The Feeling

2 II – Winter Soldier


Dois dias se passaram, e Kath abasteceu seu apartamento com tudo que necessitava, como também comprou algumas peças de roupa para ter um pouco mais de variações enquanto não conseguisse um lugar maior para ter um guarda roupa. Ao deixar uma de suas músicas prediletas tocar nos autofalantes de seu computador de mesa, ela ajeitava o modelo de uma nova arma em sua pequena mesa digital, pois o espaço ali era um tanto limitado.

Estava bastante distraída no que fazia, já que se sobressaltou ao ouvir duas batidas em sua porta. Franzindo o cenho, se ergueu da cadeira estofada e andou até a porta, vendo quem era pelo olho mágico antes de abrir uma fresta da mesma.

Correio para você. — Informou a idosa que morava no térreo antes de lhe entregar um pacote quadrado e pequeno. Mesmo desconfiada pelo que poderia ser, a loira o pegou.

Obrigada. — Kath agradeceu antes de empurrar a porta e rasgar boa parte daquela caixa para ver seu interior, paralisando quando identificou o caderno de capa preta sem qualquer símbolo. Estava com um agente da HIDRA tal objeto, a não ser que... — Puta que pariu. — Jogando os pedaços rasgados de papelão sobre a cama, ela começou a folheá-lo com extrema atenção e, por cada página que passava, mais ela recordava do caderno vermelho.

E com o caderno, vinha o maldito Soldado Invernal direto à sua mente, fazendo-a sentir pena por alguém ter sido usado de maneira tão cruel por um ser semelhante a todos dentro daquela organização. A loira tinha um coração dentro de seu peito, afinal. Coração este que era a única parte frágil de todo seu corpo.

Sacudindo a cabeça, ela resolveu esconder aquele caderno junto com outras coisas essenciais, como uma mochila para fuga caso fosse necessário. Nunca se podia prever o dia de amanhã, não é mesmo?

Estava prestes a fazê-lo quando outras batidas soaram em sua porta, e Katherine acabou perguntando-se sobre o que caralhos estava ocorrendo quando um bilhete passou pela porta. Bilhete que só poderia vir de uma única pessoa dessa parte da cidade. E a criança era muito sua amiga.

Ao pegá-lo do chão, o leu com extrema atenção antes de fazer qualquer coisa:

"Há um homem novo no seu prédio. Ele é muito estranho, não parece saber o significado de sorriso. Tem um braço bem curioso. Juro ter visto brilhar quando apareceu o pulso."

Seus olhos se dirigiram à porta e, antes que percebesse, estava próxima a mesma, abrindo-a apenas o suficiente para conseguir espiar o lado de fora. Pegou o momento exato em que um homem alto de cabelos negros pelo ombro e vestes um tanto surradas abrindo a porta do lado oposto com uma mochila em suas costas. Ela ficou ali, observando-o destrancar seu apartamento quando o moreno parou e virou seu rosto parcialmente em sua direção. Foi quando o reconheceu, deixando sua ficha cair aos poucos antes de ser mirada por orbes gélidos, que pareceram demorar a reconhecê-la, mas, em um curto espaço de tempo, o fizeram.

Merda, pensou antes de tentar fechar a maldita porta, mas o soldado chegou antes e segurou-a com o braço esquerdo. Katherine foi inteligente o suficiente para se afastar da mesma, correndo até a mesa e puxando sua arma do coldre que colocara embaixo da mesma. Seu braço foi puxado com brusquidão, forçando-a a se virar, mas a jovem aproveitou para colocar o cano da pistola contra o centro da cabeça de James Barnes.

— Se fizer qualquer movimento, aperto o gatilho e, assim que a bala lhe atingir, ela se desmanchará, fazendo-o tomar um choque que paralisará todo seu corpo por um tempo bem abrangente. — Avisou com seriedade, mirando o fundo dos orbes cinzentos enquanto tentava controlar sua acelerada respiração. — Posso ser uma Von Strucker, mas isso não quer dizer que eu seja igual ao meu pai.

— Você estava . — A raiva era algo palpável no tom do homem, e aquilo fez com que Katherine suavizasse a expressão, mas não baixou a arma que tinha em mãos. — Você poderia ter me tirado daquele lugar.

— Você tentou me matar! Como eu libertaria alguém que fez minha mente ferrar completamente?! — Retorquiu com o cenho comprimido e apertou o cabo da arma, deixando seus nós dos dedos brancos pela força que utilizava.

Ambos se encararam por um longo espaço de tempo, pois James desejava, do fundo de seu ser, destruir a vida da mulher que estivera presente em várias partes ruins de sua vida e não fizera nada para libertá-lo. Já Kath estava controlando a maldita vontade de apertar o gatilho e vê-lo se retorcer no chão enquanto diversas descargas elétricas paralisavam seus músculos apenas por ele ter contribuído ao trauma que bloqueou a única coisa boa que ainda tinha.

Antes que a loira realmente tomasse coragem para atirar, o moreno bateu no pulso de Katherine com a mão humana, desarmando-a com rapidez e a girou, passando o braço pelo pescoço dela enquanto segurava os braços da mesma com o presentinho que a HYDRA lhe dera.

— Não me odiaria tanto se fosse apenas isso. O que eu lhe fiz, garota? — Ela se retorceu em seu aperto, tentando sair dele, mas foi completamente inútil. — Aproveite que quero lhe escutar. — Avisou próximo ao ouvido de sua ex-enfermeira, que trincou os dentes para controlar as emoções conturbadas que lhe invadiam.

— Perdi meus poderes. — Confessou em um fio de voz. — Minha mãe via o passado das pessoas ao tocar em cada uma, eu via o futuro apenas pensando nelas. Mas o barão não gostava quando eu me negava a ajudá-lo, me espancava como penitência, dizia que eu não significava muita coisa para ele e que só me trouxe a organização por causa de minha avançada inteligência. Isso me destruiu aos poucos, e o susto de quase ser morta foi apenas o pequeno empurrão para me fragmentar emocionalmente. — A mulher engoliu em seco, piscando algumas vezes para não derramar uma única lágrima, embora a vontade fosse grande. — Agora me solta... Isso não vai adiantar nada, Bucky. — Ainda um pouco relutante, o soldado soltou-a devagar e Kath suspirou em alívio, passando a mão por seu pescoço antes de virar-se para o moreno. — Não sou culpada de nada, eles só me colocaram lá para ver como reagiria com alguém desconhecido e aparentemente inofensivo cuidando de você, mas parece que deu errado. Estavam achando que gostava da minha presença. — Ela sacudiu a cabeça e andou até a geladeira, pois queria algo para beber.

— E gostava. — Sua mão, que estava prestes a abrir o eletrodoméstico, paralisou ao ouvir aquelas duas simples palavras. — Seu olhar é estranhamente marcante, assim como o tom de sua voz. Lembro que, antes de você sumir, era a pessoa mais gentil ao me dar qualquer injeção, sempre falava palavras tranquilizadoras e me olhava como...

— Como um ser humano. — A loira completou, encarando-o com certa incerteza, pois não sabia muito bem como levar aquela conversa. Era uma situação incomum, já que nunca cogitou a hipótese de ter seu caminho cruzado com o dele, muito menos trocar aquelas singelas confidências. — Não posso fazer nada com relação ao passado, mas do que precisar para tentar construir um futuro, pode contar com minha ajuda. — Garantiu com firmeza, não afastando um só momento seus orbes esverdeados de Barnes.

Ele encarou a mesa onde se encontrava diversos papéis que a mulher mantinha sobre a superfície plana, assim como diversos objetos de metal e alguns livros úteis no que Katherine fazia. Bucky tentou, quase que inutilmente, encontrar palavras que justificassem o quanto estava agradecido por ela se disponibilizar para ajudá-lo, mas que não adiantaria por muito tempo.

— Obrigado, de verdade, mas não acho que será necessário. Tenho certeza que não demorarão a me encontrar, apenas espero lembrar-me de mais coisas antes que isso aconteça. — Ele ergueu seu rosto, encarando-a com displicência e a loira comprimiu as sobrancelhas.

— Mas nem sempre temos o comando do nosso futuro, pois há vezes que não sabemos o que uma ação simples pode desencadear. Nunca pensei que o encontraria de novo, mas aqui está você e, de certa forma, isso muda muita coisa. — Murmurou, deixando sua voz calma e suave enquanto falava. — Muda o rumo de diversos acontecimentos, até mesmo de algumas vidas.

Ele soltou um longo suspiro, encarando qualquer detalhe do quarto ao invés da loira. Sabia que as palavras que proferira eram verdade, afinal, Barnes houvera confirmado aquilo assim que se lembrara de cada assassinato que suas mãos já realizaram. Tais fatos apenas o faziam se sentir mais culpado, verdade. O problema era que não conseguia afastá-los de sua cabeça.

Tentando desviar seu foco de algo tão mórbido, o moreno observou as folhas presas à parede com pregos finos e cordas. Analisou cada projeto ali fixado, no entanto, o que realmente lhe chamou a atenção foi uma folha que estava sob tantas outras, então se aproximou e ergueu os projetos que o cobriam, revelando assim um modelo de seu braço, mas havia certas modificações, assim como vários rabiscos difíceis de entender.

— O que é isso? — Inquiriu assim que conseguiu pronunciar tal frase, voltando seu rosto em direção a Katherine, que apenas encolheu os ombros ao notar o que ele olhava.

— Um projeto que pensei e não consegui colocar fora. Cogitei enviar a Steve Rogers assim que ele o encontrasse para levá-lo consigo, fazendo de você um Vingador, mas não sei se é algo que vai realmente acon… — A loira se interrompeu no meio da divagação, percebendo aos poucos o que estava dizendo antes de encarar o soldado extasiada e controlando-se para não começar a surtar. Ela passou a mão por sua cabeça com certo cuidado, sua respiração encontrava-se cada vez mais acelerada, mas aquilo pouco lhe importava no momento. — Ah, meu Deus… O bloqueio passou. Ele passou!

Kath estava simplesmente surpresa enquanto ria sozinha. Era uma parte sua que pensou não conseguir ter de novo e, repentinamente, havia conseguido de uma hora para outra. A loira não ficou pensando sobre os motivos para tal, apenas que tinha algo a ver com o homem do braço de metal que estava dentro de seu pequeno apartamento encarando-a como se fosse maluca. Sem qualquer aviso prévio, ela se aproximou do soldado, abraçando-o com força enquanto um sorriso sincero mantinha-se em sua face.

— Obrigada. — Murmurou próximo ao ouvido de Bucky, pouco se importando com a proximidade. — Só… Obrigada. — Sabia que ele não entenderia naquele momento, mas, em um futuro próximo, talvez o moreno compreendesse.

Afinal, agora Katherine voltou a ter o poder de mudá-lo.