Notas iniciais
Hello! Demoramos, sabemos disso. Mas podemos garantir que não irão se arrepender por terem esperado o desfecho de TFOL! Mais uma vez, agradecemos por cada sugestão, cada comentário e por não nos abandonarem. Continuem indicando, relendo, e quem sabe... aguardando outra história, talvez? O que acham disso? Mil beijos, e sayonara! õ/ - As Autoras.

(Kaori)

E depois de tudo aquilo, nada parecia importar.

Tudo parecia ter sido em vão. Mas depois, isso mudou. O tempo passou em tiques lentos, agradáveis, porém estranhos. As paisagens coloridas se intercalavam com minhas lembranças sombrias, jurava ver as pessoas que matei caminhando pelas colinas. O passado estava congelado em minha mente e esquecê-lo era impossível. Costumava reviver as mortes escritas e minha submissão a Kira. Logo depois, lembrava do Vazio. E Lumiére me resgatando de lá.

Anos antes, minha depressão profunda quase me fez esquecer-se do rosto de Aiko, que eu jurava ser meu grande amor até mesmo depois de sua morte. Mas o reconheci no instante em que me deparei com ele. Meus sentimentos estagnados e confusos foram ignorados por meu coração, e a única coisa que fiz foi abraçá-lo.

Dizem que ao chegar ao Paraíso, se a primeira coisa que você faz é abraçar alguém, então sua vida valeu a pena.

Ainda não sei é verdade, mas acho que no fundo ninguém sabe. Ali, as pessoas não eram sábias ou perfeitas, eram apenas pessoas comuns. Diversas causas de morte, diversas religiões e nem uma única pessoa perfeita. Nem mesmo aquelas poucas que foram presenteadas com a Natureza Angelical eram perfeitas. E de alguma forma, isso parecia bom pra mim. Ou pelo menos, aceitável.

Pouco depois que havia chegado, correu a noticia de que Kira havia reencarnado. Não sabia muito bem como reagir com aquilo, todos falavam disto na cidade e ninguém parecia ser capaz de disfarças olhares significativos para mim, como se esperassem que eu começasse a chorar ou gritar. Felizmente, não fiz nada disso. Fiquei apenas sozinha.

Mais tarde, fui procurar por L. Tentava não pensar na minha reação ao vê-lo, ou na possibilidade dele me odiar por eu ter quase matado Near. Porém, boatos surgiram. Boatos que depois se confirmaram: O famoso Anjo Detetive também renasceu. Tinha certeza de que se L queria cuidar para que Light não seguisse para o caminho das trevas de novo, seria mais sensato permanecer no Paraíso e observá-lo de longe ou simplesmente segui-lo como os anjos da guarda dos filmes. Mas é claro que para ele isso não seria o bastante; ser um anjo da guarda que não podia interferir na vida do ex-Kira não era nada perto da possibilidade de ser um humano próximo a Light. Quase podia os ver surgindo como irmãos.

Assim, o tempo se arrastou. E um dia decidi visitar a Terra. Normalmente, excluindo alguns dos recém-chegados, ninguém ia pra Terra. Diziam que era um lugar monótono e sem graça. Mas ninguém pareceu demonstrar surpresa e eu percebi que no fim das contas, todos sabiam que algum dia eu iria. Depois de receber instruções do lugar exato, parti.

Quando vi o lugar onde Light vivia, fiquei com vontade de saber o que ele acharia daquilo, caso se lembrasse. Fazia muito tempo que eu não via um céu azul com nuvens brancas, até mesmo os raios de sol pareciam novos para mim. Havia me acostumado á luminescência natural do lugar de onde eu pertencia.

O enorme casarão com ares clássicos era rodeado por jardins e gramados abertos. Entrei e procurei por vários quartos e salas, mas não achei o que buscava. Então, no último quarto de um corredor no último andar, vi alguém pálido olhando a janela.

— Você. – falei, mesmo sabendo que ele não me ouviria.

Para minha surpresa, o detetive se virou.

— Espero que não tenha vindo para tentar me matar de novo, senhorita. – Near não alterou sua inexpressividade, mas notei um fio de humor em sua voz tranquila.

Deveria ser um homem feito, mas suas feições ainda se assemelhavam às de um adolescente antissocial, mesmo com seu olhar maduro. Usava roupas brancas costumeiras, casaco e luvas. Os cadarços dos tênis estavam desamarrados e o cabelo uma desordem de bonitos fios alvos. Quase um príncipe de gelo. Balancei a cabeça buscando pensamentos mais importantes.

— Eu não sabia que você era um... Sensitivo? Vidente...?

— Não sou nada disso, ainda os considero uns charlatões.

— Mas como...

— Passei tempo demais com L para continuar totalmente cego ao mundo espiritual. Mas isso não importa, achei que você estaria no Vazio. Acredite, cheguei a cogitar a ideia de que você voltaria como uma Shinigami mesmo sabendo que o Rei jamais te escolheria.

Não sabia se ele estava me insultando propositalmente, mas ignorei.

— Na verdade fiquei lá, mas depois um Arcanjo me ajudou. Você não sabe, mas com a súbita perda de Almas, o Rei se enfraqueceu. Ele não tem o poder para transformar nem um espírito em Shinigami.

— Eu sabia. – comentou.

— Como...

— Depois que L me deixou numa rua antes de ir atrás de Kira, tive bastante tempo pra pensar. Nenhum deles retornou e tudo voltou ao normal. Bem, pelo menos eu achava. Quero dizer, ainda acho.

— Apesar de tudo? – cogitei.

Ele empertigou com a pergunta. Virou o rosto, ainda mais sério.

— O que foi?

— Sempre me disseram que eu me pareço com L, mas nesses últimos anos eu nunca me senti tão diferente dele. – N disse, franzindo os lábios.

— O que você quer dizer?

Seus olhos se voltaram para mim.

— Você teria dado uma segunda chance como L fez?

Ele sabia. Teria deduzido aquilo ou visto com os próprios olhos? Mas não era como se suas proezas espirituais fossem tão boas a ponto de ele reconhecer Kira numa nova encarnação. Porém, ele parecia como se confrontando com uma questão que o persegue há muito tempo. E não tinha nada a ver comigo.

— Eu não esperava que você soubesse sobre isso.

— É meio obvio, não é?

— Óbvio?

Near demonstrou impaciência.

— Ainda não o viu.

— É pra isso que estou aqui.

Ele levantou os olhos para mim.

— Eu sempre achei que as pessoas mudassem quando reencarnadas.

— Elas mudam, totalmente – afirmei, lembrando-me do que falavam.

Mas a cara dele me fez repensar. Era impossível uma alma humana levar traços físicos ou psicológicos de sua vida para uma nova. Tudo era deixado para trás, juntamente com suas memórias. De repente, pela primeira vez pensei se a história de ter sido shinigami pudesse ter interferido. Imaginei uma criança ruiva com asas negras.

— Eu o vi brevemente quando ele era humano e garanto a você que não existe diferença. A não ser é claro que ele está mais jovem.

— Eu não imaginava isso – admiti – Bem, mas um shinigami nunca ganhou outra vida, então...

— É realmente difícil esconder isso das pessoas.

Ergui as sobrancelhas.

— Não é como se fosse coisa complicada esconder isso.

De súbito, me veio à mente um Light com asas de novo. Era possível?!

— Bem, disse que ele não mudou, mas há uma coisa diferente. Não vai ser diferente pra você, mas...

— Diferente como?! – questionei, já sentindo certa impaciência. – O que está acontecendo aqui?

— É melhor ver por si própria.

(...)

Havia se passado muito tempo desde que o vi. Mas mesmo assim, reconheci-o imediatamente. O rosto com o sopro adorável da adolescência, mechas de bronze do cabelo liso riscando-lhe a testa. Sentado num banco, parecia profundamente pensativo enquanto olhava as crianças e jovens comerem nas longas mesas do refeitório a sua frente. Usava jeans claros e tênis brancos. A blusa preta era folgada, o capuz erguido formava uma redoma ao redor dele, distanciando-o propositalmente do restante dos órfãos. Tudo isso foi analisado em segundo plano, pois a coisa que Near falara foi gritante demais.

Olhos brilhantes mais vermelhos que rubi.

— Olhos de shinigami – deixei escapar.

Numa força involuntária, caminhei até ele. Atravessei alguns, o que causou sensações gélidas, mas fui em linha reta. Posicionei-me em sua frente, mas as íris de rubi não me percebiam. Ainda olhava a multidão passante ou o bater de garfos e copos. Suspirei, não sabendo se aliviada ou decepcionada.

— Light? – tentei – Consegue pelo menos me ouvir?

Não houve uma única reação às minhas palavras, e me senti idiota. Recuei alguns passos e o observei atentamente. Ótimo, ele tinha olhos sinistros, mas uma vida toda pela frente. Parecia bem. Porém, por algum motivo, não senti que devia ir embora. Então, ele ergueu o olhar. Se levantou. Foi em minha direção.

E me atravessou, seguindo caminho. Uma sensação morna me atingiu e me virei, vendo-o desviar de uns meninos e se dirigir ao longo corredor, onde Near ficara me assistindo. Eu o segui. Near estava encostado na parede e ao vê-lo, andou pelo corredor, se afastando dos barulhos do refeitório como se procurasse um lugar seguro para falar com seu antigo quase assassino. No fim, havia grandes portas de mogno abertas para poucos e largos degraus, e depois o gramado aparado em frente do orfanato. Near parou e Light também.

O detetive suspirou pesada e tediosamente.

— Sabia que ainda estava aqui na Wammy’s – Light disse – parecia até que você queria que eu achasse que não estava aqui.

— Irei embora, você sabe. Já deveria ter ido semana passada, mas não é como se isso fosse da sua conta, é claro – Near cruzou os braços, mal se importando com a presença do garoto.

— O que você perdeu que te fez atrasar a viagem? Ouvi algo sobre você estar procurando alguma coisa, mas foi só isso.

— Então você me espiona no seu tempo livre? Foi assim que “deduziu” que eu sou o L?!

Light revirou os olhos.

— Não perco meu tempo espionando, passei pelo corredor e ouvi. Foi inevitável e, aliás, você já encontrou o que procurava ou não estaria arrumando a mala antes de vir pra cá.

Lembrei-me da mala em cima da cama no quarto do detetive, sem decifrar como ele sabia.

— Eu sei que você vai dizer como sabe disso, mesmo que eu já saiba – resmungou.

— Nada demais. Só vi uma machinha vermelha perto do polegar na luva, você deve ter feito a proeza de se ferir com o zíper da mala, a não ser que resolveu usar bolsas femininas.

— Ótimo – falou Near totalmente desinteressado – Você é o melhor investigador com quem falei.

Ele me deu um olhar e começou a andar. Eu o segui, mas antes que o barulho do refeitório recomeçasse, Light chamou:

— River! Espere!

Vi uma curtíssima raiva passar pelo rosto inexpressivo do pálido ao meu lado. Ele se virou.

— Qual é o seu problema?! Já não disse o que penso sobre utilizar meu nome?

— Ninguém está nos ouvindo.

Mordi o lábio e Near me olhou significativamente. Sem me segurar, me aproximei do garoto e passei minha mão pelo seu rosto, atravessando-o duas vezes. Ele recuou alguns passos e olhou em volta, procurando a origem da sensação gelada. Um sorriso se disfarçou nos sérios lábios do alvo detetive.

— O que quer? Estou com pressa para voltar pro meu quarto.

Light balançou a cabeça, resolvido a esquecer da sensação. Fitou o outro.

— Quero viajar com você! Já te ajudei em vários casos, mas nem assim...

— Um caso, sendo que o primeiro você ficou doente e não pode vir comigo. E ambos foram aqui na região. Não vou te levar pro outro lado do oceano.

— Sou o melhor daqui! Então por quê?

Antes que Near pudesse responder, senti e ouvi a presença de alguém e me virei no começo do corredor. Um homem uniformizado subia os largos degraus, trazendo um garoto e segurando os braços dele para trás, como uma espécie de prisioneiro juvenil.

— L – murmurei pra mim mesma.

— Não é mais L. Tecnicamente.

— Como? – Light disse.

O segurança ou guarda se aproximou de nós. Assim como Kira, L estava tremendamente mais jovem do que quando o conheci. O cabelo bagunçado estava mais negro que a noite, assim como os olhos, que apresentavam olheiras esfumaçadas, porém leves. A camiseta era escura e os jeans pareciam novos. Sua expressão era de mau humor, como se ser pego por seguranças fosse uma rotina indesejada.

— O que ele fez dessa vez? – perguntou Light com humor – assaltou a máquina de refrigerantes de novo?

L não pareceu achar graça.

— Foi você que quebrou da primeira vez.

— O que ele fez, Sr. Morris? – Near perguntou ignorando-os.

— Invasão — disse a palavra com certa força.

— Não foi uma invasão! Eu sou do orfanato!

— Era – falou Light – aprenda pretéritos, eles são bem úteis.

— Por favor!

Cada vez mais o guarda ficava mal humorado.

— Senhor, o que devo fazer com ele!?

Achei engraçado alguém chamar Near de ”senhor”.

— Não se preocupe, eu cuido disso, pode ir – não menos zangado, o guarda saiu.

L suspirou e se virou para Light.

— Ele ficaria contente se eu fosse preso.

— Todos ficariam.

O ex-detetive riu. Era estranho pra mim vê-los daquela maneira. Near deu um profundo suspiro e refez o caminho do corredor até o refeitório. Kira e L o seguiram de cada lado e eu fui atrás. Atravessamos o refeitório e subimos o primeiro lance de escada.

— Espero que pare de vir aqui passear quando eu for. É perigoso.

— É um orfanato – retrucou – não tem como ser perigoso.

— Fique em casa.

Começamos a subir o último lance, mas L ficou parado.

— Aonde você vai?

Near nem olhou para trás.

— Não importa.

— Vou com você.

— Você não vai comigo, ninguém vai. E por gentileza, parem de me seguir.

Near continuou a subir os degraus. Os garotos ficaram parados em seus lugares.

— Light não sabe de nada, mas e L? Ele se lembra!? – perguntei enquanto subia atrás de N.

— Um pouco.

— Um pouco?

Ele se virou.

— Ele sabe que reencarnou, sabe que conhece Light e eu numa vida passada, mas quase nada além disso.

— Ele deveria ter esquecido... Espere... Contou á ele!?

Near não se importou com a urgência em minha voz.

— Ryuuzaki sempre teve sonhos estranhos desde criança. Não tive muita escolha a não ser esclarecer um pouco as coisas, unicamente sobre ele ter tido uma vida passada no qual eu o conheci.

— Só isso?

Olhou-me intensamente.

— Ryuuzaki está com o caderno.

— O quê!?

— O Death Note que nós cancelamos as mortes. Ficou comigo o tempo todo, mas não se preocupe, não costumava escrever nele. Há umas duas semanas ele o pegou por curiosidade.

— Curiosidade – repeti.

— Sim. Ontem ele me contou. Hoje, antes de ir para o aeroporto vou buscar na casa dele.

Fiquei com a imagem fixa de L folheando páginas em cima da cama, tentando racionar. Tentando montar o quebra-cabeça do que havia acontecido em seu passado.

— Não podia ter deixado aquilo com ele! – minha voz alta não incomodou sua passividade.

— E por que não? Ryuuzaki não é o tipo de pessoa que escreveria nele, então por quê? Mesmo que desde antes dele nascer Kira e seu Caderno tenham saído da mídia mundial á mando dos governos. Falar sobre Kira não foi proibido, mas a maioria evita. Mas eu acho que esquecer não é remédio certo para apagar a mancha.

— Near, ele não pode se lembrar – balancei a cabeça e ênfase – Deixei-o em paz.

— Eu o deixei em paz desde que chegou aqui. Mas ele sempre soube que havia alguma coisa errada; ele está tentando encontrar a verdade, não vou impedir isso, garota.

— A verdade devia ser enterrada neste caso. Junto com o caderno! Por que não o destruiu!?

Pela primeira vez, o atual L não soube o que responder.

— Eu não sei... Destruí-lo nunca me pareceu uma opção.

Seus olhos cinza me pareceram inquietos, inseguros. Ficamos um tempo só parados ali, um silencio estranho nos rodeando. Recuei alguns passos e quando já me afastava, ele disse:

— Yaoshii, é melhor que ele saiba. Kira pode voltar á qualquer momento...

— Não, Near, ele não vai. Light é apenas um garoto, assim como L. A verdade não vai libertar nenhum deles.

(...)

Seguir o antigo L foi fácil. A casa era de dois andares e cercada por uma faixa de jardim. Ele andava com as mãos no bolso e cabeça baixa, pensando muito. Cômodos e degraus passaram e chegamos ao seu quarto. Não sabia muito bem o que esperar.

O quarto era pequeno e as paredes lotadas por papéis colados desajeitadamente colados por fitas crepes. Neles, vários e vários desenhos, alguns preto e branco, outros esfumaçados e poucos coloridos. Havia uma infinidade de pessoas, crianças e cenas violentas. Um homem de cabelos brancos e bigode aparecia em muitos; maçãs e monstros estranhos com asas. Apertei os olhos e no meio de algumas crianças reconheci Near, inexpressivo e afastado. O Death Note se fazia presente em muitas páginas, eu girava nos calcanhares e sempre via o rascunho de um. E Light também, rosto humano e jovem, expressão ora amigável, ora cruel.

Andei e toquei em alguns, mal captando a textura física. Minha mão passou lentamente por alguns e meus dedos pararam em um de cor. Era um rosto suave com grandes olhos brilhantes e pintados com um amarelo ofuscado com grafite. E o cabelo era uma cachoeira de rabiscos vermelhos. Retirei a mão e encarei minha representação. Me virei e fitei o artista.

— Quem é você!? – ele perguntou mais ágio do que eu.

— Você realmente não sabe!? – não pude deixar de correr os olhos novamente pelas paredes.

Eu não o havia conhecido muito bem na outra vida, mas era obvio suficiente que os desenhos eram memórias. Memórias estas que ele não deveria ter. Pensei em Light e na aparente normalidade. Ele parecia não se lembrar, apesar dos olhos vermelhos que herdou de sua natureza de shinigami. Diferentemente, L teve uma herança mais mental

— Não, eu não sei – retrucou – Mas... Eu costumo sonhar com você. Por que sonho com uma garota morta!?

Palavras que eu diria simplesmente voaram diante de um súbito congelamento.

Light entrara.

— Você costuma falar sozinho?

— O que está fazendo aqui!?

— Só queria falar com você... – Light passou os olhos pelo quarto, como que procurando alguém, mas logo notou os desenhos — Por que... Tem desenhos de mim aqui!?

L baixou a cabeça, mordeu levemente os lábios como se tentando formular uma resposta decente.

— Raito... – começou – Near me contou uma coisa. Sobre mim... E sobre você...

O outro ergueu um pouco as sobrancelhas.

— Mas o que isso tem a ver com...

— Ele disse que me conheceu antes disso e você também.

— Antes disso?

— Desta vida.

Vi a expressão de Raito ir de curiosa e meio cética para descrença total.

— Ryuuzaki, por favor...

— É verdade!

— Você ficou louco!

— É muito descrente pra alguém com olhos de shinigami!

Um silêncio se fez entre eles.

— O que disse!? – perguntou calmamente.

— Você consegue ver nomes e tempos de vida das pessoas. Não é!?

O outro pareceu não conseguir achar uma resposta.

— Você havia dito que investigou o nome do L atual, mas ele e eu sabemos o que aconteceu. Você simplesmente viu o nome dele – fez uma pausa como se esperasse uma contrarreação – Ele sabe o que pode fazer. Sabe como isso pode ser usado.

— Como sabe de tudo isso!? – aumentou o tom de voz – Como ele pode saber disso!?

— Ele nos conheceu!

— Por que tem tanta certeza!?

L ficou pensativo.

— Eu me lembro – eu o encarei e ele me viu – Quase – baixou os olhos e fitou Raito – Muito pouco na verdade.

— E do que se lembra? — ainda parecia transparecer ironia, mas por algum motivo, seus olhos fitaram o antigo detetive com certa intensidade.

— Já disse, quase nada.

— Eu te matei!?

A pergunta soou despretensiosa.

— Costumo me perguntar sobre isso.

Raito o observou como se realmente o imaginasse tentando se lembrar. Suspirou e sentou-se na beirada da cama. Seus olhos vermelhos se fixaram no chão de madeira.

— Isso tudo é loucura, você sabe – desabafou.

— Talvez seja.

O silencio se fez e L acabou se sentando no baú ao lado da cama. Cortou o ar com uma pergunta aparentando ingenuidade.

— Por que perguntou se você me matou?

A surpresa apareceu rápida em Raito. Por alguns instantes, parecia estar medindo as próximas palavras.

— Reflexo. Curiosidade.

L estreitou os olhos.

— Se lembra de algo?

— Não há nada para lembrar.

Ryuuzaki me fitou por um momento.

— Kaori Yaoshii – falou – familiar?

— Não – sua voz soava sincera – Deveria?

O antigo detetive não respondeu. Raito se levantou e ficou perto da porta.

— Ryuuzaki... Não sei no que acreditar, mas eu queria que você não contasse pra ninguém sobre meus olhos.

— Tudo bem – L murmurou, sem olhá-lo.

Ele seguiu pela porta e tocou a maçaneta.

— Espere! – L disse de repente.

— O que foi!? – Raito se virou.

L levantou-se lentamente, os olhos negros fixos nele.

— A blusa – pausou – tire.

Raito franziu o cenho.

— Como é!?

— Você roubou uma coisa, escondeu dentro da blusa e eu quero de volta. Só assim te deixo sair deste quarto.

Raito não falou nada, só o analisou calmamente, como se classificasse uma boa resposta.

— Devolva – L estendeu a mão.

Num suspiro, o outro abriu o zíper e tirou de lá o pertence.

— Eu iria devolver mesmo assim, só fiquei curioso – falou enquanto entregava o Death Note.

— Você leu as regras?

— Não deu tempo. E por que isso importa?

— Não importa, na verdade.

Um silêncio estranho se fez entre eles. Observei Raito atentamente, mas não encontrei nenhum indicio de um Kira planejando se apossar do Caderno. Era só uma curiosidade tão intensa quanto àquela da origem incerta de se ter olhos vermelhos e fúnebres. Ele deu mais olhada em L e pareceu querer dizer alguma coisa, mas decidiu por abrir a porta.

— Light – murmurei e num curto instante, seus olhos tiveram um vislumbre de que ouvira.

Virou a cabeça um pouco, parado e quieto. Depois de alguns segundos, balançou levemente a cabeça e foi embora. A porta foi deixada entreaberta e tive vontade de vê-lo se ir pelo corredor. O antigo detetive parou ao meu lado, como se quisesse também. Então, sem me olhar, ele disse baixinho:

— Não há nenhuma forma de eu ter as memórias de volta?

Near sabia de tudo, mas ele não contaria nada além do básico. E L sabia disso. Near logo voltaria a pegar o Death Note e o único objeto que o ligava á outra vida seria afastado. Provavelmente ele já devia ter deduzido várias coisas, mas tirando os sonhos confusos, sua mente ainda estava branca.

Pensei em tudo que ele havia passado e nossos olhos se encontraram.

— Ás vezes, é melhor não se lembrar.

Um sorriso triste surgiu de leve e eu pousei uma mão em seu ombro, surpreendendo-me por eu não atravessá-lo. Beijei-o ternamente na bochecha. Quando passei pela porta, trocamos sorrisos, mais serenos do que tristes.

Saí da casa e o sol se escondia atrás de nuvens cinzentas.

Light caminhava lentamente, pensativo. Andei ao seu lado.

— Você não o matou – falei. Minha voz se perdeu na brisa.

Parei de caminhar e me concentrei para voltar ao Paraíso.

— Eu sei – ele sussurrou olhando para mim.

A luz caiu sobre mim levando-me ao meu lar.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!