The Feather
3 Capítulo 3 - Autentne Yellow
Notas iniciais
– Assim sendo, a prova de vocês irá conter cinco páginas de cada matéria – o professor Diagan falava secamente sobre a prova do ano, que envolvia as matérias aprendidas até agora. Era como um teste pra ver quem estava “em forma”, ou quem ainda estava qualificado para estudar naquela escola. Uma vez que você tirava nota baixa, você tinha a chance de ser expulso. Aquele não era um colégio muito famoso, mas tinha um sistema educacional muito admirado por pais de muitas gerações. Meus irmãos e irmãs estudaram nesse internato, mas com o acidente...
O sinal tocou, todos se levantaram, e alguns ansiosos saíram correndo. Eu olhei para trás e vi Fagan conversando com o professor. Ele começou a conversar com os professores essa semana, “para tirar dúvidas”, ele disse.
– Prim! – Diana me chamava no corredor – Vamos?
Eu dei uma última olhada para Fagan, e segui Diana pelo corredor. Descemos as escadas em direção ao nosso dormitório. Quando entramos, Diana fechou a porta atrás de mim. Sentamos na cama dela, ela me olhou sério e suspirou.
– Prim, porque você continua a andar com o Fagan? O que nós te dissemos?
– Diana, eu ando com quem eu quiser. E Fagan não é mau. O que vocês têm contra ele?
– Ele... É amigo do zelador... E ano passado ele brigou com o Maxwell, e Lucian passou a odiá-lo.
Eu não entendia. Fagan brigando com Maxwell? Preconceito por ele ser amigo de Isoro? Absurdo.
– Ele tendo brigado com Maxwell ou não – eu disse -, ele não é mais assim. Eu o conheço, não é mais dessas – se um dia ele já foi. E porque o preconceito de ele ser amigo do zelador? Foda-se.
– Prim! Não precisa ficar frustrada...
Eu fingi que não a escutei. Eu disse a ela que iria tomar um ar, e então sai. E na verdade eu ia tomar um ar mesmo, refrescar a cachola, abrir horizontes e desfazer nós em minha mente.
E falar com o Fagan.
Eu acredito que ele tenha batido no irmão do Lucian... Mas isso é passado! O cara não é um assassino delinquente, ou um marginal louco por brigas. O Fagan é a pessoa mais pacífica que eu já conheci... Depois da minha irmã, Hollydain.
Eu aproveitei que todos estavam indo aos dormitórios para descansar depois de um dia de aula e fui para a árvore. Fagan já estava lá, alimentando a tartaruga Gonito com um tipo de purê-de-alguma-coisa. Eu me aproximei e, sem cumprimentar, eu me sentei do lado dele.
– Muito bom dia – ele disse – Espero que você esteja aqui porque não consegue decidir entre me odiar ou odiar a Diana.
Eu fiquei surpresa. Como ele sabia?
– Como assim? – eu perguntei.
– Ah, eu ouvi a conversa de vocês duas. Na verdade, Isoro ouviu. Ele me passou a conversa de vocês por mensagem de texto.
Simplesmente não era da conta deles se intrometerem desse jeito nas minhas conversas. Será que eles já faziam isso faz tempo?
– Olha, porque Isoro estava lá, pra inicio de conversa? E o que que isso tem a ver com você? Bem, o assunto pode ser você, mas não quer dizer que você tenha que se intrometer, não é?
Ele olhou pra baixo, realmente sentindo vergonha. Ele esperava que isso acontecesse, e, de qualquer forma, eu ia falar com ele sobre isso.
– Enfim – eu continuei – Você realmente brigou com Maxwell?
– Sim... – ele respondeu depois de um tempo – Ele era um garoto legal, o Maxwell... Provavelmente ele tinha sido transferido para o mesmo ano do irmão dele... Só que certo dia, Maxwell pegou a minha mochila e colocou um monte de cola dentro. Eu fiquei zangado, porque era a mochila que eu usava sempre, e era a minha favorita... Isoro tinha comprado pra mim quando arrumou o emprego de zelador desse internato. Eu simplesmente dei um soco na cara dele, mas não chegou a ser uma briga de verdade. Ele só saiu com o olho roxo e com a gengiva sangrando por causa do aparelho.
Eu assenti com a cabeça. Fazia sentido. Meninos apelavam para o físico quando o lado emocional é atingido. Então, Fagan apenas estava vingando sua mochila, e Maxwell foi o que fez a coisa errada, no final das contas. Eu não acredito que a Diana conseguiu ser iludida assim...
– E você sabia que eles têm preconceito com você por você ser amigo do Isoro? – eu falei.
– Sim – ele riu – Já era de se esperar! Isoro não ficou pensando só no dinheiro, mas também no meu conforto. “Como o menino vai ser tratado no internato?”.
Eu assenti com a cabeça. Isoro realmente trata Fagan como filho seu, e isso é visível... Fagan passa a maior parte do tempo com Isoro, pelo que eu vejo. E eles são muito amigos... Também, já passaram por um monte de coisa! A morte da mãe do Fagan... Problemas com o dinheiro... Fagan tinha seus motivos pra ter aquele olhar sinistro, e eu sei que ele não fazia por mal, o passado dele é cheio de mágoas... E eu o entendo, perdi meus irmãos também... Foi horrível, não tinha com quem conversar... E eu só tinha oito anos de idade.
Fagan soltou um suspiro. Ele largou a cumbuca com o purê-de-alguma-coisa de lado e encarou seus tênis.
– Você me odeia, Primrose? – ele disse, quase num sussurro.
– Não! Óbvio que não! – exclamei surpresa – Por que eu te odiaria?
– Porque você tem muitos motivos pra me odiar... Seus amigos falando mal de mim o tempo todo, Eu não contei pra você sobre Isoro, e eu te sequestrei... Me desculpe, Primrose!
Ele realmente estava arrependido... E eu via isso, não precisava nem olhar para a cara dele! Eu podia sentir a energia dele fluindo junto com as palavras; estava se sentido culpado e triste... Eu queria ser útil numa hora dessas, e poder acalmar ele, e dizer que está tudo bem. Mas o que eu falei foi isso:
– Eu gosto de você o bastante pra não te odiar.
Ele olhou pra mim, e depois voltou os olhos para o chão.
– Eu também gosto muito de você, Primrose!
Eu juntei meus dedos na mão em formato de soco, e a levantei pra ele.
– Brofist?* – eu disse. Na escola não usamos muito os computadores, então provavelmente não entenderia...
– Brofist!* – ele fez o mesmo com a mão dele e sorriu, e nós começamos a rir. Pelo menos ele tinha coisas em comum comigo... Se as pessoas vissem que ele não machuca nem a uma mosca, todos seriam amigos dele, e ele não ia ficar á toa por ai o dia todo... Se bem que Fagan é crescido, e ele já sabe lidar com os sentimentos dele... Não?
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Eu tive um trabalho danado pra fazer depois da aula. O trabalho de biologia do professor King era procurar quatro tipos de insetos e três tipos diferentes de sapos. E isso tudo na mata, perto do nosso internato. Maxwell ficava na turma 12, e eu na 11, então eu não pude ficar de olho nele, pra ele não fazer nenhuma besteira. Na verdade, foi até bom porque eu tinha um sossego... Ele não tinha coisas em comum comigo e, mesmo ele sendo meu irmão, ás vezes ele falava coisas desnecessárias. Ele se metia em muita encrenca ano passado, e a maior de todas foi com o Fagan. Eu sei, Max colocou cola dentro da mochila dele mas, qual é o problema? Maxwell era só um garoto ainda... Ele tinha 14 anos, um moleque! Daí o tal do Fagan ficou todo revoltado e deu um soco na cara do meu irmão. Vê se pode! Tivemos que levar o Max para o dentista mais próximo; o soco que ele levou acabou entortando um dos fios, que rasgou a gengiva dele. Ele perdeu bastante sangue naquele dia, e ficou na cama um tempo.
Desde então, eu odeio Fagan, odeio como ele anda com o zelador como fosse o amigo dele, odeio como ele fica na sua, sem se importar se falam com ele ou não.
Odeio como ele se aproximou da Primrose.
A minha Prim... Bem, ela não é mais “minha” agora. Nós terminamos mas, isso não quer dizer que eu não ame ela ainda. Ela é tão bonita! Ela é gentil, engraçada, inteligente e... eu já disse bonita? E não que seja da sua conta, mas Primrose beija bem. Ela foi um bem na minha vida. Todas as minhas ex-namoradas eram completamente atiradas, davam em cima de qualquer menino, e na minha frente! Meus relacionamentos nunca duravam um mês, e era difícil fingir que você gostava delas em certo ponto. Mas todas as minhas namoradas faziam o que eu queria... Elas cozinhavam pra mim, arrumavam pra mim, elas me beijavam quando eu queria. Eu nunca transei com nenhuma delas, e isso porque elas sempre terminavam comigo antes. Mas se não fosse por isso, eu já estaria transando com Primrose Lidwix agora. Agora mesmo. Esse dia é o dia que eu marquei no meu calendário como um dia “especial”. O internato já nos distribuiu camisinhas no mínimo umas duas vezes, e eles não têm nada contra o sexo. Menos o sexo no internato. E você acha que eu ia me dar o trabalho de fugir em um domingo para poder ter sexo com alguma menina? Por favor! Eu já vasculhei este internato milhões de vezes, e eu já tenho meus lugares de preferência.
– Lucian! Luuuuuciaaaaaaaaaan! – uma das meninas que estavam no meu grupo me chamou, com uma rã em cima da cabeça. Os outros meninos começaram a rir, e ela começou a chorar.
Eu caminhei até ela e peguei a rã com a minha camiseta. Quando eu soltei a rã, eu percebi que eu estava sem a camisa, só que eu não tinha notado antes que eu a tinha tirado. Eu olhei para a garota e ela estava com os olhos arregalados. Sim, eu fazia musculação, levantava uns pesos sempre que podia, pra manter a saúde e o corpo em forma. Ela pôs a mão no meu peito e começou a apertar. Eu entrei num tipo de transe, e não liguei pra mais nada. Quando eu vi, a menina estava quase se atirando em mim, e eu a afastei com um empurrão que a fez cair no chão por pouco. Minha cabeça girou, e eu me senti tonto... Parecia que eu tinha levado um soco na nuca.
Eu gosto das garotas, mas uma vez que o meu coração pertence á uma, eu sou leal.
Mesmo que você não me ame mais, eu vou me guardar pra você, Primrose Lidwix...
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– Primrose, já se passou um mês desde que você tomou sua primeira decisão, certo? – Isoro olhou pra mim, e eu fiz que “sim” com a cabeça. – A cada mês, você irá tomar uma decisão, e como a primeira era só um aquecimento.
Eu entendi. Claro que não iriam ser coisas fáceis pra sempre. Com o tempo vão criando dificuldade. Na primeira vez, eu falei com uma voz só, será que as outras três vão estar lá?
Isoro me levou até aquele mesmo quartinho, e eu me deitei na cama enquanto ele prendia meus braços e minhas pernas.
Fagan estava sentado na cadeira de balanço ao meu lado, e ficou conversando comigo até que Isoro pediu silêncio.
Era a hora de eu ser levada até aquela dimensão diferente, até aquele estado de alma diferente, onde eu não sentia nada...
Eu fechei meus olhos e me senti em uma montanha russa, tendo o corpo levado bruscamente para a esquerda, depois para a direita, e depois subindo... Para cair em alta velocidade.
Quando eu vi, eu estava na frente daquela ponte, e as cores eram as mesmas, a sala iluminada de branco. As cadeiras estavam lá também, mas desocupadas.
– Primrose Lidwix. – a voz falou. A mesma voz da primeira vez – Seja bem vinda de volta.
– Obrigada – eu disse, quase sussurrando. Eu não tinha me acostumado ao fato de que eu falava com alguém superior a mim, e que eu não podia ver, só escutar. Era como fazer uma oração para Deus. Você não sabe se ele está te escutando, e você não o vê, só conversa com ele. É como se ele não desse a mínima, sendo que ele para o que ele esteja fazendo só pra te ouvir.
– Sua segunda decisão será tomada hoje, e você irá escolher com sabedoria.
A caixa apareceu de novo, e eu a peguei. Dessa vez, o vapor que escorria de lá era de um tom amarelado, e as duas bolas de fumaça se formaram diante de mim. Na primeira, a imagem que se fez foi de Lucas fazendo o dever em seu dormitório. Na segunda, era a imagem de Lucian... Só que ele estava sem camisa?
Eu olhei para as cadeiras imaginando que eu poderia encarar alguém, como se aquilo fosse algum tipo de piada, eu continuei a olhar para elas, e depois disso, a voz novamente se manifestou:
– Lucas está sozinho em seu dormitório, e ele deixou a porta trancada, com a chave guardada no banheiro. Seu colega não tinha fechado a pia direito... E a pia está começando a transbordar.
A primeira bola de fumaça mudou de imagem: o banheiro estava todo alagado! E a chave estava lá dentro, em algum lugar.
– Logo Lucas terá que abrir a porta do banheiro para poder tomar banho, e quando a água sair, será tarde demais, e o quarto todo irá ficar alagado, submergido, e Lucas irá morrer... afogado.
Eu senti uma coisa crescendo em meu peito. Acho que era o peso de uma vida...
– E Lucian está sem camiseta... E em breve, sua colega irá seduzi-lo, e Lucian não irá resistir, assim os dois se beijarão, e fugirão para dentro do depósito de vassouras...
Eu fechei meus olhos. Não queria saber de mais nada. Esperei por um momento até que a voz falasse de novo, dizendo quais seriam as consequências.
– Se você escolher Lucas, ele gritará por socorro e será atendido, e um de seus colegas que estiver passando irá arrombar a porta, salvando Lucian de morrer afogado. Mas, porém, se você escolher Lucian, ele não irá permitir que sua colega o seduza.
Eu estava com o peso nas costas. Um peso muito grande. Lucian não era mais meu namorado... Mas imagina-lo com outra pessoa...
Lucas era meu amigo, mas ele preferia andar com os outros do que comigo. Mas isso não era motivo para deixa-lo morrer porque eu estou com ciúmes...
Eu fechei meus olhos com mais força, como se aquilo me ajudasse a pensar melhor. Eu tinha que tomar uma decisão, e tinha que ser agora. Senão, Lucas deixará de viver.
Eu abri os meus olhos e encarei uma das cadeiras, como se a Voz estivesse ali, para eu novamente encara-la.
– Já se decidiu, Primrose? – a voz disse.
Eu esperei mais uns segundos. Deixei que o silêncio predominasse o ambiente. Eu sabia que meu tempo estava acabando, e não falei nada, até que meu cérebro respondeu por mim:
– Sim. Eu tomei uma decisão...
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