The Fifth Gift.
1 Sonhos são a janela para o futuro
Notas iniciais
fico triste por não ter continuado ao meu lado na jornada dessa escrita mas agradeço por sua amizade.
Acordo assustado incitado a pedir ajuda. Abafo o grito com minhas mãos, me levanto rapidamente apalpando meu tórax procurando o ferimento que havia me matado. Nada. Meu corpo está trêmulo, perco o equilíbrio caindo de joelhos no chão, me apoio na cama enquanto o suor escorre pelo meu rosto.
Ofegante me levanto e corro até a janela, abrindo- a com força, uma brisa de inverno entra e ao tocar meu corpo o gela por inteiro dando assim ênfase na sensação de morte que rondava minha imaginação, inclino-me para fora da janela, pois cada célula presente em meu ser me dizia que eu deveria fugir, apoio meu pé no parapeito olhando para baixo vislumbrando o chão à metros de distância, então olho para o céu cinza.
Estou pronto para pular, entretanto por um descuido, meu pé escorrega do parapeito me fazendo cair para trás por cima de minha escrivaninha que estava encostada à parede bem abaixo da janela, rolo para o chão junto com tudo o que estava sobre ela. Urro de dor ao perceber que uma caneta estava cravada na lateral do meu corpo no espaço entre as duas costelas mais baixas do lado esquerdo.
Seguro a caneta com minha mão esquerda, ajoelhado no chão, e com força puxo-a para fora, mordo minha outra mão para aguentar a dor sem gritar, o sangue escorre ao chão como um rio vermelho e viscoso com alguns tons de azul provenientes da caneta, coloco minha mão sobre o ferimento e digo.
—Uro— fumaça começa a sair dentre meus dedos sinto toda a região coberta pela minha mão queimar, retiro a mão de cima do ferimento, agora cauterizado e digo – Sanitatum— e o ferimento se cura por completo sem deixar uma marca sequer.
Repito o mesmo procedimento de cura em minha mão direita ensanguentada e com marcas de minha mordida, olho ao redor ainda assustado e sou atingido por um pensamento.
—Era tudo um sonho! – Digo me levantando e recolhendo os itens que haviam caído da minha escrivaninha, coloco todos sobre ela novamente, me viro para o espelho preso a parede ao lado da porta de meu quarto- Um estranho e vivido sonho. -Digo caminhando em direção ao espelho tentando focar em minha imagem e deixar minha mente assimilar o que era real.
Piso em meu sangue ainda no chão, recuo com um sentimento primitivo de repulsa, então estico meu braço e coloco minha mão aberta acima da pequena poça e com um simples movimento semicircular com o pulso colocando minha palma para cima, todo o sangue evapora em uma fumaça vermelha e se dissipa no ar, fecho minha mão e a janela também se fecha tornando o quarto obscuro como de costume.
Olho novamente para o espelho e me espanto, pois, o reflexo presente ali não era meu, era de uma garota de estatura média com cabelos alaranjados e longos que passavam seus ombros, aparentemente ela não estava me vendo, pois, seu rosto estava virado para baixo, mirando as pontas reluzentes de seu cabelo enquanto o penteava, de repente a jovem olha para o lado como se alguém estivesse batendo na porta, seus lábios se movem de forma graciosa como se dissesse. – Já estou saindo! -.
A garota volta seu rosto para frente e eu finalmente posso ver sua face.
—Ela é linda- Penso, enquanto olhava admirado para seu rosto jovial e formoso, perfeitamente simétrico onde parecia que cada detalhe em seu todo formasse a definição do que era belo no mundo, com sua pele branca e bochechas rosadas, até mesmo suas sardas próximas ao nariz pareciam ter sido colocadas ali de uma forma perfeitamente calculada.
Seus olhos verdes vieram de encontro aos meus, fico sem reação enquanto ela gritava completamente assustada ao perceber que eu estava ali, eu não podia ouvir seus gritos, mas pela sua feição apavorada podia claramente ver que ela também não sabia o que estava fazendo no meu espelho.
A garota fecha seus olhos como se quisesse acordar de um pesadelo e quando os abre novamente demonstra em seu rosto o pavor por não ter “acordado”.
Ainda sem conseguir pensar no que fazer digo.
— Quem... quem é você? – Falo dando um passo à frente.
A garota apavorada atinge algo que estava a sua frente, fora do meu campo de visão, com o punho e meu espelho se estilhaça e se espalha pelo chão.
Me afasto em um pulo enquanto todos aqueles pedaços altamente cortantes de vidro corriam pelo piso do quarto.
— O que está acontecendo aí em cima? – Grita minha mãe do andar de baixo.
— Nada! – Grito balançando minha mão fazendo com que os pedaços de vidro se aglomerassem e se juntassem novamente – Fix! – Digo e no mesmo instante todos os pedaços voltaram a parede formando novamente meu espelho.
A porta se abre e minha mãe entra como se a casa estivesse pegando fogo e sendo assaltada ao mesmo tempo, segurando uma colher de pau erguida sobre a cabeça.
—Mãe... eu disse que estava tudo bem-Disse sentado no chão ao lado da cama com a mão na testa fazendo a melhor feição de dor que eu podia.
— Que barulheira foi essa? – Disse ela abaixando a colher, porem mantendo seu tom de voz ameaçador e assustado.
— Eu caí da cama, só isso! – Disse abrindo um sorriso envergonhado, que na verdade era de nervosismo, pois não conseguia pensar em algo melhor.
—Mas eu ouvi duas vezes, um agora e outro mais cedo. – Disse ela regulando seu tom de voz.
—Err... Eu caí duas vezes, foi isso! – Digo meio desesperado.
—Ah... -Diz minha mãe desconfiada. – Tudo bem, se levante e desça para o café em família.
— Tudo bem, já estou descendo!
Minha mãe sai do quarto deixando a porta aberta como um sinal de que eu não deveria demorar a descer, me levanto e fecho a porta, e como de costume checo todo o quarto para ter certeza que ali não havia nenhum indicio de que em algum momento magia era praticada no local.
Uma das minhas obrigações como o único bruxo de uma linhagem inteira de humanos é mantê-los longe desse mundo que não os pertence, ainda mais quando existem caçadores atrás de mim.
—Apenas um quarto humano.... Com coisas humanas. – Digo a mim mesmo.
Troco minhas roupas em minutos e me preparo para descer e tomar café com minha família, quando de repente antes de abrir minha porta escuto vozes vindo do outro lado.
—Ele estava no espelho! – Dizia a voz feminina — El.… ele estava me observando de alguma forma – Continuou em um tom assustado.
Aproximo minha cabeça da porta tentando ouvir melhor o que era dito.
—Você tem certeza do que viu?— Disse outra voz feminina, parecida com a anterior, porém mais firme. –Você só perdeu o controle das suas formas de novo.
— Aquele não era eu!— Disse a voz feminina que antes era mais delicada, mas que transitava rapidamente a um tom grave e masculino – Esse sou eu!
Abro minha porta em um solavanco tentando surpreender quem estivesse do outro lado, minha mãe grita assustada enquanto passava pelo corredor.
—Mãe? –Digo surpreso- Era a senhora falando?
—Falando? — Disse ela tão surpresa quanto eu- Do que você está falando, eu só estou indo chamar seus irmãos... sabe, aqueles que dormem no quarto no fim do corredor.
—Ah... claro – Digo confuso- deve ter sido coisa da minha cabeça, ainda estou com muito sono.
— Eu acho que você bateu a cabeça forte de mais, isso sim – Disse ela indo em direção ao fim do corredor.
Fecho a porta do meu quarto. Agora do lado de fora parado de pé no corredor do segundo andar, escuto minha mãe chamar meus irmãos para o café, um por um, os vejo saindo correndo do quarto e passando por toda a extensão daquele corredor com paredes cinzas e um carpete egípcio marrom, que minha mãe tinha muito apego por ser uma herança de família –Uma marca do nosso passado- dizia ela.
Ao passarem por mim todos dizem em um coro sincronizado em um tom eufórico, que não combinava com aquela manhã estranha, até mesmo para mim.
—Bom dia ”irmãozão”!
—Bom dia baterias! – Digo em tom brincalhão.
Minha mãe me lança do fim do corredor um olhar de reprovação por usar esse apelido nos meus irmãos.
—Porque sempre os chama assim?
—Por que como reais baterias eles estão sempre cheios de energia e se por acaso se encostam um nos outros de modo errado dão ”choque” e acabam brigando.
Ela faz uma cara séria e diz.
—Você tem razão- diz ela sorrindo- Venha, vamos comer.
Desço a escada para o andar de baixo, atravesso a sala de estar e entro na cozinha onde todos estavam sentados em uma mesa de madeira retangular, me sento na extremidade sul como de costume enquanto meus irmãos se dividiam entre as laterais, dois de cada lado como sempre e minha mãe na extremidade norte. Nossas manhãs possuíam uma simetria perfeita.
Após a autorização da minha mãe, todos atacaram o café. Panquecas passavam de mão em mão até chegar em seu destino calda espirrava por todo canto devido ao descuido de meus irmãos, todos estavam felizes e despreocupados apenas curtindo aquele momento em família.
— Segura sua panqueca Kyle! – Disse minha mãe da outra ponta da mesa arremessando uma panqueca como se fosse um disco.
Agarro ele ainda no ar e coloco sobre meu prato aceno com a cabeça em sinal de agradecimento e digo a um dos meus irmãos que estava a minha esquerda.
— Me passe a calda por favor.
Ele pega o pote com seus dedos melados e me entrega sem dizer nada pois estava com a boca cheia de comida.
—Merci! – Digo casualmente.
Meu irmão me olha com estranheza.
—Que?
—Eu... disse – digo percebendo que o que havia saído da minha boca não era a palavra que eu pensei. – Disse obrigado, você não ouviu?
Meu irmão me encara por alguns segundos e dá de ombros voltando a devorar suas panquecas.
Após o café me despeço de todos com um grande sorriso, me dirijo a porta pego meu casaco no cabide e abro a porta, mas antes que pudesse dar o primeiro passo sou questionado por minha mãe.
—Onde vai tão cedo? – Pergunta minha mãe da cozinha – Sua escola só abre daqui uma hora.
— Preciso chegar mais cedo hoje mãe – digo – Preciso encontrar uns amigos antes do horário para decidir com iremos apresentar um seminário na semana que vem.
— Tudo bem então. Tenha cuidado, te amo!
Saio pela porta vestindo meu casaco típico de inverno que logo se alonga se tornando um sobretudo negro, o sorriso que eu mostrava em casa logo some e minha feição se torna dura, olho para aquele pequeno condomínio com suas ruas vazias.
— Odeio ter que sair mais cedo para verificar a proteção! – Digo a mim mesmo.
Desço a pequena escadaria da entrada e logo posso sentir a barreira de energia posta ali por mim.
Parado em frente à casa estico meus braços para cima como se estivesse me alongando e digo.
— Praesidium.
Uma corrente elétrica percorre meu corpo das pontas dos meus pés até os dedos, assim que atinge as pontas dos meus dedos essa corrente libera uma carga que faz o campo de força ao redor da casa se mexer como uma onda no mar, runas ocultas brilham por todo o perímetro da casa.
—Tudo em ordem. – Digo olhando para frente, como se nada estivesse acontecendo, me viro e começo andar pelo condomínio passando em frente as casas podendo ver de suas janelas as famílias juntas e felizes como a minha estava.
—Porque não consigo sentir isso? – Penso – Essa alegria na companhia de todos... foco Kyle, você precisa entender tudo o que aconteceu essa manhã, o sonho, a garota no espelho e as vozes.
Paro por um instante, olho para o céu e digo.
— E eu acho que você também falou francês hoje.
Saio de meu condomínio e vou andando até minha escola refletindo sobre o que eu havia sonhado, me perguntando – por que eu sonharia com minha morte? — Quando dou por mim percebo que já estou em frente à minha escola.
Paro em frente ao portão de grade branca ainda trancado, olho para o céu tentando determinar a posição do sol.
—Ainda são sete e quarenta e cinco da manhã- digo me sentando no chão encostado no muro da entrada – Ainda faltam quarenta e cinco minutos.
Enfio a mão no bolso do meu sobretudo e retiro dele um caderno de anotações cinza, abro e olho para suas páginas inteiramente brancas.
—Revelabit— Letras surgem no papel como se estivessem sendo escritas naquele exato momento.
Feitiços e encantamentos agora totalmente visíveis a mim naquele pequeno Livro das Sombras.
Os minutos passam depressa enquanto eu escrevia os acontecimentos não naturais daquela manhã, de repente um gato de pelo acinzentado e olhos azuis como o mar se aproxima de mim e encosta sua cabeça em minhas mãos.
—Olá! – Digo.
O gato sobe em minhas pernas e olha dentro dos meus olhos, fico petrificado com o que via, era como se a íris do gato se mexesse em ondas, fico vidrado por alguns segundos quando sou trazido de volta a realidade com a chegada do zelador da escola que abria o portão da escola, assim que perco contato visual com o animal ele sai correndo para entre os prédios da região.
— Desde cedo na porta, Kyle? – Diz o zelador.
— Acontece. – Digo entrando na escola rapidamente. -Abscondet— recito enquanto fecho o Livro e observo suas palavras sumirem.
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