Era absurdamente dantesco.

Aquela terrível mescla de sentimentos corrompia-me sem esforço. A nobre máscara caíra, tornando-se apenas cacos inúteis no chão. Uma espécie de calafrio subia clandestinamente pela minha fraca espinha, eriçando cada pelo do meu corpo. Era uma dor psicológica, que de tão forte, ia evoluindo para uma coisa mais física e precisa. E tudo isso, graças àquela noite em que não pude completar minha missão; a noite em que abaixei a varinha perante Dumbledore, crendo claramente em meu destino de sombras. Tudo começou exatamente naquela noite.

Eu pude sentir nos ossos. A hora em que estive no Salão Principal e os Comensais da Morte iniciaram a devastação. As janelas trincaram com feitiço e explodiram numa rajada de vento invadindo o castelo, após ter transpassado pelo meu corpo, que parecia sucumbir de pavor aos poucos. Sim, um pavor que reconhece o colossal presságio. Anos terríveis assombrarão Hogwarts. Eu não poderia estar mais certo.

Esfregava, incessantemente, tentando em vão apagar a Marca Negra feita em meu pulso. E não cessei, até uns ínfimos glóbulos de sangue surgirem na região. Chorava copiosamente perante o espelho, igual àquele dia no banheiro dos professores. O sangue descia em filetes, que se juntavam para se esvaírem na pia em que me apoiava. Minha reputação estava na lama, era o que eu pensava. Induzia-me duplamente a crer que eu não poderia continuar a viver daquele jeito. Pois aquilo, não era viver.

Subia meus olhos ora sim ora não. Com medo de descobrir o que eu havia me tornado. Até que os levanto, por fim; o rosto quase cadavérico, o cabelo que há tempos não era cortado, com aparência suja e oleosa, tantas linhas de insatisfação na testa suada, a boca torta numa demonstração de pura repugnância. E novamente as lágrimas resolvem se manifestarem, sem eu ter permitido. Elas apenas desabrochavam, seguindo pela linha d’água e caindo pela curva do rosto. Naturalmente.

Contou-se poucas semanas, e o meu estado ainda era lastimável. Minha mente estava absoluta e irrefutavelmente envolvida no negrume passado. Era insuportável; as memórias das minhas terríveis ações vindo à tona. Ações que, naquela fase, achava que me dariam algum lucro. E agora me encontro nesta lamentável condição. Contudo, não poderia ser sucumbido por completo, pois sou covarde até na morte. Desvencilho-me dos braços da escuridão, assim, tateando meus primeiros passos para a tão esperada luz.

Um ser que a muito já feri; um homem honrado acima de tudo e o então salvador de minha aura. As trevas que começavam a se esvair da marca em meu pulso, sendo diretamente sugada para a varinha daquele que eu solitariamente invejei. A Marca Negra ia desaparecendo aos poucos, até que não havia sequer resquício da cólera. Claramente, como se um espírito nefasto e mordaz estivesse sendo sorvido das entranhas de meu corpo para nunca mais habitá-lo.

Em todos esses anos, depois de tanto tempo, como pude deixar que aquela cegueira dominasse o meu ser? Aquele que eu fitava com asco e ódio, me devolvendo a benignidade, retirando a essência negra vítima de uma loucura da qual eu não tive escolha. Agora, eu vejo aquela aura farta, nívea como a mais pura neve, intensamente abrasadora, envolta de seu ser. Com as mãos sobre os joelhos, ele levantou-se demoradamente, estendendo sua pálida mão. Ao que pareceram séculos de um imenso fôlego, depositei meu agradecimento ainda envolto em imaturo orgulho naquele aperto de mão suave, recompondo meu ser e voltando com a postura. Meu corpo, visivelmente langoroso e esguio, passou a ser a atenção daquele homem. E pela primeira vez, eu pude ver de fato o meu sofrimento refletindo em seus tempestuosos olhos. Pude ver o que caminhos banhados em trevas fazem a uma pessoa. Uma imagem pungente, uma silhueta irreconhecível. Seus lábios se contorceram, soube pelo seu olhar baixo que a pena lhe contorcia por me ver naquele lamentável estado. Assim como me era abruptamente doloroso sentir aquele pesar. O arrependimento intrínseco. Jamais, em parte alguma desta vastidão, haverá tamanha benevolência e ternura, em um ser se não naquele perante a mim. Tragicamente, eu ter descoberto somente neste momento.

Ainda que a escuridão tenha se dissipado em minhas veias, o que resta é a mágoa no cerne de meu ser. E não há feitiço que cure as feridas de um passado ingrato.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!