The Faraway Towns
1 Saudações e adeus.
Era véspera de inverno. O sol não raiava e as nuvens pareciam cobrir cada cantinho do céu. Não havia azul, e a qualquer momento o primeiro floco de neve iria cair. O frio chegava a ser insuportável.
Marina com suas luvas grossas de couro preto, combinando ao casaco de tecido macio, e com um maço de cigarros em uma delas esperava impacientemente por Logan. Não gostava de esperar; era uma pessoa ansiosa. Embora soubesse que nada de ruim poderia acontecer ao amigo no “Rei dos Donuts”, sentia irritada só de pensar que ele não ligasse para ela jogada lá, ao meio daquele vento frígido.
— Você quer um de morango com caramelo ou banana com chocolate?
A garota pulou.
— Quer parar de chegar do nada? Sabe que me assusto fácil.
Logan deu de ombros:
— Isso quer dizer que prefere de morango com caramelo?
Marina riu, tirando uma das luvas para pegar um do donut cor de rosa na caixa branca que o garoto carregava.
— Você deveria saber... – deu uma mordiscada no doce. – que eu ainda acho uma péssima ideia levar donuts para o velório da tia da Carol.
— Ah, bobagem! – exclamou. – Ela nem gostava da tia tanto assim.
Marina o deu uma cotovelada no estomago.
— Insensível!
Logan entreabriu a boca, em sinal de indignação enquanto passava uma das mãos pela barriga.
— Você não é digna de comer meus donuts! – e fechou a caixa, mimado. – Aliás, ninguém sabe quanto tempo irá durar esse velório, e eu realmente não quero comer nozes e tomar vinho quente.
— OK, nisso você pode ter razão, mas ainda acho desrespeitoso.
— E o que você entende sobre respeito, Swohouser? – falou de um jeito lascivo. – De qualquer forma você já vai ter comido tudo até chegarmos lá. – sorriu malicioso.
— Eu te odeio. – e o deu mais uma cotovelada, porém, dessa vez, Logan riu ao invés de protestar. Marina tirou a caixa de seu colo e a abriu, fisgando mais um donut.
Daqui a pouco, o velório vai ser meu, pensou ela. Estava quase morta de fome, afinal, depois de receber a noticia que a tia chata e resmungona de Caroline, sua melhor amiga, havia falecido, achou sensato dedicar um dia inteiro para ela. Não dormiu, não comeu, apenas ficou do lado da amiga até o momento em que Luke chegasse para a “substituir”. Uma hora depois recebeu uma mensagem de Logan dizendo que iria com ela ao velório.
Os dois viraram duas ruas depois da Leicester Square, andaram mais um pouco e chegaram até uma casa grande e antiga, porém conservada. Logan escondeu os quatro últimos donuts no bolso interno do seu casaco, não se importando se iria sujar ou não. Olhou pensativo para Marina e assentiu, apertando a campainha.
Uma garota de cabelos lisos até metade das costas, pele estranhamente pálida, olhos bem castanhos e lábios pintados por um batom cor marrom, abriu a porta. Seu olhar não parecia triste, mas cansado. Seu vestido vinha até um palmo depois do joelho e era um tanto justo. Seus olhos se encontraram com os de Logan e ela bufou:
— Andou comendo donuts?
— O quê?! – ele pareceu chocado. – Claro... Claro que não! Dã!
— Logan, tem cobertura pelo seu rosto todo. – A garota disse sem emoção. – Tanto faz, ainda tem um pouco aí?
O garoto limpou os lábios e deu de ombros, estendendo a mão por uma das partes do casaco, para ela observar o doce que carregava do bolso.
— Graças a Deus, não aguento mais comer nozes e pão torrado. – ela abriu passagem para eles.
— Meus pêsames, Carol. – Logan disse enquanto ela fechava a porta atrás dele, e o ajudava a retirar o casaco.
— Obrigada.
Caroline nunca sabia ao certo o que dizer depois de falarem “meus pêsames”, nunca foi habituada a aquele tipo de coisa... Pois odiava velórios, enterros... Mortes. Geralmente, quando alguma, tristemente, ocorria, mal saia do quarto. Ficava horas lendo e lendo, até esquecer que no andar debaixo havia dezenas de pessoas chorando. Porém, aquela vez havia sido diferente, afinal, sua tia havia praticamente morrido nos seus braços.
— Está melhor? – Marina perguntou, preguiçosamente retirando o tecido que cobria oitenta por cento do seu corpo, e o pendurando no cabideiro.
— É, acho que sim. – suspirou. – Vamos! É hora de entreter com gente depressiva.
Ela nunca havia soado de um jeito tão amargo quanto aquele, pensou Logan. Tentava se colocar no lugar dela, mas não conseguia... A última morte que havia ocorrido na sua família fora quando ele ainda era um bebê, e aquilo o fazia se sentir desconfortavelmente sortudo perante a situação.
Logan e Marina reconheceram pouquíssimas pessoas que estavam conversando pelo local com suas taças de vinho (como Logan previra que teria). Algumas pareciam normais perante a situação, outras pareciam querer morrer junto ao defunto que se concentrava no meio da sala.
Tia Sam estava lá, deitada no caixão, a pele cinzenta fazendo parecer mais velha; coisa que ela era, mas não tanto. Em sua volta havia todo tipo de flor, destacando ainda mais a falta de coloração na pele. O vestido era preto, e deixava expostos os joelhos da mulher. Marina sentiu que iria vomitar, então fez sinal que sairia dali para Logan, indo direto para o banheiro que, felizmente, se encontrava desocupado.
Logan continuou lá, entretido com aquilo de certo modo. Nunca havia visto uma pessoa morta. Não sabia o que deveria sentir, olhou para os lados e observou uma idosa sentada numa cadeira de madeira, com um lenço indo aos olhos contornados por um rosa fraco, de tanto chorar.
— Logan, meu jovem... – ela o cumprimentou.
— Vovó Stanley... Meus pêsames. – ele agachou-se para dar-lhe um beijo na bochecha.
A senhora riu tristemente com o carinho:
— Tão bom vê-lo. Está mais bonito do que nunca. – suspirou. – Meu marido era tão bonito quanto você. Agora Sam está com ele. Espero que ambos estejam bem.
— Estão. – Logan adiantou em dizer. Sorriu fraco e sentiu uma mão gélida pelo ombro. Observou Caroline sorrindo do mesmo modo que ele.
— Vovó, se importa que eu empreste o Logan um pouquinho?
— Claro que não, Caroline... Ele é todo seu.
A menina pareceu adquirir um tom cor-de-rosa ao ouvir aquilo. Logan fingiu não ter notado e a seguiu enquanto iam para a cozinha.
— Ótimo, só queria alguém para me acompanhar nos donuts. – E foi naquele momento que ele recordou que Caroline havia raptado seu casaco logo na entrada, parecia apressada em achar o bolso cheio de donuts.
— Acho que sou seu novo herói por ter trago uma comida decente.
— Não se gabe. – ela deixou escapar um “eba!” ao achar o bolso “premiado”, entregou um donut de banana para Logan e mordiscou um de morango sem medo de sujar o batom ou ficar lambuzada de granulado.
— Há quanto tempo não come?
— Um dia e meio! Você sabe o quanto odeio nozes? Eu odeio muito nozes! – falava de boca cheia. Garotas perdiam a delicadeza na hora do apetite.
— Bom... Então somos feitos um para o outro. – pronunciou baixo, limpando os dedos de chocolate em cada mordida no doce.
Caroline pareceu parar com a frase. Logan a encarou, estranhando e então ela balançou a cabeça parecendo se desfazer de algum pensamento.
— Você está bem?
— Não. Não totalmente bem. Se não notou, perdi um membro da família. – e mais uma vez, soou amarga. Ela parecia não perceber aquilo, entretanto.
A campainha tocou. Ela virou os olhos e pegou um pano qualquer que estava sobre a pia, limpando as mãos sujas de cobertura.
— Já volto. – Caroline andou meio passo e então voltou o olhar para Logan: — Minha boca não está suja, está? Porque estou sentindo que ela está.
Logan franziu o cenho com a repetição do verbo “estar” e então se aproximou da garota.
— Você sentiu certo. – ele umedeceu seu dedo e o passou aproximadamente na boca dela. Caroline realmente havia corado e dessa vez ele não podia fingir que não vira. Ao invés disso, riu e se afastou: — Pronto, limpinha.
— Sabe? Eu deveria gritar com você.
— Por quê? – pareceu confuso.
— Por que... – E a campainha tocou novamente, insistindo. – Esquece! Fica aí.
Logan encafifou, afinal, não havia outro cômodo para ele querer ir, pelo menos não naquele momento. Caroline saiu ao som de seus sapatos de salto alto batendo no chão. Ele sentou-se em uma das cadeiras macias e apanhou outro donut de banana. A fome não cessava, talvez precisasse comer um Big Mac depois do enterro.
O garoto ouviu alguma voz conhecida vinda de fora, contudo não foi ver de quem ela pertencia. Preguiçoso e guloso, pensou.
— Logan! – Ele levantou o olhar e observou uma garota de cabelo descolorido vindo ao seu encontro, segurando algo que parecia ser uma caixa de cupcakes do “Cantinho dos Doce”.
— Bruna! – cumprimentou-a com a mesma empolgação, levantando-se para dar um abraço decente.
— Trouxe cupcakes!
— Percebi. – falou empolgado.
— Vocês não tem juízo mesmo. – outra voz tomou conta da cozinha, era Marina se aproximando dos dois. – Primeiro donuts e agora cupcakes? Nem para trazer um doce... Triste.
— “Doce triste”, Marina? – Caroline havia voltado. Ela já tinha um olhar mais contente. – Isso existe?
— Chocolate é um doce triste.
— Não é não! – Bruna protestou.
Caroline deu de ombros, soltando um riso fraco:
— E se for, é um doce triste que me trás muita alegria.
— Podemos parar de falar sobre doces e comer esses pobres e bonitos cupcakes que estão loucos para se divertirem na minha barriga? – Logan resmungou.
— Seu estomago tem fundo? Porque não parece. – zombou Marina enquanto se sentava à mesa, e abria lugar para Bruna acomodar-se ao seu lado.
***
Logan se olvidava de tudo quando comia algo tão bom quanto os cupcakes do Cantinho do Doce. Ele mal sabia que aquilo era um velório ao fazê-lo, portanto improvisava piadinhas sobre Marina e ria dele mesmo ao terminar; Caroline o cutucava, às vezes, tentando-o fazer perceber onde estava, e o porquê de estar ali, mas aqueles cupcakes enfeitados e rosas o dopavam tanto que ele nem parecia notar.
— Marina, lembra-se daquela vez que você correu de um chihuahua achando que era um rato? – contava de boca aberta, quase cuspindo os resíduos do doce no rosto de Bruna.
— Logan, seu porco! – Bruna fazia uma cara de nojo, já desistindo de comer o cupcake azul de chocolate. – Nunca mais te trago cupcakes.
A campainha tocou. Caroline agradeceu por aquilo mentalmente. Levantou-se, amassando o papel que antes se encontrava o doce, o jogando no lixo, e saiu da cozinha sem provocar despedidas desnecessárias.
Marina, naquela altura, havia dado um tapa no rosto do garoto quando Luke e Tom chegaram, felizmente, sem nenhuma comida.
Tom ia à direção dos amigos, enquanto Luke fechava a porta do recinto – sendo mais esperto do que os outros – para não causar nenhum barulho no local em que o corpo da Tia Sam se encontrava.
— Parece que perdi uma festa de glicose. – Tom resmungou franzindo o cenho ao ver a boca contornada de creme colorido de Logan.
— Que droga, estava quase me sentindo confortável até você chegar. – dizia Marina ignorando Thomas e olhando fixamente para Luke.
Luke soltou uma risada abafada, pronto para revidar, porém Caroline o segurou pelo braço sussurrando “não hoje, por favor”.
— Como tenho modos, Swohouser, permanecerei calado. – Foi tudo que a disse antes de se sentar em sua frente e pegar um cupcake amarelo, dando um sorriso triunfante.
Caroline pareceu se aliviar e sentou do lado do melhor amigo.
Luke, como sempre, estava radiante. Sua blusa social preta, com os dois primeiros botões abertos, e sua calça jeans escura, não parecia ofuscar o brilho fulgente que ele mesmo continha. Era fascinante como, mesmo tendo passado a noite em claros ao lado de Carol, nenhuma marca de cansaço refletia em seu rosto. Ele continua com os traços delicados e perfeitos que sempre trouxe consigo. A boca intensamente vermelha, os olhos claros, o cabelo loiro (raramente castanho claro)... Tão bonito quanto um anjo. E Marina o odiava tanto por causa daquilo. Afinal, ela sabia que, de anjo, ele não tinha nada.
***
— Red Label? Não... Ok, sim. Sim, acho que o Danny vai gostar. Ah, claro que ele vai gostar. – Caroline dizia consigo mesmo, enquanto colocava mais uma bebida na cesta verde escura do mercado.
A garota havia passado à tarde no enterro, e não foi exatamente como pensou que seria; ela, sinceramente, não fazia ideia de que iria chorar... Chorar pela tia Sam. E também não sabia que Logan iria começar a fazer piadas sobre sua vizinha idosa Margaret nua enquanto chorava. Foi um show grotesco de risadas através de soluços e lágrimas. Sua mãe ficara extremamente brava quando a viu rindo enquanto o corpo de sua irmã se atolava na terra; logo, não voltaria para casa tão cedo... Por questão de segurança.
— Jack Daniels, meu melhor amigo... – pegou uma garrafa, arremessando-a na cesta também. – Ok, acho que já está bom. – suspirou, indo para o caixa, porém, parou quando viu um cofre de mostarda: — Mostarda para Bruna! Pronto, agora está tudo perfeito. – E continuou a caminhada até o balcão.
— Você deve parar de falar sozinha toda vez que vem comprar algo aqui. – dizia Teddy enquanto a ajudava retirar as bebidas que havia posto na cesta. – E pra que tanta bebida? Está havendo alguma festa da sua família riquinha e você não achou apropriado convidar um balconista?
— Cale a boca, Teddy Bear.
— Já disse que é Teodore!
— E seus amigos se chamam de Teddy, e “Teddy” lembra o ursinho. E afinal por que estamos discutindo o seu apelido infantil? Apenas passe logo essas bebidas que hoje foi um dia extremamente estressante! – Caroline grunhiu, passando a mão pela testa.
— Sinto muito, Carol, mas não vai dar. – ela sentiu uma ponta de prazer na sua voz falando aquilo.
— O quê?! – ela gritou. – Como não? Sempre deu!
— Sempre até meu chefe descobrir que fico vendendo bebida para menores. – ele sorriu fracamente. – E eu até poderia te vender pelo menos uma cerveja, mas... Red Label? Não acho que seja apropriado para uma garota de quinze anos.
— Dezesseis! E eu vou fazer dezessete daqui alguns meses.
— Ah, então volte quando tiver dezoito anos. Os anos passam em um flash. – falou sarcástico.
— Teddy! – bateu os pés. – Por favor, essa é a ultima vez que lhe peço que me deixe comprar essas bebidas! Minha tia morreu e eu não estou suportando minha família se deprimindo por todos os cantos da casa! Eu preciso de alguma distração.
— Bebida não ajuda a “se distrair”... E não acho que a morte de um parente seja uma boa desculpa...
— Ela morreu nos meus braços! Eu não consigo parar de pensar no rosto dela enquanto eu a segurava os as próprias mãos! Por Deus, homem, não há um pouco de compaixão nesse seu coração? Vamos... Por mim!
Teddy xingou baixinho e então virou os olhos antes de falar:
— Nossa! Eu te odeio.
Caroline sorriu vitoriosa, já indo pegar uma sacola.
— Por favor, no cartão.
O garoto a olhou sério e ela não pode deixar de rir.
— Ah, vamos... Não é tão ruim assim!
— Se eu for demitido... Vou ir morar na sua casa.
— Será um prazer para meu cachorro dividir o canto do meu quarto com você.
Teddy não pode deixar de rir, e então, ambos já estavam gargalhando altamente no meio da loja vazia.
— Ok, ok, madame... Ficou cento e sessenta e três libras.
Caroline já apontava o cartão para o rosto do rapaz.
— Não quero nem saber o que sua mãe vai pensar quando vir você com tanta bebida. – ele pegou o cartão, delicadamente, passando-o na máquina e entregando a mesma para a garota.
— Relaxa... Ela nem vai notar. – sorriu digitando a senha.
Teddy levantou uma das sobrancelhas e deu de ombros. Clicou no enter e retirou a notinha.
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