The Feather
5 Capítulo 5 - The Price You Pay... The Pain You Feel
Notas iniciais
– Vocês estão preparados? – Lucian disse, para mim e para o resto de nós. Rebecca parecia confusa. Ela não captava a maioria das coisas, e, para ela, um fim de semana fora do internato era igual á fim de semana de procurar a Rebecca pela cidade toda. Naquele dia não ventava muito, e a tempestade tinha passado, então o sol estava de volta. Sim, um dia lindo de verão, e não que seja a minha estação favorita, mas era realmente agradável.
– Sim! – Lucas e Diana responderam juntos. Eu fiquei quieta com a Rebecca, na verdade mais confusa do que ela. Eu definitivamente não queria passar um final de semana na cidade com eles, e eu tinha perdido Fagan no meio da multidão de alunos.
Isso mesmo, Fagan... Nós tínhamos pegado no sono durante aquele dia de tempestade, não é? Me lembro de ter acordado na minha cama. Será que ele me levou até lá? Será que a Diana não viu?
– Prim! – uma voz interrompeu meus pensamentos. Era Diana, pequena e radiante no seu canto. Ela estava toda pronta, com uma regata rosa e um short que passava uns três dedos acima do joelho, ela usava uma sapatilha preta.
– O que? – eu disse.
– Você já pegou suas coisas? Seu dinheiro, sua mochila, bolsa, roupa, escova de dente, pijama, escova de cabelo...
– Já! – eu interrompi. Sinceramente, Diana podia ser a minha melhor amiga, mas ela falava demais. Eu e Diana nos conhecemos ano passado. Éramos duas novatas, claro. Mas ela conhecia Lucian desde sempre. Foi ela que me apresentou Lucian, e foi graças a ela que nos tornamos namorados. Foi um ano muito bom e tudo o mais... Mas esse ano estava sendo ridiculamente patético, se é que você me entende.
Lucian, Rebecca, Lucas, Diana e eu. Dentro de um carro. Lucian dirigindo. Merda. Era uma hora de viagem no máximo até a cidade. Nós não andávamos muito para o centro dela, onde haviam muitas pessoas, aglomeração, mais pessoas, lojas e mais lojas, e mais pessoas. Nós sempre nos hospedávamos na casa abandonada na Rua 38. Nós a encontramos na primeira vez que ficamos o final de semana na cidade. Nós pegamos “emprestado” alguns materiais de limpeza e arrumamos o lugar.
A casa era como as de boneca, aquelas que você brincava quando era pequena. Mas eu nunca brinquei com uma casa de boneca. Eu não precisava disso. Eu tinha meus irmãos e irmãs...
Quando entramos, já estava tudo pronto dentro dos armários: colchões, fronhas, travesseiros, cobertores... Tudo. Como conseguimos tudo isso sem trazer do internato? Ora, pegamos “emprestado”...
– Eu fico com a comida! – Lucas gritou lá da cozinha, que também tinha comida: cereal, leite, pão, mel, manteiga, iogurte, carne, hambúrguer, queijo... Enfim. Comida.
– Eu fico com a guarda! – Lucian disse. A “guarda” era pra vigiar a rua durante um tempo, para ver se nenhuma turma de moleques iria tacar pedras nas nossas janelas, ou se nenhum outro grupo de viajem do nosso internato tentaria se apossar da nossa casa.
– Então está tudo decidido. Lucas, você vai cozinhar o que hoje? – Diana perguntou.
– O que vocês quiserem – ele respondeu. Os dois ficaram lá discutindo entre macarrão ou lasanha, até que Rebecca se intrometeu falando sobre pizza, que acabou ganhando a discussão do jantar. Pizza era sempre a solução para dúvidas do que comer na janta. Mas Lucas ficou desapontado, ele queria cozinhar mesmo.
– Você cozinha o almoço pra nós amanhã, pode ser? – eu me aproximei dele e disse. Ele fez que “sim” com a cabeça e se deitou no sofá, com uma cara de cachorro abandonado.
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– Pra esquerda... Esquerda... Esquerda, eu disse! – Isoro falava comigo do banco do passageiro. Eu sabia que era para esquerda, mas ele confunde esquerda e direita muitas vezes.
– Esta é a esquerda – eu disse, tentando parecer calmo.
– Sua anta, pegamos a Rua 38! Qual é o seu defeito? – ele quase berrou dentro do carro.
Eu nem respondi. Aquela pergunta não tinha resposta. Nunca teve. Não que eu seja perfeito, mas perguntas assim não foram feitas para serem respondidas.
Nós entramos na Rua 38, e eu diminui a velocidade para 49 km/h. Eu olhei para a direita, para ver se não havia nenhum carro querendo passar, e dei de cara com uma casa toda cinzenta, velha e abandonada, com uma garota na frente, juntando o lixo... Primrose?
Eu quase parei o carro, mas Isoro pôs a mão dele no meu ombro, o olhar dele me dizia para deixa-la em paz. Isoro sabia que os amigos da Primrose não gostavam de mim. Bem, menos o Lucas e a Rebecca, eles não estavam nem ai. Eu não era um excluído, bebê chorão nem nada do tipo, mas eu realmente gostava de ficar sozinho, melhor do que falar com qualquer pessoa inútil. Menos a Primrose e o Isoro. Eles eram realmente meus amigos. E a Prim, ela tinha o meu respeito. Ela continuava a andar comigo, mesmo com os amigos dela a pressionando a fazer o contrário.
Depois de dez minutos de “não, essa é a rua errada, idiota!”, “vai pela principal” e “sua mãe te cagou?”, chegamos na rua certa, e entramos na casa certa. Era a antiga casa onde eu e Isoro morávamos. Ele nunca tinha vendido essa casa, porque quando descobriu que haviam fins de semana fora do internato, não vendeu a casa, para eu ter onde ficar.
– Garoto, você sabe como voltar, certo? – ele olhou para mim, com uma cara de pai desconfiado.
– Sei, sim.
– Ótimo – ele se virou e andou até a porta. – Se precisar me ligue, Fagan. Eu vou voltar agora.
E saiu.
Isoro é o zelador (é mesmo, Fagan? É mesmo?), então ele tinha que voltar ao trabalho. Vigiar as coisas, cuidar da encanação, caso houvesse algum problema. Afiação, enfim, o que um zelador teria que fazer.
Eu olhei para aquele lugar todo. Era tão nostálgico... A sala, o sofá, a mesa de centro com as mesmas revistas de sempre... Incrível. Fui para a cozinha, eu estava morrendo de fome, então decidi fazer arroz e abrir uma lata de atum. É, isso mesmo. Arroz e atum. Peixe. Arrozinho. Atum. Arroz. É.
Quando eu terminei de comer ainda eram seis horas da tarde, então eu tinha tempo de sobra para fazer nada.
Eu subi as escadas e entrei no primeiro quarto: o quarto de Isoro. Estava uma bagunça, obvio. Isoro não arrumava as coisas dele. Em média, eu que arrumava, e arrumo até hoje. Na casinha dele, quem organiza as coisas dele sou eu.
Parti para o segundo quarto: o meu. Estava bonitinho. Minha cama azul estava bem feita, com vários travesseiros espalhados por ela. As paredes estavam cobertas por pôsteres: Green Day, Metallica, Linkin Park... E tirando os de bandas, tinham os de séries, como Supernatural e Friends. É, eu era o cara dos pôsteres, dos muitos pôsteres. Fora isso, tinha o meu computador, e o meu armário. Eu o abri: vazio. Isoro tinha doado as roupas que eu não usaria no internato.
Eu estava cansado, então fui para a sala, deitar um pouco. Era melhor que o quarto, que era todo fechado, úmido... Cheio de mosquitos, principalmente nessa época.
Eu tentei ligar a TV e... Surpresa! Ligava, mas só nos canais regionais. Estava passando um programa chato e tedioso sobre as serpentes, então eu deitei no sofá, fechei os olhos, e magicamente cai no sono.
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– Primrose! Primrose! Primrose! – Lucas, Diana, Lucian e Rebecca gritavam ao mesmo tempo. Eles estavam todos sentados a minha volta na mesa. Eles queriam ver como eu conseguia beber uma taça de champanhe direto. E eu engoli. Eles vibraram, e eu fiquei meio tontinha, mas não de bêbada... Eles gritaram muito alto no meu ouvido!
– Satisfeitos? – eu disse, e eles todos sorriram, e tentaram fazer o mesmo. Em pouco tempo, depois de algumas tentativas inúteis de tentar virar a taça, eles estavam todos bêbados. Todos eles, até a Diana...
Eu fiquei olhando aquilo, eles bêbados, caindo em cima uns dos outros. Era engraçado, mas chegou uma hora em que eu me cansei. Peguei a minha mochila e sai um pouco, para arejar. Decidi caminhar para nenhum destino definido, só por diversão. Eu dormiria fora, tinha alguns trocados no bolso, podia pagar uma noite num hotel meia-boca que por mim estava tudo certo.
A noite estava muito bonita. Naquela parte não movimentada da cidade, dava para ver o céu e as estrelas, sem nuvens ou prédios atrapalhando. Tinha um ventinho gostoso, geladinho, aliviando o calor do dia, limpando sua consciência.
Eu caminhei mais um pouco, até que entrei numa rua (da qual eu não me lembro o nome) e vi uma casa familiar... Era a casa antiga do Isoro?
Eu fiquei ali parada no meio da rua, encarando a casa. Eu não acreditava no que eu estava vendo. A casa do Isoro? Ele já tinha me mostrado a casa em umas fotos, mas eu não sabia que a casa ficava na cidade! Será que eu andei muito longe?
Eu me aproximei mais um pouco e vi pela janela que a casa era iluminada pela luz de velas, e a TV estava magicamente ligada. Eu pulei a cerca de dez centímetros do quintal e bati na porta, para ver se alguém morava lá ainda...
Fiquei esperando um tempo, até que bati de novo.
A porta se abriu, e o rosto que se revelou era... Do Fagan! Eu fiquei horrivelmente alegre, fiquei olhando pra ele, e ele pra mim, com uma cara de sono...
– Eu te acordei? – perguntei.
– Sim. – ele respondeu, pegando o meu braço e me arrastando pra dentro da casa.
Eu tirei a minha mochila e coloquei-a do lado da porta. A casa era bem bonita, era toda rústica, e de baixo da TV, eu vi, tinham dois controles de videogame.
– Como você chegou aqui, Primrose? – Fagan me perguntou, me oferecendo um copo d’água. Eu recusei, o champanhe e a caminhada tinham me deixado um pouco enjoada...
– Eu estava apenas passeando um pouco. Meus amigos ficaram bêbados, então eu decidi sair, passar a noite em algum hotel, algo assim. – eu respondi.
Ele tomou um gole d’água e depois olhou para mim, com os olhos arregalados.
– Bêbados? – ele perguntou – BÊBADOS?
– Sim – eu respondi, rindo.
– Então você pretende passar a noite aqui, Primrose? Eu tenho dois quartos, sabe? Privacidade feminina, se você quiser tê-la.
Eu dei risada. Fagan era um garoto educado, pelo menos. Não chegava como um brutamontes em cima de você perguntando se você quer alguma coisa.
– Eu posso passar a noite aqui mesmo? Ótimo! Vou economizar uma grana.
Ele se levantou, pedindo licença. Eu olhei para o sofá. Eu já tinha visto ele em algum lugar... Não conseguia me lembrar aonde...
– Quer um pouco? – Fagan voltou da cozinha, com uma lata de atum e um garfo.
– Atum? Meu Deus, você gosta de atum? – eu perguntei, atacando a latinha de atum. Eu amava atum. Não sei como as pessoas conseguiam não gostar de atum. Quer dizer, na latinha, não era um peixe molengo e ruim, era delicioso.
– Nossa, você comeu alguma coisa, Primrose? – ele me perguntou, levantando uma sobrancelha.
– Sim, eu comi uma fatia de pizza de calabresa lá na casinha. E ia pegar outra, mas o pessoal já tinha terminado tudo, deixando uma fatia de pizza de tomate... E eu não gosto, sabe?
– Sei... – ele olhou para o sofá, e fez um sinal para que eu sentasse lá. Eu sentei no sofá, e ele do meu lado.
– O que está passando na TV? – eu perguntei.
– Quando eu cheguei aqui, estava passando um programa sobre cobras e essas coisas. Eu peguei no sono depois. – ele ficou trocando de canal até parar em um que se chamava “DotanDots”. Eu me lembrava desse canal. Eu assistia com a minha família de manhã. Passavam vários desenhos, era muito divertido.
– Deixa ai – eu disse, e ele largou o controle. Nós ficamos vendo um desenho chamado “Charlie e Lola”. Era um desenho muito bonitinho, e bobinho. Eu e Fagan ficávamos rindo, era engraçado.
Quando o desenho tinha acabado, eu desliguei a TV enquanto Fagan ia para a cozinha, jogar fora a lata vazia de atum. Eu fiquei pensando... Foi divertido ver TV com o Fagan. Quer dizer, eu e ele temos muitas coisas em comum, pelo que eu descobri durante um mês. Parecia que, com o Fagan, eu voltava para os meus dias bons, na infância, com meus irmãos e irmãs ainda vivos... Quando viver valia a pena...
– Nossa, já são nove e quarenta e cinco! – ele disse – Isso foi uma maratona do desenho?
– Foi – eu respondi – Os episódios não duram muito.
Eu ajudei o Fagan a lavar a louça. Ele lavando e eu secando e guardando. Trabalhávamos rápido, eu e o Fagan.
– Sabe – eu disse enquanto Fagan se sentava do meu lado no sofá -, eu acho que não quero ver a cara dos meus amigos nunca mais. Uma vida como essa seria boa, ficando o dia aqui, comendo atum, lavando e secando, vendo desenhos na TV e jogando conversa fora.
Fagan levantou uma sobrancelha.
– Está dizendo que gostaria de morar aqui, Primrose Lidwix?
Eu fiquei vermelha. Não era isso que eu queria dizer... Como assim? Porque eu fiquei vermelha ao invés de dar um tapa na cara dele? Então eu fiz isso, pra corrigir minha reação. Dei um tapa na cara dele, de brincadeira, mas foi um tapa.
Ele colocou a mão no rosto e riu, como se não tivesse acreditado no que eu fiz. Ele pegou uma almofada que estava no chão e bateu em mim. Começamos a nos bater com os travesseiros, foi engraçado, se não fosse por eu ter raspado a coxa com força na ponta da mesa de vidro no centro da sala.
Fagan subiu para o segundo andar, até o banheiro, para pegar o kit de primeiros socorros. Meu machucado tinha sido feio. Eu passei com tanta força, e a mesa era de vidro e pontiaguda, que acabou fazendo um corte bem grande. Sério mesmo. Um corte. Sangue. Corte. Pele. Sangue.
Eu fiquei quietinha até ele chegar com uma garrafa com um líquido amarelo dentro. Ele derramou um pouco em cima do corte.
Cara, aquilo ardeu um monte. Eu segurei o choro, mas não deixei de ocupar as minhas mãos com alguma coisa. Agarrei uma almofada no chão e enterrei minhas unhas na almofada.
Depois de alguns arranhões na almofada dele, eu já estava com a coxa enfaixada. Fagan tinha jeito para a coisa. Ele tinha feito tudo bonitinho. Colou até um adesivo de coração em cima da gaze. Eu me senti uma garotinha de 5 anos, quando caia da bicicleta.
Ele me ajudou a subir até o quarto no segundo andar. Quando eu entrei, percebi na hora que era o quarto dele. Tinha pôsteres em todos os cantos das paredes, e a cama tinha um cobertor azul-marinho, e cheio de almofadas e travesseiros em cima. Pelo que eu vejo, Fagan gosta muito de almofadas.
– Vê se dorme, Primrose. Você parece estar cansada. Parece que não dorme faz dias! – Fagan disse, me pondo na cama. Ele ligou o ventilador no máximo, enquanto eu colocava todas as almofadas no chão.
– Boa noite – eu disse, enquanto ele caminhava até a porta do quarto.
– Boa noite! – ele se virou para mim e acenou com a mão.
– Ah, Fagan...
– O quê? – Ele parou.
– Obrigada pelo curativo... Ficou infantil, mas dá pro gasto.
Ele deu um sorriso, aquele sorriso aconchegante, que mais me sentia como um cobertor que me cobria e me deixava com calor.
– Por nada – e ele se foi.
Eu fiquei ali por não sei quanto tempo, olhando para o teto, pensando na vida. Bem, não na minha. Pensando em como será que o pessoal está lá na casa... Bêbados daquele jeito, devem estar desarrumando a casa toda... Bem que eu avisei para não tentarem tragar a champanhe toda de uma só vez...
Eu deveria ter ficado com eles, pra tomar conta das coisas. Mas seria um caos, eu não ia aguentar nem um segundo com eles ali. E estava bom do jeito que estava, assim eles iriam aprender a não ficarem bêbados assim...
Eu fiquei imaginando um filme na minha cabeça, onde eles estavam bêbados, cada um se pegando. Por uns quinze segundos foi engraçado, mas dai eu percebi que eles não estavam assim de verdade...
Eu arrisquei mandar uma mensagem para a Diana e para o Lucian, perguntando se eles estavam o.k.
Eu enviei as mensagens, e esperei um pouco. Nada. Eu vi que a minha noite seria longa...
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Uma ovelhinha...
Duas ovelhinhas...
Três ovelhinhas...
Quatro ovelhinhas...
Cinco oveli... NÃO ADIANTA!
Eu estava com dificuldade para pegar no sono. Era estranho dormir em uma cama de casal sozinho, aquele espaço todo, um vácuo, e você ali, tentando ficar o mais encolhido o possível. Como Isoro conseguia dormir ali sem ninguém? Sinceramente, eu não entendia nada.
Eu olhei para a vela que eu tinha deixado acesa na cabeceira. Chequei as horas: meia noite. Que saco.
Eu tinha ido me deitar a que horas mesmo? Nem lembro... Eu já estava entendendo que aquela noite ia ser longa... Eu me sentei na cama, e olhei pela janela. A brisa que estava entrando era ótima, refrescante. A lua estava cheia, e haviam varias estrelas espalhadas pelo céu. Eu tive vontade de chamar a Primrose para ver aquilo, ela iria adorar. Ela adora um céu estrelado, com uma lua bonita. Todo mundo adora. É lindo, sem dúvida. Faz você querer viver a vida de verdade.
Me deitei de novo na cama, sabendo que não iria ajudar em nada ficar olhando para o céu. Comecei a escutar um barulho... vindo do corredor. Levantei a cabeça, tentando enxergar...
– Fagan? Você está acordado? – era Primrose na porta. Ela estava com um pijama preto, com um short verde-claro. Ela parecia uma garotinha com medo, porque tinha tido pesadelos...
– Sim – eu respondi, fazendo a voz mais acolhedora possível. Eu queria que ele se sentisse em casa, não em um reformatório, ou uma prisão.
– Eu não consigo dormir, cara... – ela disse.
– Nem eu... – eu respondi. Nós ficamos nos olhando durante um tempo, até que ela caminhou pra dentro do quarto, então em direção á janela.
– Nossa! – ela exclamou – Que noite bonita! Você viu isso?
– Vi...
– Uau! Que demais! NOSSA! OLHA UMA ESTRELA CADENTE, FAGAN! Você viu isso? Nossa, que demais! – ela parecia alegre, contente. Estava toda realizada porque viu uma estrela cadente. Ela olhou para mim, com metade da cara iluminada com a luz da lua. Essa parte iluminada deixava que meus olhos enxergassem as sardas dela, e que os olhos dela pareciam mais... Vivos. Ele se virou para mim, e ficamos nos encarando de novo. Qual era o meu problema?
Ela caminhou até a cama, e se deitou do meu lado. O cabelo dela ficou todo espalhado pelo travesseiro. Sério, o cabelo dela era realmente muito bonito. Eu já tinha dito isso antes? Eu me aproximei, e ficamos os dois nos encarando ali, na cama. Eu comecei a sentir vontade de sumir com ela pelo mundo. Não, eu não sei o que isso quer dizer, mas eu queria poder estar com ela pra sempre... Eu... Amava ela.
Ela se virou para o outro lado, permitindo que eu a abraçasse. E ficamos ali, abraçados. Eu olhei para a janela de novo. É, uma noite bonita, Primrose...
Uma estrela cadente passou, e eu senti um arrepio. Olhei para a Primrose, ela estava dormindo já? Não importava. O que importava é que eu estava ali com ela, e ela comigo, estávamos juntos. Eu queria que aquilo durasse para sempre, sem ninguém pra dizer que aquilo era errado. Será que ela sentia o mesmo?
Eu senti uma paz, sei lá, uma paz mesmo, como se o mundo estivesse girando perfeitamente outra vez.
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– Bom dia! – Primrose falou para mim, sorrindo. Ela estava no fogão... Um cheiro delicioso de bacon e torradas...
– Onde você arrumou bacon? – eu perguntei.
– Ah, eu sai para comprar algumas coisas, aproveitei e comprei o nosso café da manhã. Não se preocupe, comprei com o meu dinheiro – ela disse, ainda sorrindo. Ela estava toda feliz, mas o cabelo dela estava bagunçado, uma loucura. Eu achei bonitinho.
– O que? – eu perguntei – Não precisava gastar o seu dinheiro com bobagem, tem dinheiro na gaveta, aqui embaixo! Você pode pegar!
– Tarde demais, já está gasto – ela disse, com orgulho – Agora vá por a mesa, seu cachorro idiota. Está quase pronto.
Eu sorri. Peguei os pratos e os talheres e os coloquei em cima da mesa.
– Vai tomar o que? – eu perguntei.
– O que tiver. – ela respondeu.
Eu abri a geladeira. Ela tinha comprado leite, suco, iogurte e queijo.
– Você comprou tudo isso também? – eu perguntei, apontando as coisas pra ela.
– Eu não comprei. Roubei da casa onde Lucian, Lucas, Rebecca, Diana e eu estávamos. Nós enchemos o estoque ontem, e pagamos com o dinheiro da Rebecca, então, tecnicamente, eu não comprei nada.
Ela saiu de manhã pra roubar a comida da outra casa? Que horas ela tinha acordado?
Quando terminamos o café, lavamos a louça. Ela secando e guardando, eu lavando. Depois arrumamos os quartos, e a sala. Quando estávamos prontos para partirmos, Primrose subiu correndo as escadas.
– Aconteceu alguma coisa, Primrose? – eu perguntei.
Ela desceu correndo também, e pulou do penúltimo degrau.
– Nada – ela respondeu, sorrindo.
Fomos andando até a porta, entramos no carro e começamos a andar.
– Você nunca me disse que dirigia – ela falou, meio triste – Desde quando você dirige?
– Desde ontem – eu olhei para ela e abri um sorriso. Ela se tremeu toda. Não sei se era pelo fato de eu ter aprendido na madrugada de ontem, ou se tinha alguma coisa presa no meu dente.
Eu liguei o rádio, e ela procurou pelas estações. Não tinha nenhuma coisa boa para ouvir, então ela abriu o porta-luvas.
– Ai meu Deus... – ela parou – AI MEU DEUS!
– O que? O que foi? – eu perguntei.
– Posso tocar isso? – ela pegou um CD... O último CD do Death Cab For Cutie.
– Claro! Ponha na faixa dois, é a minha música favorita!
E a música começou a tocar. Ficamos cantando juntos as músicas ali. Foi bem legal, até que eu tive que abaixar o volume porque Primrose estava recebendo uma ligação.
– Oi? – ela atendeu ao telefone. – Diana? Tudo bem?
Eu não conseguia escutar nada de onde eu estava, mas Primrose começou a ficar com uma cara de preocupação... Que logo mais se transformou em terror. Ela encerrou a chamada, e olhou para mim com os olhos todos arregalados, uma expressão de horror.
– Fagan... Lucian... Morreu.
Eu afundei o pé no freio, e o carro entrou em pânico, junto com a minha alma e a da Primrose.
Nós colidimos com uma árvore, e eu só vi Primrose do meu lado, com um pedaço enorme de vidro enfiado no braço dela.
Eu tentei me mover, mas minhas forças foram cessadas. Minha visão escureceu, e eu não vi mais nada.
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