mas agora... Parece que ele mudou. Está diferente. Ele mal se relaciona com pessoas sem ser eu e a Karuta. Respirei fundo e me levantei, quase me arrastando e troquei de roupa. Peguei minha espada e saí pro campo de treinamento. Sorri ao me lembrar de que logo teria minhas asas. Esse Rolth tem minha eterna gratidão.
Depois de algumas horas treinando e aguentando a Karuta no meu pé falando que eu era mole e totalmente sem precisão, ouvi murmúrios do treinador com o comandante. O nome do Yuuji foi citado e instintivamente liguei o sorriso. Ele havia desistido de comemorar o aniversário dos filhos e fez minha asa em uma noite? Será que... Eu teria a asa ainda hoje?!
Aproximei-me para ouvir a conversa.
– Ele precisa saber... – Sussurrou o treinador – Ele tinha prometido algo ao garoto.
– E ele cumpriu. Ele já tinha a asa pronta, só faltavam às medidas certas, Yuuji só acrescentou algumas penas. – Suspirou – Mas nem vai poder entregar ao novato...
– Uma pena. Ele era muito amigo seu não é comandante?
– E agora está morto.
M-morto?! Como... Como assim?! Acabei tropeçando em uma adaga e caí com tudo no chão, fazendo todos olharem pra mim.
– Opa. – Sorri amarelo e me levantei. Arrumei as coisas meio desengonçado quando senti alguém vindo e me ajudando. – Não precisa me ajudar Karuta...
– Eu sei. – Ela disse – Mas eu quero.
– Como quiser... – Sorri de leve olhando de relance pra mesma. Às vezes ela tinha uma aparência tão angelical. Todas as garotas caçadoras eram mais agressivas e com traços de guerra. Ela tinha a pele tão suave quanto algodão e os olhos eram tão lindos e... No que raios estou pensando?!
– Acho que o diretor quer falar contigo. Ele não para de olhar pra cá.
Suspirei e olhei pro mesmo, andando na direção dele.
– Ouviu?
– Sim. – Sussurrei olhando pra baixo – Ele...
– Fez sua asa. – Dane-se minha asa. Winter... Winter deve estar péssima! – Venha comigo.
– Quero ver a Winter. – Sussurrei – Minha asa pode esperar.
– Era amigo da pequena Rolth?
– Só me leve até ela. – Olhei pra ele. Como o mesmo não me respondeu saí correndo.
Corri pelo local e logo ouvi as sirenes de fugitivo sendo soadas e aumentei o passo. Por sorte Karuta havia ensinado a mim e ao Tyler todas as passagens secretas e rotas de fuga. Corri em direção a uma parede e empurrei uma estátua pro lado. Vi a abertura e entrei, a estátua moveu-se sozinha tapando e deixando tudo escuro.
Suspirei e fiz uma de minhas mãos produzir leves chamas para iluminar o ambiente. Caminhei pelo corredor cinza, totalmente sem reboco e com algumas teias de aranha. Eu sei como é perder sua família. Apesar deu saber que meu pai está vivo, eu sinto como se tudo além desse mundo tivesse morrido pra mim. Eu entendo a dor que ela está sentindo e de alguma forma quero ajuda-la.
Saí no meio da floresta, sem saber onde eu estava. Ótimo Ryan, você nunca saiu daquela droga, como raios pensa em achar a casa dela? Casa não, castelo. Winter é uma princesa. Corri pela floresta, sem a mínima noção por onde seguir quando ouvi alguns passos. Andei devagar até uma árvore e fiquei escondido. Uma garotinha de cabelos rosa caminhava ao lado de um garoto, ela estava levemente vermelha e gaguejando. Sorri de leve. Ela parou de andar do nada e olhou na minha direção e institivamente me escondi novamente, ouvindo “não é nada”.
Eles saíram falando alguma coisa de um tal de Rolth que havia morrido e comecei a segui-los.
– Pelo menos agora seu pai vai ficar mais tranquilo. – Ela sorriu – Dois Rolth’s a menos.
– Meu pai vai é me matar por que os filhos ficaram vivos... – Murmurou o garoto – O castelo fica pra lá não é?
Vi ele olhando pra uma direção com tristeza nos olhos. Será que... O pai dele... Não. Não tenho tempo pra pensar em possíveis assassinos. Corri pelo caminho que ele olhou e cheguei aos portões gigantescos do reino. Não me deixariam entrar. Até por que eu estou totalmente sujo de teias de aranha e terra. Respirei fundo e virei uma água de fogo, e sobrevoei o reino.
Ele parecia ter sido muito alegre, mas não havia muitas pessoas nas ruas e as poucas que tinham, estavam com um semblante triste. A morte do rei havia realmente acabado com a alegria deles. Cheguei ao castelo e entrei numa janela, a única aberta. E pra minha sorte, lá estava a azulada, sentada na cama, encolhida e chorando. Virei humano.
– Winter... – Sussurrei.
– Sai. – Ela disse entre soluços. – Não quero ver ninguém. — Aproximei-me e sentei na ponta da cama. A abracei de lado, mas em compensação levei um empurrão que me fez cair da cama. – EU QUERO FICAR SOZINHA! – Gritou entre lágrimas – Por que é só isso que vou ter daqui pra frente! Droga Ryan! Entenda...
– Eu entendo... – Sussurrei me levantando – Sei o que é perder tudo. Winter, não é fácil superar. Não é fácil e talvez nunca supere. Mas vai ter que aprender a conviver com isso.
– Mas dói... Dói muito... – Disse se encolhendo. Aquela garota cheia de alegria e fofura que eu conheci ontem havia sumido completamente. O semblante de felicidade e a aura boa que ela passava sumiram completamente. Seus olhos estavam com tristeza e ódio. – Não... Consigo... Confiar em ninguém...
– Pode confiar em mim. – Sussurrei a olhando. Mas ela ficou em silêncio.
Eu nunca mais soube se ela superou.
Eu nunca mais vi nela, o que eu vi no dia que a conheci.
Eu nunca mais, vi a verdadeira Winter Rolth.
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