The Evil Within
32 O som mais lindo

Taehyung andava de um lado para o outro pela sala, impaciente, o pé batendo no chão, demonstrando o quanto estava nervoso.
— Yoon! A gente vai se atrasar pra consulta! — chamou pela terceira vez, tentando manter a calma.
— Calma, Tae! Eu tô tentando achar uma roupa decente! — veio a resposta abafada lá do quarto.
Alguns minutos se passaram até Yoongi surgir na sala. Seus olhos estavam marejados, a respiração descompassada.
Taehyung correu até ele num impulso, já alarmado.
— O que foi, meu amor? — perguntou baixinho, tocando seu rosto com cuidado.
Yoongi engoliu em seco, apontando para a própria calça, mais precisamente para o zíper escancarado.
— Foi isso...
Taehyung olhou sem entender.
— Hã...?
— Que parte do "eu tô gordo" você não entendeu? — Yoongi desabou, começando a chorar de novo — Minha calça não fecha mais, Tae! Eu não tenho roupa nenhuma pra sair!
Sem dizer uma palavra, Taehyung o puxou para um abraço caloroso, envolvendo-o com carinho.
— Ei... calma, bebê. Suas calças são todas justinhas, é normal isso acontecer. — Ele limpou as lágrimas com os polegares, sorrindo com ternura. — Vem cá. Vou te emprestar uma roupa minha. Vai ficar larguinha, mais confortável... e não é bom pros nossos filhos usar roupa apertada, lembra?
Yoongi assentiu com um fungado.
— Tá bom, Tae... obrigado. — murmurou, ainda choroso.
De mãos dadas, os dois seguiram até o quarto. Taehyung abriu o guarda-roupa e separou com cuidado algumas peças: uma calça de moletom, uma camiseta macia e um casaco leve.
— Toma, amor. Não vão te apertar, e você vai ficar quentinho. — entregou as roupas com um sorriso gentil.
Yoongi começou a se despir lentamente, tirando a calça e a camiseta com movimentos preguiçosos e ficando apenas com a peça íntima.
Antes de vestir as novas roupas, aproximou-se de Taehyung em silêncio e o beijou com doçura.
Taehyung retribuiu o beijo, mas seu cérebro piscava com um lembrete em letras garrafais: consulta, consulta, consulta. Ainda assim, ele sabia… havia certos momentos que simplesmente não podiam ser apressados.
Viver com Yoongi grávido era como andar por um campo minado de emoções. Uma hora ele chorava copiosamente por não conseguir colocar uma calça, outra estava animado como se nada tivesse acontecido. E às vezes ele ficava provocante, com os olhos brilhando de desejo, pronto para tomar as rédeas. E quando isso acontecia, Taehyung se rendia.
— Yoon, eu sou completamente louco por você, mas… a gente vai se atrasar de verdade — tentou argumentar, já sem convicção.
Yoongi apenas colocou o dedo indicador sobre os lábios dele.
— Não fala nada, Tae. — sussurrou, empurrando-o com firmeza sobre a cama e subindo sobre seu corpo. Pressionou o quadril contra o dele, arrancando-lhe um suspiro.
— Tae, eu preciso de você. — disse entre um beijo quente e faminto. — Agora.
...
Claro que para saírem de casa era algo trabalhoso, tinham que avisar previamente, e só se fosse algo muito necessário. Namjoon tinha que acompanhá-los e Taehyung não podia sair sem máscara.
Namjoon já aguardava na sala, com uma expressão nada amigável.
— Vocês estão quinze minutos atrasados
— Acabamos nos atrapalhando um pouco — Disse Taehyung sem graça — Estávamos... é...
— Escolhendo uma roupa pra mim — Yoongi o interrompeu — Eu engordei e minhas roupas não me servem, por isso estou usando essas.
Namjoon notou as roupas largas que Yoongi usava.
— Ok, vamos, iremos chegar em cima da hora — Disse Namjoon.
...
Ao chegarem na clínica, Yoongi foi prontamente atendido e conduzido para uma sala reservada, onde começaria a se preparar para o ultrassom.
Taehyung ficou na sala de espera, inquieto. Sentado, mas incapaz de permanecer parado, balançava o pé incessantemente e roía as unhas com ansiedade. Suava frio, o coração disparado. Era como se estivesse prestes a entrar em uma montanha-russa emocional sem saber onde ela terminava.
Namjoon, que o observava de longe, se aproximou e sentou ao seu lado. Sem dizer nada no início, apenas estendeu a mão e segurou a de Taehyung com firmeza e calma.
— Ei… respira. Vai dar tudo certo. — disse com um sorriso calmo. — Eu sei exatamente como você está se sentindo.
Taehyung o olhou, surpreso.
— Sabe?
Namjoon assentiu.
— Sim. Fiquei exatamente assim no primeiro ultrassom do nosso filho.
Houve um breve silêncio, como se ele voltasse no tempo.
— Jin estava com as mãos frias, mas o olhar brilhava. Ele tinha dezoito anos, tinha acabado de entrar na faculdade de medicina. Eu tinha vinte, e achava que não ia dar conta de nada. Mas quando escutei os batimentos do Hobi pela primeira vez… tudo fez sentido. — Seus olhos se suavizaram com a lembrança. — Aquele serzinho minúsculo… já era tudo pra mim.
Taehyung sorriu, tocado pela história.
— Você tem uma família linda, senhor Namjoon.
Namjoon deu um riso baixo e orgulhoso.
— Sim… mas passamos por momentos difíceis também. Nada foi perfeito, mas valeu cada desafio. E o Hobi veio pra iluminar nossa vida.
Ele apertou a mão de Taehyung com mais força.
— Você também tem uma família linda, Taehyung. E sei que vai se sair muito bem. O jeito que olha pro Yoongi, o cuidado com cada detalhe… o amor de vocês é lindo.
As palavras o acalmaram como um cobertor quente num dia frio.
— Obrigado, Namjoon. — Taehyung sorriu, os olhos agora mais tranquilos.
Namjoon apenas assentiu, sorrindo de volta, nem parecia aquele delegado frio que todos temiam.
…
Não demorou muito até que a porta da sala de espera se abrisse e a enfermeira chamasse, com um sorriso gentil:
— Acompanhante do Yoongi?
Taehyung levantou tão rápido que quase derrubou a cadeira, o que arrancou uma risadinha divertida da enfermeira.
— Alguém está ansioso, — ela comentou, brincando.
Taehyung apenas sorriu nervoso e seguiu pelo corredor, o coração disparado.
Quando entrou na sala, o tempo pareceu desacelerar.
Yoongi estava deitado sobre a maca, com a blusa erguida e a barriga arredondada coberta por um gel brilhante. Seus olhos buscaram imediatamente pelos de Taehyung, e ele estendeu a mão com um sorriso suave.
— Vem cá, meu amor.
Taehyung se aproximou e segurou a mão dele com força, sentando-se ao lado, tentando disfarçar o nervosismo que deixava seus ombros tensos e as mãos suadas.
— Calma, Tae… é só um ultrassom, — Yoongi disse em tom baixo, tentando tranquilizá-lo, embora ele mesmo estivesse com os olhos marejados.
A médica, simpática e acolhedora, lançou um olhar carinhoso aos dois.
— Olá, papai coruja, — cumprimentou Taehyung com um sorriso afetuoso. — Pronto pra ouvir seus filhinhos?
— S-sim, doutora — Taehyung respondeu, com a voz embargada, quase sussurrando.
A médica começou a mover o transdutor sobre a barriga de Yoongi, os olhos atentos à tela, avaliando cuidadosamente.
— Vamos ver como estão esses dois pequenos…
A tela se preencheu com sombras e formas, e aos poucos, duas pequenas figuras começaram a se desenhar.
Yoongi segurou com mais força a mão de Taehyung, os olhos arregalados e brilhando de emoção.
— Eles são tão… tão pequenos — ele murmurou, a voz embargada.
Taehyung estava sem palavras. Seus olhos se enchiam de lágrimas a cada segundo. O peito apertado, como se todo o amor do mundo estivesse tentando sair de uma vez só.
— Está tudo bem com os fetos, — disse a médica com um sorriso tranquilo. — Estão se desenvolvendo muito bem, papais.
Ela ajustou o aparelho com delicadeza, deslizando o transdutor mais uma vez pela barriguinha de Yoongi.
— Querem ouvir os coraçõezinhos deles batendo? — perguntou com doçura.
— Sim, doutora! — responderam os dois em perfeita sincronia, as vozes embargadas pela expectativa.
A médica aumentou o volume do monitor.
E então, como uma canção mágica, o som preencheu a sala: tum-tum, tum-tum, tum-tum…
Dois corações. Dois ritmos. Duas vidas.
Era a melodia mais linda que já haviam ouvido em toda a existência.
Taehyung desabou. As lágrimas vieram como um rio, sem aviso e sem vergonha. Cobriu o rosto por um instante, emocionado, mas logo sentiu a mão de Yoongi apertando a sua.
— Yoon… — ele balbuciou entre lágrimas. — São nossos bebês… nossos.
— Sim, Tae. Eles são nossos. — Yoongi respondeu com um sorriso cheio de amor, os olhos brilhando de orgulho e ternura.
Taehyung levou a mão até a barriga de Yoongi, como se quisesse abraçar os quatro ao mesmo tempo.
— Prometo que vou cuidar de vocês. Que serei o melhor pai… e o melhor marido do mundo. — sussurrou, e então se inclinou para deixar um beijo suave na testa de Yoongi.
— Você já é, Tae. — Yoongi respondeu com a voz embargada, sorrindo com os olhos. — Eu te amo.
— Eu também te amo, Yoon.
A médica continuava em silêncio, observando a cena com um sorriso largo no rosto. Era impossível não se comover.
— Me desculpe, doutora… — Taehyung disse com um risinho sem graça, tentando conter as lágrimas.
— Não se desculpe, de jeito nenhum, — ela respondeu carinhosamente. — Vocês são um casal lindo. E, sem dúvida, vão ser pais incríveis.
Os dois se olharam, tímidos e apaixonados, os olhos ainda brilhando de emoção.
Ali, naquela pequena sala de exames, duas vidas batiam dentro de Yoongi. E o amor que os cercava era tão real, tão forte, que parecia ter coração próprio.
...
… Um mês depois …
Yoongi já estava entrando na décima terceira semana de gestação, o quarto mês começava a dar as caras. Sua barriga, antes discreta, agora estava visivelmente redondinha, e ele a exibia com orgulho, embora dissesse o contrário.
Como quase nenhuma de suas roupas servia mais, vivia vestindo as peças largas de Taehyung, moletons gigantes, camisetas que viravam vestidos e calças de moletom que escorregavam do quadril. E ele estava perfeitamente confortável assim.
Os enjoos matinais já não eram mais tão frequentes, o que era um alívio. No entanto, os desejos por comidas absurdas — como bolacha salgada com melancia ou feijão com leite condensado — ainda vinham com força.
Yoongi, sem perceber, estava mais bonito do que nunca. A pele brilhava, o cabelo estava sedoso e os olhos tinham um brilho sereno e maternal. Taehyung o observava todos os dias como se estivesse apaixonado pela primeira vez.
Mesmo quando Yoongi resmungava:
— Tô gordo… e feio.
Taehyung apenas sorria e respondia, firme:
— Você está mais lindo do que nunca.
Depois de uma sessão de milhões de beijinhos, Taehyung o puxou nos braços com cuidado e o levantou do sofá.
— Tae! — Yoongi ria, tentando disfarçar o riso entre resmungos — Isso faz cócegas!
— O meu bebê tem cócegas? — Taehyung perguntou com uma voz fininha e boba, fazendo biquinho como se falasse com uma criança.
Os dois riam, trocando carinhos e olhares apaixonados, tão imersos um no outro que esqueceram completamente que não estavam sozinhos.
Da cozinha, Hye Sung surgiu com uma colher de pau na mão e uma expressão teatralmente enjoada.
— Pelo amor de Deus. Eu vou vomitar. Vocês são muito pegajosos!
— Sogra! — Yoongi escondeu o rosto no pescoço de Taehyung, envergonhado e rindo ao mesmo tempo. — Estamos só matando a saudade.
— Vocês estão “matando a saudade” há mais de dois meses, — ela respondeu, rindo — Tae, deixa o Yoon vir jantar. Meus netos em primeiro lugar. Depois vocês podem continuar esse namoro de novela.
Taehyung riu alto e soltou Yoongi com cuidado no chão, beijando sua bochecha uma última vez.
…
Depois do jantar, Yoongi insistiu em lavar a louça, mesmo com Taehyung e Hye Sung tentando de tudo para impedi-lo. Mas teimar com Yoongi era perder tempo.
— Estou grávido, não doente, — ele disse, como sempre, batendo o pano de prato na mão com um olhar desafiador. Coitado de quem tentasse contestar.
Taehyung acabou rindo e se afastando, levantando as mãos em rendição. Já havia aprendido que, quando Yoongi decidia algo, era bom não contrariar.
Mais tarde, naquela noite tranquila, os dois estavam deitados na cama, envoltos por um abraço aconchegante. A janela do quarto estava aberta, deixando uma brisa suave passear pelos lençóis. O céu estrelado parecia observá-los em silêncio, cúmplice daquele amor tão puro e delicado.
— Yoon... semana que vem vamos saber o sexo dos nossos bebês, — Taehyung disse com um selinho calmo, quase tímido.
— Já vou levar lencinhos, — Yoongi riu, aconchegando-se mais ainda nos braços dele.
— Por quê? — Taehyung fez uma carinha confusa.
— Porque você chora em todas as consultas, — Yoongi respondeu com uma voz divertida, cheia de carinho.
— Desculpa... é que eu não consigo segurar, — Taehyung passou o nariz no pescoço de Yoongi.
— Não se desculpe, amor, — Yoongi respondeu com os olhos brilhando — Eu amo ver você chorando pelos nossos bebês. Você fica tão fofinho todo emocionado.
— Sério mesmo? — Taehyung sorriu bobo, distribuindo beijos nos cabelos e na testa de Yoongi.
Que sorte a deles que não havia nenhum diabético naquela casa, porque entre sorrisos, beijos e carinhos, aquele quarto estava adoçado até o teto.
E, no fundo, o que mais brilhava naquela noite não eram as estrelas, era o amor deles, tão forte e tranquilo quanto o céu lá fora.
...
Cada vez mais, Jimin sentia fome por conhecimento, por palavras, por entender o mundo com os próprios olhos. Aprender a ler e escrever com Jungkook havia sido mágico, mas agora ele queria mais. Muito mais.
Percebendo esse brilho nos olhos de Jimin, Jungkook decidiu dar o próximo passo. Com a indicação de um conhecido, contratou um professor particular. Ou melhor, uma professora.
Convencer Jimin não foi fácil. Ele ainda se assustava com novidades, mas com jeitinho, Jungkook o convenceu. Marcaram um primeiro encontro apenas para se conhecerem, nada de cadernos ou lições. Só conversa.
Na manhã do encontro, Jungkook preparou sanduíches e suco de laranja. Queria tornar tudo leve, acolhedor. Jimin, por outro lado, andava de um lado para o outro, inquieto, como se fosse receber um rei em casa. Ajeitou a blusa pela terceira vez e alisou os cabelos com a palma da mão.
Quando a campainha tocou, ele paralisou. Jungkook foi atender.
Jimin ficou espiando do corredor e prendeu a respiração quando a porta se abriu. Sua mente havia desenhado a figura de um senhor de idade, com barba branca e livros debaixo do braço. Mas a realidade era bem diferente.
Na porta estava uma jovem pequena e magra, com longos cabelos escuros e um cachecol que cobria metade do rosto. Os óculos de grau emolduravam olhos curiosos e tímidos. Ela parecia tão nervosa quanto ele.
E foi nesse exato instante que Jimin percebeu algo reconfortante: talvez aprender com ela fosse menos assustador do que imaginava.
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