Deveria ser meu primeiro dia na faculdade, e Evelyn está estragando tudo. Mamãe suspira e ergue os olhos para o céu, enquanto eu bato na porta suavemente. De novo.

— Eve? Por favor, Eve! Olha, se você sair, prometo que te levo pra conhecer o campus, só nós duas, que tal? — Digo, fingindo ânimo. Não quero mesmo fazer isso, mas Eve sempre surta quando nossos pais focam um pouquinho em mim, o que quase nunca acontece por que ela é o "bebê milagroso" e eu fui "a última alternativa".

Quando os Bates me adotaram através de uma agência de adoção chinesa, minha mãe estava com quase quarenta anos e sem esperanças. Quando eu completei dois anos (meu primeiro aniversário nos Estados Unidos!), milagre dos milagres: ela engravidou.

— Promete? — Evelyn funga através da porta.

— Prometo. — A porta se abre e minha irmãzinha sai, limpando o restante das lágrimas com as costas da mão. Minha mãe a guia para a entrada de carros, afagando suas costas. Observo as duas se afastando, os cabelos igualmente avermelhados e a mesma pele pálida e tendo sufocar o pequeno caroço de ciúme que nasce em mim.

São três horas de carro até o Lenox College, uma faculdade modesta no norte da Califórnia, e meus pais quase não falam durante o trajeto, nem Evelyn, que, depois de seu pequeno drama, se contenta em cochilar no meu ombro. Claro que chorar tanto a deixou cansada.

Observo a paisagem pela janela do carro, árvores e casas passando rapidamente e penso "finalmente".

Tenho dezenove anos. Passei um ano inteiro trabalhando como garçonete pra poder pagar a matricula e boa parte das despesas dos próximos quatro anos. Claro que meus pais poderiam me ajudar, mas o sonho de Evelyn é estudar em Yale e se ela não conseguir uma bolsa com o futebol, bom... Yale é um pouquinho mais cara do que a Lenox. Então abaixei a cabeça, trabalhei e fiz um empréstimo com uma boa taxa de juros por ano.

Finalmente chegamos, e meus pais começam a, subitamente, falar sem parar. Vejo minha mãe sorrindo, mas olhando nervosamente para os prédios envelhecidos e sem graça (nada de tijolinhos a vista ou hera graciosa nas paredes!), como se algo pudesse morde-la. Meu pai carrega meus pertences e minha mala.

— Caramba, garota, você trouxe os tijolos lá de casa? — Ele reclama, mas ri e me afasta quando eu tento carregar alguma coisa. Estou de mãos dadas com Eve, e observo os outros jovens ao meu redor, alguns acompanhados de toda a família, outros sozinhos, carregando malas e caixas e sinto um frio na barriga.

Meus pais levam minhas coisas no meu novo quarto (um quadradinho minúsculo com só uma cama, uma cômoda e uma cadeira meio capenga — mas só meu!) e arrumam tudo caprichosamente, por insistência da minha mãe, enquanto eu saio para explorar o lugar com uma Evelyn, que parece quase feliz, ao menos até a hora da despedida, quando ela gruda em mim e nem a promessa de várias ligações por dia a faz soltar. Devo ser um espetáculo e tanto, com a minha irmãzinha de quinze anos grudada em mim, em prantos.

— Evelyn, que tal você deixar a Annie ir se ajeitar... E a gente passar em um shopping na volta? — Evelyn funga em meu pescoço (nojento eu sei), e finalmente me solta. Aceno enquanto meu pai dá partida e sai do estacionamento, e fico observando seu carro sumir de vista.

Não são nem sete da noite, mas já me sinto cansada. Ouço uma explosão de risadas atrás de mim e me retraio.

Não sinto que minha vida começou, de forma nenhuma.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.